Os homens sempre sentiram a necessidade de se comunicar, falando uns com os
outros sobre si mesmos, sobre os acontecimentos, sobre o mundo, sobre tudo
afinal. Bem depressa, ao lado dessa comunicação oral, nasceu uma
"literatura", uma comunicação mais elaborada. Eram hinos e poemas que
falavam sobre os acontecimentos do passado, sobre os deuses, sobre os costumes
e as tradições. Eram textos nascidos nas reuniões da comunidade, textos feitos
para serem declamados. Textos que continuavam a ser repetidos de cor, muito
depois que já se tinha esquecido o nome dos seus autores.
Hoje em dia, a Bíblia é para nós principalmente um livro. Não podemos, porém,
esquecer que grande parte da Sagrada Escritura, antes de ser um livro escrito,
foi uma série de poemas e narrativas que eram repetidas de cor nas assembléias
do povo. Abra sua Bíblia na profecias de Jeremias. A nossa primeira impressão é
que o profeta escreveu tudo antes ou logo depois de ter falado. Mas não foi
assim. O profeta falou e só vinte e dois anos depois é que suas profecias foram
escritas.
Justamente para facilitar o
trabalho da memória e ajudar a transmissão falada é que a maioria dos textos
eram compostos numa forma ritmada e num estilo cheio de paralelismos e repetições,
rimas e provérbios.
Hoje em dia a base da nossa
instrução é o aprendizado da leitura e da arte de escrever. Antigamente a
instrução, a cultura baseava-se na memória, na repetição das tradições que
deviam ser fielmente conservadas. Houve, porém, um momento em que a comunicação
devia ser feita para pessoas ausentes, ou então, era preciso fixar de algum
modo os textos, seja para ajudar a memória, seja para dar maior valor ao
documento. Foi assim que a humanidade, numa época que já não podemos determinar
com precisão, começou a recorrer à escrita.
Inicialmente, as palavras e as idéias eram representadas por desenhos que
reproduziam a imagem dos objetos ou o símbolo das idéias. Essa primeira forma
de escrita chamava-se "ideográfica", isto é: desenho da idéia. Aos
poucos os desenhos começaram a representar os sons que formam as palavras. Nasceu
assim a escrita "fonográfica": o desenho dos sons. Só muito mais
tarde surgiram os desenhos que, de modo semelhante às nossas letras atuais,
formavam a transcrição das palavras.
Quando os judeus ainda estavam
vivendo no Egito, a escrita já era muito usada. Já fazia bem uns 1500 anos que
os egípcios conheciam a arte de escrever. Sabemos, pela própria Bíblia, que
antes dela já existiam alguns "livros Encontramos, por exemplo,
referências ao "Livro das guerras de Javé", ao "Livro do Justo.
Pelas descobertas da Arqueologia (ciência que estuda as antigas civilizações),
sabemos que já existiam alguns escritos bíblicos mil ou até dois mil anos antes
de Cristo. Mas não vamos esquecer que esses textos eram parciais. Eram antes um
auxílio para a memória, e não propriamente livros como os nossos, destinados a
estar nas mãos de todo o mundo.
Os livros antigos não eram tão práticos como os nossos nem estavam ao alcance
de todos. Eram coleções de placas de metal, de madeira, de argila, de cascas de
árvore ou de folhas. Com o tempo, passaram a ser feitos com o papiro ou o
pergaminho. O papiro era uma espécie de papel primitivo, feito com o caule da
planta chamada papiro. O pergaminho era feito com pele de animais,
principalmente carneiros e cabras, cuidadosamente preparada. As
"folhas" de papiro ou de pergaminho eram emendadas, formando longas
tiras de até 50 metros
de comprimento, enroladas para facilitar o manuseio. Outras vezes, as folhas
eram costuradas, formando um "caderno".
E não vamos esquecer que, antes da
invenção da imprensa, os livros eram trabalhosamente copiados à mão, um por um.
Isso aumentava muito o seu custo. Eram poucos os que se podiam dar ao luxo de
possuir uns poucos livros.
Devido a tudo isso é que a cultura antiga não estava, como a nossa, baseada na
palavra escrita. Os conhecimentos eram transmitidos principalmente através dos
mestres, dos poetas e dos cantores, que recitavam de aldeia em aldeia os
antigos poemas sobre os heróis e sobre os deuses. Temos de ter isso em mente
quando começamos a folhear a nossa Bíblia.
História do Antigo Testamento
Abrindo a Bíblia, notamos logo as
duas divisões principais que a caracterizam: Antigo Testamento e Novo Testamento.
A palavra testamento quer ser a tradução de uma palavra grega: "diatéke,
que podia tanto significar "testamento como contrato" ou
"aliança". Na linguagem dos judeus, que viviam entre gregos, essa
palavra "diatéke significava a aliança, o contrato pelo qual Deus se uniu
a seu povo escolhido. Sendo assim, "Antigo Testamento" é a primeira
parte do plano de Deus para a salvação da humanidade, a história da aliança
feita com o povo judeu. Novo Testamento" é a história da aliança
definitiva entre Deus e toda a humanidade, aliança que renova e leva à
perfeição a primeira aliança feita com um povo.
O Antigo Testamento engloba os
livros da Bíblia do tempo dos judeus até o tempo de Jesus. Os judeus dividiam a
Bíblia em três partes: A LEI, OS
PROFETAS, OS ESCRITOS.
A primeira parte, A LEI, era
chamada "Torah". É composta pelos cinco primeiros livros: GÊNESIS, ÊXODO,
LEVÍTICO, NÚMEROS E DEUTERONÔMlO. Essa parte é também chamada de
"Pentateuco", o que quer dizer: "Os cinco livros. Contém as leis
dadas por Deus e narrativas que apresentam as circunstâncias históricas da
manifestação do plano de Deus para a salvação. Essa primeira parte ainda continua
em nossa atual divisão do Antigo Testamento.
As outras divisões atuais são: LIVROS HISTÓRICOS, LIVROS SAPIENCIAIS, LIVROS
DOS PROFETAS. Por enquanto não importa explicar mais detalhadamente o conteúdo
desses livros.
Mais uma vez usamos a expressão
"livros da Bíblia. A Bíblia não foi escrita como um dos nossos livros
atuais, divididos em capítulos, escritos segundo um plano previamente
estabelecido. Foi surgindo aos poucos, através dos séculos, e é obra de muitos
autores. Sendo assim, chamamos "livros" as principais unidades que
formam a Bíblia. Mal comparando, poderíamos dizer que a Bíblia é uma
biblioteca, uma coleção de vários livros que formam um só conjunto.
Aliás, seria bom perguntar: de onde vem esse nome "Bíblia? Esse nome é
simplesmente a adaptação de uma palavra da língua grega: "Biblos",
que significava "papiro", "livro. A Bíblia é, pois, "O
LIVRO", o primeiro, o mais importante de todos.
E também já é tempo de perguntar:
"Como surgiu o Antigo Testamento?. Para responder, precisamos ver antes
alguma coisa da história do povo que escreveu essa parte da Bíblia. Vamos
traçar uma história bem reduzida de muitos séculos.
A)O Povo Judeu
Percorrendo o Antigo Testamento,
podemos ter a impressão de estarmos diante de uma "História do Povo Judeu.
Isso é verdade, contanto que não interpretemos mal a palavra "
História", que hoje em dia, para nós, significa um relato exato do que
aconteceu, com as datas e os lugares exatos. Se alguém tentasse interpretar
assim a Bíblia, iria procurar, por exemplo, estabelecer datas exatas para a
criação do mundo, o dilúvio, o nascimento de Abraão, a saída da escravidão do
Egito. Isso não seria possível, porque a Bíblia não está interessada na data
exata dos fatos. Está interessada é em nos fazer compreender o sentido dos
acontecimentos, como eles se encaixam no plano que Deus formou para a nossa
salvação.
É por isso que o nome de pessoas e
de lugares servem principalmente para caracterizar as pessoas e ressaltar a
importância dos acontecimentos. E não para dizer que esses eram realmente os
nomes das pessoas e dos lugares. O mesmo se pode dizer das datas, da duração
dos períodos e das épocas. Diante, por exemplo, da afirmação: "O mundo foi
criado em sete dias" ou "Os judeus andaram 40 anos pelo
deserto", o que nós devemos perguntar é qual é o significado dos sete dias
da criação e dos quarenta anos no deserto.
Mas, por outro lado, é interessante notar que as descobertas modernas sobre a
vida dos povos que antigamente viviam naquela região confirmam plenamente as
indicações da Bíblia sobre antigos costumes e tradições. Confirmam também
muitas indicações sobre lugares e acontecimentos.
A maior parte dessas descobertas aconteceram por acaso. Foi assim que, em 1928,
um lavrador estava arando, quando, de repente, seu arado encontrou uma pedra de
sepultura. Um outro, em 1933, estava cavando uma sepultura e encontrou uma
estátua antiga. Isso levou à descoberta de antigas cidades, com suas casas que
sobraram de civilizações desaparecidas há muito tempo. Pouco a pouco a ciência
arqueológica (ciência das antigüidades) vai-nos ajudando a ter um conhecimento
bastante grande do passado. Ainda não sabemos as surpresas que o futuro nos
reserva nesse campo.
Houve tempo em que muitos cientistas consideravam simples lendas todas as
informações sobre os primeiros tempos do povo judeu. Principalmente o que a
Bíblia conta sobre os patriarcas, os primeiros antepassados do povo. Atualmente
a situação já é bastante diferente. A história bíblica dos patriarcas combina
perfeitamente com as informações que atualmente temos sobre o passado. Se
tivesse sido inventada apenas uns mil anos antes de Cristo, teria sido praticamente
impossível imaginar costumes que correspondessem realmente a costumes de 800 ou
900 anos antes. A única explicação razoável é que os judeus, como todos os
povos antigos, conservavam fielmente as lembranças do passado que formavam a
sua "história familiar. Justamente porque eram tradições familiares é que
a "história dos patriarcas" pouco se preocupa com os fatos da
história geral. É antes uma seqüência de pequenos fatos do começo da
família".
No Deuteronômio (26,5-10), encontramos um resumo da história dos patriarcas.
Quando os judeus apresentavam a Deus os primeiros frutos de suas colheitas,
deviam rezar assim: "Meu pai era um arameu (homem da região de Aram) que
estava a ponto de morrer. Desceu para o Egito com um punhado de gente. Foi
viver como estrangeiro naquela terra, mas tornou-se ali um povo grande, forte e
numeroso. Os egípcios começaram a nos perseguir e nos oprimiam com uma pesada
escravidão. Gritamos então pelo Senhor, o Deus de nossos pais. Ele ouviu o
nosso grito e viu a nossa aflição, a nossa miséria, a nossa angústia. O Senhor
tirou-nos do Egito (...) e nos trouxe para esta terra onde correm o leite e o
mel".
O povo judeu entrou para a história 1300 anos antes de Cristo, quando estava
vivendo ainda no Egito. E povo se reconhecia como descendente de Abraão, que
tinha nascido mais para o oriente e durante algum tempo tinha vivido na região
de Aram. Os judeus já estavam no Egito mais ou menos desde o ano 1700 a .C. (a.C.= antes de
Cristo). Isso quer dizer que Abraão viveu lá pelo ano 1800 a .C. Seus descendentes,
Isaac, Jacó e seus filhos, levavam uma vida semi-nômade, de um lado para o
outro, até que os dois irmãos se fixaram no norte do Egito.
Não sabemos praticamente nada da sua história durante os 400 anos seguintes.
Até lá por 1250 a .C.,
quando, guiados por Moisés, saíram do Egito. Durante vários anos, 40 mais ou
menos, tiveram no deserto a experiência religiosa da manifestação de Deus. A
partir de 1200 a .C.,
começaram a se apossar da Palestina, a região entre o Mediterrâneo e o Jordão.
Durante todo esse tempo, o povo judeu conservava cuidadosamente as tradições do
passado em seus cantos, poemas, salmos e narrativas. Conhecia o Deus
verdadeiro, tinha consciência de ser o povo por ele escolhido. Conservava suas
leis e os ensinamentos religiosos eram passados de pais para filhos. Mas não
apenas conservavam a religião do passado. Iam crescendo em sua vida religiosa,
com altos e baixos, tempos de maior ou de menor fidelidade à aliança
estabelecida com Deus. Continuamente eram ajudados e orientados por Javé, que
lhes enviava homens providenciais. Podemos admitir que já por essa época muitas
tradições não se transmitiam apenas oralmente, muita coisa já estaria sendo
posta por escrito.
Finalmente, lá pelo ano 1000
a .C., o povo já estava estabilizado na Palestina, tinha
deixado de ser um povo nômade. Começou, então, a época dos grandes reis. Com
isso, elevou-se também a cultura do povo e a literatura entrou numa fase
decisiva.
B) Começa a surgir a Bíblia
Pelos fins do décimo século a.C.,
começam a ser escritas as narrativas sobre Davi e Salomão, as primeiras partes
dos livros que agora em
nossa Bíblia se chamam 1º e 2º Livros de Samuel, e o começo
do Livro dos Reis. Por esse mesmo tempo é escrita a história do passado mais
próximo, as narrativas que encontramos nos Livros de Josué e dos Juízes.
Quando a realeza já estava mais
organizada, começaram a se formar os "Arquivos de Estado", que conservavam
a documentação para os escritores do futuro. Só no século seguinte começaram a
ser escritas as tradições mais antigas sobre os patriarcas Abraão, lsaac e
Jacó, a história da saída do Egito, os acontecimentos do deserto. Começou assim
a formação dos livros que agora chamamos de Gênesis, Êxodo, Números.
A partir do ano 800 a .C.,
temos a época dos profetas, dos grandes homens enviados por Deus para orientar
o povo, para ajudá-lo a compreender os planos divinos. As Mensagens dos
profetas foram em parte escritas por eles mesmos, em parte por seus discípulos.
Formou-se assim a coleção dos profetas, essa parte da Bíblia que é uma das mais
ricas e sedutoras.
Uns cento e poucos anos depois, entre 700 e 600 a .C., já estavam por
escrito os acontecimentos relativos à conquista da Palestina e o que aconteceu
até o fim da realeza. São partes dos Livros de Josué, dos Juízes, de Samuel e
dos Reis. Nesse mesmo tempo, começou a ser posto por escrito o Livro do
Deuteronômio, que é uma reapresentação meditada da Lei Divina.
Apesar de todos os avisos dos Profetas, o povo não manteve fidelidade a Deus. O
grande castigo chegou em 587 a .C.,
quando Jerusalém foi destruída e o povo quase todo foi levado para o cativeiro
na Babilônia. Durante esse tempo de sofrimento, renasceu o espírito religioso
dos judeus. Começaram a refletir sobre tudo quanto Deus tinha feito por eles.
Surgem assim as partes do Antigo Testamento que se referem principalmente ao
culto, ao serviço divino no templo, à organização no templo, à organização da
comunidade religiosa voltada para Deus.
Quando o povo pôde voltar para a pátria, começou o último tempo na história da
formação do Antigo Testamento. Os livros do passado foram reunidos, retocados,
completados. Surgiram em sua forma definitiva os cinco primeiros livros
Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. Foram escritos os livros que
chamamos de "Sapienciais" Provérbios, Jó, Eclesiastes, Cântico dos
Cânticos, Eclesiástico. Esses Livros Sapienciais são o fruto de uma reflexão
que procurava levar à "sabedoria da vida", à compreensão dos planos
de Deus.
Um pouco mais tarde surgiram os Livros das Crônicas, de Tobias, de Ester, de
Judite. E com isso já estamos a apenas uns 300 ou 200 anos antes do nascimento
de Jesus. OS judeus, que antes já tinham tido tantas dificuldades com os
poderosos povos do oriente, tinham agora de enfrentar a influência dos gregos,
depois das conquistas de Alexandre Magno. Mais ou menos 100 anos a.C. foram
escritos os dois Livros dos Macabeus, que retratam essa época tão difícil para
a fé do povo judeu. Desse mesmo tempo é o Livro de Daniel, colocado entre os
livros dos profetas e Sabedoria.
Pois bem. Depois dessa rápida passagem através dos séculos, podemos perceber
como a Bíblia do Antigo Testamento foi surgindo aos poucos, foi sendo
completada e retocada. Não podemos imaginar que tenha começado com a composição
do Gênesis e tenha sido escrita na mesma ordem que encontramos em nossa Bíblia atual.
Sua história é muito mais rica e mostra de forma grandiosa a ajuda que Deus foi
dando ao povo escolhido. Nessa longa história do nascimento da Bíblia, aparece
mais claramente o poder de Deus. Muito mais claramente do que se Deus tivesse
"ditado" a Bíblia para Moisés e os outros autores.
Uma última observação: Nem tudo ainda é inteiramente certo nessa história que
apresentamos resumidamente. Nem sempre os especialistas estão de acordo e não
podemos aqui discutir todos os pormenores. Interessa-nos apenas uma visão geral
e aproximativa.
História do Novo Testamento
Primeiro, a comunidade
Em torno de Jesus tinha-se reunido
a comunidade dos que tinham acreditado nele. Depois da ressurreição, depois que
tinham sido iluminados pelo Espírito Santo, os discípulos começaram a viver e a
propagar a mensagem cristã. Eles aceitavam as Escrituras Sagradas que tinham
recebido da tradição judaica. Já agora, porém, iluminados pelo Espírito Santo e
assistidos continuamente pelo Cristo, liam as Escrituras sob uma nova luz.
Temos uma imagem clara dessa situação nova na passagem de Lucas (24,13-32), que
nos conta a aparição de Jesus aos dois discípulos que iam a caminho de Emaús.
Iam, naquele domingo da ressurreição, conversando sobre os últimos
acontecimentos. Tinham ficado desorientados com a morte de Jesus e já não
sabiam o que pensar. Disse-lhes, então, Jesus (vers. 25): "Como vocês
demoram a entender e a crer em tudo o que os profetas disseram... Começou, então,
a explicar todas as passagens das Escrituras Sagradas que falavam dele,
começando com os livros de Moisés e os escritos de todos os profetas".
Aliás, o apóstolo Paulo (2Cor 3,14) diz que somente a aceitação de Jesus pela
fé nos abre os olhos para uma exata compreensão do Antigo Testamento.
Pois bem. A comunidade cristã, a Igreja, vivia e anunciava a salvação pela fé em Jesus. Sua preocupação
era conservar fielmente a mensagem recebida e dar um testemunho sobre os fatos
presenciados pelos apóstolos e discípulos. É o que transparece nas palavras de
Paulo (1Cor 15,3):
"O que eu recebi e entreguei a vocês é o mais importante: que o Cristo
morreu pelos nossos pecados, como está escrito nas Escrituras Sagradas; que ele
foi sepultado e que ressuscitou no terceiro dia como está escrito nas
Escrituras; e que apareceu a Pedro e depois aos doze apóstolos..."
A primeira preocupação da comunidade não foi escrever um livro. Foi viver e
transmitir uma vida. Isso não diminui o valor das Escrituras, da Igreja.
Ajuda-nos, porém, a perceber como surgiram e como têm sua compreensão ligada à
compreensão da própria vida da Igreja.
A Comunidade recebe as Escrituras
do Novo Testamento
Inicialmente, pois, a comunidade não tinha o "Antigo e o Novo
Testamentos".
Tinha a "Lei" e os "Profetas" e os Escritos. E tinha as
palavras de Jesus, sua vida e seus atos. Vamos ver, brevemente, como surgiu o
Novo Testamento.
Se abrimos agora uma edição do Novo Testamento, encontramos quatro divisões
mais importantes: Evangelho, Atos dos Apóstolos, Epístolas, Apocalipse. É bom
sabermos logo que aconteceu também aqui o que já tinha acontecido com o Antigo
Testamento: os livros ou as partes não estão colocados na ordem em que foram
escritos. A ordem atual levou em conta a importância das partes e também as vantagens
práticas de uma sistematização.
São estes os livros, ou as partes, que encontramos em o Novo Testamento:
1º) Evangelhos: de Mateus, de Marcos, de Lucas, de João.
2º) Atos dos Apóstolos.
3º) Epístolas: Em primeiro lugar, as cartas de Paulo aos Romanos, aos
Coríntios, aos Gálatas, aos Efésios, aos Filipenses, aos Colossenses, aos
Tessalonicenses, a Timóteo, a Tito, a Filêmon. Depois, a carta aos Hebreus, as
cartas de Tiago, de Pedro, de João e de Judas.
4º) O Apocalipse de João.
Talvez você não imagine, mas a parte mais antiga do Novo Testamento são as duas
cartas de Paulo aos Tessalonicenses, isto é: aos cristãos da comunidade de
Tessalônica, uma cidade da Grécia. No capítulo 17(1-10) dos Atos dos Apóstolos,
podemos ler a história das primeiras conversões nessa cidade. Paulo esteve em
Tessalônica lá pelos meados do ano 5O d.C.(depois de Cristo), quando estava
fazendo a sua segunda viagem missionária. Em 51, ele mandou sua primeira carta;
a segunda é de 52 ou 53.
Com essas duas cartas, começou a formação do Novo Testamento: as comunidades
começaram a colecionar e a trocar entre si os escritos dos apóstolos.
Pelos anos de 54 ou 55, foi escrita a carta para a igreja de Filipos. Entre 57
e 58, surgiram as duas cartas para a comunidade de Corinto e para a dos
Gálatas. Possivelmente quando estava preso em Roma, entre 61 e 63, é que Paulo
escreveu as cartas para os cristãos de Colossos e de Éfeso. Durante esse mesmo
tempo teria escrito a pequena carta a Filêmon, um cristão cujo escravo tinha
fugido e fora convertido pelo apóstolo. As duas cartas a Timóteo e a carta
mandada para Tito, se foram escritas por Paulo, então devem ter sido enviadas
entre 64 e 67.
A seguir, temos as cartas de Pedro, de Tiago e a Epístola aos Hebreus e a de
Judas. Foram escritas, o mais tardar, nos decênios finais do primeiro século.
Não podemos ter certeza completa sobre seus autores.
O primeiro evangelho a ser escrito foi provavelmente o de Marcos, antes ainda
da destruição de Jerusalém, acontecida no ano de 70. Segundo a opinião de
vários especialistas, o evangelho de Marcos foi precedido por uma primeira
redação do evangelho de Mateus, feita em aramaico.Redação essa que depois foi
reelaborada, dando origem à nossa atual edição grega. Não podemos saber exatamente
quando isso aconteceu.
Nem podemos saber com certeza quando foi escrito o evangelho de Lucas. Alguns
acham que foi escrito antes do ano 70; outros preferem dizer que os evangelhos
de Lucas e Mateus (o atual) surgiram lá pelo ano 80.
Esses três evangelhos são bastante semelhantes entre si, apresentando quase os
mesmos fatos, quase na mesma ordem. Por isso são chamados de Evangelhos
Sinóticos, isso porque poderiam ser colocados lado a lado para serem lidos ao
mesmo tempo.
Os Atos dos Apóstolos, que narram os primeiros tempos da Igreja, dando um
realce maior às pessoas de Pedro e de Paulo, são como que uma continuação do
Evangelho de Lucas. Possivelmente esse livro foi escrito lá pelo ano 80.
Como a parte mais recente do Novo Testamento, temos finalmente o evangelho, as
cartas e o Apocalipse de João. Até algum tempo atrás havia escritores que
atrasavam até o século segundo o aparecimento desses livros. Atualmente, há um
certo acordo que marca o aparecimento desses escritos entre os anos 90 e 100.
Nem seria preciso repetir. Esta apresentação é apenas inicial e sumária. É só
através de um estudo mais cuidadoso e demorado de cada livro que poderíamos
examinar as perguntas sobre o seu autor e a data de seu aparecimento. De
momento, o importante é apenas situar no tempo o aparecimento da Bíblia.
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