As
Escrituras atestam a existência de seres espirituais que habitam a esfera
celestial, e que são meios através das quais Deus opera no mundo material.
É extraordinária
a busca que sempre ocorreu em todo o curso da história humana por seres que
servem como ponte entre o sagrado e o profano. Hoje esta busca se intensifica
por conta do progresso científico e da crise que assola a humanidade: o homem
procura Deus nos anjos, sem dúvida alguma uma das mais belas de Suas criaturas.
Porém, enchem a angelologia de abusos e desrespeitam o que as Escrituras
afirmam sobre a disciplina.
A
igreja em geral nem imagina a importância destes seres que são usados por Deus
"para ministrar em favor daqueles que herdaram a vida eterna". A
Escritura nos garante que um dia, será removido de nossos olhos "o véu de
separação" entre o visível e o invisível. Então, a partir daí, poderemos
ver e conhecer em toda a plenitude a atuação que os anjos nos dedicaram (I
Cor.13.12).
A
crença em tais mensageiros é de caráter universal! filósofos, poetas,
historiadores, teólogos, etc. freqüentemente falaram no ministério dos anjos.
Este
trabalho não tem como objetivo provar a existência dos anjos, pois a Escritura
descreve-os como seres reais, como algo patente e definido, queremos apresentar
o que cremos com base na Bíblia Sagrada acerca desta doutrina denominada
angelologia. Esta existência supracitada como fator real, não é desconhecida no
meio protestante, todos afirmam que ela é indiscutível. Mas a mesma não sofre
um conhecimento que vise abranger a realidade bíblica, em contrapartida os
movimentos esotéricos e a própria sociedade tem produzido uma angelologia
estranha a Escritura. Devido ao não conhecimento desta doutrina, os fiéis
sofrem sem qualquer resistência aos assédios destas idéias lançadas por estes
movimentos.
É
necessário deixarmos os preconceitos forjados contra este assunto, pelo fato
destes seres não serem visíveis e palpáveis. Quem despreza essa doutrina,
objeto revelado das Sagradas Escrituras, despreza não somente a veracidade das
mesmas, mas a própria Palavra de Deus e quem assim o faz, rejeita o próprio Cristo.
Somos
herdeiros de uma cultura materialista e desiludida, que questiona a existência
de anjos; por outro lado, não faltam aqueles que criam uma angelologia estranha
à Escritura. Karl Rahner escreveu que os anjos “não são concorrentes de Deus, mas suas criaturas”.[1] Quem
são, então, os anjos? E em que se baseia
a nossa crença em sua existência? Quando professamos o credo
Niceno-Constantinopolitano, vemos que somos herdeiros de uma fé que remonta à
Cristo e a os apóstolos: “Creio em Deus...Criador do céu e da terra; de todas
as coisas visíveis e invisíveis”.[2] Obviamente,
entre as realidades invisíveis criadas por
Deus, contam-se os anjos.
OS
ANJOS ESTAVAM ESQUECIDOS?
Para a
maioria dos cristãos, os anjos não passam de seres misteriosos que estão bem
distantes de nós e alheios ao que ocorre em nossas vidas. Outros, por
ignorância, pensam que o fato de se fazer um ritual de oração irá garantir o
auxílio destes seres. Vale salientar que a falta de informações corretas sobre os anjos deve-se a má
formação cristã de muitos, como também ao desconhecimento da verdadeira
doutrina bíblica acerca dos anjos. Sobre isto Bruce Milne faz o seguinte
comentário:
Ao
contrário de seu passado, os cristãos de hoje praticamente ignoram os anjos de
Deus. O anti-sobrenaturalismo moderno, a percepção dos perigos da curiosidade
nesta área e o temor de introduzir mediadores entre Deus e os homens, além de
Cristo, se combinaram para constranger-nos. Essa reserva não é também
inteiramente contrária à Bíblia. Tanto o Antigo quanto o Novo Testamento
relutam em dar proeminência a esses servos celestiais do Senhor, mesmo porque
seria uma proeminência indevida. Mas o crescente interesse nos agentes
espirituais negativos, demoníacos e outros, e o fascínio popular pelas várias
fantasias de ficção científica devem levar o cristão a meditar às vezes sobre
os “milhares e milhares de anjos”, esses abençoados e radiosos cidadãos das
hostes celestiais que, entre outras coisas se ocupam de nossos interesses
(Hb.1.14; 12.22).[3]
Estes
ensinos errôneos herdados dão ao cristão a falsa impressão de que ele já sabe o
bastante sobre os anjos, e assim sendo, anulam o desejo de conhecer o assunto
em sua essência verdadeira. As idéias preestabelecidas pelas tradições anulam o
desejo de adquirir um conhecimento genuíno sobre tal matéria.
Sobre
este assunto duas ameaças defrontam a igreja contemporânea. Ela pode ignorar
virtualmente este ensino, como acontece em grande parte dos escritos teológicos
modernos, ou pelo contrário, dar-lhe demasiada ênfase, particularmente em
relação aos agentes demoníacos. Ser um cristão bíblico não significa apenas
crer em tudo que a Bíblia ensina. Precisamos a cada dia buscar dentro da
teologia várias instruções para ter um equilíbrio escritural. Devemos temer
buscar interpretar um texto fora de seu contexto e fugir das demais regras
hermenêuticas. Precisamos adotar uma linha de interpretação.
O
equilíbrio das Escrituras deve ser igualmente determinativo em nossas
considerações sobre os anjos perversos. Devemos levar a sério a luta com os
poderes do mal, como fizeram nosso Senhor e seus apóstolos, mas esta dimensão
não é abrangente no Novo Testamento, nem deve ser em nossos pensamentos. Precisamos
ter em mente que o foco do Novo
Testamento é Jesus Cristo e não Satanás e seus demônios. E, o que para muitos é
absurdo, os anjos perversos também são criaturas de Deus, existindo por causa
dEle, e finalmente servindo aos Seus propósitos.
Devido
à falta deste conhecimento sadio sobre
os anjos, os cristãos nem imaginam a grandeza
do ministério destes seres
extraordinários que Deus por sua misericórdia colocou em nosso auxílio.
Os anjos existem, eles são ministros de Deus e estão ao Seu serviço. Mas não
deve-se exagerar quando tratamos da presença destes seres entre nós, nem da
importância que eles têm, pois Deus sustenta e guia Suas criaturas em geral, e
Seus filhos em particular, diretamente pela operação do Espírito Santo, com os
anjos ou sem eles. O cristão que tem as Escrituras Sagradas como única regra de
fé e prática crê na existência dos anjos. Crê também que o propósito do Criador
para estes seres espirituais sempre se cumpriu e se cumprirá. O verdadeiro
cristão nunca vai além da escritura, ele vê com temor e tremor a angelologia de
hoje, cheia dos excessos cometidos
dentro e fora das igrejas, pois a recomendação bíblica é que “ainda que um anjo
do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja
anátema” (Gl.1.8).
OS
ANJOS ESTÃO VOLTANDO!
Até
algumas décadas atrás este tema era considerado irrelevante, desacreditado por
muitas pessoas. Estava fora até dos círculos de discussões teológicas. Hoje
torna-se presente e é assumido como uma realidade. Observamos que o mundo não
têm perguntado aos teólogos sobre os anjos. Este assunto tem sido tratado por
pessoas que não possuem autoridade. Será que aqueles que afirmam conhecer tão
bem o mundo angelical possuem habilidades e conhecimento sadio sobre os anjos?
Eles podem inferir valor naquilo que não conhecem?
Esta
expressão, “Os Anjos Estão Voltando!” é vista como mais um modismo da indústria
esotérica, que explora a crendice alheia ressuscitando velhas superstições.
Desde
os anos sessenta um fenômeno hoje conhecido como “onda mística” vem crescendo.
Primeiro como um movimento de contra-cultura, que contesta os valores
materialistas estabelecidos pelo sistema, e depois como uma busca pelo
verdadeiro significado da existência humana. Influenciado pelas filosofias e religiões orientais este movimento cresceu
e envolveu o mundo.
É
necessário analisarmos melhor a época em que estamos vivendo e considerarmos a
presença dos anjos dentro do conturbado contexto social. O que significa a
redescoberta destes seres espirituais presentes a milênios na tradição
religiosa de diversos povos? Por que a crença foi renovada?
A SOCIEDADE SECULARIZADA EM BUSCA DO SAGRADO
As
crises sociais fazem parte do processo histórico e evolutivo de todas as
civilizações. Todos os grandes impérios do passado tiveram seu momento de
apogeu e glória, para depois caírem inexoravelmente diante de crises internas e
externas que os levaram à derrocada. Entretanto, no passado, tais crises
duravam séculos e atingiam civilizações isoladas, enquanto povos vizinhos
alcançavam por sua vez a prosperidade.
Em
nossos dias a situação é semelhante: assistimos perplexos o rápido crescimento
de uma crise de dimensões globais, que não só abala todas as instituições
criadas pelos homens, como também a nossa própria capacidade de revertê-la.
Vivemos em uma enorme crise com rumores de guerra, que é a mais abrangente, mais profunda, mais
rápida e diferente de todas as outras. Ela não se processa no desenrolar dos
séculos, mas a cada dia, tornando-se cada vez maior e mais complexa, sem nos
dar tempo sequer de montar uma estratégia para combatê-la.
Os
governos e cientistas de todo o mundo sentem-se impotentes diante do grave
problema planetário que coloca em risco a sobrevivência e a qualidade de vida
da humanidade. Por toda a parte presenciamos a ameaça e o caos social, guerras
internas e externas e o avanço da fome e da violência. Diante desta crise surge
o misticismo, que tem adquirido a função de compensador, ou seja, ele vem compensar
o indivíduo dos desgastes da vida social, isto é, fazer o que a sociedade
secularizada não pode produzir. É um mecanismo pela qual a humanidade joga os
problemas para o Céu, esperando receber uma resposta direta por meio de anjos.
O misticismo de hoje busca nos anjos a figura de protetores em um mundo que nos
torna cada vez mais desprotegidos e inseguros. Certos críticos como Paola
Giovetti consideram este fenômeno como conseqüência da própria crise. As
pessoas desesperadas com os tempos caóticos que estamos vivendo, buscam
soluções de fuga, que sejam milagrosas, substituindo a descrença nas
instituições, nos governos e até na própria ciência, pela magia e ajuda de
seres espirituais.
Neste
final de milênio a importância dos anjos está alcançando novas dimensões, e
estes seres estão presentes em quase todas as religiões. Estão nos livros, nas
revistas, nos jornais, nas publicações especiais, nos programas de televisão,
vídeos, e até no sistema de consultas pelo serviço 0900. Segundo a revista
"Ultimato" existem pessoas que trabalham como porta-vozes, pregadores
e ministros dos anjos, o artigo diz o seguinte:
Adriana Feres,
economista, católica de formação, afirma que se comunica com os anjos há mais de 20 anos. Ela reside na capital
paulista, onde atua como pregadora e ministradora em nome dos anjos. Ela afirma
já ter assistido a mais de 2.500 pessoas. Além de atender aqueles que a procuram,
Adriana atende também a domicílio. Todas as terças-feiras ela se dedica a uma
clientela seleta, composta por empresários, que recebe a ministração em suas
casas. As ministrações – que ela chama de “terapia angelical” – são feitas à
base de recitação de Salmos e da invocação dos anjos para a limpeza espiritual
do ambiente. Nessas sessões, Adriana
recebe mensagens dos anjos, que ela transmite às pessoas atendidas. E os
resultados? A empresária Cassilda Silveira Camargo afirma ter sido curada de um
tumor na medula, através da ajuda de
Adriana Feres. A empresária Maria Cristina Pereira de Almeida é outra
pessoa que afirma ter sido ajudada por Adriana. Ela diz que após descobrir que tinha mieloma múltiplo, um
tipo de tumor na medula, encontrou auxílio na ministração de Adriana. E dá o
seguinte depoimento: “Com a ajuda de Adriana e dos anjos consegui cuidar mais
de mim e perceber que Deus não tinha me abandonado” .[4]
Outra
paulista que alcançou enorme sucesso e fama com os anjos é a empresária Mônica
Buonfiglio. Em 1992 ela lançou o livro Anjos
Cabalísticos que teve uma grande repercussão nacional, tornou-se um grande
sucesso editorial e ocupou, durante meses, o primeiro lugar na lista dos livros
mais vendidos no Brasil. Em seguida a empresária escreveu mais dois livros
sobre o mesmo assunto, A Magia dos Anjos
Cabalísticos e Tarô dos Anjos. Os
livros de Mônica Buonfiglio chegaram a vender naquele ano a impressionante
marca de três mil exemplares por dia. O seu sucesso editorial não poderia
deixar de impulsionar o seu sucesso empresarial. Até setembro de 1994, a sua empresa Oficina Cultural Esotérica já contava
com doze franquias.
Nas
livrarias e nas bancas de revistas estão à venda mais de sessenta títulos de
livros e publicações sobre os anjos. Só a editora esotérica Pensamento tem doze títulos nas
livrarias. Um de seus títulos é escrito por uma protestante da Igreja Presbiteriana
do Canadá, que assim se expressa: "Eu
não tinha encontrado respostas para essas questões nos ensinamentos da escola
dominical, nos sermões ou nos serviços da Igreja Presbiteriana do Canadá".[5] Diante
de tanto interesse por anjos, a Editora Três lançou uma coleção de vinte
fascículos semanais com o título: "Anjos, Tudo o que você queria
saber".* Foi um sucesso!
OS
ANJOS E OS OVNIS
Muito
corrente em nossos dias é a conclusão a que muitos chegaram por conta da
pesquisa de ufólogos, os anjos são ovnis. Estas pessoas usam certas passagens
bíblicas dos livros de Isaías, Ezequiel, Zacarias e Apocalipse para estabelecer
paralelos com as supostas aparições de ovnis. Mas qualquer tentativa para relacionar
estas passagens com os ovnis não passa de mera especulação. Todavia, o que é
interessante, é que tais teorias são alvo de atenção séria, e muitos até
encaram estes fenômenos como aparições de anjos caídos. É comum ouvirmos da
boca de alguns cristãos a afirmação de que os alienígenas são os demônios.
O que
torna mais lamentável ainda é que este discurso não é apenas proferido pela
massa sem conhecimento teológico mas por líderes eclesiásticos que deveriam por
obrigação ter um mínimo de discernimento.
CONCEITOS
POPULARES ACERCA DOS ANJOS
Devido à
ignorância de alguns cristãos quanto ao ensino bíblico acerca dos anjos, não é
de se estranhar que conceitos falsos sobre anjos tenham surgido e tenham tanta
credibilidade em nossos dias. Entre estas crenças errôneas encontramos: que os
anjos são seres humanos que já morreram, ou seja, que nós nos tornamos anjos
quando morremos; que Satanás é um anjo caído tão poderoso quanto Deus e tem a
sua sede no inferno, local onde comanda todas as suas hostes; que cada ser
humano vive acompanhado por dois anjos, um eleito que o guia para fazer o bem,
e um caído que o induz para fazer o mal;
e ainda, que simplesmente pelo fato de serem anjos, todos são dignos de
nossa confiança.
A
posição protestante clássica está refletida na resposta à pergunta dezesseis do
Catecismo Maior de Westminster que nos diz o seguinte: “Deus criou todos os anjos, como espíritos imortais, santos, excelentes
em conhecimento, grandes em poder, para executar os seus mandamentos e louvarem
o seu nome, todavia sujeitos a mudança”. [6]
Segundo
o catecismo, os anjos realizaram um ministério extraordinário na revelação
especial de Deus, quando serviram de mediadores das mensagens divinas, quando
comunicaram bênçãos ao povo de Deus e quando executaram juízo sobre os inimigos
de Deus e de Seu povo.
Vários
livros já foram publicados no Brasil sobre a angelologia. Um dos pioneiros a
escrever sobre o assunto foi Ebenézer Soares Ferreira, cujo livro,
“Angelologia” foi editado em 1966. Algum tempo depois, com muito sucesso, foi
lançado o livro de Billy Graham, “Anjos Agentes Secretos de Deus “. Na
atualidade, muitos livros têm contribuído para esclarecer sobre este assunto.
Outros, infelizmente têm exagerado, considerando os anjos como deuses ou
semideuses.
O
exagero tem saltado das páginas dos livros para os templos. Sobre este assunto
a revista “Ultimato” afirma:
Na
periferia de uma grande cidade, o pastor de uma igreja evangélica faz invocação os anjos no início dos cultos. Ele
ordena que os anjos, com espadas desembainhadas, fumegantes, se postem nas
portas e nas janelas do templo para impedir a entrada dos dardos inflamados do
maligno. Ele aponta para as portas e para cada janela, dando ordem para os
anjos. Depois, sob a proteção da milícia celestial os atos do culto prosseguem.
Outro pastor, além de não concordar com a atitude do seu colega, coloca-se em
uma posição oposta. Ele afirma que os anjos nasceram na mente dos hebreus, quando estes
substituíam o politeísmo pelo monoteísmo. Sem saber o que fazer com a multidão
de deuses e semideuses que povoavam as suas mentes, resolveram transformá-los
em anjos, ministros do Deus único.[7]
Estes
dois pastores representam posições extremas, que não expressam o pensamento do
protestantismo histórico. Na história
cristã a preocupação com anjos sempre oscilou em extremos. Na Idade
Média os concílios se reuniam e havia tamanha preocupação com os anjos que se
tentava elaborar uma teologia para definir quantos deles cabiam na cabeça de
uma agulha. As vezes buscavam definir o sexo dos anjos, se comiam e se
produziam excremento ou não. No período do Iluminismo, no apogeu da Razão, o
assunto foi relegado a uma diminuição meramente especulativa, e deixou-se de
acreditar em anjos, pois os seres humanos enxergaram-se como os únicos seres
inteligentes do universo. Agora, com o fim de milênio, acontece um novo avivamento
no assunto, o interesse pelos anjos está novamente em alta.
Capítulo
1
Todas
as religiões reconhecem a existência de um mundo espiritual. Suas mitologias
falam de deuses, semideuses, espíritos, demônios, gênios, heróis e assim por
diante. Segundo Louis Berkhof “muitos críticos especialistas afirmam que
os hebreus derivam a sua angelologia dos persas”.[8] Mas
esta teoria não foi comprovada e, para dizer o mínimo, é muito duvidosa.
LEVANTAMENTO
HISTÓRICO DA ANGELOLOGIA PRÉ-CRISTÃ.
Uma
tomada panorâmica, ainda que rápida, efetuada ao longo dos séculos e das mais
antigas civilizações, certifica-nos de um fato: por toda parte notam-se
vestígios da crença em seres intermediários entre a(s) divindade(s) e os homens.
Os anjos andam de mãos dadas em todo o curso da história com a raça humana,
suas aparições nos deixaram profundas marcas, a presença destes seres
espirituais tem sido reconhecida em quase todas as religiões. Sobre este assunto
o Dr. William Cook faz o seguinte comentário:
Realmente,
quase todos os sistemas de religião, antigos
ou modernos, encontramos estes
seres; nos aeons dos gnósticos, nos demônios, nos semideuses, nos gênios e nos
lares, que aparecem tão extensamente nas teogonias, nos poemas e na literatura
geral dos antigos pagãos, encontramos evidências abundantes da crença quase
universal da existência de seres
espirituais inteligentes, que ocupam diferentes ordens entre o homem e o seu
Criador. Aqui, entretanto, geralmente encontramos a verdade envolta na ficção e
os fatos distorcidos pela louca fantasia da mitologia. A doutrina dos pagãos,
em relação aos seres espirituais, poderia ser assim resumidas: Eles crêem que
as almas dos heróis falecidos e dos homens bons foram exaltados a uma posição
de dignidade e felicidade, eram chamados demônios e supostamente serviam de
mediadores entre a divindade suprema e o homem. Havia, entretanto, uma outra
categoria de demônios, que supostamente nunca habitaram um corpo mortal, e
estes dividiam-se em duas categorias: Os bons que eram os guardiões dos homens
bons e os maus, que se dizia invejarem a felicidade dos humanos, tentando
impedir suas virtudes e provocar sua ruína. Nestas noções vemos um substrato da
verdade, mas, nas escrituras, temos a verdade em sua pureza original, livre das
corrupções da superstição e das imagens licenciosas dos poetas, e a sua verdade
fica mais majestosa em sua simplicidade.[9]
Para os
povos primitivos, todas as manifestações da natureza correspondiam a um
espírito que pode ser benéfico e maléfico, conforme os efeitos decorrentes
destes fenômenos. Ao pé das nascentes e dos montes, junto a certos sítios
animais ou árvores, adeja um espírito que é preciso propiciar.
No
Antigo Egito, prestava-se culto a uma multidão de espíritos inferiores às
divindades, que abrilhantavam suas cortes. Na Mesopotâmia, um número
incalculável de espíritos tinha características nitidamente pessoais e exercia
um influxo não raro definitivo sobre os destinos humanos. Dois milênios antes de Cristo, na Pérsia,
antes e depois da reforma de Zaratustra, era vívida a crença em seres
intermediários, bons e maus. Fica portanto claro: desde as eras primordiais, à
convicção da existência de seres pessoais inferiores à divindade e superiores
aos homens tem sido praticamente universal.
ANGELOLOGIA
MESOPOTÂMICA
A
Mesopotâmia é uma estreita faixa de terra situada na Ásia Ocidental, e
durante muito tempo foi
o centro do mundo antigo,
importante passagem entre o Golfo Pérsico e o Mar Mediterrâneo. Sempre
esteve exposta à infiltração de nômades do deserto, montanheses rudes e povos
indo-europeus. Sua história é uma sucessão de guerras, invasões, massacres e de
dominações diferentes. Sucederam-se no domínio da “terra entre rios” sumérios,
acádios, amorritas, cassítas, assírios, hititas e caldeus.
Os
povos mesopotâmicos destacaram-se por
sua religiosidade, alem de seus deuses, era uma crença comum a existência de
gênios tutelares, bons e maus que exerciam grande influência nos acontecimentos
humanos. Os touros alados chamados de "karibu" eram os gênios bons,
guardiões da morada dos deuses e dos reis. Para impedir a ação dos gênios maus,
os mesopotâmicos praticavam vários esconjuros, de quem temos uma reminiscência
no livro apócrifo de Tobias.
Dentre
os povos citados, três são de enorme valor, o primeiro deles são os sumérios,
um povo de origem desconhecida, que ocupou o sul do vale no início do terceiro
milênio antes de Cristo. Eram pacíficos, e desempenharam um relevante papel no
desenvolvimento das civilizações mesopotâmicas, possuíam um sistema de escrita
chamado “cuneiforme”, fundaram em suas cidades bibliotecas e escolas. Os
sumérios possuíam três importantes cidades na qual uma delas tem um grande
valor para o desenrolar da história
bíblica, são elas: Ur, Uruk e Lagash. A mais importante de todas foi Ur, cidade
que em sua época era um grande centro mercantil, opulenta e orgulhosa, com seu
poderio econômico foi de onde saiu o patriarca dos hebreus Abraão.
O
progresso das cidades sumerianas foi interrompido pelas invasões de tribos
seminômades, procedentes do deserto da Síria,
entre as quais destaca-se a dos acádios. Os acádios eram semitas que
estabeleceram-se ao norte da Caldéia, fundaram importantes cidades como: Agadê, Sippar e mais tarde a poderosíssima
Babilônia.
Os
sumerianos eram politeístas e não acreditavam em recompensas após a morte.
Visavam apenas obter, através da religião, dádivas materiais imediatas.
Acreditavam em um deus chamado
Marduk que, segundo a lenda, depois de lutar contra os deuses invejosos, criou
o mundo e o homem do barro com o sangue do dragão. Conheciam um mito sobre o
dilúvio, que teria sido mandado pelos deuses para castigar a humanidade.
Gilgamesh, orientado por Marduk, salvou-se, recolhendo-se numa arca com a sua
família. Criam em gênios, que eram os mensageiros dos deuses e os ajudavam a
defenderem-se dos demônios, divindades perversas, contra as enfermidades e a
morte, acreditavam ainda em heróis, adivinhações e magia.
Seus
deuses eram numerosos com qualidades e defeitos, sentimentos e paixões,
imortais, despóticos e sanguinários. Eram eles: Anu, deus do céu; Enlil, deusa
do ar; Ea, deusa das águas; Sin, deusa da lua; Shamash, deus do sol e da
justiça; Istar, deusa da guerra e do amor. Os sacerdotes se esforçavam para
agrupar os deuses em tríades (famílias).
Cada divindade era uma força da natureza e
dono de uma cidade. Marduk, deus da Babilônia; era considerado o cabeça
de todos, tornou-se deus do Império durante o reinado de Hamurabi I (1792 – 1750 a .C.), foi substituído
por Assur durante o domínio assírio na Babilônia mas voltou ao seu posto com
Nabucodonosor.
O
terceiro povo, os hititas, acreditavam que seu deus possuíam dois assistentes,
Sukkallu, seu mensageiro e Guzalû, mensageiro que conduzia o seu trono.
Sukkallu é mencionado como uma espécie de marechal ou policial em um documento
mesopotâmico, e o Guzalû como um oficial da corte em escritos cuneiformes
desenterrados em Chagar
Bazar.
Gaster, um orientalista especialista em história
comparada das religiões, aplica o método de sua especialização para explicar a
angelologia bíblica. Segundo ele, a concepção bíblica dos anjos como
mensageiros celestes deriva-se das mais antigas religiões pagãs do Oriente. Ele
assegura que a maior parte das histórias a respeito de anjos pertence ao
repertório folclórico popular. Conforme ele, na Bíblia, no lugar desses seres
espirituais como gênios, demônios e fadas etc., são colocados os anjos. Os
anjos são, por conseguinte, simples versão hebraica destes heróis mitológicos
do folclore universal. Ele faz o seguinte comentário:
O
deus hitita Hasmilis com uma nuvem despistou os inimigos, no mar vermelho um
anjo interpôs uma nuvem a fim de esconder os hebreus dos egípcios. O deus
supremo da Mesopotâmia mandava uma guarda de segurança proteger seus devotos,
Jacó possuía um anjo especial que o guardava e o protegia.[10]
ANGELOLOGIA
EGÍPCIA
O Egito
é uma estreita faixa de terra fértil que
se estende ao longo das margens do Nilo
ao nordeste da África, entre o mar Mediterrâneo, o Sudão, o mar Vermelho e o
deserto da Líbia. Seu clima é seco. As chuvas são escassas e sua fertilidade
deve-se ao Nilo.
Na
pré-história, a região do alto Egito ostentava densas florestas, onde abundavam
os animais de caça. Os grupos humanos, que aí se estabeleceram, certamente de
varias etnias, ainda hoje pouco definidas, dedicavam-se à caça e praticavam o
totemismo como sistema de definição dos vários grupos e de promoção dos
casamentos exogâmicos.
O povo
egípcio pertencia ao ramo Mediterrâneo do grupo caucásico e na sua formação
entraram elementos negróides, líbios e semitas. Eram pacíficos, trabalhadores,
pacientes, e segundo Herodoto eram: “O povo
mais religioso do mundo.”[11] Cultuavam
um ser supremo, como senhor dos animais e uma multidão de espíritos
intermediários. Com o tempo, vindo a rarear a caça e tornando-se imperiosa a
vida sedentária, com a domesticação de animais e o cultivo das margens férteis do rio Nilo, o
ser supremo foi associado a uma entidade agrícola, como a mãe-terra e os
totens, por sua vez, passaram a distinguir, não só os vários grupos humanos mas
também as entidades protetores dos territórios em que estavam estabelecidos. Em
princípio, estes totens eram colocados acima das estátuas destas entidades
protetoras, mas, durante a segunda dinastia, começaram a aparecer as
estátuas híbridas, com corpo de homem e
cabeça de animal, que caracterizam o politeísmo egípcio.
Tudo
para o egípcio era divino, o próprio humano julgava-se possuir algo de divino.
O Kha, o que lhe permite a identificação com Osíris e o acesso à felicidade
eterna dos deuses. Ele criam que os
deuses possuíam, família, servos e grandes mansões.
Os
egípcios acreditavam que o ser humano se compunha do corpo e de dois outros
elementos: o Ba, representado por um pássaro sem cabeça e o Ka, espécie de
gênio protetor que nascia com o homem e acompanhava-o durante toda a sua vida e
cuidava dele após a morte.
O Egito
era uma terra de muitos deuses. Visto que as divindades locais eram a base da
religião, os deuses egípcios tornaram-se extremamente numerosos. Deuses da
natureza eram comumente representados por animais e pássaros. Eventualmente,
divindades cósmicas personificadas por forças da natureza foram elevadas acima
dos deuses locais, passando a ser teoricamente reputadas como divindades
nacionais. Estas divindades tornaram-se tão numerosas que chegaram a ser
agrupadas em famílias.
Os
templos, igualmente, eram numerosos e espalhados por todo Egito. Com a provisão
de um lar ou templo para cada deus, surgiu o sacerdócio, as oferendas, as
festividades, os ritos e as cerimônias de adoração. Em troca destas
acomodações, o povo considerava que seus deuses eram seus benfeitores. A
fertilidade do solo e dos animais, a vitória ou a derrota, as inundações do
vale do Nilo, enfim, todos os fatos que afetam o bem estar da vida do povo,
eram atribuídos a alguma divindade.
A
proeminência nacional atribuída a qualquer deus em particular era intimamente
relacionada à política. O deus-falcão, Horus, subiu à categoria de deus local
para a de deus oficial de império quando o rei Menés estava no poder e uniu o baixo ao alto Egito.
No entanto, quando a quinta dinastia subiu ao poder, ele patrocinou o deus-sol
de Heliopólis, Ré, como o cabeça do panteão egípcio. A maior aproximação de um
deus nacional no Egito foi o reconhecimento dado a Amon, durante os reinos
médio e novo. Os magníficos templos de Carnaque, Luxor, nas vizinhanças de
Tebas, até hoje dão testemunho do patrocínio real conferido a uma divindade.
Muito tempo depois, durante o reinado da décima oitava dinastia, o culto a
Amon, com o seu sacerdócio tebano, tornou-se tão forte que o desafio faraônico
contra o seu poder foi esmagado com sucesso, quando da morte de Aquenaton. A
despeito da proeminência das divindades nacionais, em ocasião alguma elas foram
adoradas com exclusividade por toda massa egípcia. Para um aldeão egípcio, a
divindade local era a que se revestia de toda a importância, fosse ela em
figura humana (antropomorfismo), figura animal (zoomorfismo), corpo humano, ou
cabeça de animal (antropozoomorfismo). Os principais deuses eram: Amon-Rá,
Osíris, Ísis, Horus, Ptah, Thot e Anúbis.
Os
egípcios acreditavam na vida após a morte, para eles, o registro sem mácula
neste mundo daria ao indivíduo o direito à imortalidade. Isto justifica os
sepultamentos reais, nas pirâmides e túmulos, onde foram encontrados
depositadas provisões adequadas para outra existência, como alimentos, bebidas
e outros luxos da vida. Nos primeiros tempos, até mesmo os servos eram mortos e
postos ao lado do cadáver do seu senhor. À semelhança de Osíris, que era
símbolo divino da imortalidade, os mortos egípcios eram julgados perante um
tribunal do submundo composto de quarenta e dois deuses e por ele chefiado. A
alma, depois de fazer a sua defesa através do “Livro dos Mortos”, deveria
declarar-se inocente dos quarenta e dois pecados e confirmar as suas virtudes.
Depois, seu coração, símbolo da consciência, era pesado numa balança por
Anúbis. Se fosse inocente, iria viver eternamente em bosques com pássaros
canoros e lagos cheios de lotos e gansos.
É
difícil, praticamente impossível apontar denominadores comuns na religião do
Egito ao longo de quase três mil anos de desenvolvimento. A religião vai desde
o politeísmo grosseiro até um monoteísmo solar. A tolerância extrema que havia
na religião egípcia explica a interminável adição e reconhecimento de tão
numerosos deuses; nenhum deles foi jamais eliminado. Visto que os estudiosos
modernos acham difícil fazer uma análise lógica dos múltiplos elementos desconexos
dessa religião, é de duvidar que qualquer egípcio nato pudesse fazê-lo. A
confusão é o resultado de toda tentativa em correlacionar o exército de
divindades com os seus respectivos cultos e ritos. Também não podem ser
relacionados as hostes de mitos e crendices.
Um mito
bastante conhecido tinha a ver com o rio que sustentava toda a vida naquele
país. O deus Osíris foi assassinado e retalhado por Set, seu irmão, em seguida
seu corpo foi espalhado por seus
mensageiros em todo o Egito. Ísis sua
irmã e esposa, auxiliada por Horus, Thot e Anubis, recolheu os pedaços do corpo
do seu marido e os colou. A única parte de Osíris que não conseguiram achar foi
seus testículos, pois fora colocado nas profundezas do Nilo por Set. Este mito
simboliza a fertilidade, a regressão das
águas no outono e a volta com inundações na primavera.
Havia
também culto aos animais, que serviam para representar seus deuses, estes
animais eram: o gato, o crocodilo, o chacal, o escaravelho e o boi Ápis que vivia em uma capela em Mênfis e era
servido por sacerdotes e quando morria era embalsamado.
O fato
do sol se esconder todas as tardes e reaparecer no dia seguinte, bem como o
Nilo crescer e recolher-se ao leito, levou os egípcios a desenvolver o culto
aos mortos.
Em
alguns textos fúnebres no Egito fala-se de uma escada entre o céu e a terra.
Escadas em miniaturas eram colocadas nos túmulos do Egito a fim de facilitar a
ascensão da alma ao céu.
Era
conhecido também o correio celeste entre os deuses através de mensageiros mencionado
na famosa “Carta Satírica” egípcia de Hare que foi escrita aproximadamente no
século 13 a.C. na qual ocorre o termo
com uma palavra de origem semítica.
ANGELOLOGIA
CANANITA
O nome
Canaã se aplica às terras que ficam entre Gaza, no sul e Hemate, no norte, ao
longo das costas do Mediterrâneo. Os gregos, em seu intercâmbio com Canaã,
durante o primeiro milênio a.C., chamavam seus habitantes de fenícios, nome
esse que provavelmente teve origem no termo grego que significa “púrpura”, a
cor carmesim de um corante de têxteis produzido em Canaã. Desde o século
XV a.C., o nome Canaã vinha sendo aplicado, de modo geral, à província egípcia
da Síria, ou, pelo menos às costas fenícias, o centro da indústria de púrpura.
Consequentemente, as palavras cananeu e fenício têm a mesma origem cultural,
geográfica e histórica. Mais tarde, essa área veio a ser conhecida como Síria e
Palestina. A designação Palestina teve sua origem no nome Filístia.
Com a
migração de Abraão para Canaã, essa terra se tornou o centro das atenções nos
desenvolvimentos históricos e geográficos dos tempos bíblicos. Estando
estrategicamente localizada entre os dois grandes centros que abrigavam as mais
antigas civilizações, Canaã servia de ponte natural que ligava o Egito a
Mesopotâmia. Em resultado disso, não é de surpreender que fosse mista a
população da região. Cidades de Canaã, como Jericó, Dotã e outras, já vinham
sendo ocupadas desde séculos antes dos tempos patriarcais. Devido ao primeiro
grande movimento semita dos amorreus para a Mesopotâmia, parece provável que os
amorreus lançaram povoados por toda palestina.
Durante
o reino médio, os egípcios estenderam seus interesses políticos e comerciais
tanto para o norte como para a Síria. Não menos importante entre os invasores
era os hititas, que penetraram em Canaã vindos do norte e que figuravam como
cidadãos bem estabelecidos quando Abraão adquiriu a caverna de Macpela (Gn.
23). Os refains, um povo até recentemente obscuro, exceto quanto às referências
bíblicas, foram a pouco identificados na literatura ugarítica. Pouco se sabe
acerca de outros habitantes que figuram na narrativa de Gênesis. A designação
cananeu provavelmente abarcava a confusa mescla de povos que ocupavam a região
na era dos patriarcas.
A
religião de Canaã era politeísta. El era reputado como principal divindade
cananeia. Simbolizado como um touro entre um rebanho de vacas, o povo se
referia a ele como “pai touro”, considerando-o criador. Assira era a esposa de
El. Nos dias de Elias, Jezabel patrocinava a quatrocentos profetas de Assira (
1o Rs 18.19). O rei Manassés erigiu a imagem dela no templo de
Jerusalém (2a Rs 21.7). O primeiro dentre os setenta deuses e deusas
que eram tidos como proles de El e Assira era Hadade, mais conhecido pelo nome
de Baal, que quer dizer senhor. Como monarca reinante dos deuses, ele
controlava os céus e a terra. Por ser deus da chuva e da tempestade, ele era o
responsável pela vegetação e pela fertilidade. Anate, a deusa amante da guerra
era sua irmã e consorte. No século IX a.C. , Astarte, deusa da estrela vespertina,
era adorada como sua esposa. Mote, deus da morte, era o principal adversário de
Baal. Ion, deus do mar foi derrotado por Baal. Esses e muitos outros deuses são
os primeiros a figurar no catálogo do panteão cananeu.
Visto
que as divindades cananéias não tinham caráter moral, não é de surpreender que
a moralidade daquele povo fosse extremamente baixa. A brutalidade e imoralidade
que se destacam nas narrativas sobre estes deuses é algo muito pior que
qualquer outra coisa vista no Oriente. E, posto que isso se refletia na sociedade
cananéia. Os cananeus, nos dias de Josué, praticavam sacrifícios de crianças,
a prostituição sagrada e adoração á serpente como parte de seus ritos e
cerimônias religiosas.
Conforme
Gaster, as divindades semitas também tinham mensageiros a seu serviço:
A deusa-mãe
dos hititas era
assessorada por dois
grupos de fadas, boas e más.
As boas eram enviadas
para assistir às
famílias benquistas pela deusa, deviam proteger as plantações, cuidar
dos vestidos e ornamentos femininos e arranjar-lhes casamentos. As más eram
enviadas às famílias malquistas pela deusa, deviam deixar solteiras suas
mulheres, excitar contendas e discórdias, “de modo que quebrem a cabeça”. No
antigo testamento também há anjos que são mandados para o bem e outros que são
enviados para castigar e punir. Nos textos ugarísticos de Ras Shamrá, os
estafetas celestes eram enviados em pares, pois assim se acontecesse um
acidente, um não ficaria sozinho na estrada. Em Gênesis 19.1 os anjos viajam em
pares pelas estradas de Sodoma.[12]
ANGELOLOGIA
BABILÔNICA
Em
616 a.C. Nabopolassar pôs os
assírios em fuga para
o norte, ao
longo do rio Eufrates, até Harã, retornando com lucrativos despojos,
antes que o exército assírio pudesse
desfechar em contra-ataque. Isso levou a
Assíria a aliar-se ao Egito, que fora libertado do domínio assírio por Psamético
I em 645 a .C.
Após
repetidos assaltos contra a Assíria, caiu a cidade de Assur diante dos medos comandado por Ciaxares, em
614 a.C. O resultado dos esforços babilônicos por ajudar os medos, nesta
conquista, foi a aliança medo-babilônica, confirmada através de matrimônio. Na primavera de 605 a.C, Nabopolassar enviou Nabucodonosor, o
príncipe herdeiro, com o exército babilônico para cuidar da ameaça egípcia no alto do rio Eufrates . Ele marchou diretamente e com determinação
para Carquemis, cidade que os egípcios dominavam desde 609 a.C., quando
Neco subira em auxílio às forças assírias. Os egípcios foram
decisivamente derrotados em
Carquemis. Nabucodonosor passou a controlar
a Síria e a Palestina, fato que teve um efeito decisivo sobre Judá.
Nabucodonosor instalou-se em Ribla onde montou seu quartel general. Joaquim,
rei de Judá, que fora vassalo de Neco, agora
tornara-se sujeito a Nabucodonosor. Judá foi levada cativa, e seu
templo, orgulho nacional, foi saqueado, seus jovens e artífices apanhados e
deportados para Babilônia (Dn.1.1) no primeiro desterro, a supremacia
babilônica se consuma sobre Judá quando pela segunda vez, em 597 a.C. Nabucodonosor
leva o resto do despojo e nomeia Zedequias rei em Jerusalém.
Em 588 a
.C. Zedequias se rebela contra Babilônia, daí começa o desfecho, a destruição
final de Jerusalém. Desnuda de sua população por força do exílio, a capital de
Judá foi abandonada em ruínas .A glória
do reino Babilônico começou a dissipar-se depois da morte de Nabucodonosor , em
562 a .C.
Sendo hábil construtor, ele fez da cidade de
Babilônia a mais poderosa fortaleza do mundo, adornada de esplendores e
belezas jamais ultrapassados.
Após a
sua morte, Evil-Merodaque , também conhecido como Avel-Marduque, governou
somente por dois anos sobre o império que herdou de seu pai. Seu
nome nos trás uma idéia da religião babilônica.
Merodaque
é mencionado na Bíblia somente em Jeremias 50.2. Observamos que neste texto o
nome Merodaque é paralelo à palavra bel,
transliteração do atributo acadiano de Marduque, “Senhor”. Fora esta menção em
Jeremias 50.2, o nome de Merodaque aparece na Bíblia apenas em nomes pessoais,
tais como: Merodaque-Baladã (Marduk-apal-idenn), Evil-Merodaque (Awel-Maruduk)
e Mordecai.
É
desconhecida a origem do nome Merodaque, embora várias etimologias tenham sido
sugeridas. Em sumério a forma de seu nome é dAMAR-UD, e nos mais
antigos registros silábicos (babilônio antigo) o nome é marutuk (ma-ru-tu-uk).
A tradução seria “O bezerro/ filho de Utu (o deus–sol).” Mas, Jacobson nos dá outra possibilidade:
"O nome significa “filho da
tempestade”, pois a idéia que os textos apresentam de Merodaque é mais de um
deus da tempestade, chuva, raios e trovões do que de um deus-sol."[13]
Em
acadiano a forma do nome é mar(u)duk(u). É interessante a
vocalização do seu nome em hebraico, merodak (na LXX é Merodaque).
Alguns estudiosos são da opinião de que existe uma semelhança deliberada com ,adonay,
“meu Senhor”. O mais provável é que seja uma vocalização eufemística,
assemelhando a palavra com meborak, “maldito”.
Geralmente
se diz que Merodaque foi exaltado à sua posição de supremacia no panteão
babilônico quando Hamurabi fez de Babilônia a capital política do sul da
Mesopotâmia (XVII a.C.), embora fosse
conhecido como um deus de menor importância já no terceiro milênio a.C. É,
contudo, bem defensível a idéia de que somente no reinado de Nabucodonosor I
(1.100 a.C.), Merodaque realmente se tornou o “rei dos deuses”. Merodaque era
filho de Enki (Ea) e de Eridu, o deus da sabedoria e patrono das artes mágicas.
O próprio pai de Merodaque foi pai de Nabu, o qual, próximo do fim do período
neobabilônico (séc. VI a.C.), suplantou o pai em popularidade. Merodaque era o
deus da
cidade de Babilônia. Ali o seu
templo era chamado É-Sag-ila, “a
casa que ergue bem alto a sua cabeça”. A seu lado encontrava-se a famosa torre de degraus (Zigurate), É-Temem-an-ki, “a casa
dos alicerces dos céus e da terra”,
com aproximadamente 91 metros de altura.
O grande portal oriental do templo, a porta santa, que ficava fechada com
tijolos o ano inteiro, era aberta quando era comemorado a principal festa de
Merodaque, a festa de Akitu (ano novo).
Nesse
dia, comemorava-se o casamento de Merodaque com sua noiva, Sarpanitu,
levando-se as estátuas de ambos para fora dos muros da cidade. Ali fora,
simulava-se uma relação sexual entre os dois, assegurando assim a fertilidade
da terra no ano que se iniciava. Nesta festa também se recitava a estória de
Enuma Elish (o épico babilônico da criação). Merodaque, o herói dessa estória,
é nomeado pelos deuses para liderar com seus gênios a luta contra Tiamat.
ANGELOLOGIA
MEDO-PÉRSA.
A
Pérsia está situada entre a Mesopotâmia, o Golfo Pérsico e o Oceano Índico, a
Índia e o Turquestão, na Ásia Central. Seu clima é quente e seco. Quase não
chove ali. O solo é árido, com pequenas faixas férteis nos vales, onde se
formam oásis.
Os
medos e os persas, habitantes do planalto iraniano, pertenciam ao grupo dos
indo-europeus que viviam nas estepes orientais do mar Cáspio e denominavam-se
ários, que quer dizer nobres. Os medos estabeleceram-se na parte setentrional
dos montes Zagros, próximo da Assíria, por volta do século IX a.C. Os persas
ocuparam a parte meridional, nas proximidades do Golfo Pérsico, no século VI
a.C. Eram altos, bons cavaleiros, valentes, dedicados à agricultura e ao
pastoreio, ao trabalho em cobre, bronze
e ouro.
A origem
deste povo está no século VIII a.C. Os assírios, no apogeu de seu militarismo,
dominaram os medos. As tribos destruídas e vencidas uniram-se na luta contra o
invasor. No século seguinte estava formado o reino Medo, com a capital em
Ecbátana.
Segundo
a tradição, Déjoces foi o primeiro rei medo. Ciáxares (625 a 585 a.C.), com um
exército bem armado e disciplinado, impôs o seu domínio aos persas e tentou
aniquilar o poderio assírio. Sob a sua dinâmica, a Média se impôs como uma
ameaça à supremacia assíria durante a última metade do século VII a.C., e as
forças combinadas da Média e da Babilônia destruíram Nínive. O matrimônio de
Nabucodonosor com a filha de Ciáxares selou esta aliança de tal modo que
prevaleceu um delicado equilíbrio de poder durante todo o período de expansão e
supremacia babilônica. Astíages (585 a 548 a.C.) continuou a política
expansionista de Ciáxares, seu pai, até ser destronado por Ciro.
O Império Persa, segundo a tradição, foi
fundado por Ciro, neto de Astíages e filho da princesa Mandane, casada com
Cambisses, príncipe persa. Educado por pastores, tornou-se posteriormente um
bravo guerreiro. Notável administrador, recebeu o título de “rei do
mundo”.
A
cultura persa era eclética, adotaram o progresso intelectual dos povos submetidos.
A arquitetura era secular, não havia construções religiosas. Segundo Antônio Alves, a religião dos persas
teve um enorme destaque
pois “o cristianismo, o judaísmo e o
islamismo, as grandes religiões atuais derivam diretamente da religião persa”.[14]
Os fundamentos da religião persa fora ensinados por Zaratustra (Zoroastro em
grego).
No zoroastrismo, existiam dois deuses: Ahura
Mazda (ou Ormuzd), representando o bem, a luz e Arimã, representando o mal, as
trevas. Portanto, era uma religião dualista.
Cada um
destes deuses era auxiliado por uma multidão de mensageiros (Djins) ou gênios
maléficos (Devas). Acreditava-se que o bem e o mal lutariam até o fim dos
tempos com a vitória do bem. Mazda necessitava da ajuda dos homens nesta
batalha. Para isto, eles deveriam evitar os pecados e seguir certos mandamentos
morais, era uma religião de conteúdo ético, preceitos morais. Acreditava-se
ainda em um céu e em um inferno, no julgamento das almas e em um messias,
Saoshyant, nascido de uma virgem, Huôu. No fim dos tempos, haveria a
ressurreição para todos e um julgamento final. Era uma religião escatológica.
O
Zoroastrismo não manteve a sua pureza original, mas misturou-se às superstições
primitivas, à magia e à religião caldaica. Daí, surgiram duas heresias: o
Mitraismo, que era a adoração à Mitra, anjo de Ahura Mazda. As cerimônias desta
religião incluíam um banquete onde se servia pão e vinho, uma lavagem purificatória
com água (batismo), a guarda de um dia santificado (domingo) e o dia do
nascimento do sol (25 de dezembro).
Estas
crenças se espalharam rapidamente pelo Oriente com o Império Macedônico e mais
tarde se estabeleceram em Roma em 100 a.C.
A outra
heresia foi o maniqueísmo, fundado por Mani, sacerdote em Ecbatana, entre 250 e
276 d.C.. Foi portanto, o grande concorrente do cristianismo no Império Romano decadente.
Mani
levou ao extremo a doutrina dualista, para ele tudo que fosse material era
intrísicamente mau e tudo que fosse
espiritual seria necessariamente bom.
Assim, só haveria salvação quando abandonássemos a carne e nos dedicássemos
somente ao espírito.
ANGELOLOGIA
ENTRE OS GREGOS
A
grande preocupação da filosofia grega era explicar a harmonia e a ordem do
Cosmos. A este respeito diz Foerster: "Os filósofos gregos depois do
insucesso de representar o mundo como um kosmos de dinamismo abstrato, introduziram,
com os daimones, seres intermediários pessoais."[15]
Esta
teoria era uma resposta à carência generalizada de um teodicéia. Ao lado dos
"daimones", como forças ativas e determinantes da ordem cósmica,
aparecem os demônios maus, princípios de desordem cósmica. Assim, Plutarco cita
os Alastores como exemplo de demônios maus. Hesíldo os denominava
"vigilantes da humanidade". Para Platão, os demônios são providências
intermediárias entre Deus e os mortais. Os estóicos também aceitavam esta
concepção dos demônios como as potências aglutinadoras da ordem cósmica. Diórgenes
disse que “segundo os estóicos, os
demônios são inspetores que vigiam com simpatia todas as coisas humanas”.[16]
Nos
escritos herméticos, os demônios, enquanto condicionam o destino humano, são
postos em relação com todas as desventuras e catástrofes: furacões,
tempestades, raios, incêndios, terremotos, bem como a fome, guerras e assim por
diante.
A
filosofia helenista atribui a estes seres intermediários, controladores da ordem cósmica uma verdadeira
paixão pela natureza visível. Conforme esta empatia, os demônios maus tinham um
desejo de estarem mais próximos da terra, enquanto os seres intermediários bons
eram habitantes do céu.
Esta
doutrina foi ampliada pelos neoplatônicos que conceberam um grande sistema de
seres intermediários, que à medida que se aproximam da terra, se tornam cada
vez mais imperfeitos. Assim, os demônios, conforme o seu caráter,
transformam-se em seres superiores aos homens, mas sempre imperfeitos, e
constituem cada um dos degraus da evolução que vai da matéria ao espírito, do
homem a Deus.
Na
crença e na filosofia popular helenista, os demônios são ainda responsáveis por
cada um dos fenômenos. Assim, determinadas doenças eram atribuídas a certos
demônios. Plínio fala de um demônio da febre. Em sentido neoplatônico são
chamados daimones as divindades que presidem à vida ou que vigiam os elementos
dos cosmos.
Ao lado
do termo daimon há no helenismo o termo daimónion que designa tudo o que
transcende as possibilidades humanas, e que, tanto no bem, como no mal, pode
ser reduzida ao influxo de potências superiores.
A
palavra grega Daimwn,onoV (daimon, onos), que através do latim
eclesiástico daimoniu (m), nos deu demônio, procede do verbo Daiesjai (daiesthai),
"repartir, dividir". Em sentido estrito, daimon significa "uma
força, uma potestade que exerce algo", donde "divindade, destino" como atesta o
sânscrito bhága, "parte, destino,
senhor". Em Homero, demônio é um poder que não se quer ou não se pode
nomear: daí seu duplo sentido de divindade e destino, sem nenhum direito a
sacrifícios. Em Hesíodo, Daimwn
(daímon), significa um "semi- deus, um demônio". Já na literatura
grega se fazia a distinção entre Kakodaimonia
(kakodaimonia), "posse ou perseguição desenfreada por um mau demônio"
e Eudaimonia (eudaimonia),
"felicidade, isto é posse de um bom demônio". Só a partir do latim
cristão é que daemonium, "demônio", mero decalque do derivado grego Daimonion
(daimónion), passou a significar "espírito maligno, diabo, satanás".
A crença em espírito sobrenaturais um pouco menos antropomorfizados do que os
olímpicos é uma característica muito antiga da religião popular grega; um certo
daímon está ligado a uma pessoa ao nascer e determina, para o bem ou para o
mal, o seu destino. Para Empédocles, daímon é um outro nome com que se designa
psique, o que provavelmente reflete a origem divina e os poderes de que eram
dotados os "demônios", Sócrates atesta a antiga tradição religiosa,
quando fala na apologia, de um certo demônio, de algo divino, Daimonion
ti (daimonion ti) que o
aconselha a evitar certas ações. Segundo
ainda o autor supracitado, talvez seja um engano pensar que Sócrates ou
seus contemporâneos fizessem uma distinção muito acentuada entre daímon e theion, entre "demônio e
divino", uma vez que "a defesa socrática contra o ateísmo na
apologia, assenta num argumento de que acreditar nos daímones é acreditar nos
deuses". Na República o daímon aparece como uma espécie de anjo-da-guarda,
mas se aquele está ou não dentro de nós foi algo que muito se discutiu
na filosofia posterior. No Banquete, Platão, pelos lábios de Diotima,
identifica Eros com um daimon, que funciona como intermediário entre os deuses
e os homens. Os neopitagóricos e neoplatônicos agasalham esta noção: os deuses
olímpicos habitavam o éter, enquanto os daímones, divindades menores, ocupavam
o ar inferior e exerciam influência e providência diretas sobre os mortais.[17]
Entre
os gregos subsistia o culto aos gênios tutelares da natureza. Um velava pelo
bom funcionamento dos moinhos e outro que quebrava os vasilhames; um que
presidia o bom êxito dos partos nos rebanhos e outro que transmitia a febre aos
doentes.
Para
Platão, o daimon é um ser pessoal, intermediário entre a divindade e os homens
destinado a mover o homem nos caminhos do bem. Aristóteles afirmou: "acima do céu seres não sujeitos a alterações
ou paixões que levam uma vida ótima e eterna".[18] Cada um deles move um dos céus e é
intermediário inteligente entre "o
Motor Imóvel e o homem, tornando-se assim elemento da explicação dada por
Aristóteles do movimento do universo".[19]
Crisipo,
e com ele, outros filósofos estóicos, prevêem em seu sistema seres espirituais
incapazes da plena impassibilidade e felicidade divina, mais muitos superiores
aos homens. Trata-se de seres bons e seres maus que talvez seja a causa das
desgraças e da maldade humana.
ANGELOLOGIA
NO JUDAÍSMO.
No
judaísmo tardio se encontra a mesma demonologia cósmica que existia entre os
gregos. Conforme o pensamento judaico expresso no Bereshit Rabba:
Cada
fenômeno material, cada força natural: chuva, granizo, vendaval, mar etc., é
expressão, a manifestação de um anjo, do mesmo modo, cada acontecimento na vida
humana, doença, alimentação, empobrecimento e etc. ... é a aparência que revela
a atividade de um espírito (anjo ou demônio). Não há um talo de uva na terra
que não tenha seu anjo no céu.[20]
Conforme
a tradução judaica, o nome dos anjos designa sua função cósmica ou histórica;
assim, o anjo que anuncia o nascimento é chamado Gabriel, que significa
“virilidade de Deus”. O Midrash Dbharem Rabba afirma: “Gabriel é aquele que prende à fecundação de tudo o que vive, até fazer
nascer os animais, amadurecer os frutos”.[21]
Nos comentários dos rabinos os anjos tem uma participação importante. O Dr.
Donald D. Turner conta-nos o seguinte:
Ainda
que o livro de Ester não mencione nem Deus nem anjos, nos escritos dos rabinos
abundam referências ao ministério dos mesmos. Por exemplo: um anjo impediu Vasti
de comparecer perante o rei Assuero, a fim de abrir caminho para escolha de
Ester; quando o escrivão leu as crônicas perante o rei, segundo esses
comentários, o bem que havia sido praticado por Mardoqueu, havia sido apagado
do livro pelo escriba Sinsai, mas afirmam que o anjo Gabriel tornou a escrever
a passagem no lugar devido; que três anjos ajudaram Ester quando ela se
apresentou no pátio perante o rei; que ao sair o rei no jardim, por ocasião do
segundo banquete, encontrou três homens (anjos disfarçados) que arrancavam as
árvores do jardim, aos quais perguntou porque faziam aquilo, e responderam que
Hamã fora quem ordenara; que um anjo empurrou Hamã, obrigando-o a cair sobre o
leito de Ester no momento em que o rei regressava ao salão de banquete, etc...Estes
são apenas alguns exemplos da profusão de referências aos anjos, nos escritos
dos rabinos.[22]
As
referências nos escritos rabinicos afirmam que
mil anjos acompanham a cada judeu; um deles o precede para dizer aos
demônios que abram alas, e ainda, quando um judeu entra em um lugar imundo roga
aos seus dois anjos que o esperem na saída, o versículo usado para dar apoio a
esta crença é o Salmo 91.11-12.
Os
judeus igualmente discutiam se o anjo protetor estava encarregado da criança
desde a sua concepção, desde o seu nascimento ou desde a sua apresentação no
templo, tudo isso prova o quão arraigada entre os judeus era essa crença.
ANGELOLOGIA
ENTRE OS ROMANOS.
Como os
gregos, os romanos tinham a convicção da existência de gênios tutelares da
natureza. Um grupo de gênios velava pelo bom funcionamento das coisas, enquanto
outros perturbavam e ensinavam destruição. Os bons presidiam com êxito o parto dos animais, e os outros
transmitiam a febre aos doentes.
Os romanos não tinham imagens de seus deuses,
nem sequer templos. Contentavam-se em demarcar certas áreas sagradas,
geralmente bosques, para fazer suas
preces e oferecer os seus benefícios aos gênios. Estes eram numerosíssimos e
muito especializados, pois cada um deles tinham uma função determinada. Por
exemplo; nos trabalhos agrícolas havia um Vervactor para a primeira
passagem do arado, um Redaptor, para a
segunda passagem, um Insitor para a semeadura, e assim por diante.
No
desenvolvimento da criança, havia um Cunina, para cuidar dela no berço, um
Rumina, para a sua alimentação, e um Statulina, para que aprendesse a ficar de
pé. Isto é, os nomes individualizam os gênios, indicando a sua função. Não
havia preocupação em determinar o seu sexo nem a sua hierarquia, pois o que
realmente importava era o poder que ele tinha para favorecer ou prejudicar o homem.
Os
cultos eram celebrados nos lares, onde encontramos uma religiosidade mais
expontânea, na qual preponderam os elementos de uma cultura agrária. Todo o
“pai de família” era um sacerdote nato, que oficiava como tal em seu próprio
lar, segundo ritos que ficavam em grande parte ao seu arbítrio. Os objetos de
culto eram:
O gênio da família, que era a força vital
presente e imanente no chefe do clã, personalizada e venerada junto ao leito
nupcial, festejada no dia do nascimento do chefe da família com ofertas de
vinho, incensos e bolos. Está de alguma forma ligado aos espíritos dos
antepassados e às forças da natureza, representada pela “serpente”, animal
mítico que protege os casamentos e a transmissão da forças generativas; Os
lares: são originalmente divindades dos campos, como tal veneradas nas
encruzilhadas com pequenas capelas, que depois são transferidas para as cidades
. São forças fecundantes que passaram a ser invocadas como divindades protetoras das famílias, identificando-se de
alguma forma com os manes e os gênios; Os Penates: são originalmente divindades
protetoras das dispensas familiares e da cozinha, que com o tempo se tornaram
responsáveis pela multiplicação dos bens familiares; não são representados em
figuras, pois constituem uma coletividade;
Os manes: são os antepassados, fundadores do clã, ou dignos de memórias
pelos seus feitos, cujo espírito se perpetua
nos chefes de família.[23]
Capítulo 2
OS
ANJOS NA HISTÓRIA RELIGIOSA CRISTÃ
ANGELOLOGIA
NA IGREJA PRIMITIVA.
Desde o
início da era cristã existem claras evidências da crença na existência dos
anjos. Orígenes, teólogo cristão que
viveu entre os anos 185 a
254 d.C. escreveu o seguinte:
Somos criaturas com duas naturezas: animal,
semelhante às bestas, e racional, porém racional imperfeita. Não haverá outra
criatura melhor? Assim como percebemos
por nossa parte sensível que existem
seres inferiores, é razoável crer, por
nossa parte nobre e intelectual que existem seres superiores. Quanto ao
Todo-Poderoso haver criado uma multidão de anjos, é razoável, pois estaria o
céu deserto de habitantes inteligentes? Deus não é nem desocupado nem
solitário. Seu caráter consiste em ser bom e fazer o bem.[24]
Os
primeiros cristãos entendiam que havia dois grupos de anjos. Uns eram
considerados bons e os outros maus. Os primeiros eram tidos em alta estima,
como seres pessoais de elevada categoria, dotados de liberdade moral, engajados
no serviço jubiloso de Deus, e designados por Ele para atender ao bem-estar dos
homens. Os outros eram tidos como seres que faziam tudo para destruir a felicidade
humana.
A
convicção era que os anjos tinham corpos perfeitos e etéreos, foram criados
bons, mas, alguns abusaram da liberdade e caíram, apartando-se de Deus. Inácio
de Antioquia acreditava que a salvação dos anjos dependia do sangue de Cristo.
Orígenes declarou a impecabilidade dos anjos, afirmando que: "Se foi possível a queda de um anjo, talvez
seja possível a salvação de um demônio."[25]
Satanás,
o príncipe dos demônios, que era originalmente um anjo de classe eminente, era
considerado o chefe dos anjos maus. Entendia-se que sua queda foi por causa do
orgulho e uma ambição pecaminosa, enquanto que a queda de seus subordinados era
atribuída à cobiça dos anjos pelas filhas dos homens. Este conceito baseava-se
na interpretação comum na época de Gênesis 6.2. Calamidades de várias espécies
como: doenças e acidentes muitas vezes eram atribuídas à influência danosa de
anjos maus.
Ao lado
da idéia geral de que os anjos bons atendiam às necessidades dos cristãos, ainda que havia anjos-da-guarda para igrejas
individuais e para cada pessoa era a crença comum na época. Jerônimo acreditava
que um anjo-da-guarda era designado para cada ser humano.
A idéia
de uma hierarquia entre os anjos surgiu com Irineu e Clemente de Alexandria.
Mas, foi com Dionísio, membro do Areópago de Atenas , um desconhecido, em fins
de século V ou princípio do VI, que foi escrito uma série inteira de obras de
grande importância para teologia mística da Idade Média. Esta obra sobre anjos,
"A Hierarquia Celeste", por
muitos séculos foi o texto mais consultado sobre o assunto, ele fala o seguinte:
Os
espíritos celestes fruem uma participação mais subida no dom do que as coisas
que simplesmente existem, ou irracionais, ou os que raciocinam, como fazemos
nós. Já que eles configuram a si mesmos de modo inteligível, a fim de imitar a
Deus, e diligenciam por parecer-se sobrenaturalmente à Tearquia (Trindade de
Deus, em contraposiçâo a hierarquia dos anjos), empenhando-se por acomodar a
própria inteligência a esta semelhança, seus contatos com a Tearquia são
naturalmente mais profundos. De fato, eles vivem em comunhão com ela e, na
medida em que lhes é permitido, tendem para o alto, impelidos pelo amor divino
e indefectível, recebendo as iluminações primordiais de forma imaterial e sem
mistura alguma; ou melhor, são acondicionados para essas iluminações e a sua
vida inteira cifra-se em
intelecção. Tais são os espíritos celestes, antes do mais e
de muitos modos participantes do divino, e reveladores do segredo teárquico.
Por isso, de preferência a todos os demais, foram estimados dignos de se
chamarem "Anjos". De fato, é primordialmente a eles que cabe a iluminação
teárquica e, por meio deles, nos são transmitidas as revelações que nos
excedem.[26]
Dionísio,
o Areopagita, dividiu os anjos em três classes: tronos, querubins e serafins.
Essa classificação foi adotada por diversos escritores, um deles foi Santo
Agostinho (345-430 d.C.), bispo de Hipona, que dava ênfase ao fato de que os
anjos bons foram recompensados com o dom da perseverança, jamais cairiam:
Os
santos Anjos não alcançam o conhecimento de Deus mediante palavras soantes, mas
pela própria presença da verdade imutável, isto é, do seu Verbo unigênito; e conhecem
o Verbo, e o Pai e o seu Espírito Santo; e sabem que eles formam a Trindade
inseparável, na qual as pessoas em si mesmas são uma única substância; e que no
entanto não são três deuses, mas um só Deus. Eles conhecem estas verdade melhor
do que nós mesmos. Também conhecem estas
verdades melhor do que nós nos conhecemos a nos mesmos. Também conhecem as
criaturas na sabedoria de Deus -- como no modelo interior segundo o qual foram
feitas -- melhor do que em si mesmas; e nela conhecem igualmente a si mesmos,
melhor do que em si mesmos -- muito embora também se conheçam a si mesmos; de
fato, eles foram criados e são perfeitamente distintos de quem os criou. No
saber de Deus, portanto, têm um conhecimento diurno; em si mesmos, ao contrário,
um conhecimento por assim dizer crepuscular, como dissemos acima. É muito
diferente conhecer uma coisa na idéia segundo a qual foi feita, do que em si
mesma. Assim como é muito diferente conhecer a retidão das linhas e a verdade das figuras geométricas quando se
consideram com a inteligência do que quando escritas na areia; e uma coisa é a
justiça na verdade imutável, outra na alma dos justos. O mesmo vale de
todas as demais coisas. Assim, o
firmamento situado entre as águas superiores e as águas inferiores, que foi chamado
céu; a massa de todas as águas inferiores e a terra árida e o popular das ervas
e plantas; assim a criação do sol, da luz e das estrelas; a dos animais saídos
das águas, isto é, dos voláteis, dos peixes e dos seres que nadam; outro sim a
dos animais que caminham ou rastejam sobre a terra, como a do homem, que
sobrepuja todas as realidades terrestres. Todas estas realidades são conhecidas
pelos Anjos de maneira diferente no Verbo de Deus, no qual contemplam as suas
causas ou razões, segundo as quais foram criadas em sua imutável estabilidade;
e de maneira diferente, em si mesmas. No primeiro caso, com um conhecimento
mais claro, no segundo com um conhecimento mais sombrio, como são o
conhecimento do modelo artístico e o da obra em si mesma. Quando, depois, estas
obras são referidas á glória e veneração do Criador, parece até que surge a
manhã na mente de quem as contempla.[27]
GNOSTICISMO
O termo
“gnose” (conhecimento) é usual da literatura cristã dos primeiros séculos,
tanto na canônica como na apócrifa. Designa dois movimentos religiosos de
tendências contrárias.
A gnose
autêntica é um conhecimento aprofundado dos mistérios divinos, revelados por
Deus, e contemplados com as luzes do Espírito Santo. A chamada “gnose herética”
é também um conhecimento aprofundado dos mistérios divinos, mas sob as luzes da reflexão filosófica.
Dá-se o nome genérico de “gnosticismo” ao
movimento pseudo-cristão que procurou explicar mistérios divinos segundo estes
princípios filosóficos, dispensando os dados da Revelação, e ensinando um
dualismo radical entre matéria e espírito, que valia por uma negação da
redenção cristã.
DEMIURGO
Etimológicamente
DhmiourgoV (demiurgos) é um
composto de Dhmio
(demio) “Que concerne ao povo ou ao público” e QorgoV
(worgós) “Que diz respeito ao trabalho”, donde, em princípio, demiurgo
significa em Homero “o artesão, o especialista que trabalha para a comunidade, como os
carpinteiros , os advinhos, os aedos, os médicos, os arautos". Mas, desde
o momento em que o artesão em grego BanausoV
(bánausos) passou a ser depreciado, demiurgo começou a traduzir especificamente
o médico, o artista e, posteriormente, o criador.
Foi, ao que tudo indica, a partir de Platão,
que demiurgo se tornou o criador dos deuses menores, da alma e do mundo e da
parte imortal da alma humana,
mas para tanto,
usa os Eidh
(eide), “as formas, as idéias preexistentes” como modelo.
Não se
trata, no entanto, de um ser onipotente. Cria o cosmo tão bom quanto o
possível, competindo com os efeitos contrários da ¢Anagkh
(Amánque), a necessidade.
Mais
tarde se fez uma dicotomia: O demiurgo é tão somente um ordenador do
mundo, Exoutwn (ekV
onton),
do que é, por oposição ao criador, Ex
ouk
outwn "do que ainda não é".
ANGELOLOGIA
MEDIEVAL
Durante
a Idade Média ainda havia alguns que se inclinavam a admitir que os anjos
têm corpus etéreos, mas a opinião
predominante era de que são incorpóreos.
As aparições angélicas eram explicadas com a admissão de que, em tais
casos, os anjos adotavam formas corporais temporárias para fins de revelação.
Vários outros pontos estiveram em discussão entre os escolásticos.
Quanto
ao tempo em que os anjos foram criados, a opinião dominante era que foram
criados no mesmo tempo da criação do universo material. Embora alguns
sustentassem que os anjos foram criados no estado de graça, a opinião mais
comum era que foram criados somente num estado de perfeição natural.
Havia
pouca diferença de opinião sobre dizer que os anjos ocupavam um mesmo lugar. A
resposta comum a esta questão era afirmativa, conquanto se assinalasse que a
presença deles no espaço não é circunscrita, mas definitiva, visto que somente
os corpos podem estar circunscritamente no espaço.
Embora
todos os escolásticos concordassem que o conhecimento dos anjos é limitado, os
tomistas e os scotistas diferiam consideravelmente no concernente à natureza
deste conhecimento. Todos admitiam que os anjos receberam conhecimento infuso
quando de sua criação, mas, Tomás de Aquino negava, enquanto Duns Scotus
afirmava, que eles podiam adquirir novo conhecimento através de sua atividade intelectual.
A
ANGELOLOGIA ENTRE OS REFORMADORES
A
reforma não trouxe nada de novo, quanto a doutrina dos anjos. Tanto Lutero
quanto Calvino tinham vívida concepção do ministério dos anjos, e
particularmente da presença e poder de Satanás. Os cristãos reformados
continuaram a ensinar que os anjos ajudavam ao povo de Deus. João Calvino
(1509-1564) acreditava que "os anjos
são despenseiros e administradores da beneficência de Deus para
conosco...Mantêm a vigília, visando a nossa segurança; tomam a seu encargo a
nossa defesa; dirigem os nossos caminhos, e zelam para que nenhum mal nos
aconteça".[28]
Acentuava o fato de que Satanás está debaixo do controle divino, e
que, é instrumento de Deus. Só podendo
agir dentro dos limites prescritos pelo Criador. Quanto a obra realizada pelos
anjos bons, a opinião era que sua tarefa especial consiste em atender aos
herdeiros da salvação.
Martinho Lutero (1485-1546) em “Conversas à Mesa", falou em
termos semelhantes. Observou como esses seres espirituais, criados por Deus,
servem à Igreja e ao Reino. Eles ficam muito perto de Deus e dos cristãos, "estão em pé diante da face do Pai,
perto do sol, mas sem esforço vêm rapidamente socorrer-nos".[29]
O
pensamento de outros reformadores esta resumido no Artigo XII da Confissão
Belga que trata sobre a criação:
Ele
criou também os anjos bons, para serem Seus mensageiros e servirem Seus
eleitos, alguns dos quais caíram daquele estado de perfeição em que Deus os criara, para
eterna perdição deles; e os outros, pela graça de Deus, permaneceram firmes e
continuaram em seu primitivo estado. Os demônios e os maus espíritos são tão
depravados que são inimigos de Deus e de todo o bem, no máximo de sua
capacidade, como assassinos que lutam pela ruína da igreja e de cada um dos
seus membros, e pela destruição de todos, com os seus vis estratagemas; e,
portanto, por sua iniquidade, estão sentenciados à perdição eterna, em diária
expectação dos seus horríveis tormentos.[30]
A
ANGELOLOGIA NA MODERNIDADE
Foi talvez o teólogo liberal Paul Tillich (1886-1965) quem
postulou o conceito mais radical do período moderno. Considerava os anjos
essências platônicas, emanações da parte de Deus.
Acreditava que os anjos queriam voltar à
essência divina da qual surgiram para serem iguais a Deus. Sobre isto Tillich
aconselhava: "para interpretar o conceito dos anjos de modo relevante,
hoje interprete-os como a essências platônicas, como poderes da existência, e
não como seres especiais. Se você
interpretá-los desta última maneira tudo não passará de grosseira
mitologia".[31]
Karl
Barth (1886-1968) e Millarde Erikson (1932), entretanto, encorajam uma
abordagem mais cautelosa e sadia. Barth, o pai da neo-ortodoxia, achava ser o
assunto "o mais notável e difícil de todos"[32] e ainda, "nós
descobrimos com surpresa que nos acontecimentos nos quais menos suspeitávamos
de sua presença, os anjos estavam em atividade, falaram e a agiram
efetivamente".[33] Ericsom , teólogo
conservador, acrescentou que podemos ser tentados a omitir, ou negligenciar o
estudo dos anjos, porem "se é para sermos estudiosos fiéis da Bíblia, não
temos outra escolha senão falar a respeito deles".[34]
ANGELOLOGIA NA
PÓS-MODERNIDADE
As
últimas décadas do século XX têm sido
caracterizadas por movimentos que romperam com tudo o que, historicamente,
tem sido crido como verdade fundamental, da qual não se poderia abrir mão.
Esses movimentos têm tomado vários nomes como: secularismo, relativismo,
pós-modernismo e pluralismo.
O tempo
pós-moderno teve início com a falência do comunismo, com a queda do muro de
Berlim, em 1989, e com o insucesso absoluto da economia do sistema
materialista.
Houve a
queda dos padrões morais anteriormente estabelecidos e começou a questionar-se
de maneira muito mais clara a necessidade
de haver uma verdade objetiva.
Entretanto,
o pluralismo não nasceu no período pós-moderno. Ele tem suas raízes já no
período moderno. No começo do século XIX
Schleiermacher começou a questionar o exclusivismo do cristianismo que
dizia ser Jesus Cristo o único caminho para a vida. O problema da diversidade
religiosa estava levantado.
O
cristianismo começou a ser questionado como a única saída para os problemas
humanos. Ele argumentava que Deus está “salvificamente” disponível, em algum
grau, a todas as religiões, mas o evangelho de Jesus Cristo é o cumprimento e a
mais alta manifestação da consciência religiosa universal.
O
cristianismo do liberalismo teológico do século passado começou a sustentar que
o Deus imanente do cristianismo não pertencia somente ao cristianismo, mas
pertencia a todas as culturas religiosas do mundo. Jesus era apenas o exemplo
máximo desse Deus imanente , mas não era a única forma dele expressar-se.
Para o
pluralismo as outras civilizações também possuem seu próprio acesso salvífico à
vida divina, independentemente do cristianismo. Por isso, no final do século
passado e no começo deste século, começou a haver diálogo com as outras
religiões e, até uma tentativa de ecumenismo entre as várias religiões do
mundo.
No
mundo pós-moderno as pessoas podem ter as suas próprias idéias com respeito ao
texto lido. Ninguém pode reivindicar
exclusividade de verdade na sua interpretação. O pós-modernismo afirma que a
linguagem não pode expressar verdades a respeito do mundo de um modo objetivo.
“A linguagem, por sua própria natureza, dá forma ao que pensamos. Visto que a
linguagem é uma criação cultural, o significado é, em ultima analise, uma
construção social”. Os valores do pós-modernismo não são pessoais, mas sociais,
da cultura. O verdadeiro significado das palavras é parte de um sistema fechado
de uma cultura, que não faz sentido para uma outra cultura. A linguagem humana
não contém qualquer verdade absoluta, e nisso os pós modernistas estão tirando
vantagem.
Um
texto não pode conter uma verdade absoluta, pois o sentido que o autor quis dar
a ele não é importante. O importante é como quem lê o entende. Pessoas podem
ter as mais diferentes interpretações do mesmo texto, sem que isso constitua
uma contradição. A contradição existe se há a verdade absoluta, mas como não
há, não há contradição.
O
pluralismo religioso vigente na sociedade teve um enorme crescimento nestas
últimas décadas, quando os “cristãos” têm recebido profundas influências das
religiões e filosofias orientais.
Certa
parábola contada por budistas nos diz o seguinte: Havia três homens cegos e um
elefante, cada um desses homens cegos apalpou o elefante vindo a conceber uma
idéia diferente dele. O primeiro cego, após apalpar o lado musculoso do
elefante, chegou à conclusão de que ele era como um muro. O segundo cego, após
apalpar as pernas grossas e roliças do elefante, protestou, dizendo: “Não, o
elefante tem uma forma diferente. Isto que estou apalpando é uma coluna”. Vocês dois estão enganados. Isto que nós
apalpamos é uma grande cobra”. E assim, cada um dos três teve uma concepção
diferente do mesmo elefante. Enfim todos falaram coisas bem diferentes do mesmo
elefante.
Estes
“cristãos” têm usado esse tipo de parábola para ilustrar a relação que tem
havido entre o cristianismo e as outras religiões. Todas elas têm abordagens
diferentes a respeito de Deus, mas todas estão falando da mesma coisa, sob
perspectivas diferentes, para alguns
deles, falar dos anjos e falar de Deus é praticamente a mesma coisa.
Se um
cristão afirmar que somente através do cristianismo se pode ter uma visão real
de Deus, e que todas as outras religiões estão erradas, ele está se portando
como um dos cegos da estória que diz que somente a visão dele é correta e não a
dos outros.
Jesus
para estes “cristãos” é salvador, mas não é a única forma do homem alcançar a
salvação. Ele é uma entre as muitas outras formas do Deus infinito revelar-se,
por isso, em alguns grupos a angelologia tem sido mal interpretada, têm tomado
um rumo diferente daquilo que as Sagradas Escrituras nos ensinam, pois eles tem
ocupado o lugar de seu Senhor.
O Deus
do cristianismo para os pluralistas é um Deus de amor, e não pode excluir da
salvação os não cristãos pelo simples fato deles não serem cristãos. Na
sistematização da teologia reformada a soteriologia fica na dependência da
cristologia; para os pluralistas é o contrário, a cristologia é que é
dependente da soteriologia. O grande pressuposto é que a salvação tem outros
caminhos, além do proposto pelo
cristianismo.
Se
Jesus é apenas um caminho no processo da salvação da humanidade, o elemento
preponderante é a soteriologia, e a cristologia vem cumprir apenas um dos
propósitos redentores de Deus, Jesus não pode ser a revelação especial de Deus
no sentido da salvação depender unicamente dele, há outras revelações, inclusive
os anjos, que são igualmente soteriológicas. O amor de Deus é tão grande que
não poderia deixar de fora as outras nações pelo simples fato de não terem sido
evangelizadas, por isso outras formas de salvação são possíveis.
Segundo
a abordagem pluralista, todas as religiões têm de abandonar a sua arrogância
teológica. Nenhum grupo religioso pode jactar-se de ser superior ao outro em
termos de verdade, porque a religião está associada à cultura. E não existe uma
cultura superior à outra. Todas são igualmente boas.
Cristo
é apenas uma opção de salvação, é um caminho e não “o” caminho, existe várias
opções de chegar ao único Deus, pois não existe uma verdade absoluta, mas
existe verdades, o que é verdade para
min pode não ser verdade para outra pessoa. Por essa razão, ninguém pode
reivindicar estar com a verdade absoluta. A verdade está com todas as
religiões, e não é propriamente de uma só, por isso aqueles que postulam uma
padrão de verdade são criticados. Para eles, crer na verdade absoluta é o erro
dos cristãos.
Muitos
segmentos do cristianismo têm mudado o paradigma básico da busca da verdade
objetiva da palavra de Deus para a “verdade” da experiência. Se o paradigma da
verdade de Deus não é levado em conta, e aceitamos o paradigma da experiência,
não podemos negar a validade da experiência de outras religiões como fonte de
autoridade, logo a experiência religiosa de todas as tradições deve ser fonte
de autoridade.
Capítulo 3
O
ENSINO BÍBLICO SOBRE OS ANJOS.
A
revelação da Antiga e Nova Aliança
atesta a existência e atividade de seres supraterrenos. Cada afirmação a
proceder da teologia a ponderar sobre os anjos se radica em última análise no
testemunho da Escritura, o qual vai proceder ao conspecto
histórico-teológico e ao desenvolvimento
sistemático da angelologia.
A
Bíblia nos fala de uma ordem de seres
celestiais totalmente distintos da humanidade e da Divindade, que ocupam uma
posição exaltada acima da atual posição do homem caído. Estes seres celestiais
são mencionados pelo menos 108 vezes no Antigo Testamento e 165 vezes no Novo
Testamento; é a partir deste conjunto de Escrituras que forma-se a doutrina
denominada angelologia.
EXISTÊNCIA
DOS ANJOS
A
existência de anjos foi admitida na Escritura e, ela é a única fonte de
informações dignas de confiança sobre estes seres. Assim como o homem é a mais
importante criação da esfera terrestre, os anjos são a mais importante criação das esferas celestial,
como esta descrito em Colossenses 1.16-17:
“Pois nEle foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis
e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer
potestades. Tudo foi criado por meio dEle e para Ele. Ele é antes de todas as
coisas. NEle tudo subsiste”. Assim como
os anjos, e todos os outros seres mortais, foram criados por Cristo e
para Cristo, eles permanecem para sempre para o louvor de Sua glória. Embora
alguns seres humanos e certos anjos neguem a adoração a Deus, a maior parte dos
anjos está diante do Seu trono em adoração incessante. Não deve ser assunto de
menor importância nos conselhos divinos que certas criaturas que caíram no
pecado neguem parte do louvor àquele a quem toda honra é devida. Este repúdio
por parte dos anjos caídos não poderá continuar para sempre. Sobre a disposição
da inimizade na esferas celestial foi dito: “Por
que convém que Ele reine até que haja posto todos os inimigos debaixo dos seus
pés. O último inimigo a ser destruído é a morte”. (I Cor.15.25-26), enquanto
que sobre a disposição da inimizade nas esferas terrestre foi escrito: “Mandará o filho do homem os seus anjos que
ajuntarão do seu reino todos os escândalos e os que praticam a iniquidade, e os
lançarão na fornalha acessa; ali haverá choro e ranger de dentes. Então os
justos resplandecerão como o sol, no reino de seu pai. Quem tem ouvidos para
ouvir ouça”. (Mt.13.41-43).
ANGELOLOGIA
VETEROTESTAMENTÁRIA.
São
várias as manifestações dos anjos no Antigo Testamento. Um anjo socorreu Hagar
no deserto (Gn.16.7-11); os anjos anunciaram o nascimento de Isaque
(Gn.18.11-15); os anjos anunciaram a destruição de Sodoma (Gn.19.1-23); os
anjos retiraram a Ló, sua esposa e suas duas filhas para fora de Sodoma
(Gn.19.16-17); um anjo impediu a morte de Isaque (Gn.22.11-12); anjos guardaram
a Jacó (Gn.28.12; 31.11; 32.1; 48.16); um anjo guiou Israel no deserto (Ex.
14.19; 23.20-23); a lei foi dada por anjos (At.38.53; Gl.3.19; Hb.2.2); um anjo
repreendeu Balaão (Nm.22.31-35); um anjo acudiu Elias (I Rs.19.5-8); Eliseu
estava cercado de anjos (II Rs.6.14-17); um anjo livrou Daniel dos leões
(Dn.6.22); anjos acampam-se em redor do povo de Deus (Sl.34.7; 91.11) etc.
A
presença de anjos no Antigo Testamento talvez possa ser recuada às antigas
tradições de Israel, embora suas
representações e funções, sua configuração e significado tenham sofrido
evolução. A influência dos povos e culturas limítrofes de Israel como a de
Canaã, Assíria, Babilônia, e sobretudo depois do exílio a Persa e Helenísta,
deixaram suas marcas quanto à crença dos anjos na religião de Israel. O auge máximo
representa o período mais tardio de Israel, no livro de Daniel. E depois dele
por influxo do gênero apocalíptico, propagou-se a crença e a presença dos anjos
e dos demônios na literatura intertestamentária dos livros apócrifos.
Israel
introduziu a presença e função dos anjos sem desdouro nem míngua de seu
monoteísmo, mas, ao contrário, ao serviço incondicional de Javé, o Deus único,
Senhor da criação e da história.
O
Israel mais antigo imaginava o seu Deus
como um velho patriarca, rodeado de uma corte celestial de seres quase divinos,
aos quais chamava filhos de Deus (Gn.6.4; Jó.1.6). Essa representação não
diferia muito a dos Cananeus no modo de
conceber suas divindades ou a dos outros povos do Oriente Médio. A influência
dos mitos ugaríticos esta subjacente na
representação arcaica de Israel sobre os anjos.
Relacionadas
com estas representações temos a expressão “exército de Javé” (Js.5.14), e a
invocação “Javé dos exércitos”, que não deve ser entendido do exército de
Israel e sim “Javé dos exércitos celestiais” (Jr.7.3). O mesmo vale para “ o
acampamento de Deus” (Gn.32.3) com o qual encontrou-se Jacó. A influência e
presença dessas expressões encontramo-las no Novo Testamento em “uma multidão
do exército celeste” que acompanha a aparição do anjo aos pastores na noite
(Lc.2.13) ou “ a legião de anjos” que Jesus recusa pedir a seu Pai para
livrar-se de seus inimigos, os escribas, fariseus e sumos sacerdotes
(Mt.26.53).
ANGELOLOGIA
NEOTESTAMENTÁRIA
O Novo
Testamento é devedor do ambiente angélico que rodeava os últimos livros
canônicos do Velho Testamento, a ela, porém, deu-lhe a marca que dimanava da
tríplice novidade do cristianismo: a centralidade cristológica de Jesus, a
manifestação do Espírito Santo e o tempo fundacional da igreja. Jesus, o Espírito
e a igreja constituem a nova realidade de Deus para os homens. Tudo que o Novo
Testamento diz sobre os anjos, suas funções, serviços e mensagens, está
totalmente subordinado à novidade aparecida com Cristo e o Espírito Santo e é
até irrelevante em sua comparação. Isso é o que faz o teólogo K. Rahner
confessar:
No
Antigo Testamento a doutrina dos anjos aparece relativamente tarde, como uma
espécie de imigração de fora, e no Novo Testamento (...) o tema dos anjos
toca-se melhor sob uma atitude de repulsa ao culto angélico e com a consciência
de superioridade do cristianismo sobre todos os poderes e potestades do mundo,
de modo que o interesse existencial e religioso dos cristãos continuaria em
vigor mesmo que não existisse anjo algum (bom ou mal) dotado de individualidade
e substancialidade própria.[35]
Dentro
de sua concepção cristológica e pneumática de salvação, o Novo Testamento
acentua o dualismo moral que ainda era ambivalente na angelologia do Antigo
Testamento. Assim, os anjos mostram-se bons para os cristãos ao passo que os
demônios, destruidores e negativos. A hierarquia atingiu mais o demoníaco que o
angélico. Satanás é mais decisivo na ordem do mal e da perdição do que Miguel
na da salvação. Foi totalmente deslocado por Cristo e o Espírito, únicos agentes
escatológicos de Deus na salvação dos homens. Embora alguns textos mínimos
aludam à batalha de Miguel contra Satanás, dos anjos contra os demônios
(Ap.12.7; Jd.9), também estes foram interpretados. Daqui se deduz que os
anjos vão perdendo no Novo Testamento do ponto de vista
teológico, pela significação central de Cristo e do Espírito.
DEFINIÇÃO
DE ANJO
O nome
anjo no uso corrente de hoje significa um espírito supraterreno, não
primeiramente conforme sua natureza, mas conforme sua tarefa no serviço
dedicado a Deus. Desde o início da Idade Média sagrou-se definitivamente esse
significado. O hebraico carece de uma expressão específica de conteúdo
semelhante ao da palavra anjo, como se dá nas línguas modernas. Mal’akh
originou-se com muita probabilidade da raiz árabe (la aka) que significa mandar
alguém com recado. O nome significa primitivamente o abstrato, o envio, a mensagem,
mas transfere em seguida para o concreto, o enviado, o mensageiro. Neste
significado geral denomina-se também o sacerdote (Mal.2.7), o rei (II
Sm.14.17-20), homens enfim (I Sm.29.9). Se o termo designa um anjo em sentido
restrito, específico, então se trata de um caso particular do uso geral da palavra. O vocábulo designa o
mensageiro de Deus familiarizado com Ele face à face e por isso mesmo pertencente a uma ordem superior ao homem (II Pe.2.11).
No
grego a palavra aggeloV (angelos) abarca a
mesma significação geral da palavra. No Novo Testamento aparece de maneira mais
clara a distinção da palavra, mais só a Vulgata é conseqüente nesta distinção,
por empregar “nuntios” para o
mensageiro comum, e “angelus” para o
mensageiro celeste de forma inequívoca; o mensageiro indeterminado torna-se um
mensageiro de Deus, anjo, quando o contexto menciona indiretamente a Deus como
quem envia, ou o vocábulo conota o nome de Deus por meio do genitivo ou do
pronome possessivo. Cada anjo tem a Deus por dono, e sua razão de ser é ser Seu
anjo santo ou anjo santo de Deus que toma parte no falar e agir de Deus na terra.
A par
de Mal’ak denominação fundamental toda
calcada na função e na atividade do termo, depara-se no Antigo Testamento com
outros nomes para os anjos.
Porque
provêm de Deus, chamam-se “filhos de
Deus” (Gn.6.2; Jó.1.6; 2.1); são os “santos”
(Jó.5.1; 15.15); os “poderosos”
(Sl.102; 103). Habitam, pois, com Deus nos céus (Gn.21.17; 22.11) e ainda,
também na terra (Gn.32.2). São designados por vezes segundo a figura de sua
aparição, de "varões"
(Gn.18.2,6; 19.10,12).
Vistos
em um conspecto geral, formam os anjos o “exército
de Javé” (Jos.5.14), o “exército do céu” (I Rs.22.19); Deus mesmo é considerado o “Deus dos exércitos” (Os.12.6; Am.3.13);
“Javé dos exércitos” (I Sm.1.3,11;
Is.1.6; 6.3). Em I Samuel 17.45 designa esta formação a Deus como Senhor
supremo de guerra do povo, em cujo nome se põem em pé de guerra os exércitos.
Demonstra isso que o termo abarca sentido muito geral e que “exército”
pode designar também os astros (Jr.32.22; Is.40.26).
Os
anjos estão divididos em dois grupos: os eleitos e os caídos. De início, neste
trabalho, eles serão tratados indistintamente, para depois separá-los.
NATUREZA
DOS ANJOS
A
ORIGEM DOS ANJOS.
Segundo
Colossenses 1.16-17 deduzimos que todos os anjos foram criados de uma só vez.
Também podemos dizer que a criação dos anjos foi completa naquela ocasião e que
nenhum outro foi acrescentado depois ao seu número. Eles não estão sujeitos à
morte ou qualquer forma de extinção, portanto eles não diminuem nem aumentam de
número. O plano pelo qual a família humana tem garantia de procriação não tem
correlativos entre os anjos. Cada anjo, sendo uma criatura direta de Deus, tem
um relacionamento imediato e pessoal com o criador. Da família humana no mundo
vindouro, Cristo disse: “... nem casam,
nem se dão em casamento; são, porém, como os anjos no céu” (Mt.22.20-30).
Assim, conclui-se que não há diminuição nem aumento entre esses seres
celestiais.
CORPORALIDADE
DOS ANJOS
Comparados
com a existência humana e animal, os anjos podem se dizer incorpóreos, mas
apenas no sentido de que não tem uma organização mortal. As Escrituras dão a
entender que os anjos tem uma corporificação. Deus é espírito, mas quando
Cristo se dirigiu aos judeus, ele disse do Pai: “Jamais tendes ouvido a sua voz, nem visto a sua forma” (Jo.5.37
cf. Êx.33.23; Ez.1.1). É essencial que um anjo tenha forma localizada,
determinada e espiritual. Com demasiada freqüência é atribuído aos anjos
limitações que pertencem a humanidade. Para os santos no céu foi prometido um “corpo espiritual”, um corpo adaptado ao
espírito do homem (I Cor.15.44). Como o corpo do Senhor glorificado (Fp.3.21).
Há muitos tipos de corpos, até mesmo na terra, o Apóstolo declara isto em I Coríntios 15.39-40: “Também há corpos celestiais e corpos
terrestres”. Não podemos dizer que não há corpos celestiais apenas porque o
homem não tem poder de discernir estes corpos. Não podemos dizer que os anjos
não existem apenas porque não conseguimos os ver. Os espíritos tem uma definida
organização que está adaptada à lei de sua existência. Eles são finitos e
espaciais, tem a capacidade de se aproximar da esfera humana, mas o fato de
maneira nenhuma lhes impõem a conformidade com a existência humana. O
aparecimento de anjos pode ser, quando a ocasião exige, com a aparência de
homem de modo que eles passam por homens: como poderíamos explicar de uma outra
maneira que alguns “sem saber acolheram
anjos” (Hb.13.2)? Por outro lado, seu aparecimento às vezes é deslumbrante
e gloriosa (Mt.28.2-4). Quando Cristo declarou: “Um espírito não tem carne nem osso, como vedes que eu tenho”(Lc.24.37-39),
Ele não quis dizer que um espírito não tem corpo algum, mas, antes, que os
espíritos têm corpos constitucionalmente diferentes dos corpos humanos. Sobre a
natureza e corporalidade dos anjos o Dr. William Cook diz o seguinte:
No
Antigo Testamento o salmista os chama de espíritos: “Fazes a teus anjos ventos
(espíritos)” (Sl.104.4). E no Novo Testamento eles são chamados pelo mesmo
termo: “Não são todos eles espíritos ministradores?” (Hb.1.14). Contudo é
preciso fazer uma pergunta: Os anjos são tão espirituais a ponto de serem
absolutamente imateriais como Deus? Ou estarão revestidos de uma refinada
estrutura material? As opiniões, tanto dos antigos como dos modernos estão
muito divididas neste assunto. Atanásio, Basílio, Gregório, Niceno, Cirilo e
Crisóstomo defendiam que os anjos eram absolutamente imateriais; mas Clemente
Alexandrino, Orígenes, Cesário e Tertuliano, entre outros pais da igreja,
achavam que estes seres benditos estavam revestidos de uma refinada estrutura
material. O termo espírito que lhes é aplicado não decide absolutamente por si mesmo a questão; pois como essa palavra,
tanto no hebraico quanto no grego, é um termo material indicando vento, ar ou
hálito, pode sem violência ser aplicado tanto a um espírito puro quanto a uma
natureza material refinada. É verdade que, no aparecimento dos anjos aos
homens, eles assumiram uma forma humana visível. Este fato, entretanto, não
prova a sua materialidade; pois os
espíritos humanos no estado intermediário, embora desencorporados, tem em seu
relacionamento com o corpo aparecido em
forma humana material: como Moisés, no Monte da Transfiguração, também Elias
foi reconhecido como homem; e os anciãos que apareceram e conversaram com João
no Apocalipse, também tinham forma humana (Ap.5.5; 7.13). Mas tais aparições
não podem absolutamente decidir. Teologicamente não há nenhuma incongruência ou
improbabilidade de uma natureza material refinada. O céu sem dúvida é adequado
para habitação de tais seres. Enoque e Elias foram levados ao céu em corpo e
alma pela transladação; a humanidade glorificada de nosso Senhor está
entronizada ali; e os anjos, embora revestidos de uma estrutura material, podem
habitar na presença divina esplendorosa... Mas, como existe uma lei de
adaptação, a grosseira materialidade da ”carne e sangue” não pode penetrar
naquela região de bem-aventurança. Deduzimos, então, que se os anjos estão
revestidos de uma natureza que exclui
tudo o que envolve a possibilidade da deteriorização e qualquer relacionamento
com os apetites e desejos animais.[36]
A
PERSONALIDADE DOS ANJOS
A
personalidade dos anjos é algo difícil de se averiguar, porém não podemos
concordar com a declaração de Martensen:
Há muitos tipos de espíritos sob os céus e por
causa disso também muitos graus de espiritualidade e independência espiritual;
podemos, portanto, muito apropriadamente afirmar que os anjos se dividem em
duas categorias.... Se contemplarmos os anjos em seu relacionamento com o
conceito de personalidade, podemos dizer: há poderes, cuja espiritualidade está
tão longe de ser independente que possui apenas uma personalidade
representativa; resumindo, são apenas personificações, de tal caráter são as
tempestades e as chamas que executam as ordens do Senhor. Existem outros poderes
na criação que possuem um grau mais elevado de espiritualidade, um estado
intermediário de existência entre a personificação e a personalidade. Sob esta
categoria podemos classificar os poderes espirituais da história, como por exemplo,
os espíritos das nações e as divindades da mitologia... Mas, se nesta questão
encontramos poderes da história, que pairam na região, que jaz entre a
personalidade e a personificação, mas certo ainda é que a revelação reconhece
uma terceira categoria de poderes cósmicos que constituem um reino espiritual
livre e pessoal.[37]
Cada
aspecto da personalidade dos anjos, foi declarada nas Escrituras. Embora os
seus serviços e dignidade possam variar, não há nenhuma implicação na Bíblia de
que um anjo é mais inteligente que os outros. Eles são seres individuais, e
embora espíritos, experimentam emoções, eles prestam cultos inteligentes, um
provérbio popular israelita chegou a comparar o homem mais sábio entre os
homens com um anjo (II Sm.14.17).
A
inteligência dos anjos excede a dos homens nesta vida, porém, é necessariamente
finita. Como nos declara Alberto Matos: "Imagina-se que a capacidade
intelectual dum anjo tem uma compreensão mais vasta que a nossa, que uma só
imagem na mente angelical contenha mais detalhes do que uma vida toda de estudos
poderia proporcionar aqui".[38]
Os anjos são sábios, atuam como agentes pessoais
mas não são oniscientes como Deus. Estão sujeitos a certo desenvolvimento
mental por meio do escrutínio, segundo parecem, visto desejarem conhecer mais
acerca da salvação por intermédio do evangelho
(I Pd.1.12). São reverentes, a atividade mais elevada executada por eles
é a adoração (Ap.7.11), eles contemplam com o devido respeito a face do Pai
(Mt.18.10). São mansos, não retêm ressentimentos pessoais, nem injuriam seus
opositores (II Pd.2.11). São poderosos (Sl.103.20), mas sempre empregam seu
poder visando a glória de Deus. Eles conhecem as suas limitações (Mt.24.36) e a
sua inferioridade diante o Filho de Deus (Hb.1.4-9). São santos (Ap.14.10) e
leais; apesar da rebelião que houve nos céus, os anjos eleitos permaneceram
fieis ao Senhor. São individuais, mas, embora às vezes apareçam em sua condição
separada, estão sujeitos a classificação e a variadas categorias de importância.
A
HABITAÇÃO DOS ANJOS
As
Escrituras afirmam que os anjos habitam as esferas celestiais (Mc.13.32). O
Apóstolo Paulo escreveu: “um anjo vindo
do céu” (Gl.1.8) e “toda família,
tanto no céu como sobre a terra” (Ef.3.15). Jesus ensinando os discípulos a
orar disse: “Faça-se a tua vontade, assim
na terra como no céu” (Mt.6.10). Podemos afirmar que o universo encontra-se
habitado por inumeráveis exércitos de seres espirituais. O Dr. Gaebelein
escreve o seguinte sobre a habitação dos anjos:
No
hebraico céu está no plural, “os céus”. A Bíblia fala de três céus, sendo o
terceiro céu, o Céu dos céus, o lugar da habitação de Deus, onde o Seu trono
sempre esteve. O Tabernáculo do Seu povo terreno, Israel, era um modelo dos
céus. Moisés, quando esteve na montanha, olhou para a vastidão dos céus e viu
os três céus. Ele não tinha telescópio. Mas o próprio Deus lhe mostrou os
mistérios dos Céus. Então Deus o advertiu quando estava para construir o
Tabernáculo, dizendo ao Seu servo: “Vê que faças todas as coisas de acordo com
o modelo que te foi mostrado no monte” (Hb.8.5). O Tabernáculo tinha três compartimento:
o pátio externo, o lugar santo e o Santo dos santos. Uma vez por ano o Sumo
Sacerdote entrava neste local terreno de adoração, passando pelo pátio externo
para o lugar santo, e finalmente, levando o sangue do sacrifício, ele entrava
no Santo dos santos para aspergir o sangue na presença santa de Jeová. Mas Arão
era apenas um tipo daquele que é maior, o verdadeiro Sumo Sacerdote. Dele, do
verdadeiro sacerdote, o nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, foi escrito que
ele penetrou nos céus (Hb.4.14) , “porque Cristo não entrou no santuário feito
por mãos, figura do verdadeiro porém do mesmo céu, para comparecer, agora, por
nós, diante de Deus” (Hb.9.24). Ele passou pelos céus, o pátio exterior, o céu
que circunda a terra, o lugar santo, os universos imensos, com sua distância
imensurável, e finalmente, Ele entrou no terceiro céu, o céu que a astronomia
sabe que existe, mas que nenhum telescópio pode alcançar. Nos lugares
celestiais, de acordo com a epístola aos Efésios, estão os principados e potestades,
a multidão incontável de anjos. Sua habitação está nos Céus. Deus que os criou,
que os fez espíritos e os revestiu de corpos apropriados para a sua natureza
espiritual, também deve lhes ter designado habitação... também é significativo
que a frase “exército dos Céus” signifique tanto as estrelas como também os
exércitos angelicais; o “Senhor dos exércitos” também tem o mesmo significado
duplo, pois Ele é o Senhor das estrelas e o Senhor dos anjos (Sm.148.1-5).[39]
O
PODER DOS ANJOS
Os
anjos são poderosos. Seu poder, embora grande, é restrito. Eles não podem fazer
coisas peculiares à divindade como criar, agir sem os meios, ou sondar o
coração do homem. Eles podem influenciar a mente humana como uma criatura
pode influenciar outra. Mesmo sendo
magníficos em poder eles podem reivindicar a ajuda divina quando se
encontram em conflito
com outro anjo (Jd.1.9). Sobre o poder angélico o Dr. Cook escreveu o seguinte:
“Anjo
forte” e “anjo poderoso” são termos que encontramos no Apocalipse. O nome Gabriel significa o
poderoso de Deus; e entre as designações
das ordens angélicas encontramos os poderes (DunameiV).
O atributo de poder extraordinário pertence à natureza angélica em geral,
conforme Davi nos informa quando exclama: “Bendizei ao Senhor todos os seus
anjos, valorosos em poder” (Sl.103.20). É impossível fazer qualquer comparação
entre o poder de um ser espiritual, como um anjo, e o poder físico do homem,
que é limitado por sua organização. Se, contudo, o poder do homem pode ser calculado pelos efeitos assombrosos que pode produzir
através do seu conhecimento superior, e os dispositivos que pode usar, temos
então exemplos que nos podem dar uma frágil idéia dos recursos do seu poder
angélico, pois provavelmente o seu conhecimento superior da natureza os
capacita a empregar em um grau muito mais alto do que nossos recursos do universo,
cumprindo qualquer ordem que Deus lhes possa ter dado. Sejam quais forem os
meios através dos quais os seus poderes são exercidos, os efeitos são
estarrecedores. Milton descreve-os arrancando as colinas dos seus fundamentos e
arremessando-as contra os seus antagonistas. Isto é poesia, mas no registro das
Escrituras temos a verdade sem o colorido da ficção; e aí encontramos anjos,
como um ministro da vingança que destruiu 70 mil pessoas do reino de Davi em
três dias; outro destruindo 85 mil guerreiros corpulentos em uma noite num
exército armado do orgulhoso monarca assírio; e um outro destruindo todos os
primogênitos do Egito numa só noite. No Apocalipse vimos anjos detendo os
quatro ventos do céu, esvaziando taças e controlando os trovões da ira de Jeová
sobre as nações culpadas; a velha terra treme sob a exibição do grande poder
dos ministros de um Deus vingador do pecado. Mas os anjos também são bons para
fazer o bem; e enquanto sua natureza santa faz deles fiéis executadores da
justiça, sua benevolência, como também sua santidade; faz que se deleitem no emprego de suas energias no
serviço da misericórdia.[40]
O
NÚMERO DOS ANJOS
Os
anjos são descritos na Bíblia como multidões “que os homens não podem contar”. Podemos imaginar que há tantos
seres espirituais em existência, quanto vão existir seres humanos em toda
história da terra. O número dos anjos é comparado à quantidade de estrelas no
céu, mostrando-nos que é impossível para o homem definir o seu número. Quanto a
isto o Dr. Cook nos diz o seguinte:
Ouça
o que diz Micaías: “vi o Senhor assentado no Seu trono, e todo o exército do
céu estava junto a Ele, à sua direita e a sua esquerda” (I Rs.22.9). Ouça o que diz Davi: “os carros de Deus são vinte
mil, cem milhares de milhares” (Sm.68.17). Eliseu viu um destacamento destes
seres celestiais que foram enviados para sua guarda pessoal, quando “o monte
estava cheios de cavalos e carros de fogo, em redor de Eliseu” (II Rs.6.17). Ouça o que Daniel viu:
“milhares de milhares o serviam, e miríades de miríades estavam diante dele”
(Dn.7.10). Eis que os pastores vigilantes viram e ouviram na noite de
nascimento do Redentor: “uma multidão da milícia celestial louvando a Deus e
dizendo: Glória a Deus nas maiores alturas” (Lc.2.13). Ouça o que diz Jesus:
“acaso pensas que não posso rogar ao meu
Pai, e Ele me mandaria neste momento mais de doze legiões de anjos?”
(Mt.26.53). Veja novamente o magnífico espetáculo que João viu e ouviu quando
olhou para o mundo celestial: “vi e ouvi uma voz de muitos anjos ao redor do
trono, dos seres viventes e dos anciãos,
cujo número era de milhões de milhões e milhares de milhares, proclamando em
grande voz: digno é o Cordeiro que foi morto ...” (Ap.5.12). Se estes números
forem entendidos literalmente, eles indicam 202 milhões, mas são apenas uma parte
do exército celestial. Contudo, é provável que estes números não tem a intenção
de indicar qualquer quantidade exata, mas que a multidão era imensa, além do
que costumava usualmente entrar na computação humana. Por isso, lemos em
Hebreus 12.22, não sobre um número definido ou limitado, embora grande, mais de
“incontáveis hostes de anjos”.[41]
Ainda
que os anjos sejam seres racionais e poderosos, e que tenham sido criados de
uma só vez, são tantos que nós, os homens não temos capacidade suficiente para
enumerá-los.
Os
anjos são chamado de uma multidão, um acampamento, exército ou hostes, e jamais
uma raça ou raças, nações e povos, como sucede com os homens (Gn.32.1).
Tentar
descobrir quantos anjos existem e
nomeá-los é pura tolice, pois a Escritura não define a sua quantidade. Há um
número definido deles que apenas o Senhor conhece, pois foram criados ao mesmo
tempo e de uma só vez.
DIVISÃO
ENTRE OS ANJOS
A divisão
ocorreu quando Satanás incitou os anjos contra o Criador e levou consigo a
terça parte dos anjos (Ap.12.4). Os
anjos então passaram a constituir dois grupos: os eleitos que permaneceram
fazendo a vontade do Senhor e os caídos que deram ouvidos a Satanás.
O
TEMPO DA REBELIÃO E SEU RESULTADO
Não há
como medirmos com precisão a época desta rebelião mas, sabemos que se deu no
céu e antes da queda da humanidade.
Os
anjos eleitos confirmaram a sua posição diante do Senhor, os caídos perderam a
primitiva santidade e automaticamente tornaram-se corruptos em natureza e
conduta. Um grupo destes anjos caídos foi lançado no Hades e aí permanecem
presos (Jd.6), os demais encontram-se soltos e se ocupam em opor-se aos anjos
bons (Dn.10.13) até o dia do juízo final onde sofreram o tormento eterno
(Ap.20.10).
ANJOS ELEITOS
O
MINISTÉRIO DOS ANJOS
Os
anjos servem em duas esferas: perante Deus, na corte sublime, e na terra, entre
os homens. As referências na Escritura feitas aos anjos são principalmente de
forma narrativa de suas atividades e nelas encontramos um vasto campo de
atividades. Entretanto, o que é mais importante não é o seu relacionamento com
os habitantes da terra, mas, antes, o seu serviço prestado a Deus. O Apóstolo
João nos declara que em sua adoração as criaturas viventes “não tem descanso nem dia nem noite, proclamando: Santo, Santo, Santo é
o Senhor Deus, o Todo Poderoso, aquele que era, que é, e que há de vir”
(Ap.4.8). O profeta Isaías diz que eles “clamavam
uns para os outros, dizendo: Santo, Santo, Santo é o Senhor dos exércitos, toda
terra está cheia da sua glória” (Is.6.3). Com esta mesma intenção o
salmista declara: “Bendizei ao Senhor
todos os seu anjos, valorosos em poder, que executam as suas ordens, e lhe
obedecem à palavra” (Sl.103.20); “Aleluia! Louvai ao Senhor do alto dos Céus,
Louvai-o nas alturas. Louvai-o todos os seus anjos, Louvai-o todas as suas
legiões celeste”(Sl.148.1-2).
O
serviço dos anjos à humanidade não pode ser explicado tomando por base o amor
deles aos homens. Eles não estão interessados em agradar aos homens, mas, antes
de tudo estão interessados em fazer aquilo a que foram designados. Não é
imaginação, mas é realidade, que os anjos estão em nosso meio como servos,
munidos da responsabilidade de nos prestar auxílio (Hb.1.14).
Embora
os anjos estivessem presentes na criação, nenhuma referência foi feita ao
ministério deles até os dias de Abraão. Em companhia do Senhor, eles visitaram
o patriarca em Manre (Gn.18.1-2) e de lá foram libertar Ló. Está escrito que a
lei “foi promulgada por meio de anjos”
(Gl.3.19) e foi administrada “por
ministério de anjos” (At.7.53). O seu cuidado para com o povo eleito de
Deus encontra-se tanto no Velho quanto no Novo Testamento.
Na
terminologia do Antigo Testamento, às vezes os anjos foram chamados de filhos
de Deus, enquanto que os homens foram chamados de servos de Deus. No Novo Testamento isto foi invertido.
Os anjos são servos e os cristãos filhos
de Deus. Esta ordem peculiar, talvez se deva ao fato de que no Antigo Testamento,
os homens foram considerados inferiores aos anjos; enquanto que, no Novo
Testamento, os santos são vistos em relação à sua exaltação final na semelhança
de Cristo, em comparação com o estado dos anjos que é inferior.
Eruditos
como Lewis Sperry Chaffer afirma que os anjos não estão presentes na atual
dispensação, ele diz o seguinte:
No
plano de Deus, a atual dispensação ficou evidentemente desprovida de
manifestações angélicas. Isto pode ser facilmente explicado porque os santos de
Deus estão habilitados, como em nenhuma
outra dispensação, pelo Espírito Santo e sujeitos à Sua orientação, que é mais
constante, vital e dignificante do que as visões angélicas. Contudo, os
anjos se destacarão no encerramento
desta dispensação, quando o Senhor retornar com o grito de arcanjo.[42]
É
indiscutível a presença do Espírito Santo em nosso meio, este fato é descrito
no livro de Atos (At.2.1-13) e sem dúvida o cristão é o templo do Espírito
Santo ( 1º Co. 6.16), mas não podemos concordar com a afirmação supracitada,
pois os anjos estão presentes em nossa
dispensação, um anjo libertou miraculosamente os apóstolos depois da descida do Espírito (At.5.17-20),
Pedro também foi liberto pela intervenção de um anjo (At.12.1-18).
O
escritor de Hebreus é enfático em dizer que: “Não são todos eles espíritos ministradores enviados para o serviço, a
favor dos que hão de herdar a salvação?” (Hb.1.14). Se somos templos do Espírito Santo, que é Deus,
porque os anjos não estariam nesta dispensação? Nós não precisamos mais do seu auxílio?
Segundo Hebreus 1.14 o Apóstolo nos declara que o ministério angélico é vivo e atual.
Capitulo
4
A
CLASSIFICAÇÃO DOS ANJOS
O
ANJO DO SENHOR
Nos
textos mais primitivos do Antigo Testamento a proteção de Javé em favor de
Israel é personificada na expressão “Anjo
de Javé” (Gn.16.7-14; 18.2; 21.17-19; 22.11-14; 31.11-13; Êx.3.2-6). O Anjo
do Senhor significa uma manifestação especial de Deus.
O
ministério deste Anjo lhe dá uma proximidade singular de Deus, nestes textos
parece haver uma alternância intencional, muitas vezes abruptas, entre a
palavra de Javé e a do anjo nestas passagens citadas. Por exemplo em Gênesis
16.7-13 o texto introduz de repente o “Anjo
de Javé”. Ele aparece a Hagar no deserto, como o mensageiro de Deus, alguém
familiar, ante o qual ela nada tem a temer. Hagar reconheceu na promessa do
Anjo a autoridade e o poder de Deus. É um anjo que aparece, mas é Deus quem
formula a promessa.
Em
Êxodo 3.2-6 a alternância ou equivalência entre o Anjo de Javé e Deus é ainda
mais óbvia: quem aparece é o Anjo de Javé, porém quem vê e fala é Javé. É difícil estabelecer uma distinção
clara entre Deus e o Anjo de Javé.
O Novo
Testamento também fala do Anjo do Senhor, expressão que corresponde à antiga
fórmula Anjo de Javé ou Anjo de Deus (Mt.1.20; 2.13; 28.2; Lc.1.11; 2.9;
At.5.19; 8.26; 12.7).
A
maneira pela qual o Anjo do Senhor é descrito distingue-o de qualquer outro
anjo. A ele é atribuído o poder de
perdoar ou reter pecados (Êx.23.20-23).
Duas
coisas são ditas acerca deste anjo. Primeiro, que o nome do Senhor está nele e
segundo, que ele é o rosto do Senhor , o
rosto do Senhor está nele, por isso ele tem poder de salvar (Is.63.9), e de
recusar o perdão. Como diz Alberto Matos: "Não
se pode evitar a conclusão de que este anjo misterioso não é outro senão o
Filho de Deus, o Messias, o Libertador de Israel, e o que seria o salvador do
mundo. Portanto, o Anjo do Senhor é realmente um ser incriado".[43]
O Anjo
do Senhor é a expressão vulgarmente usada no Antigo Testamento para designar o
próprio Cristo em várias de suas manifestações antes da encarnação. Em muitas
passagens ele é distinto de Deus, mas depois é identificado como sendo uma
personalidade divina.
A
Bíblia especifica certos grupos, como também diversos importantes indivíduos
entre os anjos. Mencionamos cinco representações principais de supremacia entre
estes seres, a saber, Tronos (Qronoi),
Domínios (KuriothteV), Principados (Arcai),
Autoridades (Exousiai)
e Poderes (DunameiV). Considerando que a
Bíblia não se compraz em tautologia inútil, podemos crer que há um significado
específico em cada uma dessas denominações, significado esse que sem dúvida
corresponde às realidades terrenas que levam tais nomes. A verdade revelada
relativa aos anjos não é suficientemente completa para que se estabeleça uma
analogia perfeita. O termo Tronos refere-se àqueles que estão sentados sobre
eles; Domínios àqueles que exercem influência; Principados àqueles que
governam; Poderes àqueles que exercem supremacia, e Autoridades àqueles que são
revestidos de responsabilidade especial. Embora haja uma aparente semelhança
entre estas denominações, temos de
presumir que estes títulos representam uma dignidade incompreensível e os diversos
graus de categorias. As esferas celestiais de governo excedem os impérios
humanos como o universo excede a terra.
A
doutrina sobre os anjos segue o desenvolvimento de toda Sagrada Escritura. É um
elemento da história da salvação e toda a Sagrada Escritura se escreve na
dinâmica de seu desenvolvimento histórico. O modo de falar ou de representar o
mundo misterioso dos anjos implica em recurso constante à linguagem do simbolismo
religioso.
No
Oriente antigo os vizíres governavam seus reinos por meio de sátrapas que
constituíam a sua corte. As mitologias orientais concebiam de modo análogo o
governo celeste do universo constituído por um panteão de divindades que
regulamentavam os eventos terrestres.
O
Antigo Testamento mostra o Senhor como um soberano oriental rodeado por uma
grande corte (I Rs.22.19; Is.6.1) . Os
membros de sua corte são seus servidores (Jo.4.18), que são chamados santos
(Jo.5.1) ou filhos de Deus (Dt.32.8).
Arcanjo
(ArcaggeloV) é uma palavra grega que significa, o
principal entre os anjos. O prefixo “arc”, sugere ser um anjo chefe, principal
e poderoso.
Na
Bíblia protestante aparece a menção de apenas um arcanjo, Miguel, seu nome
em hebraico significa: “Quem é como
Deus?”. O significado do seu nome pode
representar uma resposta a Lúcifer, cujo o coração se elevou dizendo: “Serei semelhante ao Altíssimo”
(Is.14.14). Assim, Miguel acrescentado do vocábulo arcanjo denota que nenhum
ser criado pode ser “semelhante a Deus”.
O livro
apócrifo de Enoque menciona o nome de
sete arcanjos, a saber: Uriel, Rafael, Raquel, Saracael, Miguel, Gabriel e Remiel.
Segundo é dito ali, a cada um deles Deus entregou uma província sobre a qual
reinassem. A autoridade de Miguel seria “sobre a melhor porção da humanidade e
sobre o caos”. Segundo este escrito ele é o protetor de Israel como nação.
As
interpretações a respeito desta tripla classificação dos anjos variam bastante.
O Dr. A. H. Strong defende que são “figuras simbólicas,
temporais e artificiais” que “não tem existência pessoal”. Ele tenta comprovar
esta idéia afirmando que estas designações específicas não se encontram
acopladas aos anjos em nenhuma passagem das Escrituras. Smith e Alford defendem
que são apenas símbolos dos atributos de Deus. A grande proporção de
expositores acha que são anjos mais importantes que ocupam posições elevadas,
totalmente à parte, talvez, dos governos. Alguns expositores procuram descobrir
diferença de posição e graduação entre aqueles que receberam tais designativos.
Satisfaz mais atribuir-lhes não apenas o mais alto posto, mais também o mesmo
agrupamento em geral.
Os
diferentes termos usados parecem indicar uma diferença de serviço prestado mais
do que diferença em posição inicial. Por causa da alta posição destes anjos, o
serviço que eles prestam devem ser considerados com a devida atenção.
Querubin
deriva do hebraico, cujo significado é “guardar”, “cobrir”. Com esta função
eles aparecem mencionados em vários textos. Eles agiram como guardiães da
santidade de Deus, tendo guardado o caminho para a árvore da vida no Jardim do
Éden (Gn.3.24).
O
título querubin fala de uma posição elevada e santa, sua responsabilidade está
intimamente relacionada com o trono de Deus, como defensores de Seu caráter. Em
uma nota em Ezequiel 1.5, o Dr. C. I. Scofield em sua Bíblia de referência faz
o seguinte comentário:
As
“criaturas viventes” são idênticos aos querubins. O assunto é um tanto obscuro,
mas da posição dos querubins junto ao portão do Éden, sobre a cobertura da arca
da aliança e em Apocalipse 4, concluímos que eles têm a ver com a vindicação da
santidade de Deus contra o orgulho presunçoso do homem pecador, “para que não
estenda a mão e tome também da árvore da vida” (Gn.3.22-24), apesar do seu
pecado. Sobre a arca da aliança, que é da mesma essência do propiciatório, eles
viam o sangue aspergido que falava, um tipo da perfeita manutenção da justiça
divina pelo sacrifício de Cristo (Ex.25.17-20; Rm.3.24-26). As criaturas
viventes (ou querubins) parecem ser seres reais da ordem angélica. Os querubins
ou seres viventes não são idênticos aos serafins (Is.6.2-7). Aqueles parecem
relacionar-se com a santidade de Deus ultrajada pelo pecado, os serafins, com a
impureza do povo de Deus. A passagem de Ezequiel é altamente figurativa, mas o
efeito foi a revelação da glória Shequiná do Senhor ao profeta. Tais revelações
estão invariavelmente ligadas com novas bênçãos e serviços.[44]
Os querubins aparecem pela primeira vez junto
ao portão do jardim do Éden, depois que o homem foi expulso e como protetores
para que o homem não retorne poluindo a santa presença de Deus. Aparecem
novamente como protetores, embora em imagem de ouro, sobre a arca da aliança,
onde Deus se comprazia em
habitar. A cortina do tabernáculo que separava a presença
divina do povo ímpio, tinha bordados de figuras de querubins (Ex.26.1).
Ezequiel refere-se a estes seres chamando-os pelo seu título dezenove vezes e a
verdade relacionada com eles deriva destas passagens. Ele os apresenta com
quatro rostos diferentes: de um leão, de um boi, de um homem e a
face de uma
águia (Ez.1.3-28; 10.1-22). Este
simbolismo relaciona-os imediatamente com as criaturas viventes da visão de
João (Ap.4.6-5.14).
O
título serafin fala de adoração incessante, do seu ministério de purificação e
de sua humildade. Eles aparecem apenas uma vez nas Escrituras sob
esta designação (Is.6.1-3). Sua atribuição tripla de adoração
conforme registrada por Isaías foi repetida por João (Ap.4.8) sob o título de
criaturas viventes, fato este que de longe estabelece a identidade desse grupo.
O
vocábulo “serafin” vem da raiz hebraica “saraph”, que quer dizer: “consumir
como fogo”. O nome saraph designa também uma serpente venenosa (Nm.21.6-8) ou
uma serpente alada (Is.14.26;30.6). Segundo o Dr. Joann Michl “existe uma suspeita que há uma relação de
origem entre os serafins e as serpentes”. [45]
O modo
com que Isaías fala dos serafins insinua que eram conhecidos dos seus leitores.
Conforme Isaías 6.6, não parecem os serafins destacados para o serviço dos
homens, mas consagrados totalmente ao louvor de Deus. Assemelhando-se ao
“exército do céu”, que está a direita e a esquerda do Trono de Deus (I
Rs.22.19; Jó.1.6).
Diferente
dos querubins, permanecem como servidores em torno do Trono Celestial, cantam
louvores a Ele e estão sempre prontos a fazer o que Ele manda. Enquanto os
querubins são os anjos poderosos, os serafins podem ser considerados os nobres
entre os anjos. Ao passo que aqueles defendem
a santidade de Deus, estes atendem ao propósito da reconciliação, e assim preparam os homens
para aproximar-se apropriadamente de Deus.
Criaturas
Viventes é um título que representa estes anjos manifestando a plenitude da
vida divina, sua atividade incessante e permanente participação na adoração a
Deus. É um titulo que representa os querubins.
Muitos
crêem que Deus criou os anjos caídos, ou que eles se rebelaram porque Deus quis. Ambas as idéias estão
erradas pois Deus nem criou os anjos caídos e nem desejou a rebelião dos mesmos
(Dt.32.4). Os anjos caídos foram criados perfeitos mas, tendo dado ouvidos a
Satanás, terminaram rejeitando a autoridade de Deus.
Como era de
se esperar eles são o contrário
dos anjos eleitos: são
rebeldes (II Pd.2.4), irreverentes (Jd.9), astutos (Mt.4.6; Ef.6.11), ferozes (I Pd.5.8) e traiçoeiros (II Cor.11.14), eles opõem-se aos
propósitos do Criador, afligem ao povo de Deus, executam os propósitos de seu
líder, Satanás. Portanto, em sua reta final o homem caído tem condição de obter
a regeneração através de Cristo, mas não há oportunidade para o anjo caído, seu
destino já está traçado e prestes a ser consumado.
Semelhantemente
como no céu, os anjos destituídos de sua glória procuraram preservar a mesma hierarquia
que antes tinham. A Escritura nos dá subsídios para afirmar que eles ainda
seguem o mesmo líder, Lúcifer.
Na
Escritura, o chefe dos anjos caídos aparece sob uma diversidade de nomes
diferentes. Alguns nomes são próprios e outros, títulos descritivos que nos
mostram sua obra e caráter, como Apocalipse 12.10, onde ele é chamado de “o
acusador de nossos irmãos”.
Muita
coisa nos revelam os seus nomes, são eles: a Serpente, que fala de sua astúcia;
Lúcifer, o filho da alva, que era o seu título no céu antes da queda; Diabo,
que significa acusador, ou caluniador; Satanás,
que significa oponente; Apolion, que significa destruidor; Dragão, que
fala do seu poder; o Príncipe deste mundo; Príncipe dos poderes do ar; o deus
deste mundo. Quatro destes títulos pessoais aparecem em um único versículo
(Ap.12.9).
Este
poderoso anjo aparece na Bíblia com destaque, importância e poder, ele é o
agente infernal que está no comando de todos os demônios. Ele penetra na
história da humanidade desde a sua primeira página e vai até o seu final,
sempre apresentado como um fator muitíssimo vital nos negócios dos homens, dos
anjos e do universo propriamente dito. É muito significativo que as Escrituras
tracem com detalhe e cuidado a existência desta pessoa excessivamente cruel e
maldosa desde a sua criação, através de toda a sua carreira, até o seu
julgamento final. Tal distinção não foi atribuída a nenhum outro anjo ou ser
humano, que tenham sido usados por Deus. Nenhum
outro foi assim analisado e
revelado quanto às suas motivações, seus métodos, seu caráter e seus
propósitos.
Encontramos
esta ampla revelação e nos sentimos desafiados a prosseguir, considerando que
esta importante doutrina da Bíblia é a verdade relativa a um ser que foi
originador do pecado, o promovedor deles nas esferas angélicas e humana, e o mais
imperioso oponente das coisas de Deus.
Poucos
podem dizer como o Apóstolo: “Não somos
ignorantes dos seus ardis”
(II Co. 2.11). Este ser é aquele “que
engana o mundo inteiro” e de maneira muito evidente quando o mundo não
acredita em sua existência. Esta incredulidade promove, sem dúvida e
grandemente, a sua vantagem. Quando as pessoas estão desinformadas ou mal
informadas, tornam-se uma presa fácil do poder do inimigo das almas. Os
saduceus modernos procuram resolver este assunto chamando este ser “de uma
figura de linguagem, uma personificação metafórica do mal” ou “uma ilusão das
mentes insanas”. Eles negam a sua personalidade como também a dos demônios.
Satanás incentiva tais impressões uma vez que desarmam o preconceito e o temor
em relação ao seus empreendimentos infernais. Quanto à possibilidade deste
poderoso anjo não passar de uma simples “figura de linguagem”, sem
personalidade real, devemos notar que figuras de linguagem não são anjos
criados que pecam, e seres do reino das trevas condenados a um julgamento final
horrível nas mão de Deus. Uma metáfora não podia entrar em um bando de porcos e
precipitá-lo para uma destruição imediata (Mt. 8.31). Como também uma metáfora
não poderia oferecer os reinos deste mundo ao Senhor, declarando que esses reinos
lhes foram dados para que desse a quem
quisesse dar (Mt. 4.1-11). Sobre isto o Dr. Gerhar nos diz o seguinte:
A
exegese racionalista que atribui possessões demoníacas à superstições e
transforma os registros do Novo Testamento sobre este tema sombrio em fantasias
ilusórias, se fora aplicada a todo o ensino bíblico sobre as coisas invisíveis
e sobrenaturais, transformaria todo o mundo espiritual em irrealidade. Entre
as zombarias sobre o diabo e as zombarias sobre o Redentor existe apenas um pequeno
passo. Não devemos esquecer que a crença na personalidade do diabo e na
influência dos demônios nos negócios humanos assumiram formas grotescas durante
a Idade Média, nem que a má interpretação da possessão diabólica levou homens
bons a cometer atos de horror. Mas será que os abusos dos fatos das Escrituras
prova que não há veracidade em sua declaração do poder do diabo sobre os homens
maus e sobre a natureza? Será que é superstição dizer que satanás é o
“maligno”, que é o “príncipe deste mundo?”. Só porque alguns teólogos e mestres em outros séculos entenderam mal e
aplicaram mal alguns dos milagres de nosso Senhor? Se esta maneira de
raciocinar fosse aplicada às verdadeiras
superstições, os monstruosos erros do politeísmo não provariam que não existe
Deus? O oráculo de Delfos não provaria que Isaías não pode ser um profeta
genuíno? Ou a feitiçaria da África não provariam que nenhum culto é digno dos
homens? Ou os totens dos índio americanos não provariam que não existe
providência divina?. [46]
Cada
elemento da personalidade de Satanás foi estabelecido na Escritura. A
sociedade, de maneira estranha, retém a terminologia bíblica aplicada a
Satanás, embora cada vestígio dessa terminologia esteja esvaziado do seu
verdadeiro significado. Sem referência à revelação, a sociedade imaginou um ser
grotesco, ornado de estranhos atavios, que se tornou o personagem central de
peças de ficção e de teatro e, então, convencido de que tal ser como esse que
pintou não existe, lançou todo o conjunto de verdade revelada ao limbo dos
mitos de uma era passada. Infelizmente, o verdadeiro ser apresentado nas
Escrituras não desapareceu com tal desprezo pueril e travesso da solene verdade
de Deus. Não há falta de evidência da personalidade de Satanás e dos demônios.
O registro de seus atos, como o de seu destino compõem as páginas mais negras
das Escrituras. O Lago de Fogo foi
preparado “para o diabo e seus anjos”
(Mt.25.41). Personagens de ficção e metáforas não são julgados com a morte de
Cristo nem condenados ao Lago de fogo.
Os
conflitos e provações dos cristãos se explicam totalmente dentro de três
realidades: o mundo, a carne e o diabo. Satanás, “o deus deste mundo” é uma personificação viva da mentira. Mais reveladoras
são as palavras de Cristo dirigida aos judeus: “Vós sois do diabo, que é o vosso pai, e quereis satisfazer-lhe os desejos.
Ele foi homicida desde o princípio e jamais se firmou na verdade. Quando ele
profere mentira, fala do que lhe é próprio porque é mentiroso e pai da
mentira" (Jo.8.44). Sobre isto
o Apóstolo nos dá um testemunho triplo: Encontramos a declaração de que Satanás
é o sedutor de todo o mundo (Ap.12.9); Ele será lançado no abismo fechado e
selado para que “não mais enganasse as nações
até se completarem os mil anos” (Ap.20.2-3), e por fim, quando ele for
solto encontramos a declaração de que “sairá
a seduzir as nações que há nos quatro cantos da terra” (Ap.20.7-8). A
natureza maligna que domina a carne nasceu da mentira de Satanás no Jardim do
Éden, e ele mesmo é um contendedor vivo
que se opõe ao crente, não apenas na esfera da carne e do sangue, mas também no
reino de atividade espiritual.
Três
objeções foram formuladas contra esta doutrina bíblica subsidiária da
angelologia: 1. Diz-se que sua origem está na mitologia, Satanás não existe e
por isso não há necessidade de estudarmos acerca de tal pessoa; 2. Esta
doutrina trata-se de um maniqueísmo cristão, a infinita guerra entre o bem e o
mal é algo que sempre vai existir, pois os dois se equilibram em força; 3. Deus
é o criador de tudo, Satanás como criatura sua não milita contra Ele, pois no
final, como no princípio, “Deus é tudo em
todos”.
A
biografia de Satanás é longa, que retrocede ao passado imemorial, está no
presente e penetra na eternidade vindoura. Estes aspectos da história (criação, estado
original e queda) deste grande anjo estão de tal maneira interligados que
dificilmente podem ser examinados separadamente. A revelação relativa a Satanás começa em um
período sem data, entre a criação dos céus e da terra, naquela forma perfeita
na qual eles aparecem pela primeira vez
(Gn.1.1).
A
passagem central que trata especificamente destes aspectos de Satanás é
Ezequiel 28.11-19. Esta passagem é um esboço sobre o mais poderoso dos
anjos; mostra um período da primeira glória da terra e fala sobre o pecado angélico
inicial. O contexto imediato e circundante da profecia de Ezequiel apresenta um
registro dos julgamentos divinos dos inimigos de Israel e, segundo I Crônicas
21.1, Satanás pertence a este grupo.
A
porção que apresenta a verdade relativa a Satanás está um tanto oculta uma vez
que se encontra acomodada a retórica oriental. É um meio legítimo de expressão
divina como qualquer outra forma de literatura, mas transmite a sua mensagem
apenas àqueles que buscarem o seu significado mais profundo com muita atenção.
Para se
entender corretamente esta revelação vital sobre Satanás é muito importante
observar que os versículos precedentes a este capítulo (Ez.28.1-10), embora sejam dirigidas ao “príncipe de Tiro”, são claramente uma
palavra ao homem do pecado, a obra prima e personificação final de Satanás,
como também a que segue é uma palavra ao próprio Satanás.
Há um
significado notável na maneira pela qual estes dois discursos estão
relacionados e foram colocados em seqüência. O homem do pecado está
identificado através da Escritura por sua presunção blasfema de ser Deus. Assim
como um príncipe é inferior e está sujeito a um rei, o homem do pecado está
sujeito a Satanás.
Antes
do discurso para um “príncipe” e um “rei”, faz-se alusão a quatro nações.
Amom, Moabe, Edon e Filístia, e a mensagem a estas nações encontra-se reunida
em dezessete versículos, enquanto que a mensagem dirigida a cidade de Tiro
ocupa oitenta e três versículos. Esta proporção é impressionante, sugerindo a
importância simbólica desta cidade. Tiro era a cidade comercial do mundo, como
a grande Babilônia fora antes. Com esta ênfase dá-se a entender a promoção do ideal do sucesso do mundo. Tiro
é o símbolo de um mundo que ama a Mamon.
Assim
como o Filho maior de Davi é distinguido nos Salmos messiânicos pelos aspectos
sobrenaturais apresentados, a pessoa chamada nessa passagem de “rei de Tiro” é , conforme descobrimos,
o mais elevado dos anjos. Não poderia ser um mortal. Alguns dos aspectos
importantes dessa passagem serão aqui examinados.
Esta
passagem se enche de extraordinária importância quando reconhecemos nela a
palavra de Jeová ao “rei de Tiro” e não a palavra do profeta. "Uma
lamentação" que significa intensa angústia acompanhada de gestos de bater
no peito, é um termo impressionante
quando descreve a tristeza de Jeová derramada sobre o pecador; e não é o que
acontece sempre? Jeová deixa de lamentar alguma vez as suas criaturas errantes?
Se aceitássemos que há uma aplicação secundária deste lamento a algum rei de
Tiro, tal conjectura seria de pouco valor ou significado à vista dos aspectos sobrenaturais
que são imediatamente apresentados; pois “assim
diz o Senhor Deus: Tu és o sinete da perfeição cheio de sabedoria e formosura”.
Tal expressão é um superlativo até mesmo com os padrões divinos. A intimação
que todo poder criativo divino com referência à sabedoria e formosura foi
representada neste rei. Essa terminologia não teria lugar na boca de Jeová
relativamente dirigindo-se a um homem, que não passa de um rei pagão.
A
expressão, entretanto, está de acordo com a verdade quando consideramos que é
uma mensagem dirigida ao maior de todos os anjos em seu estado perfeito, antes
da queda.
O Éden
é tanto o Jardim de Deus (Ez.28.13) quanto o
monte santo de Deus (Ez.28.14-16), é um conceito não encontrado em
Gênesis.
Pouca
diferença faz se esta referência é o Éden de Gênesis ou um Éden anterior.
Satanás esteve nos dois; mas ninguém
poderá afirmar que qualquer rei de Tiro fosse assim favorecido. Os ornamentos
de jóias sugerem sua grande importância e o resplendor de sua aparência. Assim,
cheio de resplendor, ele foi apresentado no Jardim do Éden, pois o seu nome no
hebraico, “nahash”, significa: serpente
(Gn.3.1), o reluzente. O apóstolo
declara que mesmo agora ele se transforma em um anjo de luz (II Cor.11.14).
Estas pedras preciosas aparecem apenas três vezes no registro bíblico: no peito
do sumo sacerdote, que era a manifestação da graça divina; na nova Jerusalém,
que reflete a glória de Deus, e como a vestimenta deste grande anjo, sinal de
sua elevada posição.
Nenhuma
distinção poderia ser imposta a qualquer criatura que fosse mais exaltada do
que a imposta por estas pedras. Semelhantemente, esta figura apresenta este
anjo como criado para ser um diadema de louvor ao seu Criador. Ele não
precisava de um instrumento de louvor para glorificar a seu Criador; ele era o
diadema de louvor.
A declaração
mais reveladora neste versículo é a afirmação que ele é um ser criado.
No verso 15 há uma repetição, onde se
diz que ele era “perfeito” em todos os
seu caminhos desde o dia em que foi
criado. O poder e a sabedoria deste ser são tão extensos que “não poucos têm suposto que ele fosse eterno
como o próprio Deus.”[47]
Sendo uma criatura, apesar do seu estado, no final ele ficará sujeito ao seu
Criador e irá prestar-lhe contas.
TU
ERAS (28.14)
- Como já dissemos, anteriormente, os querubins estão relacionados com o trono
de Deus na qualidade de protetores e defensores de Sua santidade. Que este ser
pertença à ordem dos querubins é impressionante.
Jeová
dirige uma palavra especial ao anjo neste ponto: “... te estabeleci” e, a
seguir, as palavras reveladoras: “Permanecias
no monte santo de Deus”. Este
serviço específico de querubim,
ou protetor, era prestado no próprio Trono de Deus uma vez que a frase, monte santo de
Deus, no uso que tem no Antigo Testamento, é o lugar da autoridade de Deus
(Ex.4.27; Sl.2.6;3.4; 43.3; 68.15).
A
partir destas revelações podemos concluir que este grande anjo foi criado acima
de todos os anjos para ser o defensor do trono de Deus. Se alguém disser que
Deus, sendo o Todo-Poderoso, não precisa dessa defesa, podemos responder que
não é uma questão de necessidade de Deus, mas antes, uma revelação do que
Deus resolveu estabelecer. Ele sem
dúvida não precisa dos querubins junto ao portão do Éden, mas Ele os colocou ali.
A
última frase, “no brilho das pedras
andavas”, é um tanto obscura. Pode referir-se a uma glória anterior na
terra. As “pedras afogueadas” talvez
fossem a manifestação do fogo consumidor que Jeová é. Nesse caso, esta
declaração sugeria que o primeiro estado deste anjo era de relacionamento
ininterrupto com a santidade divina.
É
preciso reconhecer que nenhum rei de Tiro atende a esta exaltada descrição.
Nenhum homem pecador jamais foi tal
diadema de louvor, nem foi diretamente criado por Deus, nem pertenceu ao grupo
dos querubins, nem foi colocado no monte santo de Deus, nem andou no meio das “pedras afogueadas”, nem foi perfeito em
todos os seus caminhos desde a sua criação.
PERFEITO
ERAS (28.15)
- A descrição muda agora e revela-se o fato do primeiro pecado deste anjo.
Achou-se iniquidade nele. A antiga perfeição ficou para trás. A insinuação é
que foi descoberto um pecado secreto.
A
onisciência de Deus não pode ser enganada, nem de deixar de conhecer todas as
coisas. Se os nossos segredos estão sob a luz do Seu rosto (Sl.90.5), também o
mesmo acontece com os pecados secretos dos anjos. Satanás caiu da perfeição
original pois queria ser igual a Deus.
E
PECASTE ( 28.16-17) -
A palavra "comércio" é muito sugestiva. O mesmo pensamento ocorre com referência ao homem do
pecado expresso pela palavra comércio (Ez.28.5). A idéia aqui esta muito
afastada dos negócios e transações no comércio feito pelos seres humanos.
O significado do termo é “andar por aí”.
Talvez indique que Lúcifer
andava entre os anjos difamando Deus, para assegurar a fidelidade deles
ao seu propósito de rebelião contra o Criador.
Pensava
ele que fazia algo as escondidas do Criador, que Deus seria surpreendido com
suas atitudes.
JAMAIS
SUBSISTIRÁS (28.18-19) - Estes versículos
apontam para o julgamento futuro e final que Deus preparou para este anjo
poderoso, julgamento esse que foi mais completamente descrito em outras partes
da Escritura..
Neste
contexto Deus registra a origem, o
estado, o caráter e o pecado do maior de
todos os anjos. A importância desta revelação na doutrina dos anjos e na
doutrina do homem não pode ser superestimado.
Deus não criou Satanás como tal; Ele criou um
anjo que era perfeito em todos os seus caminhos, e esse anjo pecou opondo-se à
vontade de Deus. Através desse ato ele se tornou Satanás, o oponente, e tudo
mais que estes títulos dão a entender.
A antiga questão levantada pelos céticos do
passado sobre quem fez o Diabo foi respondida nesta passagem que acabamos de
considerar. Vimos que Deus criou um anjo santo com poder de escolher entre o
bem e o mal, e que ele escolheu o mal. Através do poder degenerador do pecado,
Satanás, como também Adão, tornou-se um ser totalmente diferente daquele que
Deus criou.
Quando
Deus cria um ser para cumprir um determinado propósito, esse ser tem de cumprir
perfeitamente esse ideal divino. Portanto, quando procuramos descobrir a
personalidade deste grande anjo, seria bom identificar o propósito para o qual
Satanás foi criado e avaliar as qualidades que tinha em vista desse propósito.
Com o
seu pecado ele perdeu a sua santidade original e a sua posição celestial, mas
conserva a sua sabedoria, voltou à sua imensa capacidade para o mal e o seu
entendimento foi prostituído ao nível das mentiras, das fraudes, das ciladas e
dos artifícios. A extensão destes empreendimentos malignos, seu caráter exaltado,
sua motivação e método, constituem uma porção deste vasto tema. Sobre esta
passagem de Ezequiel F. C. Jennings
conclui dizendo o seguinte:
a) Pelo seu cenário e linguagem não pode
aplicar-se a algum filho do homem pecador; é impossível. b) Portanto, necessariamente, refere-se
a um espírito
ou anjo. c) Este anjo ou
espírito, seja quem for, foi pessoalmente a coroa dessa primeira criação. d) Sua tarefa era proteger o trono de Deus, proibindo a
aproximação do mal, ou de qualquer injustiça. e) Achou-se nele iniquidade e,
essa iniquidade foi a
auto exaltação.
f) Foi pronunciada a sentença da expulsão do
seu lugar, embora não tenha sido, pelo menos totalmente, executada.[48]
Em
Isaías 14.12-17 foi delineado o pecado de Satanás. É verdade que, desde o
princípio, Satanás não cessou de pecar; mas estamos especificamente
interessados em seu pecado inicial, pecado esse que foi o primeiro pecado a ser
cometido no universo. De fato, o primeiro pecado a ser cometido não só
explica-nos muito sobre a pessoa que o cometeu, mas também é a norma ou padrão
de todo pecado, demonstrando o elemento do pecado que faz dele o que é : “sobremaneira maligno” (Rm.7.13).
Esta
referência de Isaías da lugar à questão
se Satanás está agora residindo realmente fora do céu, ou se ainda
habita na esfera em que foi colocado quando foi criado. Uma idéia popular, que
surge totalmente alheia à revelação, diz que Satanás habita nas regiões
inferiores, senão no próprio inferno.
Em
relação a isto, é essencial considerar que na Bíblia encontramos a referência a
três céus: a) a atmosfera na qual “as aves do céus” se movem e na qual “o
príncipe das potestades do ar” tem autoridade e está ativo; b) os espaços
estrelares que, como já indicamos antes, são a habitação dos santos anjos; e c)
o “terceiro céu” que é a habitação do Deus trino, local esse que não pode ser determinado.
A questão é se Satanás com o seus anjos foram lançados para fora de sua
habitação original. Certas passagens lançam luz sobre este problema. Sobre isto
Jesus disse: “Eu via Satanás caindo do
céu como um relâmpago” (Lc.10.18). Em Apocalipse 12.7-9 fala de Satanás
sendo expulso do céu para a terra e, como foi descrito, evidentemente vai
acontecer no futuro. Em Ezequiel 28.16-19 é prevista a expulsão de Satanás. Esta
palavra não revela o tempo quando esta promessa será cumprida, além do fato de
que estes versículos estão associados com o julgamento final de Satanás.
Certas
passagens dão a entender que Satanás está atualmente no céu ao qual ele tem
direito por criação. Em Jó 1.6 e 2.1 afirma-se que Satanás estava presente no
céu. Em Jó 1.6 aparentemente, nos mostra que não havia nada de incomum com a presença de Satanás naquele lugar e
ocasião. Ele foi chamado para prestar relatório de suas atividades, e ele o
fez. Neste relatório ele revela ter
liberdade suficiente para “rodear a
terra, e passear por ela”, como também de aparecer na presença de Deus nas
alturas. Cristo advertiu a Pedro: “Simão,
Simão, eis que Satanás vos reclamou (exhthsato = “pediu”) para vos peneirar como trigo” (Lc.22.31). As implicações são que Satanás apareceu
pessoalmente diante de Deus com este pedido. Em Efésios 6.11-12 o apóstolo nos
dá uma advertência e com a mesma finalidade nos declara que os poderes do mal
ainda se encontram nas esferas celestiais. As evidências que este conjunto de
passagens apresenta, e aparentemente não há testemunho contrário, é que Satanás
ainda se encontra na sua habitação original e ali ficará até que, segundo
Apocalipse 12.7-9, será lançado na terra
como parte da experiência da tribulação.
Ezequiel
28.11-19 e Isaías 14.12-17 que contribuem tanto para a revelação da história
passada de Satanás precisam ser interpretadas de acordo com os diferentes
pontos de vista destes autores humanos. Ezequiel em sua visão profética estava
no limiar da história angélica e viu em perspectiva o final da carreira de
Satanás, enquanto que Isaías em sua visão profética estava no final desta
história e viu em retrospectiva o que ele registrou.
Isaías
viu assim de trás para frente, explica a
sentença que dá início à sua profecia, que presume que este poderoso anjo terá
então caído do céu. Grande parte do que se encontra nesta predição ainda não se
cumpriu em sua medida completa. Os grandes empreendimentos deste anjo como
Isaías os viu ainda não se concluíram.
Estes
dois profetas empregam contrastes extremos nos títulos que aplicam a este anjo.
Quando começou a descrever o santo e elevado estado deste anjo quando foi
criado, Ezequiel se dirige a ele,
falando em nome de Jeová, chamando-o de “rei
de Tiro”, enquanto que Isaías, procurando apresentar a degradação deste
ser, dirige-se a ele usando o seu título celestial, “Lúcifer, filho da alva”. Parece que estes títulos foram assim
propositalmente empregados com o intuito de colocar estes dois estados, de todo
o mais alto poder criativo e o da extrema degradação de um anjo, em surpreendente
justaposição.
O
título, “Lúcifer, filho da alva”, é a
gloriosa designação deste grande anjo antes de seu fracasso moral. Lúcifer
significa “luminoso” ou “brilhante” e é quase idêntico a Nahash, a serpente,
que significa “a luminosa”.
O
profeta Isaías anuncia a queda deste anjo e algo do seu grande poder
(Isaías.14.12-17). Sobre este poder ele disse: “tu que debilitava as nações”, “que
fazes estremecer a terra”, “tremer os
reinos”, “que punha o mundo como um deserto”, “assolava as suas cidades” e “que a seus cativos não deixa ir para as
suas casas”.
Ao que
nos parece o pecado de Satanás tinha a pretensão de permanecer em segredo. Este
é o significado das palavras “tu
dizias no teu coração”. Desta forma,
nesta passagem é nos mostrado que o pecado de Lúcifer consiste em cinco
declarações contra a vontade de Deus. Estas cinco declarações de Satanás são
evidentemente os diversos aspectos do mesmo pecado, o de procurar subir acima
da esfera para a qual ele foi criado e acima do propósito a serviço que lhe
foram atribuídos. As cinco declarações foram as seguintes:
1. “Eu
subirei ao Céu”. Ele
propunha-se aparentemente fazer
habitação no terceiro céu, no mais alto dos céus onde Deus habita. A habitação
dos anjos é evidentemente em um plano inferior; pois, quando retornou ao mais
alto céu, após a Sua ressurreição, Cristo assentou-se “acima de todo
principado, e potestade, e poder, e domínio” (Ef.1.20-21); mas Satanás, cuja
habitação é a mesma dos anjos, embora seus deveres lhe dessem acesso às esferas
da terra e às outras mais elevadas (Jo.1.6; Ez.28.14), em uma auto-promoção
ímpia determinou que a sua habitação deveria ser mais elevada do que a esfera
que lhe fora designado por seu Criador. Sua intenção egoísta conforme nos foi
revelada nesta declaração é um ultraje contra o plano e o propósito do Criador.
2. “Acima
das estrelas de Deus exaltarei o meu trono”. Com esta declaração Satanás
revelou que, embora designado como guardião do trono de Deus aspirava possuir
um trono seu e governar sobre “as estrelas
de Deus”. Os seres angélicos e não o sistema estelar, é o que está
obviamente em vista (Jo.38.7; Jd.1.13; Ap. 12.3-4). Ao que nos parece grande
parte da ímpia ambição de Satanás de possuir um trono foi atendido, pois
sabemos que agora ele é um rei reconhecido, embora julgado, com autoridade
tanto no reino celestial (Mt.12.26; Ef.2.2; Cl.2.13-15) como na esfera
terrestre (Lc.4.5-6; II Co.4.4;
Ap.2.15). O caráter pecador do propósito de Satanás de garantir um trono é
visível.
3. “No
monte da congregação me assentarei, nas extremidades do norte”. Segundo
Isaías 2.1-4, “o monte” se refere ao lugar do governo divino na terra, e a
referência à “congregação” é claramente a Israel. Assim, esta presunção específica parece
referir-se a participar pelo menos do governo messiânico na terra. Este reino
terá sua sede em Jerusalém, a cidade do grande Rei. O Messias vai reinar no
monte Sião “para os lados do norte”
(Sl.48.2). A crucificação de Cristo foi ao norte de Jerusalém, ali Cristo
julgou e despojou os principados e potestades (Cl.2.15). É possível que, ao ser
assim julgado, os desígnios ímpios de Satanás de apoderar-se do governo
messiânico foram desfeitos para sempre.
4.
“Subirei acima das mais altas nuvens”. Das mais de cento e cinqüenta
referências às nuvens na Bíblia, cem relaciona-se com a presença e glória
divina. O significado desta arrogante declaração provavelmente se descobrirá no
uso da palavra nuvens. Jeová aparecia em uma nuvem (Ex.16.10); a nuvem era
chamada de “a nuvem do Senhor” (Ex.40.38); quando Jeová
estava presente, a nuvem enchia a casa (I Rs.8.10); “O Senhor, cavalgando numa
nuvem ligeira” (Sl.104.3; Is.19.1); Cristo virá, assim como foi, sobre as
nuvens do céu (Mt.24.30; At.1.9; Ap.1.7); assim também o povo remido aparecerá
(Is.60.8; I Ts.4.17). “O homem do pecado”
de Satanás se exaltará “contra tudo o que
se chama Deus, ou objeto de culto” (II Ts.2.4) e com esta arrogante
declaração Satanás está evidentemente procurando assegurar-se de alguma glória
que pertence somente a Deus.
5. “Serei
semelhante ao altíssimo”. Esta última
das declarações de Satanás contra a vontade de Deus pode ser considerada
como a chave para entender e pesquisar suas motivações e seus métodos. Apesar
de uma impressão quase universal de que o ideal de Satanás é ser diferente de
Deus, aqui se revelou com o propósito de ser semelhante a Deus. Contudo, esta
ambição não é de ser como Jeová, o auto-existente, o que nenhum ser criado
poderia ser; mas ser semelhante ao
altíssimo, título que significa “que
possui os céus e a terra” (Gn.14.19-22). O propósito de Satanás então, é
ter autoridade sobre os céus e a terra. O caráter essencial maligno do pecado
aqui, como qualquer outra parte, é a rebeldia da parte da criatura de
permanecer na posição exata na qual foi colocado pelo criador. Na busca de um
propósito de ser imitador de Deus e copiador dos empreendimentos divinos,
Satanás, aparentemente com sinceridade recomendou a Adão e Eva que também
fossem “como deuses’. A palavra original traduzida aqui para “deuses” é Elohim
e a forma plural de Elohim evidentemente explica o plural de “deuses”. O que
Satanás realmente disse foi: “Vocês serão
como Elohim”. Em resposta a esta sugestão, que apenas refletia a suprema
ambição do próprio Satanás de ser semelhante ao Altíssimo, Adão penetrou no
mesmo caminho ímpio de repúdio do propósito divino.
O
pecado de Satanás pode portanto ser
resumido como um propósito de garantir: 1. a mais alta posição celeste;
2. direitos reais no céu e na terra; 3. reconhecimento messiânico; 4. a glória
que pertence a Deus somente; e 5. uma semelhança com o Altíssimo, “que possui
os céus e a terra”.
Não
pode haver uma estimativa adequada do efeito imediato do pecado de Satanás,
primeiramente sobre si mesmo, e então sobre o vasto exército de seres
espirituais que em fidelidade a Satanás, não guardaram o seu estado original.
Ele foi
apresentado no Antigo Testamento sob diversas caracterizações, mas aparece
apenas quatro vezes Antigo Testamento sob o
nome hebraico de Satanás. Em
I Crônicas 21.1 temos um registro da verdade que Satanás
levou Davi a contar o povo de Israel contrariando a vontade do Senhor, e este
ato da parte de Satanás ilustra bem o
seu propósito e caráter. O Salmo 109.6 e Zacarias 3.1-2 revelam o mesmo
desígnio satânico. Na primeira destas duas passagens, a presença de Satanás é
invocada como um julgamento contra os inimigos de Jeová, enquanto que, na
segunda, Satanás está de pé numa atitude
de prontidão para resistir ao propósito divino em benefício de Josué, o sumo
sacerdote. É o próprio Jeová que
repreende Satanás diretamente, esta passagem faz paralelo com Judas 9 onde Miguel
invoca Jeová para repreender Satanás. A outra referência do Antigo Testamento a
Satanás é a reveladora narrativa da controvérsia de Jeová com Satanás por causa
de Jó.
O Novo
Testamento encontramos uma longa atividade de Satanás e dos demônios,
certamente, como o eterno propósito de Deus na redenção que estava para se
realizar, a mais violenta oposição foi estabelecida pelos poderes das trevas
contra o propósito de Deus. Parece que toda a possível oposição existente dos
anjos caídos foi disposta em ordem de batalha para este encontro. Tal esforço
supremo da parte de Satanás está de acordo com a verdade revelada, mas também
está de acordo com a razão. Só uma situação poderá ser comparada a está, a
saber, o período que precederá imediatamente ao segundo advento de Cristo,
onde, conforme está anunciado em
Apocalipse 16.13-14, “eles são espíritos
de demônios operadores de sinais, e se dirigem aos reis do mundo inteiro com o
fim de ajuntá-los para a peleja do grande dia do Deus Todo-Poderoso”. Esta
situação é mais detalhadamente apresentada no Salmo 2, como também em
Apocalipse 19.17-21. O verdadeiro caráter deste conflito futuro fica
esclarecido quando notamos que estes reis guerreiros estarão possuídos por demônios.
Conforme
descrito no Novo Testamento podemos perceber uma dupla classificação nas
atividades de Satanás: a que vem através de sua autoridade como rei sobre os
espíritos do mal e a que surge através de seu domínio mundial (II Cor.4.4; Lc.4.6).
Colossenses
contem duas passagens notáveis, que anunciam o caráter ilimitado de
Cristo na cruz. Em 1.15-18 é atribuído a Cristo a criação de todas as coisas e
a preeminência acima de toda a sua criação, a epístola prossegue declarando nos
versículos 19-22 o seguinte: “Porque aprouve a Deus que nele residisse
toda a plenitude, e que, havendo feito a paz pelo sangue da cruz, por meio dele
reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, quer sobre a terra, quer nos céus.
E a vós outros também, que outrora eréis estranhos e inimigos no entendimento pela
vossas obras malignas, agora, porém, vos reconciliou no corpo da sua carne
mediante a sua morte, para
apresentar-vos perante Ele, santos inculpáveis, e irrepreensíveis”. O
aspecto desta reconciliação que a cruz provê é tão sem limites quanto o reino que
inclui tanto os céus quanto a terra.
O termo
reconciliação não é o equivalente a restauração ou salvação. Seu significado
exato é “mudar totalmente” e o seu resultado se evidencia no fato da estimativa
divina de todas as coisas terem mudado completamente na cruz. Em II
Coríntios 5.19 quando nos diz que Deus
reconciliou o mundo consigo, não esta declarando que todos os homens são
salvos, ou que todos serão salvos. E com um significado, a reconciliação de “todas as coisas”, conforme Colossenses
1.20 não da a entender que todas as coisas no céu e na terra estão agora
perfeitos diante de Deus, ou que necessariamente o serão. A reconciliação que
foi operada na cruz fornece um fundamento para a redenção daqueles que
foram escolhidos por Deus e um fundamento
para o julgamento daqueles que rejeitam Sua provisão.
As
Escrituras não dão a menor indicação de que os homens caídos que continuam impenitentes, ou que os anjos caídos, serão
salvos do seu destino (Mt.25.41; Ap.20.12-15).
Cristo estendeu o seu benefício a todas as coisas, nos céus e na terra.
Satanás e os seus exércitos foram julgados. Os anjos caídos e seus atos
malignos vieram à tona para o julgamento divino e foram julgados embora a
execução deste julgamento esteja ainda no
futuro.
A
segunda passagem de Colossenses é extraordinariamente explícita, embora nem
tudo o que ela anuncia possa ser
entendida pelos habitantes dessa esfera. Ela diz: “Tendo cancelado o escrito da dívida que era contra nós e que constava
de ordenanças, o qual nos era prejudicial, removeu-o inteiramente, encravando-o
na cruz; e, despojando os principados e as potestades, publicamente os expôs ao
desprezo triunfando deles na cruz” (2.14-15). Aqui, como antes, o valor da
cruz se vê estendido aos dois reinos, ao humano (v.14) e ao angélico (v.15).
Dentro do reino angélico, realizações estupendas foram indicadas pela revelação
de Cristo, com sua morte despojou principados e potestades, publicamente os
expondo ao desprezo, triunfando deles na cruz. A imaginação humana poderia
conceber tudo isto sendo realizado em um julgamento final, mas esta realidade
mediante a cruz de Cristo é uma realidade presente. Satanás já foi julgado
(Jo.12.31;16-11). Hebreus 12.14 declara
o seguinte: “Visto, pois, que os filhos
têm participação comum de carne e sangue, destes também ele, igualmente,
participou, para que, por sua morte, destruísse aquele que tem o poder da
morte, a saber, o diabo”. Assim, por meio da Escritura podemos chegar à
conclusão que Satanás e os seus exércitos foram julgados, despojados,
desmascarados, vencidos, sentenciados e expulsos por Cristo na Sua morte.
A
execução do julgamento feito contra Satanás por Cristo no Calvário foi
antecipado nas Escrituras em três estágios sucessivos. Estes deverão ser
considerados totalmente à parte dos três julgamentos já passados, a saber: 1. a degradação moral e
correspondente perda de posição devido à queda,
2. a
sentença pronunciada contra ele no Jardim do Éden, e, 3. o julgamento da cruz.
A futura execução do julgamento de Satanás pode ser assim exposta:
1.
Satanás é expulso dos céus. – A expulsão de Satanás dos céus junto
com seus anjos para a restrita esfera terrestre, encontra-se descrita em
Apocalipse 12.7-12. Além da revelação da verdade central que Satanás e seus
anjos são expulsos do céu, esta passagem revela muitas outras verdades vitais.
Os meios que serão empregados para expulsar Satanás e os seus anjos não serão
outros além da autoridade e do poder dos santos anjos sobre a liderança de
Miguel. Os anjos caídos, estando vencidos, serão exilados de suas esferas
naturais e confinados à terra.
Um
canto de regozijo sobe aos céus por causa do alívio que a ausência destes anjos
caídos provoca. Tudo isto é muito sugestivo. Da mesma maneira um lamento é
dirigido à terra em vista das calamidades que a presença deles impõe aos seus
moradores. Em conexão com este exílio a grande ira de Satanás é excitada, é aparentemente aí que ele toma
consciência de que a causa que abraçou desde o princípio está perdida para
sempre. A presença de Satanás e suas hostes restringindo à terra, cheios de
imensurável ira, dificilmente poderia ser um motivo de alegria para a terra.
Esta situação é um dos fatores que contribui
para a grande tribulação que foi predita para aqueles dias (Mt.24.21;
Dn.12.1).
A
expulsão das hostes satânicas dos céus significam muito, também, para os
“irmãos” que Satanás não tem cessado de acusar dia e noite, diante de Deus. O
que é que constitui a oposição de Satanás
ao relacionamento de Deus com os homens? Talvez exista um não
pequeno ressentimento por causa da
redenção que não foi estendida aos anjos como ela é estendida aos homens.
Talvez Satanás ainda exerça parte de sua responsabilidade original, como
defensor e promotor da justiça sobre a qual o trono de Deus deve permanecer
para sempre. O plano redentor propõe-se a apresentar os pecadores justificados
diante de Deus mediante o mérito que Cristo providenciou pelos perdidos na Sua
morte. É fácil de se aceitar que a constituição de pecadores justificados
mediante a obra salvadora de Cristo seja um ponto de oposição satânica contra
Deus. Não há nada escrito no evangelho a qual Satanás possa se opor para
frustar os planos do Criador, mas, persiste “cegando o entendimento” dos que
estão perdidos (II Co.4.3-4).
Aquele
que se especializa em justiça auto-promovida sempre foi o que menos compreendeu
a doutrina da justiça imputada e sempre foi seu maior opositor. Certamente não
podemos estranhar se o próprio Satanás se opõe como aqueles que entre os homens
são influenciados por ele, contra o fruto permanente da graça redentora. As
acusações que Satanás lança contra os irmãos sem dúvida são acusações contra o
pecado real e a injustiça da parte deles. Imaginemos que ele não poderia
acusá-los com o que fosse totalmente inverídico. Tal atitude cairia por terra
com o seu próprio peso. Antes, Satanás sentiu-se ofendido pelo arranjo através
do qual os santos são preservados apesar de sua indignidade, como também pela
imputação da justiça a pecadores sem merecimento antes de mais nada. Aqueles
que são remidos não são mais condenados,
por mais que Satanás nos acuse seus
argumentos jamais poderão nos atingir (Nm.23.1-17).
2. O
julgamento de Satanás no segundo advento de Cristo. – A segunda vinda de
Cristo porá um fim na grande tribulação (Mt. 24.30) e acabará com o
reino do homem do pecado (II Ts.2.8-7), Satanás será amarrado com uma grande
cadeia e lançado no abismo (Ap.20.1-3).
Satanás, o enganador do mundo inteiro estará preso e a terra ficará livre dele
por um período de “mil anos”. Sua furiosa presença na terra durante um período
precedente contribuiu muito para a agonia da tribulação. Assim, seu
afastamento de toda a atividade contribuirá
muito para a paz e a justiça na terra durante mil anos.
Mais
adiante neste contexto temos a revelação de que Satanás será solto no final dos
mil anos por “pouco tempo” (Ap.20.7-9). As nações, serão enganadas novamente e
as suas mentiras as lançarão novamente, e pela última vez, em uma guerra. Em
Isaías 2.1-4 foi predito que a guerra
cessará durante o reino da paz, mas, será imediatamente retomada quando Satanás
for solto do abismo.
Uma
predição correspondente em Isaías 24.21-23 acrescenta muito à revelação de que
Satanás estará no abismo. Se, como parece justificado, “as hostes celestes, e
os reis da terra, na terra” é uma referência aos anjos caídos e seus
principados e poderes, está claro que os anjos caídos serão colocados juntos
com seu chefe, no abismo. Podemos deduzir com isto que os anjos caídos
acompanharão Satanás no final de sua carreira. É preciso notar que alguns deles
já se encontram em cadeias aguardando o julgamento final que virá a todos os
espíritos do mal (Jd.1.6;III Pe.2.4).
3. O julgamento final de Satanás. – A
escritura descreve o último passo na execução do julgamento de Satanás. Ele e
suas hostes “serão lançados para dentro
do lago de fogo e enxofre” (Ap. 20.10). A raiz do mal e seus anjos sofrerão
o castigo final e eterno.
Os
anjos e a humanidade restaurada haverão de formar uma unidade. Os anjos são
retratados por Cristo como um modelo do cumprimento exultante da vontade de
Deus (Mt. 6.10). Essa doutrina encarece a dignidade de Cristo, o qual é o
cabeça dos anjos; e igualmente encarece a glória e a majestade da igreja, que
os inclui (Ef. 1.10; Fp. 2.10; Cl. 1.16-20). Em meios aos conflitos dessa época
presente, essa doutrina constitui uma garantia para a consciência cristã de que
a Igreja Triunfante não é um ideal vazio.
Os
seres morais livres no passado remoto se confrontaram com duas possibilidades:
o bem e o mal.. Estas duas possibilidades
chegaram ao seu clímax em três exemplos importantes: a queda dos anjos;
a queda do homem e a morte expiatória de Cristo. Destes, o primeiro, está intimamente relacionado como o segundo e
o terceiro; mas, a relação entre o primeiro e o terceiro é remota.
O mal
começou com o erro de um anjo. Esse anjo foi seguido por uma multidão de outros
anjos. O mesmo erro foi cometido pelo primeiro homem e transmitido à sua raça
na forma de uma natureza corrompida.
Retrocedendo nesta seqüência histórica, é possível
reconhecer que a raça ficou prejudicada pelo pecado do primeiro homem; que os
nossos pais foram tentados pelo anjo que foi o primeiro a pecar no céu e que
uma multidão de anjos pecaram sob a influência deste mesmo pecador original.
Assim,
surgiram problemas insuperáveis. É difícil avançarmos e encontrarmos um motivo pela qual um anjo iluminado,
perfeito e não sofrendo o assédio de um tentador, que permanecia na presença
imediata de Deus e que devia compreender a diferença entre a luz moral e as
trevas morais, preferiu seguir este triste caminho. Como pode ser explicado o
nascimento do mal moral no ventre do bem moral?
O
aspecto metafísico da origem do mal é um problema ainda sem solução, com
referência e ele, apenas certos aspectos podem ser captados por nossa mente
finita. No caso da queda do homem , é imperativo, à luz da revelação de Deus,
reconhecer certas verdades imutáveis quando nos aproximamos do assunto desconcertante
acerca da queda dos anjos. São estas: que Deus é santo e não pode ser de
maneira nenhuma, direta ou indiretamente o instigador do pecado angélico;
embora os anjos fossem criados para cumprir um propósito divino, sua queda foi
prevista desde a eternidade; eles receberam a autonomia de anjos, que lhes concedia
a liberdade de permanecer ou se afastar do estado de santidade no qual foram
empossados pela criação; os anjos que caíram, diferentemente dos homens que
pelo nascimento físico herdam a natureza corrompida. Os anjos estavam diretamente
relacionados com Deus em santidade angélica original, posição essa da qual cada
um caiu individualmente como o primeiro anjo; e embora a queda do homem abrisse
o caminho para a graça de Deus ser demonstrada na redenção, não há nenhum bem
compensador de qualquer grau na conexão com o fato dos anjos terem pecado.
Os
anjos foram criados com a responsabilidade da autodeterminação. Este foi o
ideal divino representado por eles na criação. A possibilidade do mal não
estava neles de maneira nenhuma como uma necessidade. Afirmar que Deus poderia
ter evitado a sua queda uma vez que tinha poder para fazê-lo, é dispor a
vontade divina no governo contra a vontade divina na criação; contra a vontade
divina representada na constituição dos anjos.
Embora os anjos quando criados
despertassem para a consciência em um
estado de santidade e sem tentação alguma por solicitação externa, não
obstante, receberam a incumbência de querer e fazer aquilo que faz parte da
santidade. Diferente do caso do homem, parece que os anjos passaram por um
período de prova. O amor de Deus era o de Criador por sua criatura; mas eles
tinham aquela liberdade de ação que é natural à responsabilidade angélica.
Essa liberdade
foi concedida ao primeiro homem, mas com exceção importante: já havia em
existência um reino do mal com suas solicitações externas e fervorosas para o
mal. Os anjos não foram desafiados por tal influência externa quando começaram
a sua existência consciente. A multidão de anjos que pecaram sob a
influência do primeiro anjo pecador fica
imediatamente eliminada do problema.
Eles
caíram, cada um individualmente, mas por força das influências que surgiram
depois que experimentaram seu estado de santidade. A confirmação do bem foi
para os anjos, antes da queda e que contemplavam e desfrutavam a presença do
Senhor, uma conseqüência bem mais provável do que para o homem caído, que
jamais viu a Deus nem experimentou um momento de santidade perfeita. Agostinho
declarou: "que ninguém duvide que os santos anjos na sua habitação
celeste estão seguros e certos da felicidade eterna e verdadeira, embora não
sejam realmente co-eternos com Deus".[49]
Os
anjos foram influenciados na direção da santidade. Esta constante comunhão com
Deus que foi concedida aos santos anjos e originalmente estendida a todos os
anjos, é sem medida em sua potencialidade. A única lei da existência angélica
era a vontade do Criador. Essa lei atendia a cada necessidade da experiência e
felicidade angélica. Determinava cada detalhe do seu relacionamento com Deus e
de uns com os outros. Afastar-se dessa vontade era assumir uma atitude falsa
para com todas as coisas. Até que ponto este afastamento mudou o amor em ódio e
amargura?
Quanto
ao problema do primeiro pecado cometido pelo primeiro anjo, seria bom notar
que, sob as condições existentes, qualquer caminho pelo qual o pecado avança,
ele era inexistente. Agressividade contra Deus era a única direção na qual tal
ser poderia pecar.
A
natureza do primeiro pecado continua sendo um mistério, como este princípio do
mal encontrou acolhida em tal ser? Continuar com Deus como a sabedoria infinita
fazia parte da sanidade angélica. Afastar-se do bem foi insanidade angélica,
mas um tipo de insanidade responsável. O pecado não tem lugar na constituição e
no status do anjo que não caiu. Sua presença é ilegalidade e ausência de razão.
Tanto a
filosofia como a teologia têm examinado o problema do primeiro pecado e
oferecem suas soluções. Sejam quais forem os vestígios de verdade que possam
sugerir, nenhum é suficiente. O pecado, sendo uma contradição da razão é uma
coisa irracional em si mesma, não está sujeito a razão. É bem possível que uma
criatura irracional acostumada à falta de santidade até simpatize com a insanidade
que uma outra criatura exibe, mas não é uma explicação que justifique o pecado
dos anjos antes da queda.
Tanto
os anjos como o seres humanos foram criados para centralizarem-se em Deus. Tornar-se egocentralizada
é uma contradição a lei básica da existência da criatura. A falsificação da
ordem moral de Deus, quando egocentralizada , torna-se completa. Também é uma
violação do plano original relativo ao inter-relacionamento entre os
próprios seres finitos. O pecado não é
só contra Deus, mas também contra todos os outros seres criados.
O erro
de um anjo antes da queda dá imediatamente lugar a duas importantes perguntas
teológicas, a saber: como pôde um Deus santo permitir que uma criatura Sua
pecasse? como pôde um anjo, antes da queda, sem a influência do mal, pecar? Ao
considerar a questão apresentada pela primeira destas perguntas, poderia se
dizer que, embora o assunto seja estranho ao comentário que está sendo
desenvolvido, a criação original de Deus foi declarada boa aos Seus santos
olhos; que Ele, sendo onisciente e sabendo que certos seres morais cometeriam
erros, e findariam por cair, mesmo assim os criou, mas, tanto no caso dos anjos
como no caso dos homens, Ele declara o fracasso moral daqueles que falharam e
nunca de Si mesmo.
Quanto
à segunda pergunta, podemos acrescentar o seguinte ao que já foi dito: o mal
moral é um fato definitivo no universo, fato esse que não pode ser explicado
nem atenuado. Quando buscamos em sua origem, como foi cometido pelo primeiro
anjo antes da queda, descobrimos que o pecado é um mistério, é irracional e
excessivamente mau.
O
pecado não esta em Deus como também não esta em qualquer parte de Sua criação
original, pois foram criados em um estado de perfeição. Deus por sua
onisciência já previra tudo o que iria acontecer; mas o pecado não surgiu por
sua vontade, e sim pela vontade livre do pecador. Se o pecado tivesse
originado-se das mãos de Deus então tudo seria pecado, logo a criação não teria
sido perfeita.
O pecado não é uma fraqueza iminente da
criatura, pois nesse caso, todos teriam falhado. O pecado não é uma coisa
concomitante com a agência moral livre, pois nesse caso todos os agentes morais
deveriam falhar. Sobre este aspecto do pecado Agostinho disse:
Se
perguntássemos a causa da miséria dos anjos maus, ocorre-nos, e não sem
racionalidade, que eles são miseráveis porque abandonaram a Ele que é supremo e
que se voltariam para si mesmos que não têm tal essência. E este vício que
outro nome receberia alem do orgulho?... Se ainda perguntássemos qual foi a causa
eficiente de sua vontade má, não encontramos nada. Pois o que é que torna a
vontade má a ação? E, consequentemente, a vontade má é causa da ação má, mas
nada constitui a causa eficiente da vontade má...Quando a vontade abandona
aquilo que está acima dela e se volta para o que é inferior, torna-se má, não
porque busca o que é mau, mas porque essa busca é má. Portanto não foi uma
coisa inferior que tornou a vontade má, mas ela própria tornou-se má porque
perversamente desejou uma coisa inferior[50].
O
pecado é uma ação da parte da criatura, que pela criação, foi planejada para
ser totalmente centralizada em
Deus. Um caminho é cheio de angústia e leva à perdição, o
outro é de tranqüilidade e leva a vida eterna. Algo destas verdades deveria ter
sido compreendido pelos anjos, por isso
o mistério do surgimento do pecado torna-se
ainda maior.
O mal
no mundo não é um acidente, ou uma coisa que não tenha sido prevista por Deus,
Ele tem um projeto consumado no Calvário. O mal deve seguir o seu curso e fazer
a sua demonstração total para que possa ser julgado, não como uma teoria, mas como uma realidade
concreta. O mal deve continuar junto com o bem até que cada um realize o seu
fim determinado.
As
Escrituras revelam que os anjos estão aprendendo com a observação dos homens na
terra, especialmente na obra da redenção. A propósito, isto indica que os anjos
não são oniscientes. Contudo, não devemos concluir que os anjos sabem menos que
os homens. A declaração de Pedro: “cousas
essas que anjos anelam perscrutar” (1.12), revela o seu interesse na
humanidade. É significativo que estas “coisas” referem-se ao programa de Deus
no primeiro e segundo advento de Cristo
e o evangelho da graça que esta sendo pregado no mundo.
A
igreja na terra é uma revelação aos anjos da sabedoria de Deus (Ef. 3.10). Pela
revelação de Si mesmo em Cristo e pela instituição da igreja na terra glorifica
a Si mesmo diante dos anjos. Eles que até agora cheios de respeito, o louvam
pela maravilha da criação e vêem a Sua sabedoria glorificada em uma nova forma
de comunhão através do qual homens perdidos são salvos através da redenção de
Cristo Jesus.
Não há
base para a crença de que a redenção mediante a morte de Cisto se estenda aos
anjos caídos (Mt. 25.41; Ap. 20.10). Os anjos eleitos foram beneficiados e
passaram a esferas mais elevadas do conhecimento, pois através da igreja podem
contemplar a sabedoria de Deus. A existência da igreja e a pregação do
evangelho condicionam o crescimento dos anjos em sabedoria espiritual.
A
consumação final na segunda vinda afetará não apenas a posição relativa ao
conhecimento espiritual dos anjos, mas as Escrituras dão a entender que a
consumação final vai igualmente afetar a vida dos anjos.
Indiretamente
pelo menos, eles participarão dos benefícios espirituais que a igreja recebe em
Cristo, tanto as coisas do céu quanto as da terra serão reunidas em Cristo (Cl
1.15-21). Os anjos vão relacionar-se com Cristo de um modo pelo qual não se
relacionam com Ele agora, e que eles só entenderão na plenitude dos tempos.
Mas, embora a sua vida e conhecimento cheguem a um status mais elevado de
perfeição espiritual através da igreja, na glória final do reino, a posição e o
ofício dos anjos ficarão subordinados à autoridade e ao ofício dos santos.
Embora
os anjos sejam mencionados em muitos
trechos das Escrituras, não é fácil
formularmos a doutrina bíblica acerca dos anjos. Uma
das razões porque é difícil esta sistematização é porque a angelologia
não se constitui o enfoque primário das Escrituras.
Os
contextos angelicais sempre tem Deus, ou Cristo, como seu ponto central. A
maioria dos aparecimentos de anjos é fugaz, sem ser provocada ou predita. Tais
manifestações confirmam verdades, mas nunca produzem por si mesmas. Quando os
anjos são mencionados, é sempre para informar-nos mais a respeito de Deus, o
que Ele faz, e como Ele o faz.
A ênfase primária da Bíblia, portanto, é o
Salvador, e não os seus servos; o Deus dos anjos e não os anjos de Deus. O estudo
dos anjos é uma parte vital da teologia, tendo valor tangencial e implicações
para outros ensinamentos da Escritura. O estudo destes seres magníficos pode
encorajar algumas das virtudes cristãs:
1.
Humildade. Os anjos são seres que,
apesar de habitarem junto ao trono de Deus, servem continuamente aos cristãos
de maneira invisível e, às vezes, imperceptivelmente. São o mais puro exemplo
de serviço humilde; buscam somente a glória de Deus e o bem dos fiéis. Eles são
uma lição prática de como deve e pode ser o serviço cristão.
2.
Confiança, segurança e serenidade. Nos tempos de desespero, os anjos eleitos
são exemplo de confiança em Deus. Sua atitude de fidelidade ao Senhor lhes
garantem a segurança eterna. Se os anjos sentem esta segurança imagine o que o
cristão deve sentir por conta daquilo que Deus fez for ele na cruz.
3.
Responsabilidade cristã. Tanto Deus quanto
os anjos estão
presenciando as ações
ímpias dos cristãos (I Cor.4.9). Que motivação é para o
cristão comportar-se de modo digno!
4.
Otimismo sadio. Desafiando o próprio maligno, os anjos eleitos escolheram
servir ao santo propósito de Deus. Seu exemplo, pois, torna plausível o serviço
dedicado a um Deus perfeito neste universo imperfeito. No futuro os anjos serão
os instrumentos do afastamento definitivo de todos os ímpios
(Mt.13.41-42;49-50). Este fato encoraja-nos a preservar em meio a todas as
situações da vida.
5.
Reverente temor. Os anjos mesmo sendo magnífico em poder demonstram um
reverente temor ao Senhor, isto deve servir de exemplo para todos nós.
6. A
participação na história da salvação.
Deus empregou anjos na história sagrada,
especialmente Miguel e Gabriel, para preparar o caminho para o Messias.
Posteriormente, anjos proclamaram e adoraram a Cristo. Compreendê-los devidamente
levará o cristão a envolver-se no serviço.
Os
anjos estão à disposição de Deus e de Jesus. É marcante a presença dos anjos na
vida do Filho de Deus. Antes de nascer, já a concepção de Jesus é anunciada por
um anjo a José (Mt.1.20). O nascimento é anunciado por anjos aos pastores em
Belém (Lc.2.9-14). Um anjo salva Jesus de Herodes avisando a José para fugir
para o Egito (Mt.2.13). Um anjo anuncia a morte de Herodes e manda José com sua
família voltar a Israel (Mt.2.19). Na
tentação de Jesus anjos serviram ao Senhor no deserto (Mt.4.11). Um anjo
confortou Jesus no Jardim das Oliveiras (Lc.22.43). O evento pascal da
ressurreição do Senhor é atestado pelos anjos. Anjos anunciaram as mulheres que
chegaram ao túmulo que Jesus ressuscitou (Mc.16.6). No evangelho de João, os
anjos se limitaram a perguntar a Maria Madalena a quem ela procurava, sem lhe
dar resposta (20.13). Foi um anjo quem rolou a pedra do túmulo para
abri-lo (Mt.28.2). No dia da ascensão, dois anjos explicaram aos apóstolos
o que se passou com Jesus. Ele foi subtraído da vista de seus discípulos e
reaparecerá somente na Parusia (At.1.10). Uma promessa enigmática de
Cristo que parece relacionar-se à visão da escada de Jacó afirma aos
discípulos: "Vereis o céu aberto e os
anjos de Deus subir e descer sobre o Filho do homem" (Jo.1.51). O sentido
desta frase não é propriamente uma promessa de uma visão de anjos, mas sua
afirmação simbólica da união misteriosa de Jesus com Deus. É Cristo que une o
céu e a terra.
A
encarnação do verbo mostra que todo ato salutar de Deus é relativo ao verbo.
Por isso a Escritura não se delonga na descrição exterior das aparições
angélicas. Mas salienta a mensagem que devem anunciar aos homens, os anjos
revelam-se pela sua palavra como mensageiros celestes, como servidores do
evangelho de Cristo.
Embora
na kenosis Deus tenha encarnado, o Filho, “por
breve tempo abaixo dos anjos”, contudo esta mesma frase termina assim: “coroaste-o de glória e de honra e
sujeitaste a seus pés todas as coisas” (Hb. 2.7) e desta glória participam
todos os “irmãos” de Cristo (Hb. 2.11). Certamente o modo de ser dos anjos é
superior ao dos homens e só os ressuscitados e transfigurados “serão como os anjos” (Mt. 22.29). O
próprio ser dos anjos transborda o desejo de adorar constantemente o Filho de
Deus, por isso são santos. Contudo, o Filho não veio em socorro dos anjos e sim
da raça humana caída (Hb. 2.16).
Ainda
que o Senhor, tenha conquistado completa vitória contra Satanás, este não
abandonou a luta, nem a esperança de sua vitória. Não sabemos quantas vezes o
próprio Satanás lutou com Jesus Cristo durante o seu ministério, nem sabemos
tudo quanto os anjos fizeram em seu favor.
O
estudo desta importante doutrina, poderá portanto levar-nos a conhecer melhor o
nosso Salvador e Deus, por nos dar uma compreensão mais exata de seus métodos
de ação para com a humanidade; além disso, este estudo serve para lançar luz
sobre muitos trechos da Escritura, os quais, doutra maneira, permaneciam
obscuros, isto é, se não aceitássemos o que ensinavam as Escrituras acerca da
existência de multidões de seres espirituais.
Serve-nos
de consolo e de explicação sobre um dos métodos através dos quais Deus opera no
mundo; por conseguinte, recusar ou até
mesmo ignorar essa verdade revelada na Escritura e dispensar o consolo e o
conhecimento que Deus está no controle de todas as situações. Isso não quer
dizer que devamos procurar ver os anjos a cada passo, este não é o propósito
deles nem a vontade do Senhor. Ninguém será salvo só por acreditar que anjos
existem, nem ficará perdido só por descrer na sua existência, Jesus foi quem
morreu na cruz para remir-nos de nossos pecados, tendo tomado sobre si mesmo o
castigo merecido pelos nossos pecados e tendo experimentado a morte que nós merecíamos.
Uma coisa é certa, tudo quanto é de Cristo, pertence agora aos eleitos e até
mesmo os recursos celestiais como os
anjos; tudo quanto é de Cristo é para os remidos. Por isso, a glória do Senhor
Jesus Cristo consiste também em que os seus se interessem pela sua herança.
Sobre parte desta herança, o Dr. Donald D. Turner conta-nos uma parábola:
Uma
jovem pobre trabalha muito para sustentar sua infeliz mãe que tem outros filhos
órfãos de pai. A jovem tem várias dívidas porque o seu pequeno salário não é
suficiente para cobrir as muitas despesas
indispensáveis à família, e porque ninguém quer dar-lhe mais crédito
além do que tem. Não possui amigos que a ajudem e que lhe emprestem um centavo
sequer. Porém, passa pelo escritório,
onde trabalha um homem famoso e riquíssimo; enamora-se dela e se casam. No dia
seguinte ao do matrimônio a esposa sai à rua e os comerciantes procuram
vender-lhe tudo quanto é possível sem ao menos pedir-lhes o menor depósito.
Fiando-lhe sem limites tudo quanto ela desejar. Todos a saúdam; os melhores
lugares lhe são abertos. Por que? Porque agora o seu esposo e todos os seus
recursos e créditos lhe pertencem também: os amigos e servos dele agora já são amigos e servos
dela, de modo que devido à sua união com o esposo ela encontra sua posição ao
lado dele.[51]
Jesus
Cristo tomou os nossos pecados e nos outorgou a sua justiça, seus servos
imediatamente começam a ministrar-nos. Os anjos são representados por Cristo
como um modelo do cumprimento exultante da vontade de Deus (Mt.6.10). Essa
doutrina também encarece a dignidade de Cristo, o qual é cabeça dos anjos; e
igualmente encarece a glória e a majestade da igreja, que os inclui (Ef.1.10;
Fp.2.10; Cl.1.16-20). Finalmente, em meio aos conflitos desta época presente,
essa doutrina constitui uma garantia para a consciência cristã de que a Igreja
Triunfante não é um ideal vazio, mas antes, é uma realidade presente, e que os
cristãos já possuem os direitos de sua cidadania celestial (Hb.12.22;
Ef.1.21,23).
Os
anjos intervém na vida da igreja em função de algum evento especial. Um anjo
fez Felipe viajar com um intendente etíope para que ele o instruísse e o batizasse (At.8.26-31). Por isso a
epístola ao Hebreus (1.14) chama os anjos de espíritos encarregados de um
ministério, enviados a serviço para aqueles que devem herdar a salvação.
Os
anjos estão também presentes no serviço divino da comunidade cristã. O culto da
comunidade celebra-se em sintonia com o louvor dos anjos e com sua alegria
escatológica. Conforme Ap.5.8 e 8.3, os anjos levam a Deus as orações dos
cristãos. A igreja terrena, com seu culto está sempre a caminho para a Jerusalém
celeste, continuamente se aproxima das "miríades
de anjos, da assembléia festiva dos primeiros inscritos no céu ..."
(Hb.12.22). a liturgia celeste conforme Apocalipse é um modelo que a liturgia
terrestre procura imitar. A exultação é resultante da penetração refulgente da
presença de Deus em Cristo, é canto de Sua salvação, é característica tanto da
comunidade primitiva (At.2.46), como da
comunidade celeste (Ap.11.7).
Visto
que os anjos se ocupam em ministrar em favor dos cristãos, um anjo dirigiu-se
ao autor de Apocalipse e apresentou-se como conservo (Syndoulos) seu e de todos
os que crêem em Cristo (Ap.19.10; 22.9). Para os anjos é uma alegria contemplar
a salvação dada por Deus aos homens (I Pd.1.12; Ef.3.10).
Os
anjos se alegram com a perseverança dos
justos e a conversão dos pecadores (Lc.15.7,10). Mateus relata uma
palavra de Jesus dizendo que os "pequeninos"
tem "seus anjos" no céu, onde
contemplam "todo tempo a face de
Deus" (18.10). "Pequenos" (Mikrwn)
designa talvez nesse contexto não as crianças, mas os homens "simples", os "fracos",
os "desprezados" e os "pobres".
Um
episódio dos Atos dos apóstolos mostra como se representavam então a união
entre um homem e seu anjo: Pedro libertado miraculosamente da prisão dirige-se
à casa onde esta reunida a comunidade. As pessoas presentes na casa pensam que
não é Pedro que esta batendo a porta, mas seu anjo (At.12.15).
Em I
Cor.l1.10, Paulo pede que as mulheres,
quando estiverem reunidas na comunidade, que cubram a cabeça "por causa dos anjos". Paulo
considera os anjos como guardiães da
ordem entre os homens e não toleram que ela seja desrespeitada.
O
serviço dos anjos a Cristo torna-se serviço aos homens que anunciam a Cristo,
está por conseguinte ordenado e subordinado o serviço dos anjos a igreja e a
sua proclamação.
CONCLUSÃO
A busca
por anjos não é novidade, a história comprova que ela sempre existiu. Provar a
existência dos anjos é algo que foge ao alcance da humanidade. A Escritura
Sagrada é quem nos ajuda nesta busca, porém, é lógico que a mesma não trata a
angelologia na mesma intensidade como trata a cristologia. Não é este o seu
propósito. Mas, a escritura fornece informações sobre os anjos, e pode
responder às questões levantadas sobre os anjos pela sociedade. Esta doutrina
atesta a existência de um mundo espiritual; Fortalece a nossa fé quanto a
providência divina; Ensina-nos humildade.
Ao
estudarmos este assunto temos a possibilidade de conhecermos melhor nosso
inimigo, sabermos também os recursos que estão a nossa disposição e que Deus
fortalece o Seu povo e os livra das tribulações.
Estas
questões são uma alerta para a igreja, seu povo deve receber um devido preparo
para saber discernir as distorções que surgem. Não podemos vencer estas
distorções fugindo delas, a igreja tem de estar ciente da grande responsabilidade
que tem em suas mãos para mostrar o real valor dos anjos e sua função entre
nós.
Infelizmente
a igreja não tem valorizado a angelologia, pois é muito raro ouvirmos um sermão
sobre o assunto, e os livros a respeito são poucos. Tudo isso dificulta a
pesquisa. No entanto esperamos que este trabalho venha a servir de alerta para
a igreja, e a contribuir para futuras considerações.
1.
Forneças
detalhes sobre o assunto anjo em nossos dias. P4
2.
Como
a igreja vinha tratando a questão dos anjos? P4
3.
Fale
sobre o conceito popular dos anjos. P8
4.
Faça
um comentário com citação de fatos segundo o que está exposto no capítulo sobre
a angelologia na mesopotâmia. P10
5.
Explique
a angelologia no judaísmo. P18
6.
Qual
é o pensamento dos gnosticos sobre os anjos? P23
7.
Qual
é o conceito de angelologia na modenidade? P25
8.
Comente
a existência dos anjos citando versos bíblicos. P27
9.
Detalhe
a definição de anjo. P29
10.
Descreva
a origem dos anjos. P30
11.
Analise
e descreva a personalidade dos anjos. P31
12.
Determine
comentando o poder dos anjos. P32
13.
Estabeleça
a hierarquia dos anjos; p34
14.
Comente
sobre o anjo do Senhor. P36
15.
que
são anjos governadores? P37
16.
Qual
é a função dos serafins? P39
17.
Faça
um comentário do estado natural de satanás. P42
18.
Explique
o trabalho de satanás contra os santos no antigo e novo testamento. P47
19.
Qual
é a importância do estudo dos anjos para a igreja? P50
20.
Estabeleça
o relacionamento entre Cristo e os Anjos e a Igreja e os Anjos. P54/56
[1] GIUDICI,
Maria Pia. Os Anjos existem! p. 18
[2]
BETTERSON, Henry. Documentos da Igreja Cristã. p. 55
[3] Conheça
a Verdade. Estudando as Doutrinas da Bíblia. p. 81
[4]
NASCIMENTO, Adão C. Anjos Hoje. Ultimato. Maio. 1996. p. 28
[5] A
Comunicação com os Anjos e os Devas. p. 21
* Conferir Anexo
1
[6] MARTINS,
Valter G. Confissão de Fé e Catecismo. p. 175
[7]
NASCIMENTO, Adão C. Anjos Hoje. Ultimato. Maio. 1996. p. 29
[8] CHAFER,
Lewis S. Teologia Sistemática. p. 143
[9] Ibid.,
p. 335
[10] TERRA.
João M. Anjos na Bíblia. p. 8
[11] SOUSA,
Osvaldo R. História Geral. p. 11
[12] TERRA,
João M. Anjos na Bíblia. p. 9
[13]
Dicionário Internacional de Teologia do A. T. p. 897
[14] História Antiga e Medieval. pg. 59
[15] TERRA,
João M. A Angelologia de Karl Rahner. p.
379
[16] TERRA,
João M. A Angelologia de Karl Rahner. p.
380
[17]
Dicionário Mítico-Etimológico da Mitologia Grega. p. 278
[18]
GIUDICI, Maria Pia. Os anjos existem ! p. 16
[19] Ibid.,
p. 16
[20] TERRA,
João M. A Angelologia de Karl Rahner. p.
381
[21] Ibid.,
p. 381
[22] A
Doutrina dos Anjos e do Homem. p. 11
[23] PIAZZA,
Waldomiro O. Religiões da Humanidade. p. 166
[24]
NASCIMENTO, Adão C. Anjos Hoje. Ultimato. Maio. 1996. p. 29
[25] HORTON,
Stanley. Teologia Sistemática. p. 192-93
[26]
GIUDICI, Maria Pia. Os Anjos Existem! p . 121
[27] Ibid.,
p.117
[28]
CALVINO, João. As Institutas da Religião Cristã. Vol. 1 p. 187
[29] HORTON,
Stanley. Teologia Sistemática. p. 194
[30]
BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. p. 142-43
[31] HORTON,
Stanley. Teologia Sistemática. p. 194
[32] Ibid.,
p. 194
[33] TERRA,
João M. Anjos na Bíblia. p. 71
[34] HORTON,
Stanley . Teologia Sistemática. p. 194
[35] TERRA
João M. A Angelologia de Karl Rahner. p.
385
[36] CHAFER,
Lewis S. Teologia Sistemática. p. 342
[37] Ibid.,
p. 340
[38]
Angelologia, a doutrina dos anjos. p. 30
[39] CHAFER,
Lewis S. Teologia Sistemática. p. 343
[40] Ibid., p. 344
[41] Ibid., p. 344
[42]
Teologia Sistemática. p. 350
[43]
Angelologia, a doutrina dos anjos.
p. 27
[44] Bíblia
com as Referências e Anotações de Scofield. p.
796
[45] TERRA,
João M. Anjos na Bíblia. p. 30
[46] CHAFER,
Lewis S. Teologia Sistemática. p. 359
[47] Ibid.,
p. 364
[48] Ibid.,
p. 366
[49] CIDADE
DE DEUS, Livro XI, pg. 33.
[50] CIDADE
DE DEUS, Livro XII. pg. 6
[51] A
Doutrina dos Anjos e do Homem. p. 51
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