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sábado, 7 de setembro de 2013

ANGELOLOGIA - Apostila completa

INTRODUÇÃO

As Escrituras atestam a existência de seres espirituais que habitam a esfera celestial, e que são meios através das quais Deus opera no mundo material.

É extraordinária a busca que sempre ocorreu em todo o curso da história humana por seres que servem como ponte entre o sagrado e o profano. Hoje esta busca se intensifica por conta do progresso científico e da crise que assola a humanidade: o homem procura Deus nos anjos, sem dúvida alguma uma das mais belas de Suas criaturas. Porém, enchem a angelologia de abusos e desrespeitam o que as Escrituras afirmam sobre a disciplina.

A igreja em geral nem imagina a importância destes seres que são usados por Deus "para ministrar em favor daqueles que herdaram a vida eterna". A Escritura nos garante que um dia, será removido de nossos olhos "o véu de separação" entre o visível e o invisível. Então, a partir daí, poderemos ver e conhecer em toda a plenitude a atuação que os anjos nos dedicaram (I Cor.13.12).

A crença em tais mensageiros é de caráter universal! filósofos, poetas, historiadores, teólogos, etc. freqüentemente falaram no ministério dos anjos.

Este trabalho não tem como objetivo provar a existência dos anjos, pois a Escritura descreve-os como seres reais, como algo patente e definido, queremos apresentar o que cremos com base na Bíblia Sagrada acerca desta doutrina denominada angelologia. Esta existência supracitada como fator real, não é desconhecida no meio protestante, todos afirmam que ela é indiscutível. Mas a mesma não sofre um conhecimento que vise abranger a realidade bíblica, em contrapartida os movimentos esotéricos e a própria sociedade tem produzido uma angelologia estranha a Escritura. Devido ao não conhecimento desta doutrina, os fiéis sofrem sem qualquer resistência aos assédios destas idéias lançadas por estes movimentos.
É necessário deixarmos os preconceitos forjados contra este assunto, pelo fato destes seres não serem visíveis e palpáveis. Quem despreza essa doutrina, objeto revelado das Sagradas Escrituras, despreza não somente a veracidade das mesmas, mas a própria Palavra de Deus e quem assim o faz, rejeita o próprio Cristo.


Somos herdeiros de uma cultura materialista e desiludida, que questiona a existência de anjos; por outro lado, não faltam aqueles que criam uma angelologia estranha à Escritura. Karl Rahner escreveu que os anjos “não são concorrentes de Deus, mas suas criaturas”.[1] Quem são,  então, os anjos? E em que se baseia a nossa crença em sua existência? Quando professamos o credo Niceno-Constantinopolitano, vemos que somos herdeiros de uma fé que remonta à Cristo e a os apóstolos: “Creio em   Deus...Criador do céu e da terra; de todas as coisas visíveis e invisíveis”.[2] Obviamente, entre as realidades  invisíveis criadas por Deus, contam-se os anjos.

OS ANJOS ESTAVAM ESQUECIDOS?

Para a maioria dos cristãos, os anjos não passam de seres misteriosos que estão bem distantes de nós e alheios ao que ocorre em nossas vidas. Outros, por ignorância, pensam que o fato de se fazer um ritual de oração irá garantir o auxílio destes seres. Vale salientar que a falta de informações corretas sobre os anjos deve-se a má formação cristã  de muitos,  como também ao desconhecimento da verdadeira doutrina bíblica acerca dos anjos. Sobre isto Bruce Milne faz o seguinte comentário:

Ao contrário de seu passado, os cristãos de hoje praticamente ignoram os anjos de Deus. O anti-sobrenaturalismo moderno, a percepção dos perigos da curiosidade nesta área e o temor de introduzir mediadores entre Deus e os homens, além de Cristo, se combinaram para constranger-nos. Essa reserva não é também inteiramente contrária à Bíblia. Tanto o Antigo quanto o Novo Testamento relutam em dar proeminência a esses servos celestiais do Senhor, mesmo porque seria uma proeminência indevida. Mas o crescente interesse nos agentes espirituais negativos, demoníacos e outros, e o fascínio popular pelas várias fantasias de ficção científica devem levar o cristão a meditar às vezes sobre os “milhares e milhares de anjos”, esses abençoados e radiosos cidadãos das hostes celestiais que, entre outras coisas se ocupam de nossos interesses (Hb.1.14; 12.22).[3]

Estes ensinos errôneos herdados dão ao cristão a falsa impressão de que ele já sabe o bastante sobre os anjos, e assim sendo, anulam o desejo de conhecer o assunto em sua essência verdadeira. As idéias preestabelecidas pelas tradições anulam o desejo de adquirir um conhecimento genuíno sobre tal matéria.

Sobre este assunto duas ameaças defrontam a igreja contemporânea. Ela pode ignorar virtualmente este ensino, como acontece em grande parte dos escritos teológicos modernos, ou pelo contrário, dar-lhe demasiada ênfase, particularmente em relação aos agentes demoníacos. Ser um cristão bíblico não significa apenas crer em tudo que a Bíblia ensina. Precisamos a cada dia buscar dentro da teologia várias instruções para ter um equilíbrio escritural. Devemos temer buscar interpretar um texto fora de seu contexto e fugir das demais regras hermenêuticas. Precisamos adotar uma linha de interpretação.

O equilíbrio das Escrituras deve ser igualmente determinativo em nossas considerações sobre os anjos perversos. Devemos levar a sério a luta com os poderes do mal, como fizeram nosso Senhor e seus apóstolos, mas esta dimensão não é abrangente no Novo Testamento, nem deve ser em nossos pensamentos. Precisamos ter em mente que o      foco do Novo Testamento é Jesus Cristo e não Satanás e seus demônios. E, o que para muitos é absurdo, os anjos perversos também são criaturas de Deus, existindo por causa dEle, e finalmente servindo aos Seus propósitos.

Devido à falta  deste conhecimento sadio sobre os anjos, os cristãos nem imaginam a grandeza  do ministério destes seres  extraordinários que Deus por sua misericórdia colocou em nosso auxílio. Os anjos existem, eles são ministros de Deus e estão ao Seu serviço. Mas não deve-se exagerar quando tratamos da presença destes seres entre nós, nem da importância que eles têm, pois Deus sustenta e guia Suas criaturas em geral, e Seus filhos em particular, diretamente pela operação do Espírito Santo, com os anjos ou sem eles. O cristão que tem as Escrituras Sagradas como única regra de fé e prática crê na existência dos anjos. Crê também que o propósito do Criador para estes seres espirituais sempre se cumpriu e se cumprirá. O verdadeiro cristão nunca vai além da escritura, ele vê com temor e tremor a angelologia de hoje, cheia dos excessos  cometidos dentro e fora das igrejas, pois a recomendação bíblica é que “ainda que um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema” (Gl.1.8).


Até algumas décadas atrás este tema era considerado irrelevante, desacreditado por muitas pessoas. Estava fora até dos círculos de discussões teológicas. Hoje torna-se presente e é assumido como uma realidade. Observamos que o mundo não têm perguntado aos teólogos sobre os anjos. Este assunto tem sido tratado por pessoas que não possuem autoridade. Será que aqueles que afirmam conhecer tão bem o mundo angelical possuem habilidades e conhecimento sadio sobre os anjos? Eles podem inferir valor naquilo que não conhecem?
Esta expressão, “Os Anjos Estão Voltando!” é vista como mais um modismo da indústria esotérica, que explora a crendice alheia ressuscitando velhas superstições.

Desde os anos sessenta um fenômeno hoje conhecido como “onda mística” vem crescendo. Primeiro como um movimento de contra-cultura, que contesta os valores materialistas estabelecidos pelo sistema, e depois como uma busca pelo verdadeiro significado da existência humana. Influenciado pelas filosofias  e religiões orientais este movimento cresceu e envolveu o mundo.

É necessário analisarmos melhor a época em que estamos vivendo e considerarmos a presença dos anjos dentro do conturbado contexto social. O que significa a redescoberta destes seres espirituais presentes a milênios na tradição religiosa de diversos povos? Por que a crença foi renovada?

A  SOCIEDADE SECULARIZADA EM BUSCA DO SAGRADO

As crises sociais fazem parte do processo histórico e evolutivo de todas as civilizações. Todos os grandes impérios do passado tiveram seu momento de apogeu e glória, para depois caírem inexoravelmente diante de crises internas e externas que os levaram à derrocada. Entretanto, no passado, tais crises duravam séculos e atingiam civilizações isoladas, enquanto povos vizinhos alcançavam por sua vez a prosperidade.

Em nossos dias a situação é semelhante: assistimos perplexos o rápido crescimento de uma crise de dimensões globais, que não só abala todas as instituições criadas pelos homens, como também a nossa própria capacidade de revertê-la. Vivemos em uma enorme crise com rumores de guerra, que  é a mais abrangente, mais profunda, mais rápida e diferente de todas as outras. Ela não se processa no desenrolar dos séculos, mas a cada dia, tornando-se cada vez maior e mais complexa, sem nos dar tempo sequer de montar uma estratégia para combatê-la.

Os governos e cientistas de todo o mundo sentem-se impotentes diante do grave problema planetário que coloca em risco a sobrevivência e a qualidade de vida da humanidade. Por toda a parte presenciamos a ameaça e o caos social, guerras internas e externas e o avanço da fome e da violência. Diante desta crise surge o misticismo, que tem adquirido a função de compensador, ou seja, ele vem compensar o indivíduo dos desgastes da vida social, isto é, fazer o que a sociedade secularizada não pode produzir. É um mecanismo pela qual a humanidade joga os problemas para o Céu, esperando receber uma resposta direta por meio de anjos. O misticismo de hoje busca nos anjos a figura de protetores em um mundo que nos torna cada vez mais desprotegidos e inseguros. Certos críticos como Paola Giovetti consideram este fenômeno como conseqüência da própria crise. As pessoas desesperadas com os tempos caóticos que estamos vivendo, buscam soluções de fuga, que sejam milagrosas, substituindo a descrença nas instituições, nos governos e até na própria ciência, pela magia e ajuda de seres espirituais.

Neste final de milênio a importância dos anjos está alcançando novas dimensões, e estes seres estão presentes em quase todas as religiões. Estão nos livros, nas revistas, nos jornais, nas publicações especiais, nos programas de televisão, vídeos, e até no sistema de consultas pelo serviço 0900. Segundo a revista "Ultimato" existem pessoas que trabalham como porta-vozes, pregadores e ministros dos anjos, o artigo diz o seguinte:

Adriana Feres, economista, católica de formação, afirma que se comunica com os anjos há  mais de 20 anos. Ela reside na capital paulista, onde atua como pregadora e ministradora em nome dos anjos. Ela afirma já ter assistido a mais de 2.500 pessoas. Além de atender aqueles que a procuram, Adriana atende também a domicílio. Todas as terças-feiras ela se dedica a uma clientela seleta, composta por empresários, que recebe a ministração em suas casas. As ministrações – que ela chama de “terapia angelical” – são feitas à base de recitação de Salmos e da invocação dos anjos para a limpeza espiritual do ambiente.  Nessas sessões, Adriana recebe mensagens dos anjos, que ela transmite às pessoas atendidas. E os resultados? A empresária Cassilda Silveira Camargo afirma ter sido curada de um tumor na medula, através da ajuda de  Adriana Feres. A empresária Maria Cristina Pereira de Almeida é outra pessoa que afirma ter sido ajudada por Adriana. Ela diz que  após descobrir que tinha mieloma múltiplo, um tipo de tumor na medula, encontrou auxílio na ministração de Adriana. E dá o seguinte depoimento: “Com a ajuda de Adriana e dos anjos consegui cuidar mais de mim e perceber que Deus não tinha me abandonado” .[4]

Outra paulista que alcançou enorme sucesso e fama com os anjos é a empresária Mônica Buonfiglio. Em 1992 ela lançou o livro Anjos Cabalísticos que teve uma grande repercussão nacional, tornou-se um grande sucesso editorial e ocupou, durante meses, o primeiro lugar na lista dos livros mais vendidos no Brasil. Em seguida a empresária escreveu mais dois livros sobre o mesmo assunto, A Magia dos Anjos Cabalísticos e Tarô dos Anjos. Os livros de Mônica Buonfiglio chegaram a vender naquele ano a impressionante marca de três mil exemplares por dia. O seu sucesso editorial não poderia deixar de impulsionar o seu sucesso empresarial. Até setembro de 1994, a sua empresa Oficina Cultural Esotérica já contava com doze franquias.

Nas livrarias e nas bancas de revistas estão à venda mais de sessenta títulos de livros e publicações sobre os anjos. Só a editora esotérica Pensamento tem doze títulos nas livrarias. Um de seus títulos é escrito por uma protestante da Igreja Presbiteriana do Canadá, que assim se expressa: "Eu não tinha encontrado respostas para essas questões nos ensinamentos da escola dominical, nos sermões ou nos serviços da Igreja Presbiteriana do Canadá".[5] Diante de tanto interesse por anjos, a Editora Três lançou uma coleção de vinte fascículos semanais com o título: "Anjos, Tudo o que você queria saber".* Foi um sucesso!

OS ANJOS E OS OVNIS

Muito corrente em nossos dias é a conclusão a que muitos chegaram por conta da pesquisa de ufólogos, os anjos são ovnis. Estas pessoas usam certas passagens bíblicas dos livros de Isaías, Ezequiel, Zacarias e Apocalipse para estabelecer paralelos com as supostas aparições de ovnis. Mas qualquer tentativa para relacionar estas passagens com os ovnis não passa de mera especulação. Todavia, o que é interessante, é que tais teorias são alvo de atenção séria, e muitos até encaram estes fenômenos como aparições de anjos caídos. É comum ouvirmos da boca de alguns cristãos a afirmação de que os alienígenas são os demônios.

O que torna mais lamentável ainda é que este discurso não é apenas proferido pela massa sem conhecimento teológico mas por líderes eclesiásticos que deveriam por obrigação ter um mínimo de discernimento.  

CONCEITOS POPULARES ACERCA DOS ANJOS

Devido à ignorância de alguns cristãos quanto ao ensino bíblico acerca dos anjos, não é de se estranhar que conceitos falsos sobre anjos tenham surgido e tenham tanta credibilidade em nossos dias. Entre estas crenças errôneas encontramos: que os anjos são seres humanos que já morreram, ou seja, que nós nos tornamos anjos quando morremos; que Satanás é um anjo caído tão poderoso quanto Deus e tem a sua sede no inferno, local onde comanda todas as suas hostes; que cada ser humano vive acompanhado por dois anjos, um eleito que o guia para fazer o bem, e um caído que o induz para fazer o mal;  e ainda, que simplesmente pelo fato de serem anjos, todos são dignos de nossa confiança.


A posição protestante clássica está refletida na resposta à pergunta dezesseis do Catecismo Maior de Westminster que nos diz o seguinte: “Deus criou todos os anjos, como espíritos imortais, santos, excelentes em conhecimento, grandes em poder, para executar os seus mandamentos e louvarem o seu nome, todavia sujeitos a mudança”. [6]

Segundo o catecismo, os anjos realizaram um ministério extraordinário na revelação especial de Deus, quando serviram de mediadores das mensagens divinas, quando comunicaram bênçãos ao povo de Deus e quando executaram juízo sobre os inimigos de Deus e de Seu povo.

Vários livros já foram publicados no Brasil sobre a angelologia. Um dos pioneiros a escrever sobre o assunto foi Ebenézer Soares Ferreira, cujo livro, “Angelologia” foi editado em 1966. Algum tempo depois, com muito sucesso, foi lançado o livro de Billy Graham, “Anjos Agentes Secretos de Deus “. Na atualidade, muitos livros têm contribuído para esclarecer sobre este assunto. Outros, infelizmente têm exagerado, considerando os anjos como deuses ou semideuses.

O exagero tem saltado das páginas dos livros para os templos. Sobre este assunto a revista “Ultimato” afirma:

Na periferia de uma grande cidade, o pastor de uma igreja evangélica faz  invocação os anjos no início dos cultos. Ele ordena que os anjos, com espadas desembainhadas, fumegantes, se postem nas portas e nas janelas do templo para impedir a entrada dos dardos inflamados do maligno. Ele aponta para as portas e para cada janela, dando ordem para os anjos. Depois, sob a proteção da milícia celestial os atos do culto prosseguem. Outro pastor, além de não concordar com a atitude do seu colega, coloca-se em uma posição oposta. Ele afirma que os anjos nasceram  na mente dos hebreus, quando estes substituíam o politeísmo pelo monoteísmo. Sem saber o que fazer com a multidão de deuses e semideuses que povoavam as suas mentes, resolveram transformá-los em anjos, ministros do Deus único.[7]

Estes dois pastores representam posições extremas, que não expressam o pensamento do protestantismo histórico.  Na história cristã a preocupação com anjos sempre oscilou em extremos. Na Idade Média os concílios se reuniam e havia tamanha preocupação com os anjos que se tentava elaborar uma teologia para definir quantos deles cabiam na cabeça de uma agulha. As vezes buscavam definir o sexo dos anjos, se comiam e se produziam excremento ou não. No período do Iluminismo, no apogeu da Razão, o assunto foi relegado a uma diminuição meramente especulativa, e deixou-se de acreditar em anjos, pois os seres humanos enxergaram-se como os únicos seres inteligentes do universo. Agora, com o fim de milênio, acontece um novo avivamento no assunto, o interesse pelos anjos está novamente em alta.
 

Capítulo 1


Todas as religiões reconhecem a existência de um mundo espiritual. Suas mitologias falam de deuses, semideuses, espíritos, demônios, gênios, heróis e assim por diante. Segundo Louis Berkhof  “muitos críticos especialistas afirmam que os hebreus derivam a sua angelologia dos persas”.[8] Mas esta teoria não foi comprovada e, para dizer o mínimo, é muito duvidosa.

LEVANTAMENTO HISTÓRICO DA ANGELOLOGIA PRÉ-CRISTÃ.

Uma tomada panorâmica, ainda que rápida, efetuada ao longo dos séculos e das mais antigas civilizações, certifica-nos de um fato: por toda parte notam-se vestígios da crença em seres intermediários entre a(s) divindade(s) e os homens. Os anjos andam de mãos dadas em todo o curso da história com a raça humana, suas aparições nos deixaram profundas marcas, a presença destes seres espirituais tem sido reconhecida em quase todas as religiões. Sobre este assunto o Dr. William Cook faz o seguinte comentário:

Realmente, quase todos os sistemas de religião, antigos   ou   modernos, encontramos estes seres; nos aeons dos gnósticos, nos demônios, nos semideuses, nos gênios e nos lares, que aparecem tão extensamente nas teogonias, nos poemas e na literatura geral dos antigos pagãos, encontramos evidências abundantes da crença quase universal  da existência de seres espirituais inteligentes, que ocupam diferentes ordens entre o homem e o seu Criador. Aqui, entretanto, geralmente encontramos a verdade envolta na ficção e os fatos distorcidos pela louca fantasia da mitologia. A doutrina dos pagãos, em relação aos seres espirituais, poderia ser assim resumidas: Eles crêem que as almas dos heróis falecidos e dos homens bons foram exaltados a uma posição de dignidade e felicidade, eram chamados demônios e supostamente serviam de mediadores entre a divindade suprema e o homem. Havia, entretanto, uma outra categoria de demônios, que supostamente nunca habitaram um corpo mortal, e estes dividiam-se em duas categorias: Os bons que eram os guardiões dos homens bons e os maus, que se dizia invejarem a felicidade dos humanos, tentando impedir suas virtudes e provocar sua ruína. Nestas noções vemos um substrato da verdade, mas, nas escrituras, temos a verdade em sua pureza original, livre das corrupções da superstição e das imagens licenciosas dos poetas, e a sua verdade fica mais majestosa em sua simplicidade.[9]

Para os povos primitivos, todas as manifestações da natureza correspondiam a um espírito que pode ser benéfico e maléfico, conforme os efeitos decorrentes destes fenômenos. Ao pé das nascentes e dos montes, junto a certos sítios animais ou árvores, adeja um espírito que é preciso propiciar.

No Antigo Egito, prestava-se culto a uma multidão de espíritos inferiores às divindades, que abrilhantavam suas cortes. Na Mesopotâmia, um número incalculável de espíritos tinha características nitidamente pessoais e exercia um influxo não raro definitivo sobre os destinos humanos.  Dois milênios antes de Cristo, na Pérsia, antes e depois da reforma de Zaratustra, era vívida a crença em seres intermediários, bons e maus. Fica portanto claro: desde as eras primordiais, à convicção da existência de seres pessoais inferiores à divindade e superiores aos homens tem sido praticamente universal.

ANGELOLOGIA MESOPOTÂMICA

A Mesopotâmia é uma estreita faixa de terra situada na Ásia Ocidental, e durante   muito   tempo foi  o centro do mundo antigo,  importante passagem entre o Golfo Pérsico e o Mar Mediterrâneo. Sempre esteve exposta à infiltração de nômades do deserto, montanheses rudes e povos indo-europeus. Sua história é uma sucessão de guerras, invasões, massacres e de dominações diferentes. Sucederam-se no domínio da “terra entre rios” sumérios, acádios, amorritas, cassítas, assírios, hititas e caldeus.

Os povos mesopotâmicos destacaram-se  por sua religiosidade, alem de seus deuses, era uma crença comum a existência de gênios tutelares, bons e maus que exerciam grande influência nos acontecimentos humanos. Os touros alados chamados de "karibu" eram os gênios bons, guardiões da morada dos deuses e dos reis. Para impedir a ação dos gênios maus, os mesopotâmicos praticavam vários esconjuros, de quem temos uma reminiscência no livro apócrifo de Tobias.

Dentre os povos citados, três são de enorme valor, o primeiro deles são os sumérios, um povo de origem desconhecida, que ocupou o sul do vale no início do terceiro milênio antes de Cristo. Eram pacíficos, e desempenharam um relevante papel no desenvolvimento das civilizações mesopotâmicas, possuíam um sistema de escrita chamado “cuneiforme”, fundaram em suas cidades bibliotecas e escolas. Os sumérios possuíam três importantes cidades na qual uma delas tem um grande valor para o desenrolar  da história bíblica, são elas: Ur, Uruk e Lagash. A mais importante de todas foi Ur, cidade que em sua época era um grande centro mercantil, opulenta e orgulhosa, com seu poderio econômico foi de onde saiu o patriarca dos hebreus Abraão.

O progresso das cidades sumerianas foi interrompido pelas invasões de tribos seminômades, procedentes do deserto da Síria,  entre as quais destaca-se a dos acádios. Os acádios eram semitas que estabeleceram-se ao norte da Caldéia, fundaram importantes cidades como:  Agadê, Sippar e mais tarde a poderosíssima Babilônia.

Os sumerianos eram politeístas e não acreditavam em recompensas após a morte. Visavam apenas obter, através da religião, dádivas materiais  imediatas.  Acreditavam  em um deus chamado Marduk que, segundo a lenda, depois de lutar contra os deuses invejosos, criou o mundo e o homem do barro com o sangue do dragão. Conheciam um mito sobre o dilúvio, que teria sido mandado pelos deuses para castigar a humanidade. Gilgamesh, orientado por Marduk, salvou-se, recolhendo-se numa arca com a sua família. Criam em gênios, que eram os mensageiros dos deuses e os ajudavam a defenderem-se dos demônios, divindades perversas, contra as enfermidades e a morte, acreditavam ainda em heróis, adivinhações e magia.

Seus deuses eram numerosos com qualidades e defeitos, sentimentos e paixões, imortais, despóticos e sanguinários. Eram eles: Anu, deus do céu; Enlil, deusa do ar; Ea, deusa das águas; Sin, deusa da lua; Shamash, deus do sol e da justiça; Istar, deusa da guerra e do amor. Os sacerdotes se esforçavam para agrupar os deuses em  tríades (famílias). Cada divindade era uma força da natureza e  dono de uma cidade. Marduk, deus da Babilônia; era considerado o cabeça de todos, tornou-se deus do Império durante o reinado de Hamurabi I (1792 – 1750 a.C.), foi substituído por Assur durante o domínio assírio na Babilônia mas voltou ao seu posto com Nabucodonosor.

O terceiro povo, os hititas, acreditavam que seu deus possuíam dois assistentes, Sukkallu, seu mensageiro e Guzalû, mensageiro que conduzia o seu trono. Sukkallu é mencionado como uma espécie de marechal ou policial em um documento mesopotâmico, e o Guzalû como um oficial da corte em escritos cuneiformes desenterrados em Chagar Bazar.

 Gaster, um orientalista especialista em história comparada das religiões, aplica o método de sua especialização para explicar a angelologia bíblica. Segundo ele, a concepção bíblica dos anjos como mensageiros celestes deriva-se das mais antigas religiões pagãs do Oriente. Ele assegura que a maior parte das histórias a respeito de anjos pertence ao repertório folclórico popular. Conforme ele, na Bíblia, no lugar desses seres espirituais como gênios, demônios e fadas etc., são colocados os anjos. Os anjos são, por conseguinte, simples versão hebraica destes heróis mitológicos do folclore universal. Ele faz o seguinte comentário:

O deus hitita Hasmilis com uma nuvem despistou os inimigos, no mar vermelho um anjo interpôs uma nuvem a fim de esconder os hebreus dos egípcios. O deus supremo da Mesopotâmia mandava uma guarda de segurança proteger seus devotos, Jacó possuía um anjo especial que o guardava e o protegia.[10]

ANGELOLOGIA EGÍPCIA

O Egito é uma estreita faixa de terra  fértil que se estende  ao longo das margens  do  Nilo ao nordeste da África, entre o mar Mediterrâneo, o Sudão, o mar Vermelho e o deserto da Líbia. Seu clima é seco. As chuvas são escassas e sua fertilidade deve-se ao Nilo.

Na pré-história, a região do alto Egito ostentava densas florestas, onde abundavam os animais de caça. Os grupos humanos, que aí se estabeleceram, certamente de varias etnias, ainda hoje pouco definidas, dedicavam-se à caça e praticavam o totemismo como sistema de definição dos vários grupos e de promoção dos casamentos exogâmicos.

O povo egípcio pertencia ao ramo Mediterrâneo do grupo caucásico e na sua formação entraram elementos negróides, líbios e semitas. Eram pacíficos, trabalhadores, pacientes, e segundo Herodoto  eram:  “O povo mais religioso do mundo.”[11] Cultuavam um ser supremo, como senhor dos animais e uma multidão de espíritos intermediários. Com o tempo, vindo a rarear a caça e tornando-se imperiosa a vida sedentária, com a domesticação de animais e o  cultivo das margens férteis do rio Nilo, o ser supremo foi associado a uma entidade agrícola, como a mãe-terra e os totens, por sua vez, passaram a distinguir, não só os vários grupos humanos mas também as entidades protetores dos territórios em que estavam estabelecidos. Em princípio, estes totens eram colocados acima das estátuas destas entidades protetoras, mas, durante a segunda dinastia, começaram a aparecer as estátuas  híbridas, com corpo de homem e cabeça de animal, que caracterizam o politeísmo egípcio.
Tudo para o egípcio era divino, o próprio humano julgava-se possuir algo de divino. O Kha, o que lhe permite a identificação com Osíris e o acesso à felicidade eterna dos deuses. Ele criam  que os deuses possuíam, família, servos e grandes mansões.

Os egípcios acreditavam que o ser humano se compunha do corpo e de dois outros elementos: o Ba, representado por um pássaro sem cabeça e o Ka, espécie de gênio protetor que nascia com o homem e acompanhava-o durante toda a sua vida e cuidava dele após a morte. 

O Egito era uma terra de muitos deuses. Visto que as divindades locais eram a base da religião, os deuses egípcios tornaram-se extremamente numerosos. Deuses da natureza eram comumente representados por animais e pássaros. Eventualmente, divindades cósmicas personificadas por forças da natureza foram elevadas acima dos deuses locais, passando a ser teoricamente reputadas como divindades nacionais. Estas divindades tornaram-se tão numerosas que chegaram a ser agrupadas em famílias.

Os templos, igualmente, eram numerosos e espalhados por todo Egito. Com a provisão de um lar ou templo para cada deus, surgiu o sacerdócio, as oferendas, as festividades, os ritos e as cerimônias de adoração. Em troca destas acomodações, o povo considerava que seus deuses eram seus benfeitores. A fertilidade do solo e dos animais, a vitória ou a derrota, as inundações do vale do Nilo, enfim, todos os fatos que afetam o bem estar da vida do povo, eram atribuídos a alguma divindade.

A proeminência nacional atribuída a qualquer deus em particular era intimamente relacionada à política. O deus-falcão, Horus, subiu à categoria de deus local para a de deus oficial de império quando o rei Menés  estava no poder e uniu o baixo ao alto Egito. No entanto, quando a quinta dinastia subiu ao poder, ele patrocinou o deus-sol de Heliopólis, Ré, como o cabeça do panteão egípcio. A maior aproximação de um deus nacional no Egito foi o reconhecimento dado a Amon, durante os reinos médio e novo. Os magníficos templos de Carnaque, Luxor, nas vizinhanças de Tebas, até hoje dão testemunho do patrocínio real conferido a uma divindade. Muito tempo depois, durante o reinado da décima oitava dinastia, o culto a Amon, com o seu sacerdócio tebano, tornou-se tão forte que o desafio faraônico contra o seu poder foi esmagado com sucesso, quando da morte de Aquenaton. A despeito da proeminência das divindades nacionais, em ocasião alguma elas foram adoradas com exclusividade por toda massa egípcia. Para um aldeão egípcio, a divindade local era a que se revestia de toda a importância, fosse ela em figura humana (antropomorfismo), figura animal (zoomorfismo), corpo humano, ou cabeça de animal (antropozoomorfismo). Os principais deuses eram: Amon-Rá, Osíris, Ísis, Horus, Ptah, Thot e Anúbis.

Os egípcios acreditavam na vida após a morte, para eles, o registro sem mácula neste mundo daria ao indivíduo o direito à imortalidade. Isto justifica os sepultamentos reais, nas pirâmides e túmulos, onde foram encontrados depositadas provisões adequadas para outra existência, como alimentos, bebidas e outros luxos da vida. Nos primeiros tempos, até mesmo os servos eram mortos e postos ao lado do cadáver do seu senhor. À semelhança de Osíris, que era símbolo divino da imortalidade, os mortos egípcios eram julgados perante um tribunal do submundo composto de quarenta e dois deuses e por ele chefiado. A alma, depois de fazer a sua defesa através do “Livro dos Mortos”, deveria declarar-se inocente dos quarenta e dois pecados e confirmar as suas virtudes. Depois, seu coração, símbolo da consciência, era pesado numa balança por Anúbis. Se fosse inocente, iria viver eternamente em bosques com pássaros canoros e lagos cheios de lotos e gansos.

É difícil, praticamente impossível apontar denominadores comuns na religião do Egito ao longo de quase três mil anos de desenvolvimento. A religião vai desde o politeísmo grosseiro até um monoteísmo solar. A tolerância extrema que havia na religião egípcia explica a interminável adição e reconhecimento de tão numerosos deuses; nenhum deles foi jamais eliminado. Visto que os estudiosos modernos acham difícil fazer uma análise lógica dos múltiplos elementos desconexos dessa religião, é de duvidar que qualquer egípcio nato pudesse fazê-lo. A confusão é o resultado de toda tentativa em correlacionar o exército de divindades com os seus respectivos cultos e ritos. Também não podem ser relacionados as hostes de mitos e crendices.

Um mito bastante conhecido tinha a ver com o rio que sustentava toda a vida naquele país. O deus Osíris foi assassinado e retalhado por Set, seu irmão, em seguida seu corpo foi espalhado por  seus mensageiros em todo o  Egito. Ísis sua irmã e esposa, auxiliada por Horus, Thot e Anubis, recolheu os pedaços do corpo do seu marido e os colou. A única parte de Osíris que não conseguiram achar foi seus testículos, pois fora colocado nas profundezas do Nilo por Set. Este mito simboliza  a fertilidade, a regressão das águas no outono e a volta com inundações na primavera.

Havia também culto aos animais, que serviam para representar seus deuses, estes animais eram: o gato, o crocodilo, o chacal, o escaravelho e o boi  Ápis que vivia em uma capela em Mênfis e era servido por sacerdotes e quando morria era embalsamado.

O fato do sol se esconder todas as tardes e reaparecer no dia seguinte, bem como o Nilo crescer e recolher-se ao leito, levou os egípcios a desenvolver o culto aos mortos.
Em alguns textos fúnebres no Egito fala-se de uma escada entre o céu e a terra. Escadas em miniaturas eram colocadas nos túmulos do Egito a fim de facilitar a ascensão da alma ao céu.
Era conhecido também o correio celeste entre os deuses através de mensageiros mencionado na famosa “Carta Satírica” egípcia de Hare que foi escrita aproximadamente no século 13  a.C. na qual ocorre o termo com uma palavra de origem semítica.

ANGELOLOGIA CANANITA

O nome Canaã se aplica às terras que ficam entre Gaza, no sul e Hemate, no norte, ao longo das costas do Mediterrâneo. Os gregos, em seu intercâmbio com Canaã, durante o primeiro milênio a.C., chamavam seus habitantes de fenícios, nome esse que provavelmente teve origem no termo grego que significa “púrpura”, a cor carmesim de um corante de têxteis produzido em Canaã. Desde o século XV a.C., o nome Canaã vinha sendo aplicado, de modo geral, à província egípcia da Síria, ou, pelo menos às costas fenícias, o centro da indústria de púrpura. Consequentemente, as palavras cananeu e fenício têm a mesma origem cultural, geográfica e histórica. Mais tarde, essa área veio a ser conhecida como Síria e Palestina. A designação Palestina teve sua origem no nome Filístia.

Com a migração de Abraão para Canaã, essa terra se tornou o centro das atenções nos desenvolvimentos históricos e geográficos dos tempos bíblicos. Estando estrategicamente localizada entre os dois grandes centros que abrigavam as mais antigas civilizações, Canaã servia de ponte natural que ligava o Egito a Mesopotâmia. Em resultado disso, não é de surpreender que fosse mista a população da região. Cidades de Canaã, como Jericó, Dotã e outras, já vinham sendo ocupadas desde séculos antes dos tempos patriarcais. Devido ao primeiro grande movimento semita dos amorreus para a Mesopotâmia, parece provável que os amorreus lançaram povoados por toda palestina.

Durante o reino médio, os egípcios estenderam seus interesses políticos e comerciais tanto para o norte como para a Síria. Não menos importante entre os invasores era os hititas, que penetraram em Canaã vindos do norte e que figuravam como cidadãos bem estabelecidos quando Abraão adquiriu a caverna de Macpela (Gn. 23). Os refains, um povo até recentemente obscuro, exceto quanto às referências bíblicas, foram a pouco identificados na literatura ugarítica. Pouco se sabe acerca de outros habitantes que figuram na narrativa de Gênesis. A designação cananeu provavelmente abarcava a confusa mescla de povos que ocupavam a região na era dos patriarcas.

A religião de Canaã era politeísta. El era reputado como principal divindade cananeia. Simbolizado como um touro entre um rebanho de vacas, o povo se referia a ele como “pai touro”, considerando-o criador. Assira era a esposa de El. Nos dias de Elias, Jezabel patrocinava a quatrocentos profetas de Assira ( 1o Rs 18.19). O rei Manassés erigiu a imagem dela no templo de Jerusalém (2a Rs 21.7). O primeiro dentre os setenta deuses e deusas que eram tidos como proles de El e Assira era Hadade, mais conhecido pelo nome de Baal, que quer dizer senhor. Como monarca reinante dos deuses, ele controlava os céus e a terra. Por ser deus da chuva e da tempestade, ele era o responsável pela vegetação e pela fertilidade. Anate, a deusa amante da guerra era sua irmã e consorte. No século IX a.C. , Astarte, deusa da estrela vespertina, era adorada como sua esposa. Mote, deus da morte, era o principal adversário de Baal. Ion, deus do mar foi derrotado por Baal. Esses e muitos outros deuses são os primeiros a figurar no catálogo do panteão cananeu.

Visto que as divindades cananéias não tinham caráter moral, não é de surpreender que a moralidade daquele povo fosse extremamente baixa. A brutalidade e imoralidade que se destacam nas narrativas sobre estes deuses é algo muito pior que qualquer outra coisa vista no Oriente. E, posto que isso se refletia na sociedade cananéia. Os cananeus, nos dias de Josué, praticavam sacrifícios de crianças, a  prostituição sagrada e adoração  á serpente como parte de seus ritos e cerimônias religiosas.

Conforme Gaster, as divindades semitas também tinham mensageiros a seu serviço:
A  deusa-mãe  dos    hititas  era  assessorada  por  dois  grupos de fadas, boas  e más. As  boas eram  enviadas  para  assistir  às  famílias benquistas pela deusa, deviam proteger as plantações, cuidar dos vestidos e ornamentos femininos e arranjar-lhes casamentos. As más eram enviadas às famílias malquistas pela deusa, deviam deixar solteiras suas mulheres, excitar contendas e discórdias, “de modo que quebrem a cabeça”. No antigo testamento também há anjos que são mandados para o bem e outros que são enviados para castigar e punir. Nos textos ugarísticos de Ras Shamrá, os estafetas celestes eram enviados em pares, pois assim se acontecesse um acidente, um não ficaria sozinho na estrada. Em Gênesis 19.1 os anjos viajam em pares pelas estradas de Sodoma.[12]

ANGELOLOGIA BABILÔNICA       
      
Em 616   a.C. Nabopolassar pôs os assírios  em  fuga para  o  norte,  ao  longo do rio Eufrates, até Harã, retornando com lucrativos despojos, antes que o exército assírio pudesse  desfechar em  contra-ataque. Isso levou a Assíria a aliar-se ao Egito, que fora libertado do domínio assírio por Psamético I em 645 a.C.

Após repetidos assaltos contra a Assíria, caiu a cidade de Assur  diante dos medos comandado por Ciaxares, em 614 a.C. O resultado dos esforços babilônicos por ajudar os medos, nesta conquista, foi a aliança medo-babilônica, confirmada através  de matrimônio.      Na primavera de 605 a.C, Nabopolassar enviou Nabucodonosor, o príncipe herdeiro, com o exército babilônico para cuidar da  ameaça egípcia no alto do rio Eufrates .   Ele marchou diretamente e com determinação para Carquemis, cidade que os egípcios dominavam desde 609 a.C., quando Neco  subira em auxílio às forças  assírias. Os egípcios  foram  decisivamente  derrotados em Carquemis. Nabucodonosor passou a controlar  a Síria e a Palestina, fato que teve um efeito decisivo sobre Judá. Nabucodonosor instalou-se em Ribla onde montou seu quartel general. Joaquim, rei de Judá, que fora vassalo de Neco, agora  tornara-se sujeito a Nabucodonosor. Judá foi levada cativa, e seu templo, orgulho nacional, foi saqueado, seus jovens e artífices apanhados e deportados para Babilônia (Dn.1.1) no primeiro desterro, a supremacia babilônica se consuma sobre Judá quando pela segunda vez, em 597 a.C. Nabucodonosor leva o resto do despojo e nomeia Zedequias rei em Jerusalém. 
          
Em  588  a .C. Zedequias se rebela contra Babilônia, daí começa o desfecho, a destruição final de Jerusalém. Desnuda de sua população por força do exílio, a capital de Judá  foi abandonada em ruínas .A glória do reino Babilônico começou a dissipar-se depois da morte de Nabucodonosor , em 562 a.C. Sendo hábil construtor, ele fez da cidade de  Babilônia a mais poderosa fortaleza do mundo, adornada de esplendores e belezas jamais ultrapassados.

Após a sua morte, Evil-Merodaque , também conhecido como Avel-Marduque, governou somente por  dois anos  sobre o império que herdou de seu pai. Seu nome nos trás uma idéia da religião babilônica.

Merodaque é mencionado na Bíblia somente em Jeremias 50.2. Observamos que neste texto o nome Merodaque  é paralelo à palavra bel, transliteração do atributo acadiano de Marduque, “Senhor”. Fora esta menção em Jeremias 50.2, o nome de Merodaque aparece na Bíblia apenas em nomes pessoais, tais como: Merodaque-Baladã (Marduk-apal-idenn), Evil-Merodaque (Awel-Maruduk) e Mordecai.    
                          
É desconhecida a origem do nome Merodaque, embora várias etimologias tenham sido sugeridas. Em sumério a forma de seu nome é dAMAR-UD, e nos mais antigos registros silábicos (babilônio antigo) o nome é marutuk (ma-ru-tu-uk). A tradução seria “O bezerro/ filho de Utu (o deus–sol).”  Mas, Jacobson nos dá outra possibilidade: "O nome significa “filho da tempestade”, pois a idéia que os textos apresentam de Merodaque é mais de um deus da tempestade, chuva, raios e trovões do que de um deus-sol."[13]

Em acadiano a forma do nome é mar(u)duk(u). É interessante a vocalização do seu nome em hebraico, merodak (na LXX é Merodaque). Alguns estudiosos são da opinião de que existe uma semelhança deliberada com ,adonay, “meu Senhor”. O mais provável é que seja uma vocalização eufemística, assemelhando a palavra com meborak, “maldito”.

Geralmente se diz que Merodaque foi exaltado à sua posição de supremacia no panteão babilônico quando Hamurabi fez de Babilônia a capital política do sul da Mesopotâmia (XVII  a.C.), embora fosse conhecido como um deus de menor importância já no terceiro milênio a.C. É, contudo, bem defensível a idéia de que somente no reinado de Nabucodonosor I (1.100 a.C.), Merodaque realmente se tornou o “rei dos deuses”. Merodaque era filho de Enki (Ea) e de Eridu, o deus da sabedoria e patrono das artes mágicas. O próprio pai de Merodaque foi pai de Nabu, o qual, próximo do fim do período neobabilônico (séc. VI a.C.), suplantou o pai em popularidade. Merodaque era o deus  da   cidade  de  Babilônia. Ali  o seu  templo  era chamado É-Sag-ila, “a casa que ergue bem alto a sua cabeça”. A seu lado encontrava-se a famosa torre  de degraus (Zigurate), É-Temem-an-ki, “a casa dos alicerces dos céus e da  terra”, com  aproximadamente 91 metros de altura. O grande portal oriental do templo, a porta santa, que ficava fechada com tijolos o ano inteiro, era aberta quando era comemorado a principal festa de Merodaque, a festa de Akitu (ano novo).

Nesse dia, comemorava-se o casamento de Merodaque com sua noiva, Sarpanitu, levando-se as estátuas de ambos para fora dos muros da cidade. Ali fora, simulava-se uma relação sexual entre os dois, assegurando assim a fertilidade da terra no ano que se iniciava. Nesta festa também se recitava a estória de Enuma Elish (o épico babilônico da criação). Merodaque, o herói dessa estória, é nomeado pelos deuses para liderar com seus gênios a luta contra Tiamat.     

ANGELOLOGIA MEDO-PÉRSA.

A Pérsia está situada entre a Mesopotâmia, o Golfo Pérsico e o Oceano Índico, a Índia e o Turquestão, na Ásia Central. Seu clima é quente e seco. Quase não chove ali. O solo é árido, com pequenas faixas férteis nos vales, onde se formam oásis.

Os medos e os persas, habitantes do planalto iraniano, pertenciam ao grupo dos indo-europeus que viviam nas estepes orientais do mar Cáspio e denominavam-se ários, que quer dizer nobres. Os medos estabeleceram-se na parte setentrional dos montes Zagros, próximo da Assíria, por volta do século IX a.C. Os persas ocuparam a parte meridional, nas proximidades do Golfo Pérsico, no século VI a.C. Eram altos, bons cavaleiros, valentes, dedicados à agricultura e ao pastoreio, ao trabalho em cobre,  bronze e ouro.

A origem deste povo está no século VIII a.C. Os assírios, no apogeu de seu militarismo, dominaram os medos. As tribos destruídas e vencidas uniram-se na luta contra o invasor. No século seguinte estava formado o reino Medo, com a capital em Ecbátana.

Segundo a tradição, Déjoces foi o primeiro rei medo. Ciáxares (625 a 585 a.C.), com um exército bem armado e disciplinado, impôs o seu domínio aos persas e tentou aniquilar o poderio assírio. Sob a sua dinâmica, a Média se impôs como uma ameaça à supremacia assíria durante a última metade do século VII a.C., e as forças combinadas da Média e da Babilônia destruíram Nínive. O matrimônio de Nabucodonosor com a filha de Ciáxares selou esta aliança de tal modo que prevaleceu um delicado equilíbrio de poder durante todo o período de expansão e supremacia babilônica. Astíages (585 a 548 a.C.) continuou a política expansionista de Ciáxares, seu pai, até ser destronado por Ciro.

 O Império Persa, segundo a tradição, foi fundado por Ciro, neto de Astíages e filho da princesa Mandane, casada com Cambisses, príncipe persa. Educado por pastores, tornou-se posteriormente um bravo guerreiro. Notável administrador, recebeu o título de “rei do mundo”. 
A cultura persa era eclética, adotaram o progresso intelectual dos povos submetidos. A arquitetura era secular, não havia construções religiosas.  Segundo Antônio Alves, a religião dos  persas  teve um  enorme  destaque   pois  “o cristianismo, o judaísmo e  o islamismo, as grandes religiões atuais derivam diretamente da religião persa”.[14] Os fundamentos da religião persa fora ensinados por Zaratustra (Zoroastro em grego).

No zoroastrismo, existiam dois deuses: Ahura Mazda (ou Ormuzd), representando o bem, a luz e Arimã, representando o mal, as trevas. Portanto, era uma religião dualista.

Cada um destes deuses era auxiliado por uma multidão de mensageiros (Djins) ou gênios maléficos (Devas). Acreditava-se que o bem e o mal lutariam até o fim dos tempos com a vitória do bem. Mazda necessitava da ajuda dos homens nesta batalha. Para isto, eles deveriam evitar os pecados e seguir certos mandamentos morais, era uma religião de conteúdo ético, preceitos morais. Acreditava-se ainda em um céu e em um inferno, no julgamento das almas e em um messias, Saoshyant, nascido de uma virgem, Huôu. No fim dos tempos, haveria a ressurreição para todos e um julgamento final. Era uma religião escatológica.

O Zoroastrismo não manteve a sua pureza original, mas misturou-se às superstições primitivas, à magia e à religião caldaica. Daí, surgiram duas heresias: o Mitraismo, que era a adoração à Mitra, anjo de Ahura Mazda. As cerimônias desta religião incluíam um banquete onde se servia pão e vinho, uma lavagem purificatória com água (batismo), a guarda de um dia santificado (domingo) e o dia do nascimento do sol (25 de dezembro).

Estas crenças se espalharam rapidamente pelo Oriente com o Império Macedônico e mais tarde se estabeleceram em Roma em 100 a.C.

A outra heresia foi o maniqueísmo, fundado por Mani, sacerdote em Ecbatana, entre 250 e 276 d.C.. Foi portanto, o grande concorrente do cristianismo  no Império Romano decadente.
Mani levou ao extremo a doutrina dualista, para ele tudo que fosse material era intrísicamente mau e tudo que  fosse espiritual seria  necessariamente bom. Assim, só haveria salvação quando abandonássemos a carne e nos dedicássemos somente ao espírito.

ANGELOLOGIA ENTRE OS GREGOS

A grande preocupação da filosofia grega era explicar a harmonia e a ordem do Cosmos. A este respeito diz Foerster: "Os filósofos gregos depois do insucesso de representar o mundo como um kosmos de dinamismo abstrato, introduziram, com os daimones, seres intermediários pessoais."[15]

Esta teoria era uma resposta à carência generalizada de um teodicéia. Ao lado dos "daimones", como forças ativas e determinantes da ordem cósmica, aparecem os demônios maus, princípios de desordem cósmica. Assim, Plutarco cita os Alastores como exemplo de demônios maus. Hesíldo os denominava "vigilantes da humanidade". Para Platão, os demônios são providências intermediárias entre Deus e os mortais. Os estóicos também aceitavam esta concepção dos demônios como  as  potências aglutinadoras da ordem cósmica. Diórgenes disse que  “segundo os estóicos, os demônios são inspetores que vigiam com simpatia todas as coisas humanas”.[16]

Nos escritos herméticos, os demônios, enquanto condicionam o destino humano, são postos em relação com todas as desventuras e catástrofes: furacões, tempestades, raios, incêndios, terremotos, bem como a fome, guerras e assim por diante.

A filosofia helenista atribui a estes seres intermediários,  controladores da ordem cósmica uma verdadeira paixão pela natureza visível. Conforme esta empatia, os demônios maus tinham um desejo de estarem mais próximos da terra, enquanto os seres intermediários bons eram habitantes do céu.

Esta doutrina foi ampliada pelos neoplatônicos que conceberam um grande sistema de seres intermediários, que à medida que se aproximam da terra, se tornam cada vez mais imperfeitos. Assim, os demônios, conforme o seu caráter, transformam-se em seres superiores aos homens, mas sempre imperfeitos, e constituem cada um dos degraus da evolução que vai da matéria ao espírito, do homem a Deus.

Na crença e na filosofia popular helenista, os demônios são ainda responsáveis por cada um dos fenômenos. Assim, determinadas doenças eram atribuídas a certos demônios. Plínio fala de um demônio da febre. Em sentido neoplatônico são chamados daimones as divindades que presidem à vida ou que vigiam os elementos dos cosmos.

Ao lado do termo daimon há no helenismo o termo daimónion que designa tudo o que transcende as possibilidades humanas, e que, tanto no bem, como no mal, pode ser reduzida ao influxo de potências superiores.

A palavra grega  Daimwn,onoV  (daimon, onos), que através do latim eclesiástico daimoniu (m), nos deu demônio, procede do verbo Daiesjai (daiesthai), "repartir, dividir". Em sentido estrito, daimon significa "uma força, uma potestade que exerce algo", donde  "divindade, destino" como atesta o sânscrito  bhága, "parte, destino, senhor". Em Homero, demônio é um poder que não se quer ou não se pode nomear: daí seu duplo sentido de divindade e destino, sem nenhum direito a sacrifícios. Em Hesíodo, Daimwn (daímon), significa um "semi- deus, um demônio". Já na literatura grega se fazia a distinção entre Kakodaimonia (kakodaimonia), "posse ou perseguição desenfreada por um mau demônio" e Eudaimonia (eudaimonia), "felicidade, isto é posse de um bom demônio". Só a partir do latim cristão é que daemonium, "demônio", mero decalque do derivado grego Daimonion (daimónion), passou a significar "espírito maligno, diabo, satanás". A crença em espírito sobrenaturais um pouco menos antropomorfizados do que os olímpicos é uma característica muito antiga da religião popular grega; um certo daímon está ligado a uma pessoa ao nascer e determina, para o bem ou para o mal, o seu destino. Para Empédocles, daímon é um outro nome com que se designa psique, o que provavelmente reflete a origem divina e os poderes de que eram dotados os "demônios", Sócrates atesta a antiga tradição religiosa, quando fala na apologia, de um certo demônio, de algo divino, Daimonion ti (daimonion ti) que o aconselha a evitar certas ações. Segundo  ainda o autor supracitado, talvez seja um engano pensar que Sócrates ou seus contemporâneos fizessem uma distinção muito acentuada  entre daímon e theion, entre "demônio e divino", uma vez que "a defesa socrática contra o ateísmo na apologia, assenta num argumento de que acreditar nos daímones é acreditar nos deuses". Na República o daímon aparece como uma espécie de anjo-da-guarda, mas se aquele está ou não dentro de nós foi algo que muito  se discutiu  na filosofia posterior. No Banquete, Platão, pelos lábios de Diotima, identifica Eros com um daimon, que funciona como intermediário entre os deuses e os homens. Os neopitagóricos e neoplatônicos agasalham esta noção: os deuses olímpicos habitavam o éter, enquanto os daímones, divindades menores, ocupavam o ar inferior e exerciam influência e providência diretas sobre os mortais.[17]

Entre os gregos subsistia o culto aos gênios tutelares da natureza. Um velava pelo bom funcionamento dos moinhos e outro que quebrava os vasilhames; um que presidia o bom êxito dos partos nos rebanhos e outro que transmitia a febre aos doentes.

Para Platão, o daimon é um ser pessoal, intermediário entre a divindade e os homens destinado a mover o homem nos caminhos do bem. Aristóteles afirmou: "acima do céu seres não sujeitos a alterações ou paixões que levam uma vida ótima e eterna".[18] Cada um deles move um dos céus e é intermediário inteligente entre "o Motor Imóvel e o homem, tornando-se assim elemento da explicação dada por Aristóteles do movimento do universo".[19]

Crisipo, e com ele, outros filósofos estóicos, prevêem em seu sistema seres espirituais incapazes da plena impassibilidade e felicidade divina, mais muitos superiores aos homens. Trata-se de seres bons e seres maus que talvez seja a causa das desgraças e da maldade humana.

ANGELOLOGIA NO JUDAÍSMO.

No judaísmo tardio se encontra a mesma demonologia cósmica que existia entre os gregos. Conforme o pensamento judaico expresso no Bereshit Rabba:
Cada fenômeno material, cada força natural: chuva, granizo, vendaval, mar etc., é expressão, a manifestação de um anjo, do mesmo modo, cada acontecimento na vida humana, doença, alimentação, empobrecimento e etc. ... é a aparência que revela a atividade de um espírito (anjo ou demônio). Não há um talo de uva na terra que não tenha seu anjo no céu.[20]

Conforme a tradução judaica, o nome dos anjos designa sua função cósmica ou histórica; assim, o anjo que anuncia o nascimento é chamado Gabriel, que significa “virilidade de Deus”. O Midrash Dbharem Rabba afirma: “Gabriel é aquele que prende à fecundação de tudo o que vive, até fazer nascer os animais, amadurecer os frutos”.[21] Nos comentários dos rabinos os anjos tem uma participação importante. O Dr. Donald D. Turner conta-nos o seguinte:
Ainda que o livro de Ester não mencione nem Deus nem anjos, nos escritos dos rabinos abundam referências ao ministério dos mesmos. Por exemplo: um anjo impediu Vasti de comparecer perante o rei Assuero, a fim de abrir caminho para escolha de Ester; quando o escrivão leu as crônicas perante o rei, segundo esses comentários, o bem que havia sido praticado por Mardoqueu, havia sido apagado do livro pelo escriba Sinsai, mas afirmam que o anjo Gabriel tornou a escrever a passagem no lugar devido; que três anjos ajudaram Ester quando ela se apresentou no pátio perante o rei; que ao sair o rei no jardim, por ocasião do segundo banquete, encontrou três homens (anjos disfarçados) que arrancavam as árvores do jardim, aos quais perguntou porque faziam aquilo, e responderam que Hamã fora quem ordenara; que um anjo empurrou Hamã, obrigando-o a cair sobre o leito de Ester no momento em que o rei regressava ao salão de banquete, etc...Estes são apenas alguns exemplos da profusão de referências aos anjos, nos escritos dos rabinos.[22]
As referências nos escritos rabinicos afirmam que  mil anjos acompanham a cada judeu; um deles o precede para dizer aos demônios que abram alas, e ainda, quando um judeu entra em um lugar imundo roga aos seus dois anjos que o esperem na saída, o versículo usado para dar apoio a esta crença é o Salmo 91.11-12.

Os judeus igualmente discutiam se o anjo protetor estava encarregado da criança desde a sua concepção, desde o seu nascimento ou desde a sua apresentação no templo, tudo isso prova o quão arraigada entre os judeus era essa crença.    

ANGELOLOGIA ENTRE OS ROMANOS.

Como os gregos, os romanos tinham a convicção da existência de gênios tutelares da natureza. Um grupo de gênios velava pelo bom funcionamento das coisas, enquanto outros perturbavam e ensinavam destruição. Os bons presidiam com  êxito o parto dos animais, e os outros transmitiam a febre aos doentes.

 Os romanos não tinham imagens de seus deuses, nem sequer templos. Contentavam-se em demarcar certas áreas sagradas, geralmente bosques, para  fazer suas preces e oferecer os seus benefícios aos gênios. Estes eram numerosíssimos e muito especializados, pois cada um deles tinham uma função determinada. Por exemplo; nos trabalhos agrícolas havia um Vervactor para a primeira passagem  do arado, um Redaptor, para a segunda passagem, um Insitor para a semeadura, e assim por diante.

No desenvolvimento da criança, havia um Cunina, para cuidar dela no berço, um Rumina, para a sua alimentação, e um Statulina, para que aprendesse a ficar de pé. Isto é, os nomes individualizam os gênios, indicando a sua função. Não havia preocupação em determinar o seu sexo nem a sua hierarquia, pois o que realmente importava era o poder que ele tinha para favorecer ou prejudicar o homem.

Os cultos eram celebrados nos lares, onde encontramos uma religiosidade mais expontânea, na qual preponderam os elementos de uma cultura agrária. Todo o “pai de família” era um sacerdote nato, que oficiava como tal em seu próprio lar, segundo ritos que ficavam em grande parte ao seu arbítrio. Os objetos de culto eram:
 O gênio da família, que era a força vital presente e imanente no chefe do clã, personalizada e venerada junto ao leito nupcial, festejada no dia do nascimento do chefe da família com ofertas de vinho, incensos e bolos. Está de alguma forma ligado aos espíritos dos antepassados e às forças da natureza, representada pela “serpente”, animal mítico que protege os casamentos e a transmissão da forças generativas; Os lares: são originalmente divindades dos campos, como tal veneradas nas encruzilhadas com pequenas capelas, que depois são transferidas para as cidades . São forças fecundantes que passaram a ser invocadas como divindades  protetoras das famílias, identificando-se de alguma forma com os manes e os gênios; Os Penates: são originalmente divindades protetoras das dispensas familiares e da cozinha, que com o tempo se tornaram responsáveis pela multiplicação dos bens familiares; não são representados em figuras, pois constituem uma coletividade;  Os manes: são os antepassados, fundadores do clã, ou dignos de memórias pelos seus feitos, cujo espírito se perpetua  nos chefes de família.[23]


Capítulo 2

OS ANJOS NA HISTÓRIA RELIGIOSA CRISTÃ

ANGELOLOGIA NA IGREJA PRIMITIVA.

Desde o início da era cristã existem claras evidências da crença na existência dos anjos. Orígenes,  teólogo cristão que viveu entre os anos 185 a 254 d.C. escreveu o seguinte:
  Somos criaturas com duas naturezas: animal, semelhante às bestas, e racional, porém racional imperfeita. Não haverá outra criatura melhor? Assim  como percebemos por nossa parte sensível  que existem seres inferiores, é razoável crer,  por nossa parte nobre e intelectual que existem seres superiores. Quanto ao Todo-Poderoso haver criado uma multidão de anjos, é razoável, pois estaria o céu deserto de habitantes inteligentes? Deus não é nem desocupado nem solitário. Seu caráter consiste em ser bom e fazer o bem.[24]

Os primeiros cristãos entendiam que havia dois grupos de anjos. Uns eram considerados bons e os outros maus. Os primeiros eram tidos em alta estima, como seres pessoais de elevada categoria, dotados de liberdade moral, engajados no serviço jubiloso de Deus, e designados por Ele para atender ao bem-estar dos homens. Os outros eram tidos como seres que faziam tudo para destruir a felicidade humana.

A convicção era que os anjos tinham corpos perfeitos e etéreos, foram criados bons, mas, alguns abusaram da liberdade e caíram, apartando-se de Deus. Inácio de Antioquia acreditava que a salvação dos anjos dependia do sangue de Cristo. Orígenes declarou a impecabilidade dos anjos, afirmando que: "Se foi possível a queda de um anjo, talvez seja possível a salvação de um demônio."[25]

Satanás, o príncipe dos demônios, que era originalmente um anjo de classe eminente, era considerado o chefe dos anjos maus. Entendia-se que sua queda foi por causa do orgulho e uma ambição pecaminosa, enquanto que a queda de seus subordinados era atribuída à cobiça dos anjos pelas filhas dos homens. Este conceito baseava-se na interpretação comum na época de Gênesis 6.2. Calamidades de várias espécies como: doenças e acidentes muitas vezes eram atribuídas à influência danosa de anjos maus.

Ao lado da idéia geral de que os anjos bons atendiam às necessidades dos cristãos,  ainda que havia anjos-da-guarda para igrejas individuais e para cada pessoa era a crença comum na época. Jerônimo acreditava que um anjo-da-guarda era designado para cada ser humano.
A idéia de uma hierarquia entre os anjos surgiu com Irineu e Clemente de Alexandria. Mas, foi com Dionísio, membro do Areópago de Atenas , um desconhecido, em fins de século V ou princípio do VI, que foi escrito uma série inteira de obras de grande importância para teologia mística da Idade Média. Esta obra sobre anjos, "A Hierarquia Celeste",  por muitos séculos foi o texto mais consultado sobre o assunto, ele fala o seguinte:
Os espíritos celestes fruem uma participação mais subida no dom do que as coisas que simplesmente existem, ou irracionais, ou os que raciocinam, como fazemos nós. Já que eles configuram a si mesmos de modo inteligível, a fim de imitar a Deus, e diligenciam por parecer-se sobrenaturalmente à Tearquia (Trindade de Deus, em contraposiçâo a hierarquia dos anjos), empenhando-se por acomodar a própria inteligência a esta semelhança, seus contatos com a Tearquia são naturalmente mais profundos. De fato, eles vivem em comunhão com ela e, na medida em que lhes é permitido, tendem para o alto, impelidos pelo amor divino e indefectível, recebendo as iluminações primordiais de forma imaterial e sem mistura alguma; ou melhor, são acondicionados para essas iluminações e a sua vida inteira cifra-se em intelecção. Tais são os espíritos celestes, antes do mais e de muitos modos participantes do divino, e reveladores do segredo teárquico. Por isso, de preferência a todos os demais, foram estimados dignos de se chamarem "Anjos". De fato, é primordialmente a eles que cabe a iluminação teárquica e, por meio deles, nos são transmitidas as revelações que nos excedem.[26]

Dionísio, o Areopagita, dividiu os anjos em três classes: tronos, querubins e serafins. Essa classificação foi adotada por diversos escritores, um deles foi Santo Agostinho (345-430 d.C.), bispo de Hipona, que dava ênfase ao fato de que os anjos bons foram recompensados com o dom da perseverança, jamais cairiam:
Os santos Anjos não alcançam o conhecimento de Deus mediante palavras soantes, mas pela própria presença da verdade imutável, isto é, do seu Verbo unigênito; e conhecem o Verbo, e o Pai e o seu Espírito Santo; e sabem que eles formam a Trindade inseparável, na qual as pessoas em si mesmas são uma única substância; e que no entanto não são três deuses, mas um só Deus. Eles conhecem estas verdade melhor do  que nós mesmos. Também conhecem estas verdades melhor do que nós nos conhecemos a nos mesmos. Também conhecem as criaturas na sabedoria de Deus -- como no modelo interior segundo o qual foram feitas -- melhor do que em si mesmas; e nela conhecem igualmente a si mesmos, melhor do que em si mesmos -- muito embora também se conheçam a si mesmos; de fato, eles foram criados e são perfeitamente distintos de quem os criou. No saber de Deus, portanto, têm um conhecimento diurno; em si mesmos, ao contrário, um conhecimento por assim dizer crepuscular, como dissemos acima. É muito diferente conhecer uma coisa na idéia segundo a qual foi feita, do que em si mesma. Assim como é muito diferente conhecer a retidão das linhas e a  verdade das figuras geométricas quando se consideram com a inteligência do que quando escritas na areia; e uma coisa é a justiça na verdade imutável, outra na alma dos justos. O mesmo vale de todas  as demais coisas. Assim, o firmamento situado entre as águas superiores e as águas inferiores, que foi chamado céu; a massa de todas as águas inferiores e a terra árida e o popular das ervas e plantas; assim a criação do sol, da luz e das estrelas; a dos animais saídos das águas, isto é, dos voláteis, dos peixes e dos seres que nadam; outro sim a dos animais que caminham ou rastejam sobre a terra, como a do homem, que sobrepuja todas as realidades terrestres. Todas estas realidades são conhecidas pelos Anjos de maneira diferente no Verbo de Deus, no qual contemplam as suas causas ou razões, segundo as quais foram criadas em sua imutável estabilidade; e de maneira diferente, em si mesmas. No primeiro caso, com um conhecimento mais claro, no segundo com um conhecimento mais sombrio, como são o conhecimento do modelo artístico e o da obra em si mesma. Quando, depois, estas obras são referidas á glória e veneração do Criador, parece até que surge a manhã na mente de quem as contempla.[27]   

GNOSTICISMO

O termo “gnose” (conhecimento) é usual da literatura cristã dos primeiros séculos, tanto na canônica como na apócrifa. Designa dois movimentos religiosos de tendências contrárias.
A gnose autêntica é um conhecimento aprofundado dos mistérios divinos, revelados por Deus, e contemplados com as luzes do Espírito Santo. A chamada “gnose herética” é também um conhecimento aprofundado dos mistérios divinos,  mas sob as luzes da reflexão filosófica.
Dá-se o nome genérico de “gnosticismo” ao movimento pseudo-cristão que procurou explicar mistérios divinos segundo estes princípios filosóficos, dispensando os dados da Revelação, e ensinando um dualismo radical entre matéria e espírito, que valia por uma negação da redenção cristã.

DEMIURGO

Etimológicamente DhmiourgoV (demiurgos) é um composto de Dhmio (demio) “Que concerne ao povo ou ao público” e QorgoV (worgós) “Que diz respeito ao trabalho”, donde, em princípio, demiurgo significa em Homero “o artesão, o especialista que  trabalha para a comunidade, como os carpinteiros , os advinhos, os aedos, os médicos, os arautos". Mas, desde o momento em que o artesão em grego BanausoV (bánausos) passou a ser depreciado, demiurgo começou a traduzir especificamente o médico, o artista e, posteriormente, o criador.

 Foi, ao que tudo indica, a partir de Platão, que demiurgo se tornou o criador dos deuses menores, da alma e do mundo e da parte imortal  da alma  humana,  mas  para  tanto,  usa os Eidh (eide), “as formas, as idéias preexistentes” como modelo.

Não se trata, no entanto, de um ser onipotente. Cria o cosmo tão bom quanto o possível, competindo com os efeitos contrários da ¢Anagkh (Amánque), a necessidade.

Mais tarde se fez uma dicotomia: O demiurgo é tão somente um ordenador do mundo,  Exoutwn (ekV onton), do que é, por oposição ao criador, Ex ouk outwn  "do que ainda não é".

ANGELOLOGIA MEDIEVAL

Durante a Idade Média ainda havia alguns que se inclinavam a admitir que os anjos têm  corpus etéreos,  mas a opinião  predominante era de que são incorpóreos.  As aparições angélicas eram explicadas com a admissão de que, em tais casos, os anjos adotavam formas corporais temporárias para fins de revelação. Vários outros pontos estiveram em discussão entre os escolásticos.

Quanto ao tempo em que os anjos foram criados, a opinião dominante era que foram criados no mesmo tempo da criação do universo material. Embora alguns sustentassem que os anjos foram criados no estado de graça, a opinião mais comum era que foram criados somente num estado de perfeição natural.

Havia pouca diferença de opinião sobre dizer que os anjos ocupavam um mesmo lugar. A resposta comum a esta questão era afirmativa, conquanto se assinalasse que a presença deles no espaço não é circunscrita, mas definitiva, visto que somente os corpos podem estar circunscritamente no espaço.

Embora todos os escolásticos concordassem que o conhecimento dos anjos é limitado, os tomistas e os scotistas diferiam consideravelmente no concernente à natureza deste conhecimento. Todos admitiam que os anjos receberam conhecimento infuso quando de sua criação, mas, Tomás de Aquino negava, enquanto Duns Scotus afirmava, que eles podiam adquirir novo conhecimento através de sua  atividade intelectual.

A ANGELOLOGIA ENTRE OS REFORMADORES

A reforma não trouxe nada de novo, quanto a doutrina dos anjos. Tanto Lutero quanto Calvino tinham vívida concepção do ministério dos anjos, e particularmente da presença e poder de Satanás. Os cristãos reformados continuaram a ensinar que os anjos ajudavam ao povo de Deus. João Calvino (1509-1564) acreditava que "os anjos são despenseiros e administradores da beneficência de Deus para conosco...Mantêm a vigília, visando a nossa segurança; tomam a seu encargo a nossa defesa; dirigem os nossos caminhos, e zelam para que nenhum mal nos aconteça".[28] Acentuava o fato de que Satanás está debaixo do controle divino, e que,  é instrumento de Deus. Só podendo agir dentro dos limites prescritos pelo Criador. Quanto a obra realizada pelos anjos bons, a opinião era que sua tarefa especial consiste em atender aos herdeiros da salvação. 

Martinho Lutero (1485-1546) em “Conversas à Mesa", falou em termos semelhantes. Observou como esses seres espirituais, criados por Deus, servem à Igreja e ao Reino. Eles ficam muito perto de Deus e dos cristãos, "estão em pé diante da face do Pai, perto do sol, mas sem esforço vêm rapidamente socorrer-nos".[29]

O pensamento de outros reformadores esta resumido no Artigo XII da Confissão Belga que trata sobre a criação:
Ele criou também os anjos bons, para serem Seus mensageiros e servirem Seus eleitos, alguns dos quais caíram daquele estado de perfeição em que Deus os criara, para eterna perdição deles; e os outros, pela graça de Deus, permaneceram firmes e continuaram em seu primitivo estado. Os demônios e os maus espíritos são tão depravados que são inimigos de Deus e de todo o bem, no máximo de sua capacidade, como assassinos que lutam pela ruína da igreja e de cada um dos seus membros, e pela destruição de todos, com os seus vis estratagemas; e, portanto, por sua iniquidade, estão sentenciados à perdição eterna, em diária expectação dos seus horríveis tormentos.[30]

A ANGELOLOGIA NA MODERNIDADE

Foi talvez o teólogo liberal Paul Tillich (1886-1965) quem postulou o conceito mais radical do período moderno. Considerava os anjos essências platônicas, emanações da parte de Deus.
 Acreditava que os anjos queriam voltar à essência divina da qual surgiram para serem iguais a Deus. Sobre isto Tillich aconselhava: "para interpretar o conceito dos anjos de modo relevante, hoje interprete-os como a essências platônicas, como poderes da existência, e não como seres especiais. Se  você interpretá-los desta última maneira tudo não passará de grosseira mitologia".[31]

Karl Barth (1886-1968) e Millarde Erikson (1932), entretanto, encorajam uma abordagem mais cautelosa e sadia. Barth, o pai da neo-ortodoxia, achava ser o assunto "o mais notável e difícil de todos"[32] e ainda, "nós descobrimos com surpresa que nos acontecimentos nos quais menos suspeitávamos de sua presença, os anjos estavam em atividade, falaram e a agiram efetivamente".[33] Ericsom , teólogo conservador, acrescentou que podemos ser tentados a omitir, ou negligenciar o estudo dos anjos, porem "se é para sermos estudiosos fiéis da Bíblia, não temos outra escolha senão falar a respeito deles".[34]

ANGELOLOGIA NA PÓS-MODERNIDADE

As últimas décadas do século XX têm sido  caracterizadas por movimentos que romperam com tudo o que, historicamente, tem sido crido como verdade fundamental, da qual não se poderia abrir mão. Esses movimentos têm tomado vários nomes como: secularismo, relativismo, pós-modernismo e pluralismo.

O tempo pós-moderno teve início com a falência do comunismo, com a queda do muro de Berlim, em 1989, e com o insucesso absoluto da economia do sistema materialista.

Houve a queda dos padrões morais anteriormente estabelecidos e começou a questionar-se de maneira muito mais clara a necessidade  de haver uma verdade objetiva.

Entretanto, o pluralismo não nasceu no período pós-moderno. Ele tem suas raízes já no período moderno. No começo do século XIX  Schleiermacher começou a questionar o exclusivismo do cristianismo que dizia ser Jesus Cristo o único caminho para a vida. O problema da diversidade religiosa estava levantado.

O cristianismo começou a ser questionado como a única saída para os problemas humanos. Ele argumentava que Deus está “salvificamente” disponível, em algum grau, a todas as religiões, mas o evangelho de Jesus Cristo é o cumprimento e a mais alta manifestação da consciência religiosa universal.

O cristianismo do liberalismo teológico do século passado começou a sustentar que o Deus imanente do cristianismo não pertencia somente ao cristianismo, mas pertencia a todas as culturas religiosas do mundo. Jesus era apenas o exemplo máximo desse Deus imanente , mas não era a única forma dele expressar-se.

Para o pluralismo as outras civilizações também possuem seu próprio acesso salvífico à vida divina, independentemente do cristianismo. Por isso, no final do século passado e no começo deste século, começou a haver diálogo com as outras religiões e, até uma tentativa de ecumenismo entre as várias religiões do mundo.

No mundo pós-moderno as pessoas podem ter as suas próprias idéias com respeito ao texto lido. Ninguém pode  reivindicar exclusividade de verdade na sua interpretação. O pós-modernismo afirma que a linguagem não pode expressar verdades a respeito do mundo de um modo objetivo. “A linguagem, por sua própria natureza, dá forma ao que pensamos. Visto que a linguagem é uma criação cultural, o significado é, em ultima analise, uma construção social”. Os valores do pós-modernismo não são pessoais, mas sociais, da cultura. O verdadeiro significado das palavras é parte de um sistema fechado de uma cultura, que não faz sentido para uma outra cultura. A linguagem humana não contém qualquer verdade absoluta, e nisso os pós modernistas estão tirando vantagem.

Um texto não pode conter uma verdade absoluta, pois o sentido que o autor quis dar a ele não é importante. O importante é como quem lê o entende. Pessoas podem ter as mais diferentes interpretações do mesmo texto, sem que isso constitua uma contradição. A contradição existe se há a verdade absoluta, mas como não há, não há contradição.

O pluralismo religioso vigente na sociedade teve um enorme crescimento nestas últimas décadas, quando os “cristãos” têm recebido profundas influências das religiões e filosofias orientais.

Certa parábola contada por budistas nos diz o seguinte: Havia três homens cegos e um elefante, cada um desses homens cegos apalpou o elefante vindo a conceber uma idéia diferente dele. O primeiro cego, após apalpar o lado musculoso do elefante, chegou à conclusão de que ele era como um muro. O segundo cego, após apalpar as pernas grossas e roliças do elefante, protestou, dizendo: “Não, o elefante tem uma forma diferente. Isto que estou apalpando é uma coluna”.  Vocês dois estão enganados. Isto que nós apalpamos é uma grande cobra”. E assim, cada um dos três teve uma concepção diferente do mesmo elefante. Enfim todos falaram coisas bem diferentes do mesmo elefante.

Estes “cristãos” têm usado esse tipo de parábola para ilustrar a relação que tem havido entre o cristianismo e as outras religiões. Todas elas têm abordagens diferentes a respeito de Deus, mas todas estão falando da mesma coisa, sob perspectivas  diferentes, para alguns deles, falar dos anjos e falar de Deus é praticamente a mesma coisa.

Se um cristão afirmar que somente através do cristianismo se pode ter uma visão real de Deus, e que todas as outras religiões estão erradas, ele está se portando como um dos cegos da estória que diz que somente a visão dele é correta e não a dos outros.

Jesus para estes “cristãos” é salvador, mas não é a única forma do homem alcançar a salvação. Ele é uma entre as muitas outras formas do Deus infinito revelar-se, por isso, em alguns grupos a angelologia tem sido mal interpretada, têm tomado um rumo diferente daquilo que as Sagradas Escrituras nos ensinam, pois eles tem ocupado o lugar de seu Senhor.

O Deus do cristianismo para os pluralistas é um Deus de amor, e não pode excluir da salvação os não cristãos pelo simples fato deles não serem cristãos. Na sistematização da teologia reformada a soteriologia fica na dependência da cristologia; para os pluralistas é o contrário, a cristologia é que é dependente da soteriologia. O grande pressuposto é que a salvação tem outros caminhos, além  do proposto pelo cristianismo.

Se Jesus é apenas um caminho no processo da salvação da humanidade, o elemento preponderante é a soteriologia, e a cristologia vem cumprir apenas um dos propósitos redentores de Deus, Jesus não pode ser a revelação especial de Deus no sentido da salvação depender unicamente dele, há outras revelações, inclusive os anjos, que são igualmente soteriológicas. O amor de Deus é tão grande que não poderia deixar de fora as outras nações pelo simples fato de não terem sido evangelizadas, por isso outras formas de salvação são possíveis.

Segundo a abordagem pluralista, todas as religiões têm de abandonar a sua arrogância teológica. Nenhum grupo religioso pode jactar-se de ser superior ao outro em termos de verdade, porque a religião está associada à cultura. E não existe uma cultura superior à outra. Todas são igualmente boas.

Cristo é apenas uma opção de salvação, é um caminho e não “o” caminho, existe várias opções de chegar ao único Deus, pois não existe uma verdade absoluta, mas existe verdades, o que é verdade para  min pode não ser verdade para outra pessoa. Por essa razão, ninguém pode reivindicar estar com a verdade absoluta. A verdade está com todas as religiões, e não é propriamente de uma só, por isso aqueles que postulam uma padrão de verdade são criticados. Para eles, crer na verdade absoluta é o erro dos cristãos.

Muitos segmentos do cristianismo têm mudado o paradigma básico da busca da verdade objetiva da palavra de Deus para a “verdade” da experiência. Se o paradigma da verdade de Deus não é levado em conta, e aceitamos o paradigma da experiência, não podemos negar a validade da experiência de outras religiões como fonte de autoridade, logo a experiência religiosa de todas as tradições deve ser fonte de autoridade.


Capítulo 3

O ENSINO BÍBLICO SOBRE OS ANJOS.

A revelação da  Antiga e Nova Aliança atesta a existência e atividade de seres supraterrenos. Cada afirmação a proceder da teologia a ponderar sobre os anjos se radica em última análise no testemunho da Escritura, o qual vai proceder ao conspecto histórico-teológico  e ao desenvolvimento sistemático da angelologia.

A Bíblia nos fala de uma ordem de  seres celestiais totalmente distintos da humanidade e da Divindade, que ocupam uma posição exaltada acima da atual posição do homem caído. Estes seres celestiais são mencionados pelo menos 108 vezes no Antigo Testamento e 165 vezes no Novo Testamento; é a partir deste conjunto de Escrituras que forma-se a doutrina denominada angelologia.

EXISTÊNCIA DOS ANJOS

A existência de anjos foi admitida na Escritura e, ela é a única fonte de informações dignas de confiança sobre estes seres. Assim como o homem é a mais importante criação da esfera terrestre, os anjos são a mais  importante criação das esferas celestial, como esta descrito em Colossenses 1.16-17: “Pois nEle foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dEle e para Ele. Ele é antes de todas as coisas. NEle tudo subsiste”. Assim como  os anjos, e todos os outros seres mortais, foram criados por Cristo e para Cristo, eles permanecem para sempre para o louvor de Sua glória. Embora alguns seres humanos e certos anjos neguem a adoração a Deus, a maior parte dos anjos está diante do Seu trono em adoração incessante. Não deve ser assunto de menor importância nos conselhos divinos que certas criaturas que caíram no pecado neguem parte do louvor àquele a quem toda honra é devida. Este repúdio por parte dos anjos caídos não poderá continuar para sempre. Sobre a disposição da inimizade na esferas celestial foi dito: “Por que convém que Ele reine até que haja posto todos os inimigos debaixo dos seus pés. O último inimigo a ser destruído é a morte”. (I Cor.15.25-26), enquanto que sobre a disposição da inimizade nas esferas terrestre foi escrito: “Mandará o filho do homem os seus anjos que ajuntarão do seu reino todos os escândalos e os que praticam a iniquidade, e os lançarão na fornalha acessa; ali haverá choro e ranger de dentes. Então os justos resplandecerão como o sol, no reino de seu pai. Quem tem ouvidos para ouvir ouça”. (Mt.13.41-43).

ANGELOLOGIA VETEROTESTAMENTÁRIA.   
      
São várias as manifestações dos anjos no Antigo Testamento. Um anjo socorreu Hagar no deserto (Gn.16.7-11); os anjos anunciaram o nascimento de Isaque (Gn.18.11-15); os anjos anunciaram a destruição de Sodoma (Gn.19.1-23); os anjos retiraram a Ló, sua esposa e suas duas filhas para fora de Sodoma (Gn.19.16-17); um anjo impediu a morte de Isaque (Gn.22.11-12); anjos guardaram a Jacó (Gn.28.12; 31.11; 32.1; 48.16); um anjo guiou Israel no deserto (Ex. 14.19; 23.20-23); a lei foi dada por anjos (At.38.53; Gl.3.19; Hb.2.2); um anjo repreendeu Balaão (Nm.22.31-35); um anjo acudiu Elias (I Rs.19.5-8); Eliseu estava cercado de anjos (II Rs.6.14-17); um anjo livrou Daniel dos leões (Dn.6.22); anjos acampam-se em redor do povo de Deus (Sl.34.7; 91.11) etc.

A presença de anjos no Antigo Testamento talvez possa ser recuada às antigas tradições de Israel, embora  suas representações e funções, sua configuração e significado tenham sofrido evolução. A influência dos povos e culturas limítrofes de Israel como a de Canaã, Assíria, Babilônia, e sobretudo depois do exílio a Persa e Helenísta, deixaram suas marcas quanto à crença dos anjos na religião de Israel. O auge máximo representa o período mais tardio de Israel, no livro de Daniel. E depois dele por influxo do gênero apocalíptico, propagou-se a crença e a presença dos anjos e dos demônios na literatura intertestamentária dos livros apócrifos.

Israel introduziu a presença e função dos anjos sem desdouro nem míngua de seu monoteísmo, mas, ao contrário, ao serviço incondicional de Javé, o Deus único, Senhor da criação e da história.

O Israel mais antigo imaginava o  seu Deus como um velho patriarca, rodeado de uma corte celestial de seres quase divinos, aos quais chamava filhos de Deus (Gn.6.4; Jó.1.6). Essa representação não diferia muito a dos  Cananeus no modo de conceber suas divindades ou a dos outros povos do Oriente Médio. A influência dos mitos ugaríticos esta  subjacente na representação arcaica de Israel sobre os anjos.

Relacionadas com estas representações temos a expressão “exército de Javé” (Js.5.14), e a invocação “Javé dos exércitos”, que não deve ser entendido do exército de Israel e sim “Javé dos exércitos celestiais” (Jr.7.3). O mesmo vale para “ o acampamento de Deus” (Gn.32.3) com o qual encontrou-se Jacó. A influência e presença dessas expressões encontramo-las no Novo Testamento em “uma multidão do exército celeste” que acompanha a aparição do anjo aos pastores na noite (Lc.2.13) ou “ a legião de anjos” que Jesus recusa pedir a seu Pai para livrar-se de seus inimigos, os escribas, fariseus e sumos sacerdotes (Mt.26.53).

ANGELOLOGIA NEOTESTAMENTÁRIA

O Novo Testamento é devedor do ambiente angélico que rodeava os últimos livros canônicos do Velho Testamento, a ela, porém, deu-lhe a marca que dimanava da tríplice novidade do cristianismo: a centralidade cristológica de Jesus, a manifestação do Espírito Santo e o tempo fundacional da igreja. Jesus, o Espírito e a igreja constituem a nova realidade de Deus para os homens. Tudo que o Novo Testamento diz sobre os anjos, suas funções, serviços e mensagens, está totalmente subordinado à novidade aparecida com Cristo e o Espírito Santo e é até irrelevante em sua comparação. Isso é o que faz o teólogo K. Rahner confessar:
No Antigo Testamento a doutrina dos anjos aparece relativamente tarde, como uma espécie de imigração de fora, e no Novo Testamento (...) o tema dos anjos toca-se melhor sob uma atitude de repulsa ao culto angélico e com a consciência de superioridade do cristianismo sobre todos os poderes e potestades do mundo, de modo que o interesse existencial e religioso dos cristãos continuaria em vigor mesmo que não existisse anjo algum (bom ou mal) dotado de individualidade e substancialidade própria.[35]

Dentro de sua concepção cristológica e pneumática de salvação, o Novo Testamento acentua o dualismo moral que ainda era ambivalente na angelologia do Antigo Testamento. Assim, os anjos mostram-se bons para os cristãos ao passo que os demônios, destruidores e negativos. A hierarquia atingiu mais o demoníaco que o angélico. Satanás é mais decisivo na ordem do mal e da perdição do que Miguel na da salvação. Foi totalmente deslocado por Cristo e o Espírito, únicos agentes escatológicos de Deus na salvação dos homens. Embora alguns textos mínimos aludam à batalha de Miguel contra Satanás, dos anjos contra os demônios (Ap.12.7; Jd.9), também estes foram interpretados. Daqui se deduz que os anjos  vão  perdendo no Novo Testamento do ponto de vista teológico, pela significação central de Cristo e do Espírito.

DEFINIÇÃO DE ANJO

O nome anjo no uso corrente de hoje significa um espírito supraterreno, não primeiramente conforme sua natureza, mas conforme sua tarefa no serviço dedicado a Deus. Desde o início da Idade Média sagrou-se definitivamente esse significado. O hebraico carece de uma expressão específica de conteúdo semelhante ao da palavra anjo, como se dá nas línguas modernas. Mal’akh originou-se com muita probabilidade da raiz árabe (la aka) que significa mandar alguém com recado. O nome significa primitivamente o abstrato, o envio, a mensagem, mas transfere em seguida para o concreto, o enviado, o mensageiro. Neste significado geral denomina-se também o sacerdote (Mal.2.7), o rei (II Sm.14.17-20), homens enfim (I Sm.29.9). Se o termo designa um anjo em sentido restrito, específico, então se trata de um caso particular do uso  geral da palavra. O vocábulo designa o mensageiro de Deus familiarizado com Ele face à face e por isso  mesmo pertencente a uma ordem superior  ao homem (II Pe.2.11).

No grego a palavra aggeloV (angelos) abarca a mesma significação geral da palavra. No Novo Testamento aparece de maneira mais clara a distinção da palavra, mais só a Vulgata é conseqüente nesta distinção, por empregar “nuntios” para o mensageiro comum, e “angelus” para o mensageiro celeste de forma inequívoca; o mensageiro indeterminado torna-se um mensageiro de Deus, anjo, quando o contexto menciona indiretamente a Deus como quem envia, ou o vocábulo conota o nome de Deus por meio do genitivo ou do pronome possessivo. Cada anjo tem a Deus por dono, e sua razão de ser é ser Seu anjo santo ou anjo santo de Deus que toma parte no falar e agir de Deus na terra.

A par de Mal’ak  denominação fundamental toda calcada na função e na atividade do termo, depara-se no Antigo Testamento com outros nomes para os anjos.
Porque provêm de Deus, chamam-se “filhos de Deus” (Gn.6.2; Jó.1.6; 2.1); são os “santos” (Jó.5.1; 15.15); os “poderosos” (Sl.102; 103). Habitam, pois, com Deus nos céus (Gn.21.17; 22.11) e ainda, também na terra (Gn.32.2). São designados por vezes segundo a figura de sua aparição, de "varões" (Gn.18.2,6; 19.10,12).

Vistos em um conspecto geral, formam os anjos o “exército de Javé” (Jos.5.14),  o “exército do céu” (I Rs.22.19);  Deus mesmo é considerado o “Deus dos exércitos” (Os.12.6; Am.3.13); “Javé dos exércitos” (I Sm.1.3,11; Is.1.6; 6.3). Em I Samuel 17.45 designa esta formação a Deus como Senhor supremo de guerra do povo, em cujo nome se põem em pé de guerra os exércitos. Demonstra isso que o termo abarca sentido muito geral    e que “exército” pode designar também os astros (Jr.32.22; Is.40.26).

Os anjos estão divididos em dois grupos: os eleitos e os caídos. De início, neste trabalho, eles serão tratados indistintamente, para depois separá-los.

NATUREZA DOS ANJOS

A ORIGEM DOS ANJOS.

Segundo Colossenses 1.16-17 deduzimos que todos os anjos foram criados de uma só vez. Também podemos dizer que a criação dos anjos foi completa naquela ocasião e que nenhum outro foi acrescentado depois ao seu número. Eles não estão sujeitos à morte ou qualquer forma de extinção, portanto eles não diminuem nem aumentam de número. O plano pelo qual a família humana tem garantia de procriação não tem correlativos entre os anjos. Cada anjo, sendo uma criatura direta de Deus, tem um relacionamento imediato e pessoal com o criador. Da família humana no mundo vindouro, Cristo disse: “... nem casam, nem se dão em casamento; são, porém, como os anjos no céu” (Mt.22.20-30). Assim, conclui-se que não há diminuição nem aumento entre esses seres celestiais.

CORPORALIDADE DOS ANJOS

Comparados com a existência humana e animal, os anjos podem se dizer incorpóreos, mas apenas no sentido de que não tem uma organização mortal. As Escrituras dão a entender que os anjos tem uma corporificação. Deus é espírito, mas quando Cristo se dirigiu aos judeus, ele disse do Pai: “Jamais tendes ouvido a sua voz, nem visto a sua forma” (Jo.5.37 cf. Êx.33.23; Ez.1.1). É essencial que um anjo tenha forma localizada, determinada e espiritual. Com demasiada freqüência é atribuído aos anjos limitações que pertencem a humanidade. Para os santos no céu foi prometido um “corpo espiritual”, um corpo adaptado ao espírito do homem (I Cor.15.44). Como o corpo do Senhor glorificado (Fp.3.21). Há muitos tipos de corpos, até mesmo na terra, o Apóstolo declara isto em I Coríntios 15.39-40: “Também há corpos celestiais e corpos terrestres”. Não podemos dizer que não há corpos celestiais apenas porque o homem não tem poder de discernir estes corpos. Não podemos dizer que os anjos não existem apenas porque não conseguimos os ver. Os espíritos tem uma definida organização que está adaptada à lei de sua existência. Eles são finitos e espaciais, tem a capacidade de se aproximar da esfera humana, mas o fato de maneira nenhuma lhes impõem a conformidade com a existência humana. O aparecimento de anjos pode ser, quando a ocasião exige, com a aparência de homem de modo que eles passam por homens: como poderíamos explicar de uma outra maneira que alguns “sem saber acolheram anjos” (Hb.13.2)? Por outro lado, seu aparecimento às vezes é deslumbrante e gloriosa (Mt.28.2-4). Quando Cristo declarou: “Um espírito não tem carne nem osso, como vedes que eu tenho”(Lc.24.37-39), Ele não quis dizer que um espírito não tem corpo algum, mas, antes, que os espíritos têm corpos constitucionalmente diferentes dos corpos humanos. Sobre a natureza e corporalidade dos anjos o Dr. William Cook diz o seguinte:
No Antigo Testamento o salmista os chama de espíritos: “Fazes a teus anjos ventos (espíritos)” (Sl.104.4). E no Novo Testamento eles são chamados pelo mesmo termo: “Não são todos eles espíritos ministradores?” (Hb.1.14). Contudo é preciso fazer uma pergunta: Os anjos são tão espirituais a ponto de serem absolutamente imateriais como Deus? Ou estarão revestidos de uma refinada estrutura material? As opiniões, tanto dos antigos como dos modernos estão muito divididas neste assunto. Atanásio, Basílio, Gregório, Niceno, Cirilo e Crisóstomo defendiam que os anjos eram absolutamente imateriais; mas Clemente Alexandrino, Orígenes, Cesário e Tertuliano, entre outros pais da igreja, achavam que estes seres benditos estavam revestidos de uma refinada estrutura material. O termo espírito que lhes é aplicado não decide absolutamente  por si mesmo a questão; pois como essa palavra, tanto no hebraico quanto no grego, é um termo material indicando vento, ar ou hálito, pode sem violência ser aplicado tanto a um espírito puro quanto a uma natureza material refinada. É verdade que, no aparecimento dos anjos aos homens, eles assumiram uma forma humana visível. Este fato, entretanto, não prova a sua materialidade;  pois os espíritos humanos no estado intermediário, embora desencorporados, tem em seu relacionamento com o corpo  aparecido em forma humana material: como Moisés, no Monte da Transfiguração, também Elias foi reconhecido como homem; e os anciãos que apareceram e conversaram com João no Apocalipse, também tinham forma humana (Ap.5.5; 7.13). Mas tais aparições não podem absolutamente decidir. Teologicamente não há nenhuma incongruência ou improbabilidade de uma natureza material refinada. O céu sem dúvida é adequado para habitação de tais seres. Enoque e Elias foram levados ao céu em corpo e alma pela transladação; a humanidade glorificada de nosso Senhor está entronizada ali; e os anjos, embora revestidos de uma estrutura material, podem habitar na presença divina esplendorosa... Mas, como existe uma lei de adaptação, a grosseira materialidade da ”carne e sangue” não pode penetrar naquela região de bem-aventurança. Deduzimos, então, que se os anjos estão revestidos  de uma natureza que exclui tudo o que envolve a possibilidade da deteriorização e qualquer relacionamento com os apetites e desejos animais.[36]

A PERSONALIDADE DOS ANJOS

A personalidade dos anjos é algo difícil de se averiguar, porém não podemos concordar com a declaração de Martensen:
Há  muitos tipos de espíritos sob os céus e por causa disso também muitos graus de espiritualidade e independência espiritual; podemos, portanto, muito apropriadamente afirmar que os anjos se dividem em duas categorias.... Se contemplarmos os anjos em seu relacionamento com o conceito de personalidade, podemos dizer: há poderes, cuja espiritualidade está tão longe de ser independente que possui apenas uma personalidade representativa; resumindo, são apenas personificações, de tal caráter são as tempestades e as chamas que executam as ordens do Senhor. Existem outros poderes na criação que possuem um grau mais elevado de espiritualidade, um estado intermediário de existência entre a personificação e a personalidade. Sob esta categoria podemos classificar os poderes espirituais da história, como por exemplo, os espíritos das nações e as divindades da mitologia... Mas, se nesta questão encontramos poderes da história, que pairam na região, que jaz entre a personalidade e a personificação, mas certo ainda é que a revelação reconhece uma terceira categoria de poderes cósmicos que constituem um reino espiritual livre e pessoal.[37]

Cada aspecto da personalidade dos anjos, foi declarada nas Escrituras. Embora os seus serviços e dignidade possam variar, não há nenhuma implicação na Bíblia de que um anjo é mais inteligente que os outros. Eles são seres individuais, e embora espíritos, experimentam emoções, eles prestam cultos inteligentes, um provérbio popular israelita chegou a comparar o homem mais sábio entre os homens com um anjo (II Sm.14.17).

A inteligência dos anjos excede a dos homens nesta vida, porém, é necessariamente finita. Como nos declara Alberto Matos: "Imagina-se que a capacidade intelectual dum anjo tem uma compreensão mais vasta que a nossa, que uma só imagem na mente angelical contenha mais detalhes do que uma vida toda de estudos poderia proporcionar aqui".[38]

Os  anjos são sábios, atuam como agentes pessoais mas não são oniscientes como Deus. Estão sujeitos a certo desenvolvimento mental por meio do escrutínio, segundo parecem, visto desejarem conhecer mais acerca da salvação por intermédio do evangelho  (I Pd.1.12). São reverentes, a atividade mais elevada executada por eles é a adoração (Ap.7.11), eles contemplam com o devido respeito a face do Pai (Mt.18.10). São mansos, não retêm ressentimentos pessoais, nem injuriam seus opositores (II Pd.2.11). São poderosos (Sl.103.20), mas sempre empregam seu poder visando a glória de Deus. Eles conhecem as suas limitações (Mt.24.36) e a sua inferioridade diante o Filho de Deus (Hb.1.4-9). São santos (Ap.14.10) e leais; apesar da rebelião que houve nos céus, os anjos eleitos permaneceram fieis ao Senhor. São individuais, mas, embora às vezes apareçam em sua condição separada, estão sujeitos a classificação e a variadas categorias de importância.

A HABITAÇÃO DOS ANJOS

As Escrituras afirmam que os anjos habitam as esferas celestiais (Mc.13.32). O Apóstolo Paulo escreveu: “um anjo vindo do céu” (Gl.1.8) e “toda família, tanto no céu como sobre a terra” (Ef.3.15). Jesus ensinando os discípulos a orar disse: “Faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mt.6.10). Podemos afirmar que o universo encontra-se habitado por inumeráveis exércitos de seres espirituais. O Dr. Gaebelein escreve o seguinte sobre a habitação dos anjos:
No hebraico céu está no plural, “os céus”. A Bíblia fala de três céus, sendo o terceiro céu, o Céu dos céus, o lugar da habitação de Deus, onde o Seu trono sempre esteve. O Tabernáculo do Seu povo terreno, Israel, era um modelo dos céus. Moisés, quando esteve na montanha, olhou para a vastidão dos céus e viu os três céus. Ele não tinha telescópio. Mas o próprio Deus lhe mostrou os mistérios dos Céus. Então Deus o advertiu quando estava para construir o Tabernáculo, dizendo ao Seu servo: “Vê que faças todas as coisas de acordo com o modelo que te foi mostrado no monte” (Hb.8.5). O Tabernáculo tinha três compartimento: o pátio externo, o lugar santo e o Santo dos santos. Uma vez por ano o Sumo Sacerdote entrava neste local terreno de adoração, passando pelo pátio externo para o lugar santo, e finalmente, levando o sangue do sacrifício, ele entrava no Santo dos santos para aspergir o sangue na presença santa de Jeová. Mas Arão era apenas um tipo daquele que é maior, o verdadeiro Sumo Sacerdote. Dele, do verdadeiro sacerdote, o nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, foi escrito que ele penetrou nos céus (Hb.4.14) , “porque Cristo não entrou no santuário feito por mãos, figura do verdadeiro porém do mesmo céu, para comparecer, agora, por nós, diante de Deus” (Hb.9.24). Ele passou pelos céus, o pátio exterior, o céu que circunda a terra, o lugar santo, os universos imensos, com sua distância imensurável, e finalmente, Ele entrou no terceiro céu, o céu que a astronomia sabe que existe, mas que nenhum telescópio pode alcançar. Nos lugares celestiais, de acordo com a epístola aos Efésios, estão os principados e potestades, a multidão incontável de anjos. Sua habitação está nos Céus. Deus que os criou, que os fez espíritos e os revestiu de corpos apropriados para a sua natureza espiritual, também deve lhes ter designado habitação... também é significativo que a frase “exército dos Céus” signifique tanto as estrelas como também os exércitos angelicais; o “Senhor dos exércitos” também tem o mesmo significado duplo, pois Ele é o Senhor das estrelas e o Senhor dos anjos (Sm.148.1-5).[39]

O PODER DOS ANJOS

Os anjos são poderosos. Seu poder, embora grande, é restrito. Eles não podem fazer coisas peculiares à divindade como criar, agir sem os meios, ou sondar o coração do homem. Eles podem influenciar a mente humana como uma criatura pode  influenciar outra. Mesmo sendo magníficos em poder eles podem reivindicar a ajuda divina quando  se  encontram  em  conflito  com  outro  anjo (Jd.1.9). Sobre  o poder angélico o Dr. Cook escreveu  o seguinte:
“Anjo forte” e “anjo poderoso” são termos que encontramos no  Apocalipse. O nome Gabriel significa o poderoso de Deus;  e entre as designações das ordens angélicas encontramos os poderes (DunameiV). O atributo de poder extraordinário pertence à natureza angélica em geral, conforme Davi nos informa quando exclama: “Bendizei ao Senhor todos os seus anjos, valorosos em poder” (Sl.103.20). É impossível fazer qualquer comparação entre o poder de um ser espiritual, como um anjo, e o poder físico do homem, que é limitado por sua organização. Se, contudo, o poder do homem pode ser calculado  pelos efeitos assombrosos que pode produzir através do seu conhecimento superior, e os dispositivos que pode usar, temos então exemplos que nos podem dar uma frágil idéia dos recursos do seu poder angélico, pois provavelmente o seu conhecimento superior da natureza os capacita a empregar em um grau muito mais alto do que nossos recursos do universo, cumprindo qualquer ordem que Deus lhes possa ter dado. Sejam quais forem os meios através dos quais os seus poderes são exercidos, os efeitos são estarrecedores. Milton descreve-os arrancando as colinas dos seus fundamentos e arremessando-as contra os seus antagonistas. Isto é poesia, mas no registro das Escrituras temos a verdade sem o colorido da ficção; e aí encontramos anjos, como um ministro da vingança que destruiu 70 mil pessoas do reino de Davi em três dias; outro destruindo 85 mil guerreiros corpulentos em uma noite num exército armado do orgulhoso monarca assírio; e um outro destruindo todos os primogênitos do Egito numa só noite. No Apocalipse vimos anjos detendo os quatro ventos do céu, esvaziando taças e controlando os trovões da ira de Jeová sobre as nações culpadas; a velha terra treme sob a exibição do grande poder dos ministros de um Deus vingador do pecado. Mas os anjos também são bons para fazer o bem; e enquanto sua natureza santa faz deles fiéis executadores da justiça, sua benevolência, como também sua santidade; faz que  se deleitem no emprego de suas energias no serviço da misericórdia.[40]

O NÚMERO DOS ANJOS

Os anjos são descritos na Bíblia como multidões “que os homens não podem contar”. Podemos imaginar que há tantos seres espirituais em existência, quanto vão existir seres humanos em toda história da terra. O número dos anjos é comparado à quantidade de estrelas no céu, mostrando-nos que é impossível para o homem definir o seu número. Quanto a isto o Dr. Cook nos diz o seguinte:
Ouça o que diz Micaías: “vi o Senhor assentado no Seu trono, e todo o exército do céu estava junto a Ele, à sua direita e a sua esquerda” (I Rs.22.9). Ouça  o que diz Davi: “os carros de Deus são vinte mil, cem milhares de milhares” (Sm.68.17). Eliseu viu um destacamento destes seres celestiais que foram enviados para sua guarda pessoal, quando “o monte estava cheios de cavalos e carros de fogo, em redor de Eliseu”  (II Rs.6.17). Ouça o que Daniel viu: “milhares de milhares o serviam, e miríades de miríades estavam diante dele” (Dn.7.10). Eis que os pastores vigilantes viram e ouviram na noite de nascimento do Redentor: “uma multidão da milícia celestial louvando a Deus e dizendo: Glória a Deus nas maiores alturas” (Lc.2.13). Ouça o que diz Jesus: “acaso pensas que não posso rogar ao  meu Pai, e Ele me mandaria neste momento mais de doze legiões de anjos?” (Mt.26.53). Veja novamente o magnífico espetáculo que João viu e ouviu quando olhou para o mundo celestial: “vi e ouvi uma voz de muitos anjos ao redor do trono, dos seres  viventes e dos anciãos, cujo número era de milhões de milhões e milhares de milhares, proclamando em grande voz: digno é o Cordeiro que foi morto ...” (Ap.5.12). Se estes números forem entendidos literalmente, eles indicam 202 milhões, mas são apenas uma parte do exército celestial. Contudo, é provável que estes números não tem a intenção de indicar qualquer quantidade exata, mas que a multidão era imensa, além do que costumava usualmente entrar na computação humana. Por isso, lemos em Hebreus 12.22, não sobre um número definido ou limitado, embora grande, mais de “incontáveis hostes de anjos”.[41]

Ainda que os anjos sejam seres racionais e poderosos, e que tenham sido criados de uma só vez, são tantos que nós, os homens não temos capacidade suficiente para enumerá-los.
Os anjos são chamado de uma multidão, um acampamento, exército ou hostes, e jamais uma raça ou raças, nações e povos, como sucede com os homens (Gn.32.1).

Tentar descobrir  quantos anjos existem e nomeá-los é pura tolice, pois a Escritura não define a sua quantidade. Há um número definido deles que apenas o Senhor conhece, pois foram criados ao mesmo tempo e de uma só vez.

DIVISÃO ENTRE OS ANJOS

A divisão ocorreu quando Satanás incitou os anjos contra o Criador e levou consigo a terça parte  dos anjos (Ap.12.4). Os anjos então passaram a constituir dois grupos: os eleitos que permaneceram fazendo a vontade do Senhor e os caídos que deram ouvidos a Satanás.

O TEMPO DA REBELIÃO E SEU RESULTADO

Não há como medirmos com precisão a época desta rebelião mas, sabemos que se deu no céu e antes da queda da humanidade.
Os anjos eleitos confirmaram a sua posição diante do Senhor, os caídos perderam a primitiva santidade e automaticamente tornaram-se corruptos em natureza e conduta. Um grupo destes anjos caídos foi lançado no Hades e aí permanecem presos (Jd.6), os demais encontram-se soltos e se ocupam em opor-se aos anjos bons (Dn.10.13) até o dia do juízo final onde sofreram o tormento eterno (Ap.20.10).

ANJOS  ELEITOS

Em I Timóteo 5.21 aparece a expressão “anjos eleitos”, surge imediatamente um campo interessante de pesquisa referente ao alcance que a doutrina da eleição soberana deve ter na relação dos anjos para com o seu Criador. É preciso aceitar que os anjos foram criados com um propósito e que no seu reino, assim como o homem, os desígnios do Criador serão executados até o fim. A queda de alguns anjos foi tão antecipada por Deus quanto a queda dos homens. Está também implícito que os anjos passaram por um período de experiência.

O MINISTÉRIO DOS ANJOS

Os anjos servem em duas esferas: perante Deus, na corte sublime, e na terra, entre os homens. As referências na Escritura feitas aos anjos são principalmente de forma narrativa de suas atividades e nelas encontramos um vasto campo de atividades. Entretanto, o que é mais importante não é o seu relacionamento com os habitantes da terra, mas, antes, o seu serviço prestado a Deus. O Apóstolo João nos declara que em sua adoração as criaturas viventes “não tem descanso nem dia nem noite, proclamando: Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus, o Todo Poderoso, aquele que era, que é, e que há de vir” (Ap.4.8). O profeta Isaías diz que eles “clamavam uns para os outros, dizendo: Santo, Santo, Santo é o Senhor dos exércitos, toda terra está cheia da sua glória” (Is.6.3). Com esta mesma intenção o salmista declara: “Bendizei ao Senhor todos os seu anjos, valorosos em poder, que executam as suas ordens, e lhe obedecem à  palavra” (Sl.103.20); “Aleluia! Louvai ao Senhor do alto dos Céus, Louvai-o nas alturas. Louvai-o todos os seus anjos, Louvai-o todas as suas legiões celeste”(Sl.148.1-2).

O serviço dos anjos à humanidade não pode ser explicado tomando por base o amor deles aos homens. Eles não estão interessados em agradar aos homens, mas, antes de tudo estão interessados em fazer aquilo a que foram designados. Não é imaginação, mas é realidade, que os anjos estão em nosso meio como servos, munidos da responsabilidade de nos prestar auxílio (Hb.1.14).

Embora os anjos estivessem presentes na criação, nenhuma referência foi feita ao ministério deles até os dias de Abraão. Em companhia do Senhor, eles visitaram o patriarca em Manre (Gn.18.1-2) e de lá foram libertar Ló. Está escrito que a lei “foi promulgada por meio de anjos” (Gl.3.19) e foi administrada “por ministério de anjos” (At.7.53). O seu cuidado para com o povo eleito de Deus encontra-se  tanto  no Velho quanto no Novo Testamento.

Na terminologia do Antigo Testamento, às vezes os anjos foram chamados de filhos de Deus, enquanto que os homens foram chamados de servos de  Deus. No Novo Testamento isto foi invertido. Os anjos são servos e  os cristãos filhos de Deus. Esta ordem peculiar, talvez se deva ao fato de que no Antigo Testamento, os homens foram considerados inferiores aos anjos; enquanto que, no Novo Testamento, os santos são vistos em relação à sua exaltação final na semelhança de Cristo, em comparação com o estado dos anjos que é inferior.
Eruditos como Lewis Sperry Chaffer afirma que os anjos não estão presentes na atual dispensação, ele diz o seguinte:

No plano de Deus, a atual dispensação ficou evidentemente desprovida de manifestações angélicas. Isto pode ser facilmente explicado porque os santos de Deus estão habilitados,  como em nenhuma outra dispensação, pelo Espírito Santo e sujeitos à Sua orientação, que é mais constante, vital e dignificante do que as visões angélicas. Contudo, os anjos  se destacarão no encerramento desta dispensação, quando o Senhor retornar com o grito de arcanjo.[42]

É indiscutível a presença do Espírito Santo em nosso meio, este fato é descrito no livro de Atos (At.2.1-13) e sem dúvida o cristão é o templo do Espírito Santo ( 1º Co. 6.16), mas não podemos concordar com a afirmação supracitada, pois os anjos estão presentes em nossa   dispensação, um anjo libertou miraculosamente os apóstolos  depois da descida do Espírito (At.5.17-20), Pedro também foi liberto pela intervenção de um anjo (At.12.1-18).

O escritor de Hebreus é enfático em dizer que: “Não são todos eles espíritos ministradores enviados para o serviço, a favor dos que hão de herdar a salvação?” (Hb.1.14). Se  somos templos do Espírito Santo, que é Deus, porque os anjos não estariam nesta dispensação? Nós não precisamos mais do seu auxílio? Segundo Hebreus 1.14 o Apóstolo nos declara que o  ministério angélico é vivo e atual.


Capitulo 4

A CLASSIFICAÇÃO DOS ANJOS

O ANJO DO SENHOR

Nos textos mais primitivos do Antigo Testamento a proteção de Javé em favor de Israel é personificada na expressão “Anjo de Javé” (Gn.16.7-14; 18.2; 21.17-19; 22.11-14; 31.11-13; Êx.3.2-6). O Anjo do Senhor significa uma manifestação especial de Deus.
O ministério deste Anjo lhe dá uma proximidade singular de Deus, nestes textos parece haver uma alternância intencional, muitas vezes abruptas, entre a palavra de Javé e a do anjo nestas passagens citadas. Por exemplo em Gênesis 16.7-13 o texto introduz de repente o “Anjo de Javé”. Ele aparece a Hagar no deserto, como o mensageiro de Deus, alguém familiar, ante o qual ela nada tem a temer. Hagar reconheceu na promessa do Anjo a autoridade e o poder de Deus. É um anjo que aparece, mas é Deus quem formula a promessa.
Em Êxodo 3.2-6 a alternância ou equivalência entre o Anjo de Javé e Deus é ainda mais óbvia: quem aparece é o Anjo de Javé, porém quem vê e fala  é Javé. É difícil estabelecer uma distinção clara entre Deus e o Anjo de Javé.
O Novo Testamento também fala do Anjo do Senhor, expressão que corresponde à antiga fórmula Anjo de Javé ou Anjo de Deus (Mt.1.20; 2.13; 28.2; Lc.1.11; 2.9; At.5.19; 8.26; 12.7).
A maneira pela qual o Anjo do Senhor é descrito distingue-o de qualquer outro anjo. A ele é  atribuído o poder de perdoar ou reter pecados (Êx.23.20-23).
Duas coisas são ditas acerca deste anjo. Primeiro, que o nome do Senhor está nele e segundo, que ele é o rosto do Senhor ,  o rosto do Senhor está nele, por isso ele tem poder de salvar (Is.63.9), e de recusar o perdão. Como diz Alberto Matos: "Não se pode evitar a conclusão de que este anjo misterioso não é outro senão o Filho de Deus, o Messias, o Libertador de Israel, e o que seria o salvador do mundo. Portanto, o Anjo do Senhor é realmente um ser incriado".[43]
O Anjo do Senhor é a expressão vulgarmente usada no Antigo Testamento para designar o próprio Cristo em várias de suas manifestações antes da encarnação. Em muitas passagens ele é distinto de Deus, mas depois é identificado como sendo uma personalidade divina.
A Bíblia especifica certos grupos, como também diversos importantes indivíduos entre os anjos. Mencionamos cinco representações principais de supremacia entre estes seres, a saber, Tronos (Qronoi), Domínios (KuriothteV), Principados (Arcai), Autoridades (Exousiai) e Poderes (DunameiV). Considerando que a Bíblia não se compraz em tautologia inútil, podemos crer que há um significado específico em cada uma dessas denominações, significado esse que sem dúvida corresponde às realidades terrenas que levam tais nomes. A verdade revelada relativa aos anjos não é suficientemente completa para que se estabeleça uma analogia perfeita. O termo Tronos refere-se àqueles que estão sentados sobre eles; Domínios àqueles que exercem influência; Principados àqueles que governam; Poderes àqueles que exercem supremacia, e Autoridades àqueles que são revestidos de responsabilidade especial. Embora haja uma aparente semelhança entre estas denominações,  temos de presumir que estes títulos representam uma dignidade incompreensível e os diversos graus de categorias. As esferas celestiais de governo excedem os impérios humanos como o universo excede a terra.
A doutrina sobre os anjos segue o desenvolvimento de toda Sagrada Escritura. É um elemento da história da salvação e toda a Sagrada Escritura se escreve na dinâmica de seu desenvolvimento histórico. O modo de falar ou de representar o mundo misterioso dos anjos implica em recurso constante à linguagem do simbolismo religioso.
No Oriente antigo os vizíres governavam seus reinos por meio de sátrapas que constituíam a sua corte. As mitologias orientais concebiam de modo análogo o governo celeste do universo constituído por um panteão de divindades que regulamentavam os eventos terrestres.
O Antigo Testamento mostra o Senhor como um soberano oriental rodeado por uma grande corte  (I Rs.22.19; Is.6.1) . Os membros de sua corte são seus servidores (Jo.4.18), que são chamados santos (Jo.5.1) ou filhos de Deus (Dt.32.8).
Arcanjo (ArcaggeloV)  é uma palavra grega que significa, o principal entre os anjos. O prefixo “arc”, sugere ser um anjo chefe, principal e poderoso.
Na Bíblia protestante aparece a menção de apenas um arcanjo, Miguel, seu nome em  hebraico significa: “Quem é como Deus?”. O significado  do seu nome pode representar uma resposta a Lúcifer, cujo o coração se elevou dizendo: “Serei semelhante ao Altíssimo” (Is.14.14). Assim, Miguel acrescentado do vocábulo arcanjo denota que nenhum ser criado pode ser “semelhante a Deus”.
O livro apócrifo de Enoque menciona o  nome de sete arcanjos, a saber: Uriel, Rafael, Raquel, Saracael, Miguel, Gabriel e Remiel. Segundo é dito ali, a cada um deles Deus entregou uma província sobre a qual reinassem. A autoridade de  Miguel  seria “sobre a melhor porção da humanidade e sobre o caos”. Segundo este escrito ele é o protetor de Israel como nação.
As interpretações a respeito desta tripla classificação dos anjos variam bastante. O Dr.  A. H. Strong  defende que são “figuras simbólicas, temporais e artificiais” que “não tem existência pessoal”. Ele tenta comprovar esta idéia afirmando que estas designações específicas não se encontram acopladas aos anjos em nenhuma passagem das Escrituras. Smith e Alford defendem que são apenas símbolos dos atributos de Deus. A grande proporção de expositores acha que são anjos mais importantes que ocupam posições elevadas, totalmente à parte, talvez, dos governos. Alguns expositores procuram descobrir diferença de posição e graduação entre aqueles que receberam tais designativos. Satisfaz mais atribuir-lhes não apenas o mais alto posto, mais também o mesmo agrupamento em geral.
Os diferentes termos usados parecem indicar uma diferença de serviço prestado mais do que diferença em posição inicial. Por causa da alta posição destes anjos, o serviço que eles prestam devem ser considerados com a devida atenção.
Querubin deriva do hebraico, cujo significado é “guardar”, “cobrir”. Com esta função eles aparecem mencionados em vários textos. Eles agiram como guardiães da santidade de Deus, tendo guardado o caminho para a árvore da vida no Jardim do Éden (Gn.3.24).
O título querubin fala de uma posição elevada e santa, sua responsabilidade está intimamente relacionada com o trono de Deus, como defensores de Seu caráter. Em uma nota em Ezequiel 1.5, o Dr. C. I. Scofield em sua Bíblia de referência faz o seguinte comentário:
As “criaturas viventes” são idênticos aos querubins. O assunto é um tanto obscuro, mas da posição dos querubins junto ao portão do Éden, sobre a cobertura da arca da aliança e em Apocalipse 4, concluímos que eles têm a ver com a vindicação da santidade de Deus contra o orgulho presunçoso do homem pecador, “para que não estenda a mão e tome também da árvore da vida” (Gn.3.22-24), apesar do seu pecado. Sobre a arca da aliança, que é da mesma essência do propiciatório, eles viam o sangue aspergido que falava, um tipo da perfeita manutenção da justiça divina pelo sacrifício de Cristo (Ex.25.17-20; Rm.3.24-26). As criaturas viventes (ou querubins) parecem ser seres reais da ordem angélica. Os querubins ou seres viventes não são idênticos aos serafins (Is.6.2-7). Aqueles parecem relacionar-se com a santidade de Deus ultrajada pelo pecado, os serafins, com a impureza do povo de Deus. A passagem de Ezequiel é altamente figurativa, mas o efeito foi a revelação da glória Shequiná do Senhor ao profeta. Tais revelações estão invariavelmente ligadas com novas bênçãos e serviços.[44]
 Os querubins aparecem pela primeira vez junto ao portão do jardim do Éden, depois que o homem foi expulso e como protetores para que o homem não retorne poluindo a santa presença de Deus. Aparecem novamente como protetores, embora em imagem de ouro, sobre a arca da aliança, onde Deus se comprazia em habitar. A cortina do tabernáculo que separava a presença divina do povo ímpio, tinha bordados de figuras de querubins (Ex.26.1). Ezequiel refere-se a estes seres chamando-os pelo seu título dezenove vezes e a verdade relacionada com eles deriva destas passagens. Ele os apresenta com quatro rostos diferentes: de um leão, de um boi, de um homem e  a  face  de  uma  águia  (Ez.1.3-28; 10.1-22). Este simbolismo relaciona-os imediatamente com as criaturas viventes da visão de João (Ap.4.6-5.14).
O título serafin fala de adoração incessante, do seu ministério de purificação e de sua humildade. Eles aparecem apenas uma vez nas Escrituras  sob  esta   designação  (Is.6.1-3). Sua atribuição tripla de adoração conforme registrada por Isaías foi repetida por João (Ap.4.8) sob o título de criaturas viventes, fato este que de longe estabelece a identidade desse grupo.
O vocábulo “serafin” vem da raiz hebraica “saraph”, que quer dizer: “consumir como fogo”. O nome saraph designa também uma serpente venenosa (Nm.21.6-8) ou uma serpente alada (Is.14.26;30.6). Segundo o Dr. Joann Michl “existe uma suspeita que há uma relação de origem entre os serafins e as serpentes”. [45]
O modo com que Isaías fala dos serafins insinua que eram conhecidos dos seus leitores. Conforme Isaías 6.6, não parecem os serafins destacados para o serviço dos homens, mas consagrados totalmente ao louvor de Deus. Assemelhando-se ao “exército do céu”, que está a direita e a esquerda do Trono de Deus (I Rs.22.19; Jó.1.6).
Diferente dos querubins, permanecem como servidores em torno do Trono Celestial, cantam louvores a Ele e estão sempre prontos a fazer o que Ele manda. Enquanto os querubins são os anjos poderosos, os serafins podem ser considerados os nobres entre os anjos. Ao passo que  aqueles defendem a santidade de Deus, estes atendem ao propósito da  reconciliação, e assim preparam os homens para aproximar-se apropriadamente de Deus.
Criaturas Viventes é um título que representa estes anjos manifestando a plenitude da vida divina, sua atividade incessante e permanente participação na adoração a Deus. É um titulo que representa os querubins.
Muitos crêem que Deus criou os anjos caídos, ou que eles se rebelaram  porque Deus quis. Ambas as idéias estão erradas pois Deus nem criou os anjos caídos e nem desejou a rebelião dos mesmos (Dt.32.4). Os anjos caídos foram criados perfeitos mas, tendo dado ouvidos a Satanás, terminaram rejeitando a autoridade de Deus.
Como  era de  se esperar  eles  são  o   contrário  dos  anjos  eleitos: são   rebeldes (II Pd.2.4), irreverentes (Jd.9), astutos  (Mt.4.6; Ef.6.11),  ferozes (I Pd.5.8) e  traiçoeiros (II Cor.11.14), eles opõem-se aos propósitos do Criador, afligem ao povo de Deus, executam os propósitos de seu líder, Satanás. Portanto, em sua reta final o homem caído tem condição de obter a regeneração através de Cristo, mas não há oportunidade para o anjo caído, seu destino já está traçado e prestes a ser consumado.
Semelhantemente como no céu, os anjos destituídos de sua glória procuraram preservar a mesma hierarquia que antes tinham. A Escritura nos dá subsídios para afirmar que eles ainda seguem o mesmo líder, Lúcifer.
Na Escritura, o chefe dos anjos caídos aparece sob uma diversidade de nomes diferentes. Alguns nomes são próprios e outros, títulos descritivos que nos mostram sua obra e caráter, como Apocalipse 12.10, onde ele é chamado de “o acusador de nossos irmãos”.
Muita coisa nos revelam os seus nomes, são eles: a Serpente, que fala de sua astúcia; Lúcifer, o filho da alva, que era o seu título no céu antes da queda; Diabo, que significa acusador, ou caluniador; Satanás,  que significa oponente; Apolion, que significa destruidor; Dragão, que fala do seu poder; o Príncipe deste mundo; Príncipe dos poderes do ar; o deus deste mundo. Quatro destes títulos pessoais aparecem em um único versículo (Ap.12.9).
Este poderoso anjo aparece na Bíblia com destaque, importância e poder, ele é o agente infernal que está no comando de todos os demônios. Ele penetra na história da humanidade desde a sua primeira página e vai até o seu final, sempre apresentado como um fator muitíssimo vital nos negócios dos homens, dos anjos e do universo propriamente dito. É muito significativo que as Escrituras tracem com detalhe e cuidado a existência desta pessoa excessivamente cruel e maldosa desde a sua criação, através de toda a sua carreira, até o seu julgamento final. Tal distinção não foi atribuída a nenhum outro anjo ou ser humano, que tenham sido usados por Deus. Nenhum  outro foi  assim analisado e revelado quanto às suas motivações, seus métodos, seu caráter e seus propósitos.
Encontramos esta ampla revelação e nos sentimos desafiados a prosseguir, considerando que esta importante doutrina da Bíblia é a verdade relativa a um ser que foi originador do pecado, o promovedor deles nas esferas angélicas e humana, e o mais imperioso oponente das coisas de Deus.
Poucos podem dizer como o Apóstolo: “Não somos ignorantes dos seus ardis”      (II  Co. 2.11). Este ser é aquele “que engana o mundo inteiro” e de maneira muito evidente quando o mundo não acredita em sua existência. Esta incredulidade promove, sem dúvida e grandemente, a sua vantagem. Quando as pessoas estão desinformadas ou mal informadas, tornam-se uma presa fácil do poder do inimigo das almas. Os saduceus modernos procuram resolver este assunto chamando este ser “de uma figura de linguagem, uma personificação metafórica do mal” ou “uma ilusão das mentes insanas”. Eles negam a sua personalidade como também a dos demônios. Satanás incentiva tais impressões uma vez que desarmam o preconceito e o temor em relação ao seus empreendimentos infernais. Quanto à possibilidade deste poderoso anjo não passar de uma simples “figura de linguagem”, sem personalidade real, devemos notar que figuras de linguagem não são anjos criados que pecam, e seres do reino das trevas condenados a um julgamento final horrível nas mão de Deus. Uma metáfora não podia entrar em um bando de porcos e precipitá-lo para uma destruição imediata (Mt. 8.31). Como também uma metáfora não poderia oferecer os reinos deste mundo ao Senhor, declarando que esses reinos lhes  foram dados para que desse a quem quisesse dar (Mt. 4.1-11). Sobre isto o Dr. Gerhar nos diz o seguinte:
A exegese racionalista que atribui possessões demoníacas à superstições e transforma os registros do Novo Testamento sobre este tema sombrio em fantasias ilusórias, se fora aplicada a todo o ensino bíblico sobre as coisas invisíveis e sobrenaturais, transformaria todo o mundo espiritual em irrealidade. Entre as zombarias sobre o diabo e as zombarias sobre o Redentor existe apenas um pequeno passo. Não devemos esquecer que a crença na personalidade do diabo e na influência dos demônios nos negócios humanos assumiram formas grotescas durante a Idade Média, nem que a má interpretação da possessão diabólica levou homens bons a cometer atos de horror. Mas será que os abusos dos fatos das Escrituras prova que não há veracidade em sua declaração do poder do diabo sobre os homens maus e sobre a natureza? Será que é superstição dizer que satanás é o “maligno”, que é o “príncipe deste mundo?”. Só porque alguns teólogos  e mestres em outros séculos entenderam mal e aplicaram mal alguns dos milagres de nosso Senhor? Se esta maneira de raciocinar  fosse aplicada às verdadeiras superstições, os monstruosos erros do politeísmo não provariam que não existe Deus? O oráculo de Delfos não provaria que Isaías não pode ser um profeta genuíno? Ou a feitiçaria da África não provariam que nenhum culto é digno dos homens? Ou os totens dos índio americanos não provariam que não existe providência divina?. [46]
Cada elemento da personalidade de Satanás foi estabelecido na Escritura. A sociedade, de maneira estranha, retém a terminologia bíblica aplicada a Satanás, embora cada vestígio dessa terminologia esteja esvaziado do seu verdadeiro significado. Sem referência à revelação, a sociedade imaginou um ser grotesco, ornado de estranhos atavios, que se tornou o personagem central de peças de ficção e de teatro e, então, convencido de que tal ser como esse que pintou não existe, lançou todo o conjunto de verdade revelada ao limbo dos mitos de uma era passada. Infelizmente, o verdadeiro ser apresentado nas Escrituras não desapareceu com tal desprezo pueril e travesso da solene verdade de Deus. Não há falta de evidência da personalidade de Satanás e dos demônios. O registro de seus atos, como o de seu destino compõem as páginas mais negras das Escrituras. O  Lago de Fogo foi preparado “para o diabo e seus anjos” (Mt.25.41). Personagens de ficção e metáforas não são julgados com a morte de Cristo nem condenados ao Lago de fogo.
Os conflitos e provações dos cristãos se explicam totalmente dentro de três realidades: o mundo, a carne e o diabo. Satanás, “o deus deste mundo” é uma personificação viva da mentira. Mais reveladoras são as palavras de Cristo dirigida aos judeus: “Vós sois do diabo, que é o vosso pai, e quereis satisfazer-lhe os desejos. Ele foi homicida desde o princípio e jamais se firmou na verdade. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio porque é mentiroso e pai da mentira" (Jo.8.44). Sobre   isto o Apóstolo nos dá um testemunho triplo: Encontramos a declaração de que Satanás é o sedutor de todo o mundo (Ap.12.9); Ele será lançado no abismo fechado e selado para que “não mais enganasse as nações até se completarem os mil anos” (Ap.20.2-3), e por fim, quando ele for solto encontramos a declaração de que “sairá a seduzir as nações que há nos quatro cantos da terra” (Ap.20.7-8). A natureza maligna que domina a carne nasceu da mentira de Satanás no Jardim do Éden, e ele mesmo é  um contendedor vivo que se opõe ao crente, não apenas na esfera da carne e do sangue, mas também no reino de atividade espiritual.
Três objeções foram formuladas contra esta doutrina bíblica subsidiária da angelologia: 1. Diz-se que sua origem está na mitologia, Satanás não existe e por isso não há necessidade de estudarmos acerca de tal pessoa; 2. Esta doutrina trata-se de um maniqueísmo cristão, a infinita guerra entre o bem e o mal é algo que sempre vai existir, pois os dois se equilibram em força; 3. Deus é o criador de tudo, Satanás como criatura sua não milita contra Ele, pois no final, como no princípio, “Deus é tudo em todos”.
A biografia de Satanás é longa, que retrocede ao passado imemorial, está no presente e penetra na eternidade vindoura.  Estes aspectos da história (criação, estado original e queda) deste grande anjo estão de tal maneira interligados que dificilmente podem ser examinados separadamente.  A revelação relativa a Satanás começa em um período sem data, entre a criação dos céus e da terra, naquela forma perfeita na qual eles aparecem pela primeira vez  (Gn.1.1).
A passagem central que trata especificamente destes aspectos de Satanás  é  Ezequiel 28.11-19. Esta passagem é um esboço sobre o mais poderoso dos anjos; mostra um período da primeira glória da terra e fala sobre o pecado angélico inicial. O contexto imediato e circundante da profecia de Ezequiel apresenta um registro dos julgamentos divinos dos inimigos de Israel e, segundo I Crônicas 21.1, Satanás pertence a este grupo.
A porção que apresenta a verdade relativa a Satanás está um tanto oculta uma vez que se encontra acomodada a retórica oriental. É um meio legítimo de expressão divina como qualquer outra forma de literatura, mas transmite a sua mensagem apenas àqueles que buscarem o seu significado mais profundo com muita atenção.
Para se entender corretamente esta revelação vital sobre Satanás é muito importante observar que os versículos precedentes a este capítulo (Ez.28.1-10),  embora sejam dirigidas ao “príncipe de Tiro”, são claramente uma palavra ao homem do pecado, a obra prima e personificação final de Satanás, como também a que segue é uma palavra ao próprio Satanás.
Há um significado notável na maneira pela qual estes dois discursos estão relacionados e foram colocados em seqüência. O homem do pecado está identificado através da Escritura por sua presunção blasfema de ser Deus. Assim como um príncipe é inferior e está sujeito a um rei, o homem do pecado está sujeito a Satanás.
Antes do discurso para um “príncipe” e um “rei”, faz-se alusão a quatro nações. Amom, Moabe, Edon e Filístia, e a mensagem a estas nações encontra-se reunida em dezessete versículos, enquanto que a mensagem dirigida a cidade de Tiro ocupa oitenta e três versículos. Esta proporção é impressionante, sugerindo a importância simbólica desta cidade. Tiro era a cidade comercial do mundo, como a grande Babilônia fora antes. Com esta ênfase dá-se a entender  a promoção do ideal do sucesso do mundo. Tiro é o símbolo de um mundo que ama a Mamon.
Assim como o Filho maior de Davi é distinguido nos Salmos messiânicos pelos aspectos sobrenaturais apresentados, a pessoa chamada nessa passagem de “rei de Tiro” é , conforme descobrimos, o mais elevado dos anjos. Não poderia ser um mortal. Alguns dos aspectos importantes dessa passagem serão aqui examinados.
Esta passagem se enche de extraordinária importância quando reconhecemos nela a palavra de Jeová ao “rei de Tiro” e não a palavra do profeta. "Uma lamentação" que significa intensa angústia acompanhada de gestos de bater no peito, é um termo  impressionante quando descreve a tristeza de Jeová derramada sobre o pecador; e não é o que acontece sempre? Jeová deixa de lamentar alguma vez as suas criaturas errantes? Se aceitássemos que há uma aplicação secundária deste lamento a algum rei de Tiro, tal conjectura seria de pouco valor ou significado à vista dos aspectos sobrenaturais que são imediatamente apresentados; pois “assim diz o Senhor Deus: Tu és o sinete da perfeição cheio de sabedoria e formosura”. Tal expressão é um superlativo até mesmo com os padrões divinos. A intimação que todo poder criativo divino com referência à sabedoria e formosura foi representada neste rei. Essa terminologia não teria lugar na boca de Jeová relativamente dirigindo-se a um homem, que não passa de um rei pagão.
A expressão, entretanto, está de acordo com a verdade quando consideramos que é uma mensagem dirigida ao maior de todos os anjos em seu estado perfeito, antes da queda.
O Éden é tanto o Jardim de Deus (Ez.28.13) quanto o  monte santo de Deus (Ez.28.14-16), é um conceito não encontrado em Gênesis.
Pouca diferença faz se esta referência é o Éden de Gênesis ou um Éden anterior. Satanás esteve nos dois;  mas ninguém poderá afirmar que qualquer rei de Tiro fosse assim favorecido. Os ornamentos de jóias sugerem sua grande importância e o resplendor de sua aparência. Assim, cheio de resplendor, ele foi apresentado no Jardim do Éden, pois o seu nome no hebraico, “nahash”, significa:  serpente (Gn.3.1),  o reluzente. O apóstolo declara que mesmo agora ele se transforma em um anjo de luz (II Cor.11.14). Estas pedras preciosas aparecem apenas três vezes no registro bíblico: no peito do sumo sacerdote, que era a manifestação da graça divina; na nova Jerusalém, que reflete a glória de Deus,  e  como a vestimenta deste grande anjo, sinal de sua elevada posição.
Nenhuma distinção poderia ser imposta a qualquer criatura que fosse mais exaltada do que a imposta por estas pedras. Semelhantemente, esta figura apresenta este anjo como criado para ser um diadema de louvor ao seu Criador. Ele não precisava de um instrumento de louvor para glorificar a seu Criador; ele era o diadema de louvor.
 A declaração  mais reveladora neste versículo é a afirmação que ele é um ser criado. No verso 15  há uma repetição, onde se diz que  ele era “perfeito” em todos os seu caminhos  desde o dia em que foi criado. O poder e a sabedoria deste ser são tão extensos que “não poucos têm suposto que ele fosse eterno como o próprio Deus.[47] Sendo uma criatura, apesar do seu estado, no final ele ficará sujeito ao seu Criador e irá prestar-lhe contas.
TU ERAS (28.14) - Como já dissemos, anteriormente, os querubins estão relacionados com o trono de Deus na qualidade de protetores e defensores de Sua santidade. Que este ser pertença à ordem dos querubins é impressionante.
Jeová dirige uma palavra especial ao anjo neste ponto: “... te estabeleci” e,  a seguir, as palavras reveladoras: “Permanecias no monte santo de Deus”. Este  serviço específico de querubim,  ou protetor, era prestado no próprio Trono de  Deus uma vez que a frase, monte santo de Deus, no uso que tem no Antigo Testamento, é o lugar da autoridade de Deus (Ex.4.27; Sl.2.6;3.4; 43.3; 68.15).
A partir destas revelações podemos concluir que este grande anjo foi criado acima de todos os anjos para ser o defensor do trono de Deus. Se alguém disser que Deus, sendo o Todo-Poderoso, não precisa dessa defesa, podemos responder que não é uma questão de necessidade de Deus, mas antes, uma revelação do que Deus  resolveu estabelecer. Ele sem dúvida não precisa dos querubins junto ao portão do Éden,  mas Ele os colocou ali.
A última frase, “no brilho das pedras andavas”, é um tanto obscura. Pode referir-se a uma glória anterior na terra. As “pedras afogueadas” talvez fossem a manifestação do fogo consumidor que Jeová é. Nesse caso, esta declaração sugeria que o primeiro estado deste anjo era de relacionamento ininterrupto com a santidade divina.
É preciso reconhecer que nenhum rei de Tiro atende a esta exaltada descrição. Nenhum homem pecador  jamais foi tal diadema de louvor, nem foi diretamente criado por Deus, nem pertenceu ao grupo dos querubins, nem foi colocado no monte santo de Deus, nem andou no meio das “pedras afogueadas”, nem foi perfeito em todos os seus caminhos desde a sua criação.
PERFEITO ERAS (28.15) - A descrição muda agora e revela-se o fato do primeiro pecado deste anjo. Achou-se iniquidade nele. A antiga perfeição ficou para trás. A insinuação é que foi descoberto um pecado secreto.
A onisciência de Deus não pode ser enganada, nem de deixar de conhecer todas as coisas. Se os nossos segredos estão sob a luz do Seu rosto (Sl.90.5), também o mesmo acontece com os pecados secretos dos anjos. Satanás caiu da perfeição original pois queria ser igual a Deus.
E PECASTE ( 28.16-17) - A palavra "comércio" é muito sugestiva. O mesmo  pensamento ocorre com referência ao homem do pecado expresso pela palavra comércio (Ez.28.5). A idéia aqui esta muito afastada dos negócios e transações no comércio feito pelos seres humanos.
 O significado do termo é “andar por aí”. Talvez indique  que  Lúcifer  andava entre os anjos difamando Deus, para assegurar a fidelidade deles ao seu propósito de rebelião contra o Criador.
Pensava ele que fazia algo as escondidas do Criador, que Deus seria surpreendido com suas atitudes.
JAMAIS SUBSISTIRÁS  (28.18-19) - Estes versículos apontam para o julgamento futuro e final que Deus preparou para este anjo poderoso, julgamento esse que foi mais completamente descrito em outras partes da Escritura..
Neste contexto Deus  registra a origem, o estado, o caráter  e o pecado do maior de todos os anjos. A importância desta revelação na doutrina dos anjos e na doutrina do homem não pode ser superestimado.
 Deus não criou Satanás como tal; Ele criou um anjo que era perfeito em todos os seus caminhos, e esse anjo pecou opondo-se à vontade de Deus. Através desse ato ele se tornou Satanás, o oponente, e tudo mais que estes títulos dão a entender.
 A antiga questão levantada pelos céticos do passado sobre quem fez o Diabo foi respondida nesta passagem que acabamos de considerar. Vimos que Deus criou um anjo santo com poder de escolher entre o bem e o mal, e que ele escolheu o mal. Através do poder degenerador do pecado, Satanás, como também Adão, tornou-se um ser totalmente diferente daquele que Deus criou.
Quando Deus cria um ser para cumprir um determinado propósito, esse ser tem de cumprir perfeitamente esse ideal divino. Portanto, quando procuramos descobrir a personalidade deste grande anjo, seria bom identificar o propósito para o qual Satanás foi criado e avaliar as qualidades que tinha em vista desse propósito.
Com o seu pecado ele perdeu a sua santidade original e a sua posição celestial, mas conserva a sua sabedoria, voltou à sua imensa capacidade para o mal e o seu entendimento foi prostituído ao nível das mentiras, das fraudes, das ciladas e dos artifícios. A extensão destes empreendimentos malignos, seu caráter exaltado, sua motivação e método, constituem uma porção deste vasto tema. Sobre esta passagem de Ezequiel  F. C. Jennings conclui dizendo o seguinte:
a) Pelo seu cenário e linguagem não pode aplicar-se a algum filho do homem pecador; é impossível. b) Portanto,  necessariamente,  refere-se  a  um  espírito  ou  anjo. c) Este anjo ou espírito, seja quem for, foi pessoalmente a coroa dessa primeira  criação. d) Sua tarefa era  proteger o trono de Deus, proibindo a aproximação do mal, ou de qualquer injustiça. e) Achou-se nele iniquidade e, essa iniquidade  foi   a   auto   exaltação.
f) Foi pronunciada a sentença da expulsão do seu lugar, embora não tenha sido, pelo menos totalmente, executada.[48]
Em Isaías 14.12-17 foi delineado o pecado de Satanás. É verdade que, desde o princípio, Satanás não cessou de pecar; mas estamos especificamente interessados em seu pecado inicial, pecado esse que foi o primeiro pecado a ser cometido no universo. De fato, o primeiro pecado a ser cometido não só explica-nos muito sobre a pessoa que o cometeu, mas também é a norma ou padrão de todo pecado, demonstrando o elemento do pecado que faz dele o que é : “sobremaneira maligno” (Rm.7.13).
Esta referência de Isaías da lugar à questão  se Satanás está agora residindo realmente fora do céu, ou se ainda habita na esfera em que foi colocado quando foi criado. Uma idéia popular, que surge totalmente alheia à revelação, diz que Satanás habita nas regiões inferiores, senão no próprio inferno.
Em relação a isto, é essencial considerar que na Bíblia encontramos a referência a três céus: a) a atmosfera na qual “as aves do céus” se movem e na qual “o príncipe das potestades do ar” tem autoridade e está ativo; b) os espaços estrelares que, como já indicamos antes, são a habitação dos santos anjos; e c) o “terceiro céu” que é a habitação do Deus trino, local esse que não pode ser determinado. A questão é se Satanás com o seus anjos foram lançados para fora de sua habitação original. Certas passagens lançam luz sobre este problema. Sobre isto Jesus disse: “Eu via Satanás caindo do céu como um relâmpago” (Lc.10.18). Em Apocalipse 12.7-9 fala de Satanás sendo expulso do céu para a terra e, como foi descrito, evidentemente vai acontecer no futuro. Em Ezequiel 28.16-19 é prevista a expulsão de Satanás. Esta palavra não revela o tempo quando esta promessa será cumprida, além do fato de que estes versículos estão associados com o julgamento final de Satanás.
Certas passagens dão a entender que Satanás está atualmente no céu ao qual ele tem direito por criação. Em Jó 1.6 e 2.1 afirma-se que Satanás estava presente no céu. Em Jó 1.6 aparentemente, nos mostra que não havia nada de incomum  com a presença de Satanás naquele lugar e ocasião. Ele foi chamado para prestar relatório de suas atividades, e ele o fez.  Neste relatório ele revela ter liberdade suficiente para “rodear a terra, e passear por ela”, como também de aparecer na presença de Deus nas alturas. Cristo advertiu a Pedro: “Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou  (exhthsato = “pediu”) para vos peneirar como trigo” (Lc.22.31). As  implicações são que Satanás apareceu pessoalmente diante de Deus com este pedido. Em Efésios 6.11-12 o apóstolo nos dá uma advertência e com a mesma finalidade nos declara que os poderes do mal ainda se encontram nas esferas celestiais. As evidências que este conjunto de passagens apresenta, e aparentemente não há testemunho contrário, é que Satanás ainda se encontra na sua habitação original e ali ficará até que, segundo Apocalipse 12.7-9,  será lançado na terra como parte da experiência da tribulação.
Ezequiel 28.11-19 e Isaías 14.12-17 que contribuem tanto para a revelação da história passada de Satanás precisam ser interpretadas de acordo com os diferentes pontos de vista destes autores humanos. Ezequiel em sua visão profética estava no limiar da história angélica e viu em perspectiva o final da carreira de Satanás, enquanto que Isaías em sua visão profética estava no final desta história e viu em retrospectiva o que ele registrou.
Isaías viu assim  de trás para frente, explica a sentença que dá início à sua profecia, que presume que este poderoso anjo terá então caído do céu. Grande parte do que se encontra nesta predição ainda não se cumpriu em sua medida completa. Os grandes empreendimentos deste anjo como Isaías os viu ainda não se concluíram.
Estes dois profetas empregam contrastes extremos nos títulos que aplicam a este anjo. Quando começou a descrever o santo e elevado estado deste anjo quando foi criado,  Ezequiel se dirige a ele, falando em nome de Jeová, chamando-o de “rei de Tiro”, enquanto que Isaías, procurando apresentar a degradação deste ser, dirige-se a ele usando o seu título celestial, “Lúcifer, filho da alva”. Parece que estes títulos foram assim propositalmente empregados com o intuito de colocar estes dois estados, de todo o mais alto poder criativo e o da extrema degradação de um anjo, em surpreendente justaposição.
O título, “Lúcifer, filho da alva”, é a gloriosa designação deste grande anjo antes de seu fracasso moral. Lúcifer significa “luminoso” ou “brilhante” e é quase idêntico a Nahash, a serpente, que significa  “a luminosa”.
O profeta Isaías anuncia a queda deste anjo e algo do seu grande poder (Isaías.14.12-17). Sobre este poder ele disse: “tu que debilitava as nações”, “que fazes estremecer a terra”, “tremer os reinos”, “que  punha o mundo como um deserto”, “assolava as suas cidades” e “que a seus cativos não deixa ir para as suas casas”.
Ao que nos parece o pecado de Satanás tinha a pretensão de permanecer em segredo. Este é o significado das palavras “tu dizias  no teu coração”. Desta forma, nesta passagem é nos mostrado que o pecado de Lúcifer consiste em cinco declarações contra a vontade de Deus. Estas cinco declarações de Satanás são evidentemente os diversos aspectos do mesmo pecado, o de procurar subir acima da esfera para a qual ele foi criado e acima do propósito a serviço que lhe foram atribuídos. As cinco declarações foram as seguintes:
1.   “Eu subirei ao Céu”. Ele  propunha-se  aparentemente fazer habitação no terceiro céu, no mais alto dos céus onde Deus habita. A habitação dos anjos é evidentemente em um plano inferior; pois, quando retornou ao mais alto céu, após a Sua ressurreição, Cristo assentou-se “acima de todo principado, e potestade, e poder, e domínio” (Ef.1.20-21); mas Satanás, cuja habitação é a mesma dos anjos, embora seus deveres lhe dessem acesso às esferas da terra e às outras mais elevadas (Jo.1.6; Ez.28.14), em uma auto-promoção ímpia determinou que a sua habitação deveria ser mais elevada do que a esfera que lhe fora designado por seu Criador. Sua intenção egoísta conforme nos foi revelada nesta declaração é um ultraje contra o plano e o propósito do Criador.
2.   “Acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono”. Com esta declaração Satanás revelou que, embora designado como guardião do trono de Deus aspirava possuir um trono seu e governar sobre “as estrelas de Deus”. Os seres angélicos e não o sistema estelar, é o que está obviamente em vista (Jo.38.7; Jd.1.13; Ap. 12.3-4). Ao que nos parece grande parte da ímpia ambição de Satanás de possuir um trono foi atendido, pois sabemos que agora ele é um rei reconhecido, embora julgado, com autoridade tanto no reino celestial (Mt.12.26; Ef.2.2; Cl.2.13-15) como na esfera terrestre  (Lc.4.5-6; II Co.4.4; Ap.2.15). O caráter pecador do propósito de Satanás de garantir um trono é visível.
3.  “No monte da congregação me assentarei, nas extremidades do norte”. Segundo Isaías 2.1-4, “o monte” se refere ao lugar do governo divino na terra, e a referência à “congregação” é claramente a Israel.  Assim, esta presunção específica parece referir-se a participar pelo menos do governo messiânico na terra. Este reino terá sua sede em Jerusalém, a cidade do grande Rei. O Messias vai reinar no monte Sião “para os lados do norte” (Sl.48.2). A crucificação de Cristo foi ao norte de Jerusalém, ali Cristo julgou e despojou os principados e potestades (Cl.2.15). É possível que, ao ser assim julgado, os desígnios ímpios de Satanás de apoderar-se do governo messiânico foram desfeitos para sempre.
4.  “Subirei acima das mais altas nuvens”. Das mais de cento e cinqüenta referências às nuvens na Bíblia, cem relaciona-se com a presença e glória divina. O significado desta arrogante declaração provavelmente se descobrirá no uso da palavra nuvens. Jeová aparecia em uma nuvem (Ex.16.10); a nuvem era chamada de “a  nuvem do Senhor” (Ex.40.38); quando Jeová estava presente, a nuvem enchia a casa (I Rs.8.10);  “O Senhor, cavalgando numa nuvem ligeira” (Sl.104.3; Is.19.1); Cristo virá, assim como foi, sobre as nuvens do céu (Mt.24.30; At.1.9; Ap.1.7); assim também o povo remido aparecerá (Is.60.8; I Ts.4.17). “O homem do pecado” de Satanás se exaltará “contra tudo o que se chama Deus, ou objeto de culto” (II Ts.2.4) e com esta arrogante declaração Satanás está evidentemente procurando assegurar-se de alguma glória que pertence somente a Deus.
5.  “Serei semelhante ao altíssimo”. Esta última das declarações de Satanás contra a vontade de Deus pode ser considerada como a chave para entender e pesquisar suas motivações e seus métodos. Apesar de uma impressão quase universal de que o ideal de Satanás é ser diferente de Deus, aqui se revelou com o propósito de ser semelhante a Deus. Contudo, esta ambição não é de ser como Jeová, o auto-existente, o que nenhum ser criado poderia ser; mas ser semelhante  ao altíssimo, título que significa “que possui os céus e a terra” (Gn.14.19-22). O propósito de Satanás então, é ter autoridade sobre os céus e a terra. O caráter essencial maligno do pecado aqui, como qualquer outra parte, é a rebeldia da parte da criatura de permanecer na posição exata na qual foi colocado pelo criador. Na busca de um propósito de ser imitador de Deus e copiador dos empreendimentos divinos, Satanás, aparentemente com sinceridade recomendou a Adão e Eva que também fossem “como deuses’. A palavra original traduzida aqui para “deuses” é Elohim e a forma plural de Elohim evidentemente explica o plural de “deuses”. O que Satanás realmente disse foi: “Vocês serão como Elohim”. Em resposta a esta sugestão, que apenas refletia a suprema ambição do próprio Satanás de ser semelhante ao Altíssimo, Adão penetrou no mesmo caminho ímpio de repúdio do propósito divino.
O pecado de Satanás pode  portanto  ser  resumido como um propósito de garantir: 1. a mais alta posição celeste; 2. direitos reais no céu e na terra; 3. reconhecimento messiânico; 4. a glória que pertence a Deus somente; e 5. uma semelhança com o Altíssimo, “que possui os céus e a terra”.
Não pode haver uma estimativa adequada do efeito imediato do pecado de Satanás, primeiramente sobre si mesmo, e então sobre o vasto exército de seres espirituais que em fidelidade a Satanás, não guardaram o seu estado original.
Ele foi apresentado no Antigo Testamento sob diversas caracterizações, mas aparece apenas quatro vezes Antigo Testamento sob o nome hebraico de Satanás. Em I Crônicas 21.1 temos um registro da verdade que Satanás levou Davi a contar o povo de Israel contrariando a vontade do Senhor, e este ato  da parte de Satanás ilustra bem o seu propósito e caráter. O Salmo 109.6 e Zacarias 3.1-2 revelam o mesmo desígnio satânico. Na primeira destas duas passagens, a presença de Satanás é invocada como um julgamento contra os inimigos de Jeová, enquanto que, na segunda,  Satanás está de pé numa atitude de prontidão para resistir ao propósito divino em benefício de Josué, o sumo sacerdote. É  o próprio Jeová que repreende Satanás diretamente, esta passagem faz paralelo com Judas 9 onde Miguel invoca Jeová para repreender Satanás. A outra referência do Antigo Testamento a Satanás é a reveladora narrativa da controvérsia de Jeová com Satanás por causa de Jó.
O Novo Testamento encontramos uma longa atividade de Satanás e dos demônios, certamente, como o eterno propósito de Deus na redenção que estava para se realizar, a mais violenta oposição foi estabelecida pelos poderes das trevas contra o propósito de Deus. Parece que toda a possível oposição existente dos anjos caídos foi disposta em ordem de batalha para este encontro. Tal esforço supremo da parte de Satanás está de acordo com a verdade revelada, mas também está de acordo com a razão. Só uma situação poderá ser comparada a está, a saber, o período que precederá imediatamente ao segundo advento de Cristo, onde, conforme está  anunciado em Apocalipse 16.13-14, “eles são espíritos de demônios operadores de sinais, e se dirigem aos reis do mundo inteiro com o fim de ajuntá-los para a peleja do grande dia do Deus Todo-Poderoso”. Esta situação é mais detalhadamente apresentada no Salmo 2, como também em Apocalipse 19.17-21. O verdadeiro caráter deste conflito futuro fica esclarecido quando notamos que estes reis guerreiros estarão possuídos por demônios.
Conforme descrito no Novo Testamento podemos perceber uma dupla classificação nas atividades de Satanás: a que vem através de sua autoridade como rei sobre os espíritos do mal e a que surge através de seu domínio mundial  (II Cor.4.4; Lc.4.6).
 Colossenses  contem duas passagens notáveis, que anunciam o caráter ilimitado de Cristo na cruz. Em 1.15-18 é atribuído a Cristo a criação de todas as coisas e a preeminência acima de toda a sua criação, a epístola prossegue declarando nos versículos 19-22  o seguinte: “Porque aprouve a Deus que nele residisse toda a plenitude, e que, havendo feito a paz pelo sangue da cruz, por meio dele reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, quer sobre a terra, quer nos céus. E a vós outros também, que outrora eréis estranhos e inimigos no entendimento pela vossas obras malignas, agora, porém, vos reconciliou no corpo da sua carne mediante a sua  morte, para apresentar-vos perante Ele, santos inculpáveis, e irrepreensíveis”. O aspecto desta reconciliação que a cruz provê é tão sem limites quanto o reino que inclui tanto os céus quanto a terra.  
O termo reconciliação não é o equivalente a restauração ou salvação. Seu significado exato é “mudar totalmente” e o seu resultado se evidencia no fato da estimativa divina de todas as coisas terem mudado completamente na cruz. Em II Coríntios  5.19 quando nos diz que Deus reconciliou o mundo consigo, não esta declarando que todos os homens são salvos, ou que todos serão salvos. E com um significado, a reconciliação de “todas as coisas”, conforme Colossenses 1.20 não da a entender que todas as coisas no céu e na terra estão agora perfeitos diante de Deus, ou que necessariamente o serão. A reconciliação que foi operada na cruz fornece um fundamento para a redenção daqueles que foram  escolhidos por Deus e um fundamento para o julgamento daqueles que rejeitam Sua provisão.
As Escrituras não dão a menor indicação de que os homens caídos que continuam  impenitentes, ou que os anjos caídos, serão salvos do seu destino (Mt.25.41; Ap.20.12-15).  Cristo estendeu o seu benefício a todas as coisas, nos céus e na terra. Satanás e os seus exércitos foram julgados. Os anjos caídos e seus atos malignos vieram à tona para o julgamento divino e foram julgados embora a execução deste julgamento esteja ainda no  futuro.
A segunda passagem de Colossenses é extraordinariamente explícita, embora nem tudo o que ela anuncia  possa ser entendida pelos habitantes dessa esfera. Ela diz: “Tendo cancelado o escrito da dívida que era contra nós e que constava de ordenanças, o qual nos era prejudicial, removeu-o inteiramente, encravando-o na cruz; e, despojando os principados e as potestades, publicamente os expôs ao desprezo triunfando deles na cruz” (2.14-15). Aqui, como antes, o valor da cruz se vê estendido aos dois reinos, ao humano (v.14) e ao angélico (v.15). Dentro do reino angélico, realizações estupendas foram indicadas pela revelação de Cristo, com sua morte despojou principados e potestades, publicamente os expondo ao desprezo, triunfando deles na cruz. A imaginação humana poderia conceber tudo isto sendo realizado em um julgamento final, mas esta realidade mediante a cruz de Cristo é uma realidade presente. Satanás já foi julgado (Jo.12.31;16-11).  Hebreus 12.14 declara o seguinte: “Visto, pois, que os filhos têm participação comum de carne e sangue, destes também ele, igualmente, participou, para que, por sua morte, destruísse aquele que tem o poder da morte, a saber, o diabo”. Assim, por meio da Escritura podemos chegar à conclusão que Satanás e os seus exércitos foram julgados, despojados, desmascarados, vencidos, sentenciados e expulsos por Cristo na Sua morte.
A execução do julgamento feito contra Satanás por Cristo no Calvário foi antecipado nas Escrituras em três estágios sucessivos. Estes deverão ser considerados totalmente à parte dos três julgamentos já passados, a saber: 1. a degradação moral e correspondente perda de posição devido à queda,  2. a sentença pronunciada contra ele no Jardim do Éden, e, 3. o julgamento da cruz. A futura execução do julgamento de Satanás pode ser assim exposta:
1.  Satanás é expulso dos céus. – A expulsão de Satanás dos céus junto com seus anjos para a restrita esfera terrestre, encontra-se descrita em Apocalipse 12.7-12. Além da revelação da verdade central que Satanás e seus anjos são expulsos do céu, esta passagem revela muitas outras verdades vitais. Os meios que serão empregados para expulsar Satanás e os seus anjos não serão outros além da autoridade e do poder dos santos anjos sobre a liderança de Miguel. Os anjos caídos, estando vencidos, serão exilados de suas esferas naturais e confinados à terra.
Um canto de regozijo sobe aos céus por causa do alívio que a ausência destes anjos caídos provoca. Tudo isto é muito sugestivo. Da mesma maneira um lamento é dirigido à terra em vista das calamidades que a presença deles impõe aos seus moradores. Em conexão com este exílio a grande ira de Satanás  é excitada, é aparentemente aí que ele toma consciência de que a causa que abraçou desde o princípio está perdida para sempre. A presença de Satanás e suas hostes restringindo à terra, cheios de imensurável ira, dificilmente poderia ser um motivo de alegria para a terra. Esta situação é um dos fatores que contribui  para a grande tribulação que foi predita para aqueles dias (Mt.24.21; Dn.12.1).
A expulsão das hostes satânicas dos céus significam muito, também, para os “irmãos” que Satanás não tem cessado de acusar dia e noite, diante de Deus. O que é que constitui a oposição de Satanás  ao relacionamento de Deus com os homens? Talvez exista um não pequeno  ressentimento por causa da redenção que não foi estendida aos anjos como ela é estendida aos homens. Talvez Satanás ainda exerça parte de sua responsabilidade original, como defensor e promotor da justiça sobre a qual o trono de Deus deve permanecer para sempre. O plano redentor propõe-se a apresentar os pecadores justificados diante de Deus mediante o mérito que Cristo providenciou pelos perdidos na Sua morte. É fácil de se aceitar que a constituição de pecadores justificados mediante a obra salvadora de Cristo seja um ponto de oposição satânica contra Deus. Não há nada escrito no evangelho a qual Satanás possa se opor para frustar os planos do Criador, mas, persiste “cegando o entendimento” dos que estão perdidos (II Co.4.3-4).
Aquele que se especializa em justiça auto-promovida sempre foi o que menos compreendeu a doutrina da justiça imputada e sempre foi seu maior opositor. Certamente não podemos estranhar se o próprio Satanás se opõe como aqueles que entre os homens são influenciados por ele, contra o fruto permanente da graça redentora. As acusações que Satanás lança contra os irmãos sem dúvida são acusações contra o pecado real e a injustiça da parte deles. Imaginemos que ele não poderia acusá-los com o que fosse totalmente inverídico. Tal atitude cairia por terra com o seu próprio peso. Antes, Satanás sentiu-se ofendido pelo arranjo através do qual os santos são preservados apesar de sua indignidade, como também pela imputação da justiça a pecadores sem merecimento antes de mais nada. Aqueles que são remidos não  são mais condenados, por mais que Satanás nos acuse  seus argumentos jamais poderão nos atingir (Nm.23.1-17).
  2. O julgamento de Satanás no segundo advento de Cristo. – A segunda  vinda de  Cristo porá um fim na grande tribulação (Mt. 24.30) e acabará com o reino do homem do pecado (II Ts.2.8-7), Satanás será amarrado com uma grande cadeia e lançado no abismo  (Ap.20.1-3). Satanás, o enganador do mundo inteiro estará preso e a terra ficará livre dele por um período de “mil anos”. Sua furiosa presença na terra durante um período precedente contribuiu muito para a agonia da tribulação. Assim, seu afastamento  de toda a atividade contribuirá muito para a paz e a justiça na terra durante mil anos.
Mais adiante neste contexto temos a revelação de que Satanás será solto no final dos mil anos por “pouco tempo” (Ap.20.7-9). As nações, serão enganadas novamente e as suas mentiras as lançarão novamente, e pela última vez, em uma guerra. Em Isaías 2.1-4 foi predito  que a guerra cessará durante o reino da paz, mas, será imediatamente retomada quando Satanás for solto do abismo.
Uma predição correspondente em Isaías 24.21-23 acrescenta muito à revelação de que Satanás estará no abismo. Se, como parece justificado, “as hostes celestes, e os reis da terra, na terra” é uma referência aos anjos caídos e seus principados e poderes, está claro que os anjos caídos serão colocados juntos com seu chefe, no abismo. Podemos deduzir com isto que os anjos caídos acompanharão Satanás no final de sua carreira. É preciso notar que alguns deles já se encontram em cadeias aguardando o julgamento final que virá a todos os espíritos  do mal (Jd.1.6;III Pe.2.4).
3. O julgamento final de Satanás. – A escritura descreve o último passo na execução do julgamento de Satanás. Ele e suas hostes “serão lançados para dentro do lago de fogo e enxofre” (Ap. 20.10). A raiz do mal e seus anjos sofrerão o castigo final e eterno.


Os anjos e a humanidade restaurada haverão de formar uma unidade. Os anjos são retratados por Cristo como um modelo do cumprimento exultante da vontade de Deus (Mt. 6.10). Essa doutrina encarece a dignidade de Cristo, o qual é o cabeça dos anjos; e igualmente encarece a glória e a majestade da igreja, que os inclui (Ef. 1.10; Fp. 2.10; Cl. 1.16-20). Em meios aos conflitos dessa época presente, essa doutrina constitui uma garantia para a consciência cristã de que a Igreja Triunfante não é um ideal vazio.
Os seres morais livres no passado remoto se confrontaram com duas possibilidades: o bem e o mal.. Estas duas possibilidades  chegaram ao seu clímax em três exemplos importantes: a queda dos anjos; a queda do homem e a morte expiatória de Cristo. Destes, o primeiro,  está intimamente relacionado como o segundo e o terceiro; mas, a relação entre o primeiro e o terceiro é remota.
O mal começou com o erro de um anjo. Esse anjo foi seguido por uma multidão de outros anjos. O mesmo erro foi cometido pelo primeiro homem e transmitido à sua raça na forma de uma natureza corrompida.
Retrocedendo  nesta seqüência histórica, é possível reconhecer que a raça ficou prejudicada pelo pecado do primeiro homem; que os nossos pais foram tentados pelo anjo que foi o primeiro a pecar no céu e que uma multidão de anjos pecaram sob a influência deste mesmo pecador original.
Assim, surgiram problemas insuperáveis. É difícil avançarmos  e encontrarmos  um motivo pela qual um anjo iluminado, perfeito e não sofrendo o assédio de um tentador, que permanecia na presença imediata de Deus e que devia compreender a diferença entre a luz moral e as trevas morais, preferiu seguir este triste caminho. Como pode ser explicado o nascimento do mal moral no ventre do bem moral?
O aspecto metafísico da origem do mal é um problema ainda sem solução, com referência e ele, apenas certos aspectos podem ser captados por nossa mente finita. No caso da queda do homem , é imperativo, à luz da revelação de Deus, reconhecer certas verdades imutáveis quando nos aproximamos do assunto desconcertante acerca da queda dos anjos. São estas: que Deus é santo e não pode ser de maneira nenhuma, direta ou indiretamente o instigador do pecado angélico; embora os anjos fossem criados para cumprir um propósito divino, sua queda foi prevista desde a eternidade; eles receberam a autonomia de anjos, que lhes concedia a liberdade de permanecer ou se afastar do estado de santidade no qual foram empossados pela criação; os anjos que caíram, diferentemente dos homens que pelo nascimento físico herdam a natureza corrompida. Os anjos estavam diretamente relacionados com Deus em santidade angélica original, posição essa da qual cada um caiu individualmente como o primeiro anjo; e embora a queda do homem abrisse o caminho para a graça de Deus ser demonstrada na redenção, não há nenhum bem compensador de qualquer grau na conexão com o fato dos anjos terem pecado.
Os anjos foram criados com a responsabilidade da autodeterminação. Este foi o ideal divino representado por eles na criação. A possibilidade do mal não estava neles de maneira nenhuma como uma necessidade. Afirmar que Deus poderia ter evitado a sua queda uma vez que tinha poder para fazê-lo, é dispor a vontade divina no governo contra a vontade divina na criação; contra a vontade divina representada na constituição dos anjos.
  Embora os anjos quando criados despertassem  para a consciência em um estado de santidade e sem tentação alguma por solicitação externa, não obstante, receberam a incumbência de querer e fazer aquilo que faz parte da santidade. Diferente do caso do homem, parece que os anjos passaram por um período de prova. O amor de Deus era o de Criador por sua criatura; mas eles tinham aquela liberdade de ação que é natural à responsabilidade angélica.
Essa liberdade foi concedida ao primeiro homem, mas com exceção importante: já havia em existência um reino do mal com suas solicitações externas e fervorosas para o mal. Os anjos não foram desafiados por tal influência externa quando começaram a sua existência consciente. A multidão de anjos que pecaram sob a influência  do primeiro anjo pecador fica imediatamente eliminada do problema.
Eles caíram, cada um individualmente, mas por força das influências que surgiram depois que experimentaram seu estado de santidade. A confirmação do bem foi para os anjos, antes da queda e que contemplavam e desfrutavam a presença do Senhor, uma conseqüência bem mais provável do que para o homem caído, que jamais viu a Deus nem experimentou um momento de santidade perfeita. Agostinho declarou: "que ninguém duvide que os santos anjos na sua habitação celeste estão seguros e certos da felicidade eterna e verdadeira, embora não sejam realmente co-eternos com Deus".[49]
Os anjos foram influenciados na direção da santidade. Esta constante comunhão com Deus que foi concedida aos santos anjos e originalmente estendida a todos os anjos, é sem medida em sua potencialidade. A única lei da existência angélica era a vontade do Criador. Essa lei atendia a cada necessidade da experiência e felicidade angélica. Determinava cada detalhe do seu relacionamento com Deus e de uns com os outros. Afastar-se dessa vontade era assumir uma atitude falsa para com todas as coisas. Até que ponto este afastamento mudou o amor em ódio e amargura?
Quanto ao problema do primeiro pecado cometido pelo primeiro anjo, seria bom notar que, sob as condições existentes, qualquer caminho pelo qual o pecado avança, ele era inexistente. Agressividade contra Deus era a única direção na qual tal ser poderia pecar.
A natureza do primeiro pecado continua sendo um mistério, como este princípio do mal encontrou acolhida em tal ser? Continuar com Deus como a sabedoria infinita fazia parte da sanidade angélica. Afastar-se do bem foi insanidade angélica, mas um tipo de insanidade responsável. O pecado não tem lugar na constituição e no status do anjo que não caiu. Sua presença é ilegalidade e ausência de razão.
Tanto a filosofia como a teologia têm examinado o problema do primeiro pecado e oferecem suas soluções. Sejam quais forem os vestígios de verdade que possam sugerir, nenhum é suficiente. O pecado, sendo uma contradição da razão é uma coisa irracional em si mesma, não está sujeito a razão. É bem possível que uma criatura irracional acostumada à falta de santidade até simpatize com a insanidade que uma outra criatura exibe, mas não é uma explicação que justifique o pecado dos anjos antes da queda.
Tanto os anjos como o seres humanos foram criados para centralizarem-se em Deus. Tornar-se egocentralizada é uma contradição a lei básica da existência da criatura. A falsificação da ordem moral de Deus, quando egocentralizada , torna-se completa. Também é uma violação do plano original relativo ao inter-relacionamento entre os próprios  seres finitos. O pecado não é só contra Deus, mas também contra todos os outros seres criados.
O erro de um anjo antes da queda dá imediatamente lugar a duas importantes perguntas teológicas, a saber: como pôde um Deus santo permitir que uma criatura Sua pecasse? como pôde um anjo, antes da queda, sem a influência do mal, pecar? Ao considerar a questão apresentada pela primeira destas perguntas, poderia se dizer que, embora o assunto seja estranho ao comentário que está sendo desenvolvido, a criação original de Deus foi declarada boa aos Seus santos olhos; que Ele, sendo onisciente e sabendo que certos seres morais cometeriam erros, e findariam por cair, mesmo assim os criou, mas, tanto no caso dos anjos como no caso dos homens, Ele declara o fracasso moral daqueles que falharam e nunca de Si mesmo.
Quanto à segunda pergunta, podemos acrescentar o seguinte ao que já foi dito: o mal moral é um fato definitivo no universo, fato esse que não pode ser explicado nem atenuado. Quando buscamos em sua origem, como foi cometido pelo primeiro anjo antes da queda, descobrimos que o pecado é um mistério, é irracional e excessivamente mau.
O pecado não esta em Deus como também não esta em qualquer parte de Sua criação original, pois foram criados em um estado de perfeição. Deus por sua onisciência já previra tudo o que iria acontecer; mas o pecado não surgiu por sua vontade, e sim pela vontade livre do pecador. Se o pecado tivesse originado-se das mãos de Deus então tudo seria pecado, logo a criação não teria sido perfeita.
 O pecado não é uma fraqueza iminente da criatura, pois nesse caso, todos teriam falhado. O pecado não é uma coisa concomitante com a agência moral livre, pois nesse caso todos os agentes morais deveriam falhar. Sobre este aspecto do pecado Agostinho disse:
Se perguntássemos a causa da miséria dos anjos maus, ocorre-nos, e não sem racionalidade, que eles são miseráveis porque abandonaram a Ele que é supremo e que se voltariam para si mesmos que não têm tal essência. E este vício que outro nome receberia alem do orgulho?... Se ainda perguntássemos qual foi a causa eficiente de sua vontade má, não encontramos nada. Pois o que é que torna a vontade má a ação? E, consequentemente, a vontade má é causa da ação má, mas nada constitui a causa eficiente da vontade má...Quando a vontade abandona aquilo que está acima dela e se volta para o que é inferior, torna-se má, não porque busca o que é mau, mas porque essa busca é má. Portanto não foi uma coisa inferior que tornou a vontade má, mas ela própria tornou-se má porque perversamente desejou uma coisa inferior[50].
O pecado é uma ação da parte da criatura, que pela criação, foi planejada para ser totalmente centralizada em Deus. Um caminho é cheio de angústia e leva à perdição, o outro é de tranqüilidade e leva a vida eterna. Algo destas verdades deveria ter sido  compreendido pelos anjos, por isso o mistério do surgimento do pecado torna-se  ainda maior.
O mal no mundo não é um acidente, ou uma coisa que não tenha sido prevista por Deus, Ele tem um projeto consumado no Calvário. O mal deve seguir o seu curso e fazer a sua demonstração total para que possa ser julgado,  não como uma teoria, mas como uma realidade concreta. O mal deve continuar junto com o bem até que cada um realize o seu fim determinado.
As Escrituras revelam que os anjos estão aprendendo com a observação dos homens na terra, especialmente na obra da redenção. A propósito, isto indica que os anjos não são oniscientes. Contudo, não devemos concluir que os anjos sabem menos que os homens. A declaração de Pedro: “cousas essas que anjos anelam perscrutar” (1.12), revela o seu interesse na humanidade. É significativo que estas “coisas” referem-se ao programa de Deus no primeiro  e segundo advento de Cristo e o evangelho da graça que esta sendo pregado no  mundo.
 A  igreja na terra  é uma  revelação aos anjos  da sabedoria de Deus (Ef. 3.10). Pela revelação de Si mesmo em Cristo e pela instituição da igreja na terra glorifica a Si mesmo diante dos anjos. Eles que até agora cheios de respeito, o louvam pela maravilha da criação e vêem a Sua sabedoria glorificada em uma nova forma de comunhão através do qual homens perdidos são salvos através da redenção de Cristo Jesus.
Não há base para a crença de que a redenção mediante a morte de Cisto se estenda aos anjos caídos (Mt. 25.41; Ap. 20.10). Os anjos eleitos foram beneficiados e passaram a esferas mais elevadas do conhecimento, pois através da igreja podem contemplar a sabedoria de Deus. A existência da igreja e a pregação do evangelho condicionam o crescimento dos anjos em sabedoria espiritual.
A consumação final na segunda vinda afetará não apenas a posição relativa ao conhecimento espiritual dos anjos, mas as Escrituras dão a entender que a consumação final vai igualmente afetar a vida dos anjos.
Indiretamente pelo menos, eles participarão dos benefícios espirituais que a igreja recebe em Cristo, tanto as coisas do céu quanto as da terra serão reunidas em Cristo (Cl 1.15-21). Os anjos vão relacionar-se com Cristo de um modo pelo qual não se relacionam com Ele agora, e que eles só entenderão na plenitude dos tempos. Mas, embora a sua vida e conhecimento cheguem a um status mais elevado de perfeição espiritual através da igreja, na glória final do reino, a posição e o ofício dos anjos ficarão subordinados à autoridade e ao ofício dos santos.
Embora os anjos sejam mencionados em  muitos trechos das  Escrituras, não é fácil formularmos a doutrina bíblica acerca dos anjos.  Uma  das razões porque é difícil esta sistematização é porque a angelologia não se constitui o enfoque primário das Escrituras.
Os contextos angelicais sempre tem Deus, ou Cristo, como seu ponto central. A maioria dos aparecimentos de anjos é fugaz, sem ser provocada ou predita. Tais manifestações confirmam verdades, mas nunca produzem por si mesmas. Quando os anjos são mencionados, é sempre para informar-nos mais a respeito de Deus, o que Ele faz, e como Ele o faz.
 A ênfase primária da Bíblia, portanto, é o Salvador, e não os seus servos; o Deus dos anjos e não os anjos de Deus. O estudo dos anjos é uma parte vital da teologia, tendo valor tangencial e implicações para outros ensinamentos da Escritura. O estudo destes seres magníficos pode encorajar algumas das virtudes cristãs:
1. Humildade. Os anjos são seres  que, apesar de habitarem junto ao trono de Deus, servem continuamente aos cristãos de maneira invisível e, às vezes, imperceptivelmente. São o mais puro exemplo de serviço humilde; buscam somente a glória de Deus e o bem dos fiéis. Eles são uma lição prática de como deve e pode ser o serviço cristão.
2. Confiança, segurança e serenidade. Nos tempos de desespero, os anjos eleitos são exemplo de confiança em Deus. Sua atitude de fidelidade ao Senhor lhes garantem a segurança eterna. Se os anjos sentem esta segurança imagine o que o cristão deve sentir por conta daquilo que Deus fez for ele na cruz.
3. Responsabilidade cristã. Tanto  Deus  quanto  os  anjos  estão  presenciando  as  ações  ímpias  dos  cristãos (I Cor.4.9). Que motivação é para o cristão comportar-se de modo digno!
4. Otimismo sadio. Desafiando o próprio maligno, os anjos eleitos escolheram servir ao santo propósito de Deus. Seu exemplo, pois, torna plausível o serviço dedicado a um Deus perfeito neste universo imperfeito. No futuro os anjos serão os instrumentos do afastamento definitivo de todos os ímpios (Mt.13.41-42;49-50). Este fato encoraja-nos a preservar em meio a todas as situações da vida.
5. Reverente temor. Os anjos mesmo sendo magnífico em poder demonstram um reverente temor ao Senhor, isto deve servir de exemplo para todos nós.
6. A participação na  história da salvação. Deus empregou anjos na história sagrada,  especialmente Miguel e Gabriel, para preparar o caminho para o Messias. Posteriormente, anjos proclamaram e adoraram a Cristo. Compreendê-los devidamente levará o cristão a envolver-se no serviço.
Os anjos estão à disposição de Deus e de Jesus. É marcante a presença dos anjos na vida do Filho de Deus. Antes de nascer, já a concepção de Jesus é anunciada por um anjo a José (Mt.1.20). O nascimento é anunciado por anjos aos pastores em Belém (Lc.2.9-14). Um anjo salva Jesus de Herodes avisando a José para fugir para o Egito (Mt.2.13). Um anjo anuncia a morte de Herodes e manda José com sua família voltar a Israel (Mt.2.19). Na  tentação de Jesus anjos serviram ao Senhor no deserto (Mt.4.11). Um anjo confortou Jesus no Jardim das Oliveiras (Lc.22.43). O evento pascal da ressurreição do Senhor é atestado pelos anjos. Anjos anunciaram as mulheres que chegaram ao túmulo que Jesus ressuscitou (Mc.16.6). No evangelho de João, os anjos se limitaram a perguntar a Maria Madalena a quem ela procurava, sem lhe dar resposta (20.13). Foi um anjo quem rolou a pedra do túmulo para abri-lo  (Mt.28.2). No dia  da ascensão, dois anjos explicaram aos apóstolos o que se passou com Jesus. Ele foi subtraído da vista de seus discípulos e reaparecerá somente na Parusia (At.1.10). Uma promessa  enigmática de  Cristo que parece relacionar-se à visão da escada de Jacó afirma aos discípulos: "Vereis o céu aberto e os anjos de Deus subir e descer sobre o Filho do homem" (Jo.1.51). O sentido desta frase não é propriamente uma promessa de uma visão de anjos, mas sua afirmação simbólica da união misteriosa de Jesus com Deus. É Cristo que une o céu e a terra.
A encarnação do verbo mostra que todo ato salutar de Deus é relativo ao verbo. Por isso a Escritura não se delonga na descrição exterior das aparições angélicas. Mas salienta a mensagem que devem anunciar aos homens, os anjos revelam-se pela sua palavra como mensageiros celestes, como servidores do evangelho de Cristo.
Embora na kenosis Deus tenha encarnado, o Filho, “por breve tempo abaixo dos anjos”, contudo esta mesma frase termina assim: “coroaste-o de glória e de honra e sujeitaste a seus pés todas as coisas” (Hb. 2.7) e desta glória participam todos os “irmãos” de Cristo (Hb. 2.11). Certamente o modo de ser dos anjos é superior ao dos homens e só os ressuscitados e transfigurados “serão como os anjos” (Mt. 22.29). O próprio ser dos anjos transborda o desejo de adorar constantemente o Filho de Deus, por isso são santos. Contudo, o Filho não veio em socorro dos anjos e sim da raça humana caída (Hb. 2.16).
Ainda que o Senhor, tenha conquistado completa vitória contra Satanás, este não abandonou a luta, nem a esperança de sua vitória. Não sabemos quantas vezes o próprio Satanás lutou com Jesus Cristo durante o seu ministério, nem sabemos tudo quanto os anjos fizeram em seu favor.
O estudo desta importante doutrina, poderá portanto levar-nos a conhecer melhor o nosso Salvador e Deus, por nos dar uma compreensão mais exata de seus métodos de ação para com a humanidade; além disso, este estudo serve para lançar luz sobre muitos trechos da Escritura, os quais, doutra maneira, permaneciam obscuros, isto é, se não aceitássemos o que ensinavam as Escrituras acerca da existência de multidões de seres espirituais.
Serve-nos de consolo e de explicação sobre um dos métodos através dos quais Deus opera no mundo; por conseguinte,  recusar ou até mesmo ignorar essa verdade revelada na Escritura e dispensar o consolo e o conhecimento que Deus está no controle de todas as situações. Isso não quer dizer que devamos procurar ver os anjos a cada passo, este não é o propósito deles nem a vontade do Senhor. Ninguém será salvo só por acreditar que anjos existem, nem ficará perdido só por descrer na sua existência, Jesus foi quem morreu na cruz para remir-nos de nossos pecados, tendo tomado sobre si mesmo o castigo merecido pelos nossos pecados e tendo experimentado a morte que nós merecíamos. Uma coisa é certa, tudo quanto é de Cristo, pertence agora aos eleitos e até mesmo os recursos celestiais como  os anjos; tudo quanto é de Cristo é para os remidos. Por isso, a glória do Senhor Jesus Cristo consiste também em que os seus se interessem pela sua herança. Sobre parte desta herança, o Dr. Donald D. Turner conta-nos uma parábola:
Uma jovem pobre trabalha muito para sustentar sua infeliz mãe que tem outros filhos órfãos de pai. A jovem tem várias dívidas porque o seu pequeno salário não é suficiente para cobrir as muitas despesas  indispensáveis à família, e porque ninguém quer dar-lhe mais crédito além do que tem. Não possui amigos que a ajudem e que lhe emprestem um centavo sequer. Porém, passa pelo  escritório, onde trabalha um homem famoso e riquíssimo; enamora-se dela e se casam. No dia seguinte ao do matrimônio a esposa sai à rua e os comerciantes procuram vender-lhe tudo quanto é possível sem ao menos pedir-lhes o menor depósito. Fiando-lhe sem limites tudo quanto ela desejar. Todos a saúdam; os melhores lugares lhe são abertos. Por que? Porque agora o seu esposo e todos os seus recursos e créditos lhe pertencem também: os amigos e  servos dele agora já são amigos e servos dela, de modo que devido à sua união com o esposo ela encontra sua posição ao lado dele.[51]
Jesus Cristo tomou os nossos pecados e nos outorgou a sua justiça, seus servos imediatamente começam a ministrar-nos. Os anjos são representados por Cristo como um modelo do cumprimento exultante da vontade de Deus (Mt.6.10). Essa doutrina também encarece a dignidade de Cristo, o qual é cabeça dos anjos; e igualmente encarece a glória e a majestade da igreja, que os inclui (Ef.1.10; Fp.2.10; Cl.1.16-20). Finalmente, em meio aos conflitos desta época presente, essa doutrina constitui uma garantia para a consciência cristã de que a Igreja Triunfante não é um ideal vazio, mas antes, é uma realidade presente, e que os cristãos já possuem os direitos de sua cidadania celestial (Hb.12.22; Ef.1.21,23).
Os anjos intervém na vida da igreja em função de algum evento especial. Um anjo fez Felipe viajar com um intendente etíope para que ele o instruísse   e o batizasse (At.8.26-31). Por isso a epístola ao Hebreus (1.14) chama os anjos de espíritos encarregados de um ministério, enviados a serviço para aqueles que devem herdar a salvação.
Os anjos estão também presentes no serviço divino da comunidade cristã. O culto da comunidade celebra-se em sintonia com o louvor dos anjos e com sua alegria escatológica. Conforme Ap.5.8 e 8.3, os anjos levam a Deus as orações dos cristãos. A igreja terrena, com seu culto está sempre a caminho para a Jerusalém celeste, continuamente se aproxima das "miríades de anjos, da assembléia festiva dos primeiros inscritos no céu ..." (Hb.12.22). a liturgia celeste conforme Apocalipse é um modelo que a liturgia terrestre procura imitar. A exultação é resultante da penetração refulgente da presença de Deus em Cristo, é canto de Sua salvação, é característica tanto da comunidade primitiva (At.2.46),  como da comunidade celeste (Ap.11.7).
Visto que os anjos se ocupam em ministrar em favor dos cristãos, um anjo dirigiu-se ao autor de Apocalipse e apresentou-se como conservo (Syndoulos) seu e de todos os que crêem em Cristo (Ap.19.10; 22.9). Para os anjos é uma alegria contemplar a salvação dada por Deus aos homens (I Pd.1.12; Ef.3.10).
Os anjos se alegram com a perseverança dos  justos e a conversão dos pecadores (Lc.15.7,10). Mateus relata uma palavra de Jesus dizendo que os "pequeninos" tem "seus anjos" no céu, onde contemplam "todo tempo a face de Deus" (18.10). "Pequenos" (Mikrwn) designa talvez nesse contexto não as crianças, mas os  homens "simples", os "fracos", os "desprezados" e os "pobres".
Um episódio dos Atos dos apóstolos mostra como se representavam então a união entre um homem e seu anjo: Pedro libertado miraculosamente da prisão dirige-se à casa onde esta reunida a comunidade. As pessoas presentes na casa pensam que não é Pedro que esta batendo a porta, mas seu anjo (At.12.15).
Em I Cor.l1.10,  Paulo pede que as mulheres, quando estiverem reunidas na comunidade, que cubram a cabeça "por causa dos anjos". Paulo considera os anjos  como guardiães da ordem entre os homens e não toleram que ela seja desrespeitada.
O serviço dos anjos a Cristo torna-se serviço aos homens que anunciam a Cristo, está por conseguinte ordenado e subordinado o serviço dos anjos a igreja e a sua proclamação.

CONCLUSÃO

A busca por anjos não é novidade, a história comprova que ela sempre existiu. Provar a existência dos anjos é algo que foge ao alcance da humanidade. A Escritura Sagrada é quem nos ajuda nesta busca, porém, é lógico que a mesma não trata a angelologia na mesma intensidade como trata a cristologia. Não é este o seu propósito. Mas, a escritura fornece informações sobre os anjos, e pode responder às questões levantadas sobre os anjos pela sociedade. Esta doutrina atesta a existência de um mundo espiritual; Fortalece a nossa fé quanto a providência divina; Ensina-nos humildade.
Ao estudarmos este assunto temos a possibilidade de conhecermos melhor nosso inimigo, sabermos também os recursos que estão a nossa disposição e que Deus fortalece o Seu povo e os livra das tribulações.
Estas questões são uma alerta para a igreja, seu povo deve receber um devido preparo para saber discernir as distorções que surgem. Não podemos vencer estas distorções fugindo delas, a igreja tem de estar ciente da grande responsabilidade que tem em suas mãos para mostrar o real valor dos anjos e sua função entre nós.
Infelizmente a igreja não tem valorizado a angelologia, pois é muito raro ouvirmos um sermão sobre o assunto, e os livros a respeito são poucos. Tudo isso dificulta a pesquisa. No entanto esperamos que este trabalho venha a servir de alerta para a igreja, e a contribuir para futuras considerações.      

1.     Forneças detalhes sobre o assunto anjo em nossos dias. P4
2.     Como a igreja vinha tratando a questão dos anjos? P4
3.     Fale sobre o conceito popular dos anjos. P8
4.     Faça um comentário com citação de fatos segundo o que está exposto no capítulo sobre a angelologia na mesopotâmia. P10
5.     Explique a angelologia no judaísmo. P18
6.     Qual é o pensamento dos gnosticos sobre os anjos? P23
7.     Qual é o conceito de angelologia na modenidade? P25
8.     Comente a existência dos anjos citando versos bíblicos. P27
9.     Detalhe a definição de anjo. P29
10.  Descreva a origem dos anjos. P30
11.  Analise e descreva a personalidade dos anjos. P31
12.  Determine comentando o poder dos anjos. P32
13.  Estabeleça a hierarquia dos anjos; p34
14.  Comente sobre o anjo do Senhor. P36
15.  que são anjos governadores? P37
16.  Qual é a função dos serafins? P39
17.  Faça um comentário do estado natural de satanás. P42
18.  Explique o trabalho de satanás contra os santos no antigo e novo testamento. P47
19.  Qual é a importância do estudo dos anjos para a igreja? P50
20.  Estabeleça o relacionamento entre Cristo e os Anjos e a Igreja e os Anjos. P54/56







[1] GIUDICI, Maria Pia. Os Anjos existem! p. 18
[2] BETTERSON, Henry. Documentos da Igreja Cristã. p. 55
[3] Conheça a Verdade. Estudando as Doutrinas da Bíblia. p. 81
[4] NASCIMENTO, Adão C. Anjos Hoje. Ultimato. Maio. 1996. p. 28
[5] A Comunicação com os Anjos e os Devas. p. 21
* Conferir Anexo 1
[6] MARTINS, Valter G. Confissão de Fé e Catecismo. p. 175
[7] NASCIMENTO, Adão C. Anjos Hoje. Ultimato. Maio. 1996. p. 29
[8] CHAFER, Lewis S. Teologia Sistemática. p. 143
[9] Ibid., p. 335
[10] TERRA. João M. Anjos na Bíblia.  p. 8
[11] SOUSA, Osvaldo R. História Geral. p. 11
[12] TERRA, João M. Anjos na Bíblia. p. 9
[13] Dicionário Internacional de Teologia do A. T. p. 897
[14]  História Antiga e Medieval. pg. 59
[15] TERRA, João M. A Angelologia de Karl  Rahner. p. 379
[16] TERRA, João M. A Angelologia de Karl  Rahner. p. 380
[17] Dicionário Mítico-Etimológico da Mitologia Grega. p. 278
[18] GIUDICI, Maria  Pia.  Os anjos existem ! p. 16
[19] Ibid., p. 16
[20] TERRA, João M. A Angelologia de Karl  Rahner. p. 381
[21] Ibid., p. 381
[22] A Doutrina dos Anjos e do Homem. p. 11
[23] PIAZZA, Waldomiro O. Religiões da Humanidade. p. 166
[24] NASCIMENTO, Adão C. Anjos Hoje. Ultimato. Maio. 1996.  p. 29
[25] HORTON, Stanley. Teologia Sistemática. p. 192-93
[26] GIUDICI, Maria Pia. Os Anjos Existem! p . 121
[27] Ibid., p.117
[28] CALVINO, João. As Institutas da Religião Cristã. Vol. 1 p. 187
[29] HORTON, Stanley. Teologia Sistemática. p. 194
[30] BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. p. 142-43
[31] HORTON, Stanley. Teologia Sistemática. p. 194
[32] Ibid., p. 194
[33] TERRA, João M. Anjos na Bíblia. p. 71
[34] HORTON, Stanley . Teologia Sistemática. p. 194
[35] TERRA João M. A Angelologia de Karl  Rahner. p. 385
[36] CHAFER, Lewis S. Teologia Sistemática.  p. 342
[37] Ibid., p. 340
[38] Angelologia, a doutrina dos anjos.  p. 30
[39] CHAFER, Lewis S. Teologia Sistemática.  p. 343
[40] Ibid., p. 344
[41] Ibid., p. 344
[42] Teologia Sistemática.  p. 350
[43] Angelologia, a doutrina dos anjos.  p.  27
[44] Bíblia com as Referências e Anotações de Scofield. p.  796
[45] TERRA, João M.  Anjos na Bíblia. p.  30
[46] CHAFER, Lewis S. Teologia Sistemática. p. 359
[47] Ibid., p. 364
[48] Ibid., p. 366
[49] CIDADE DE DEUS, Livro XI,  pg. 33.
[50] CIDADE DE DEUS, Livro XII.  pg. 6
[51] A Doutrina dos Anjos e do Homem. p. 51

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