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domingo, 8 de setembro de 2013

Epístolas Gerais II




A Epístola aos Hebreus não é igual a nenhum outro livro do Novo Testamento. Ela começa como um tratado, continua como um sermão e conclui como uma carta (A.T. Robertson, Word Pictures in lhe New Testament — Estudos de Palavras no Novo Testamento — V, p. 328).
Ela conclui como uma carta, mas não começa como tal, pois não tem a saudação costumeira e não dá nem o nome do escritor nem o nome da comunidade à qual foi enviada. Contudo, por toda parte, o livro está claramente escrito para um grupo particular de leitores. Está escrito no melhor grego literário encontrado no Novo Testamento. O vocabulário é copioso e o estilo mostra traços de esforço e cuidado. A linguagem, ordem, ritmo, sintaxe, todos contribuem para o efeito total. O autor jamais é impetuoso; ele não é levado a se desviar por seus pensamentos. A beleza da carta pode mais facilmente ser apreciada que os detalhes do argumento, que demandam uma familiaridade não somente com o Velho Testamento, mas também certos tipos de interpretação do Velho Testa­mento vigentes no primeiro século.
E, contudo, o leitor moderno sente que o autor de Hebreus o está-se dirigindo aos problemas com que o cristão se confronta hoje. Os primeiros leitores foram confrontados com fatos angustiantes. Como novos cristãos, eles estavam sendo perseguidos por seus compatriotas, e as consolações do ritual religioso de seus pais estavam-lhes sendo negadas, ao ponto de serem completamente destruídas. Nuvens de guerra estavam em volta de Jerusalém, e qualquer pessoa dotada de percepção pode ria ver que a Cidade Santa e o Templo logo iriam desaparecer. A medida que a brecha entre os cristãos judeus e os judeus não-cristãos se alargava, a compreen­são judaico-cristã do vulto vetero testamentário e do Cristo teve que sofrer algumas alterações sérias. Toda a vida do crente judeu estava sendo afetada.

O leitor moderno também vive numa época de sublevação social, religiosa e cultural. As dificuldades pressionam de todos os lados, à medida que o cristão encara problemas desconcertantes, de proporções gigantescas. Onde está o Cristo em tudo isto? Este livro fala ao cristão de hoje, bem como ao cristão daqueles dias, urgindo-o a encontrar a solução para o problema básico, numa visão mais plena da pessoa e da obra de Jesus, o Cristo. O escritor diz que a religião, ou a verdadeira adoração, não é presa a coisas externas; ela é derivada de uma fé na supremacia de Cristo em todas as coisas: a palavra perfeita de Deus ao homem e o representante perfeito do homem perante Deus. Este livro lembra ao crente que não é parte de sua chamada ser complacente, procurar uma facilitação das dificuldades, voltando às antigas formas de vida, ou mesmo ser desencorajado pela natureza complexa dos assuntos mundiais, conforme eles o afetam pessoalmente. O crente deve pôr-se, em primeiro lugar, continuamente no propósito de Deus, ao longo do caminho já marcado por Jesus Cristo, o autor e aperfeiçoador da fé do crente (12:2).

Há alguns problemas críticos em Hebreus, contudo, para os quais não há soluções fáceis. Faltando uma saudação, dois problemas estão imedia­tamente evidentes: Quem escreveu este livro e a quem foi dirigido? Problemas concomitantes são os do propósito, ocasião, data e local. Há muita discussão sobre~cada um desses pontos pelos eruditos bíblicos modernos, com muito pouco acordo sobre qualquer um. Mas, para que este livro possa falar à nossa própria situação, é necessário determinar-se algo do cenário original em que a epístola foi produzida e o que ela significou para seus primeiros leitores.


A Epístola aos Hebreus é anônima da mesma maneira como o são os Evangelhos e Atos: o autor não se identifica pelo nome. Assim como acontece nos outros livros do Novo Testamento, o título não é parte do livro em si. Este título, “Aos Hebreus”, foi adotado para distinguir este livro de outros na coleção de escritos da igreja primitiva. Para se identificar o autor, as duas áreas de investigação crítica são usadas: a evidência da igreja primitiva e a evidência que se pode captar da própria carta.

O problema da autoria é imediatamente trazido a lume quando o testemunho dos escritores patrísticos é examinado. No chamado Texto Ocidental do Novo Testamento, a Epístola aos Hebreus não é encontrada até a metade do quarto século. Houve resistência à sua aceitação, pela igreja ocidental (as igrejas localizadas na parte ocidental do Império Romano), até a última parte do quarto século. As duas listas do segundo século, que apresentam a igreja ocidental, o Cânon de Marcião e o Fragmento Muratoriano não contêm Hebreus. A ausência, na lista de Marcião, pode ser explicada com base na doutrina gnóstica; a ausência na lista muratoriana não é facilmente explicada. Esta lista mostra o que a igreja em Roma, que representava a igreja ocidental, aceitava como autorizado; em nenhuma parte Hebreus é mencionada. Contudo, ela era conhecida e altamente considerada por Clemente de Roma (1 Clemente 36:1-5) e Hermas (O Pastor de Hermas, Visão ii. 3.2), ambos con­temporâneos da última década do primeiro século. Contudo, nenhum dos dois deu um nome ao autor nem um título ao livro. Quando a carta foi finalmente incluída na lista das cartas de Paulo, no quarto século, foi colocada em último lugar, para mostrar a dúvida acerca de sua autoria como paulina. Hipólito de Roma, Irineu e Tertuliano, todos das igreja ocidental, não aceitaram a carta como sendo de Paulo. Embora conheces­sem e fizessem uso da epístola, eles rejeitaram a autoria paulina. Tertulia­no, para justificar seu uso desta carta não-paulina, disse que Barnabé foi o autor.
Nas igrejas da parte oriental do Império Romano, Clemente de Alexandria escreveu que seu predecessor, Panteno, disse que Paulo escreveu anonimamente aos hebreus. O próprio Clemente disse que Paulo escreveu esta carta em hebraico e Lucas a traduziu para o grego. A igreja em Alexandria aceitou a autoria paulina e colocou esta carta entre as cartas de Paulo. O mais antigo manuscrito grego existente das cartas de Paulo, $6, traz Hebreus entre Romanos e 1 Coríntios. Dois outros manuscritos gregos muito importantes, baseados no texto alexan­drino, o Vaticanus e o Sinaiticus (ambos do quarto século), colocam Hebreus após as cartas às igrejas (após II Tessalonicenses) e antes das cartas a indivíduos (antes das Pastorais). Origenes, sucessor de Clemente em Alexandria, disse que os pensamentos são de Paulo, mas a obra em si é de alguma outra pessoa. No sentido mais estrito, ele escreveu, Paulo não foi o autor; contudo, num sentido verdadeiro, ela pode ser considerada como paulina, porque incorpora o pensamento do apóstolo. Orígenes ainda indica que alguns dos escritores patrísticos mais antigos diziam que Lucas ou Clemente de Roma foi o autor. Embora aceitasse a carta como canônica, Orígenes mesmo não aceitou a autoria paulina no sentido mais estrito e dizia que somente Deus sabe com certeza quem escreveu a carta. Eusébio de Cesárea (H.E. vi. 20.3) afirma que, mesmo em seus dias (c.325), ainda havia alguns entre os romanos que não aceitavam a autoria paulina, embora ele mesmo incluísse Hebreus na lista de cartas aceitas como sendo de Paulo.
Só ao tempo de Jerônimo e Agostinho é que a igreja ocidental passou a aceitar a carta como sendo de Paulo. Esta aceitação, contudo, foi mais por acomodação que por acordo. Ambas as igrejas, a ocidental e a oriental, reconheciam o valor da carta e ambas estavam conscientes dos problemas da autoria. A igreja ocidental primitiva não quis aceitar a carta como sendo de Paulo; a igreja oriental, cônscia do problema, disse que a carta fora escrita originalmente por Paulo em hebraico e depois traduzida para o grego. Alguns, na igreja oriental, atribuíram a carta a companheiros de Paulo. Numa tentativa de dar à carta suficiente autoridade apostólica para ser incluída no cânon, a igreja ocidental finalmente concordou em colocá-la no final do corpus paulino. Jerônimo escreveu que “não importa de quem é, uma vez que ela é a obra de um eclesiástico e honrada diariamente ao ser lida nas igrejas” (citado em F.F. Bruce, The Epistle to the Hehreus (A Epistola aos Hebreus)
Depois de Agostinho, a carta foi aceita como canônica, com dúvidas acerca da autoria, sendo observada de tempos em tempos. Só à época da Reforma é que o problema da autoria foi outra vez estudado aberta e detalhadamente. Erasmo recusou-se a aceitar Paulo como o autor, mas não questionou a autoria da carta. Sem hesitação, Lutero negou a autoria paulina e disse que foi mais provavelmente escrita por Apolo. João Calvino rejeitou Paulo como autor e sugeriu ou Lucas ou Clemente de Roma. Desde a época da Reforma, muitas proposições foram formuladas, mas não há nenhum consenso entre os estudiosos. O sentimento geral é que Orígenes estava certo, ao dizer que só Deus sabe com certeza quem escreveu esta brilhante carta.
O texto da epístola em si produz muito pouca evidência, com o autor não se identificando pelo nome. Contudo, não existe a mínima indicação de que ele era desconhecido dos leitores nem que desejasse ocultar sua identidade; ele estava bem familiarizado com aqueles a quem escreveu (6:9,10; 10:34; 13:7,19). Ele escreve de Timóteo como um amigo tanto dele quanto de seus leitores (13:23). Contudo, ele se coloca entre aqueles que receberam o evangelho de outros, que haviam sido testemunhas oculares do ministério de Jesus (2:3). Esta é a evidência direta da carta.

Esta ligeira evidência interna apóia a relutância da igreja ocidental primitiva em aceitar a carta como paulina. Ë extremamente duvidoso que Paulo pudesse ter falado de si mesmo como tendo sido firmado no evangelho por aqueles que haviam ouvido o Senhor (2:3). Os fatos da vida terrena de Jesus realmente chegaram a Paulo provenientes daqueles que foram testemunhas oculares; mas ele insistiu que seu próprio evangelho veio diretamente de Cristo (Gál. 1:12). A anonimicidade simplesmente não se conforma à maneira em qu2 Paulo escrevia cartas; ele sempre se identificou pelo nome. Nesta carta, em nenhum lugar o escritor lança a afirmação da autoridade apostólica, para amparar sua própria autorida­de. Na realidade, este escritor se coloca fora do grupo apostólico.
A maneira pela qual o argumento da carta é desenvolvido é outro ponto contra a autoria paulina. O estilo é completamente diferente do de Paulo. A diferença no estilo não pode ser explicada adequadamente pelas diferenças no assunto ou pelos primeiros leitores. Ela aprofunda-se mais que isso. Orígenes observou isto há muito tempo atrás, como o fizeram seus predecessores. Esta carta é do melhor grego encontrado no Novo Testamento. Seria estranho Paulo ter escrito aos gentios (de fala e pensamento grego) num estilo grego inferior, e depois escrever aos judeus num alto estilo literário de grego! Origenes escreveu que falta a Hebreus a rudeza de expressão de Paulo:
Todo aquele que entende como julgar linguagem reconhece que o caráter da escrita da Epístola aos Hebreus não tem a rudeza do idioma do apóstolo, que reconhecia que era inculto no discurso, ou seja, na expressão; mas a epístola grega na composição do discurso (Eusébio, H.E)
Uma das diferenças mais notáveis entre esta carta e Paulo encontra-se na questão da interpretação bíblica e colocação dessa interpretação em formas de pensamento. Paulo foi treinado na escola rabínica de Jerusalém como um aluno de Gamaliel. Esta escola era muito literal em sua interpretação do Velho Testamento, e suas formas de pensamento eram concretas, conforme contrárias à abstração. O escritor desta carta parece ter sido treinado numa escola de pensamento completamente diferente. As formas de pensamento são muito mais especulativas e abstratas. Parece haver uma relação muito estreita com o padrão de Filo. Filo, um contemporâneo de Jesus, era o proeminente erudito da escola judaica em Alexandria. Ele alegorizou completamente o Velho Testamento (Septuaginta), numa tentativa de reconciliar as escrituras judaicas com a filosofia grega. Ele foi absorvido na filosofia platônica do domínio da idéia; a diferença entre o real e sua sombra: tese e antítese. É geral­mente reconhecido que o autor de Hebreus teve um treinamento neste fipo de aproximação ao Velho Testamento. Há uma tendência à ale­goria, embora não tão completa como nas obras de Filo. O uso da tipologia (por exemplo: Melquisedeque) é típico da escola alexandrina. Da mesma forma é a significação dos nomes pessoais, e o escritor fala, em toda parte, acerca de sombra e realidade. Há também o uso reverente da Septuaginta, que era tão importante à interpretação de Filo. Contudo. o escritor de Hebreus não é completamente dado à interpretação filônica. Este autor é muito mais bíblico que filosófico. mais conservador que Filo. As afinidades com a escola de pensamento alexandrina são numerosas. e o efeito geral é de um escritor treinado neste tipo de pensamento. m~s trazido sob a compreensão cristã do Velho Testamento, na quatipologia e a alegoria eram usadas muito frugalmente.

Teologicamente, há diferenças a serem encontradas entre esta epístola e as cartas reconhecidas de Paulo. Nada há em Paulo acerca do sumo sacerdócio de Jesus, e este é o tema central de Hebreus. Os diferentes pontos de vista acerca da lei também devem ser observados: este escritor olha para a lei em seus aspectos rituais, ao passo que Paulo a vê em seu uso ético, por mostrar o que o pecado é. Ambos, todavia, ressaltam seu caráter elementar (Gál. 4:13; Heb. 7:19), e que Cristo é o fim da lei (Rom. 10:4; Heb. 10:4-7). Paulo fala da obra redentora da morte de Cristo, ao passo que a ênfase em Hebreus é sobre a obra de santificação (purificação e aperfeiçoamento) no crente. Num livro do tamanho do tamanho de Hebreus, as referências a Jesus Cristo não se encaixam no padrão normal de Paulo. O termo favorito de Paulo, “Jesus Cristo”, está completamente omitido, e a freqüência de outros termos de Jesus é proporcionalmente menor. Alguns dos termos usados em Hebreus para Jesus (Sumo Sacerdote, Autor e Consumador da Fé, Precursor, Autor da Salvação, etc.) estão inteiramente ausentes nos escritos de Paulo. Além destes itens, há mais acerca da vida terrena de Cristo em Hebreus do que em todas as cartas de Paulo como um todo.
Ainda se observa que o uso do Velho Testamento não é como o uso normal de Paulo. A Septuaginta é regularmente citada na Epístola aos Hebreus, ao passo que em Paulo o Velho Testamento hebraico é normalmente citado. A fórmula introdutória às citações não é tão definida nesta carta como nas de Paulo. Também há uma definida falta de exigência ética do tipo que é tão característico de Paulo; a ética prática sempre forma uma grande parte da correspondência paulina normal, e ela está notadamente ausente nesta extensa carta. Em nenhum lugar, nesta carta, a personalidade do escritor é vista como sendo a de Paulo, revelada nas cartas aceitas como sendo suas.
Contudo, a grande maioria destas diferenças não é uma questão de contradição, mas, antes, de ênfase. Nenhuma das idéias, ou termos, não poderia ter sido usada por Paulo. E com todas estas diferenças, permane­ce o problema da estreita relação entre esta carta e o pensamento paulino. Há ligações estreitas em demasia para se desconsiderar, despreocupada-mente, a mão de Paulo, de algum modo, na composição desta carta. Algumas das semelhanças mais impressionantes encontram-se na cristolo­gia acerca da glória preexistente de Cristo e como agente da criação (Heb. 1:2,3; 6:1 e 1 Cor. 8:6; II Cor. 4:4; Col. 1:15-17); sobre a obediência e humildade de Jesus (Heb. 2:14-17; 5:8 e Rom. 5:19; 8:3; Gál. 4:4; Fil. 2:7,8). sobre sua oferta de si mesmo (Heb. 9:28 e 1 Cor. 5:7; Ef. 5:2); sobre o novo concerto (Heb. 8:6; 9:15 e II Cor. 3:6-11); sobre o exemplo da fé de Abraão (Heb. 11:8-12, 17-19 e Rom. 4:17-20; Gál. 3:6-9); sobre os dons e sua administração pelo Espírito Santo (Heb. 2:4 e 1 Cor. 12:4-11, 27-31); sobre o uso das mesmas passagens do Velho Testamento (Sal. 8 em Heb. 2:6-9 e 1 Cor. 15:27; Deut. 32:35 em Heb. 10:30 e Rom. 12:19; Hab. 2:4 em Heb. 10:38 e Rom. 1:17 e Gál. 3:11); sobre a mesma metáfora atlética (Heb. 12:1 e 1 Cor. 9:24-27). A epístola também se encerra no estilo normal paulino (13:18-25). Com estas semelhanças, deve ser concluído que, se Paulo não for o autor, há alguma ligação entre esta carta e Paulo. Estas semelhanças não podem ser postas de lado como saindo da mesma tradição. Tem de haver uma ligação muito estreita entre Paulo e esta carta.

Do testemunho da igreja primitiva e da evidência interna, deve ser considerado extremamente improvável que o próprio Paulo tenha sido o autor desta carta. Os escritores patrísticos, tanto na área ocidental quanto na oriental da igreja, estavam cônscios da dificuldade da autoria paulina. Ao mesmo tempo, muitos reconheceram a estreita afinidade com o pensamento paulino. Foi por esta razão que Panteno disse que Paulo saiu de seu estilo normal e escreveu esta carta anonimamente. A razão básica para esta conclusão foi que Paulo, sendo o apóstolo aos Gentios, não teria tido uma aceitação, por parte dos cristãos judeus, a quem aparente­mente a carta foi primeiramente enviada. Clemente de Alexandria, numa tentativa de esclarecer o problema do estilo, disse que Paulo a escreveu em hebraico e Lucas a traduziu para um excelente grego. Até a época de Orígenes, o valor da carta foi evidente a todos, e várias soluções foram propostas, para dar a ela autoridade apostólica. Foi Orígenes que colocou os sentimentos dos escritores patrísticos em perspectiva. Seria bom dar a citação integral, conforme preservada pelo historiador do quarto século, Eusébio (H.E. vi. 25.11.14):

Todo aquele que entende como julgar a linguagem reconhece que o caráter da escrita da Epístola aos Hebreus não tem a rudeza do idioma do apóstolo, que reconhecia que era inculto no discurso, ou seja, na expressão; mas a epístola é mais idiomaticamente grega, na composição do discurso. Mas, por outro lado, qualquer que atenta para a leitura apostólica concordaria que os pensamentos da epístola são maravilho­sos e de maneira nenhuma inferiores aos escritos do apóstolo. Se eu fosse expressar minha opinião, deveria dizer que os pensamentos são os pensamentos de um apóstolo, mas a linguagem e composição, a de alguém que se lembrou de memória, e, como o foi, fez anota­ções do que foi dito por seu senhor. Se, portanto, qualquer igreja sustenta que esta carta é de Paulo, que ela seja aprovada por isto também (como por sustentar a verdade inquestionável), pois não foi sem razão que os homens dos tempos idos a passaram como se fosse de Paulo, mas quem escreveu a epístola só Deus sabe certamente. A narrativa que chegou até nós é dupla: alguns dizem que Clemente, que se tornou bispo dos romanos, escreveu a epístola; outros que Lucas, que escreveu o Evangelho e Atos, a escreveu. Mas sobre isto nada mais direi.

Há pouca dúvida de que Paulo não foi o autor desta epístola. Isto não é negar a possibilidade, mas, antes, confirmar a improbabilidade da autoria Paulínia direta. A evidência cumulativa é mais convincente. Mas, se o próprio Paulo não escreveu esta carta, quem o fez então? Quem foi o brilhante escritor do primeiro século, se não foi Paulo? Poderia tal pessoa ter existido na igreja primitiva sem deixar alguma evidência de sua personalidade? E muito mais fácil dizer-se, com alguma certeza, quem não escreveu Hebreus do que dizer-se com certeza, quem escreveu. Não obstante, através dos séculos, muitos nomes foram sugeridos: Lucas, Clemente de Roma, Barnabé, Apoio, Silvano, Priscila, Áquila, Filipe e Aristão. Destes dois últimos, tão pouco se sabe e há tão pouca informação para comparação que qualquer tentativa para se identificar o autor com um destes seria pura conjetura. Adolf Harnack propôs Priscila e Áquila como co-autores, com Priscila sendo a força dominante. Isto, disse ele, explicaria o uso preponderante do pronome da primeira pessoa do plural nos como em contraposição ao singular “eu”. Também a ausência da saudação introdutória seria esclarecida corna devida à relutância da igreja em aceitar qualquer ensino autorizado proveniente de uma mulher. Por mais romanticamente atrativa que esta teoria seja, o particípio singular masculino contido em Hebreus 11:32 decididamente obstaria tal identificação.

Lucas — A mais antiga sugestão acerca da autoria de Lucas é a de Clemente de Alexandria (por volta de 180), que acreditava que Paulo escrevera em hebraico e Lucas traduzira o texto para o grego. Um pouco mais tarde Orígenes (por volta de 225) afirmou que Hebreus não era uma tradução, mas alguns dos pais acreditavam que o próprio Lucas escreveu esta epístola. A principal evidência em favor disto são alguns paralelos estilísticos com Lucas-Atos. Além do mais, Lucas era um companheiro achegado de Paulo. Contudo, as afinidades literárias não são tão grandes como se esperaria, considerando-se as afinidades muito estreitas e copio­sas entre o terceiro Evangelho e Atos, esse tipo de relação simplesmente não existe entre Hebreus e Lucas-Atos. Outro ponto contra a autoria de Lucas é que Lucas era um cristão gentio, ao passo que o autor de Hebreus foi um cristão judeu. Se, todavia, se pode estabelecer que Orígenes estava certo em que o autor escreveu de notas do que seu senhor disse, Lucas poderia ter sido o autor nesse sentido. Isto explicaria as posições de Clemente e Orígenes. Contra isto, contudo, está a completa ausência de evidencia antes de 200 acerca da ligação de Lucas com esta carta. Simplesmente não há bastante evidência, tanto internamente como externamente, para se considerar a autoria de Lucas com um razoável grau de certeza.

Clemente de Roma — Mais urna vez Orígenes é o mais antigo escritor patrístico a sugerir que alguns acreditavam que Clemente de Roma foi o autor de Hebreus. E verdade que Clemente, ao escrever aos coríiitios (1 Clemente), apresenta alguma familiaridade com esta epístola, e há algumas semelhanças superficiais, tanto na forma quanto no vocabulário. Contudo, há diferenças estilísticas demais para Clemente ter escrito Hebreus. O ponto mais prejudicial, além do mais, é a absoluta falta de criatividade teológica nas cartas de Clemente; ele apenas faz combinações e é imitativo. As semelhanças entre Clemente e Hebreus não vão além das semelhanças entre Clemente e as cartas de Paulo: a familiaridade de Clemente com um documento escrito.

Barnabé — Tertuliano (o primeiro dos escritores patrísticos latinos) foi o primeiro a atribuir Hebreus a Barnabé. Ele escreveu que “existe também um escrito ‘Aos Hebreus’ por Barnabé, um homem suficiente­mente autorizado por Deus” On Modesty (Sobre a Modéstia, 20). A desig­nação “filho da consolação” (At. 4:36) indica que ele pode ter tido as qualificações necessárias para escrever “esta palavra de exortação” (Heb. 13:22). Barnabé era um levita de Chipre, uma ilha estreitamente associa­da com Alexandria, no comércio, língua e cultura. Tornou-se um membro distinguido da igreja primitiva de Jerusalém e foi o mediador entre os cristãos judeus e Paulo (At. 9:26,27). Barnabé era um amigo achegado e companheiro de viagem de Paulo (At. 11-15), podendo ser respon­sável por alguma parte do tempero paulino de Hebreus. Sendo le­vita, Barnabé teria um bom conhecimento do sistema sacerdotal e sacrificial no qual Hebreus está baseado. Sendo dé Chipre, ele estava bem treinado no grego e talvez familiarizado com a filosofia da Escola Alexandrina. Barnabé era um dos poucos aceitáveis às audiências tanto judaicas quanto gentias. Ele estava “à vontade” em ambas as línguas, hebraico e grego. Do que se conhece de Barnabé, ele poderia ter escrito esta epístola.
Todavia, há várias dificuldades com esta identificação. Existe um livro apócrifo neotestamentário, intitulado “A Carta de Barnabé”. Durante o segundo, terceiro e quarto séculos (e mesmo até o sexto) este escrito circulou largamente e foi considerado, por muitos, como fazendo parte dos outros livros do cânon. Ë encontrado, juntamente com O Pastor de Hermas, anexado ao final do grande manuscrito uncial do quarto século, o Sinaiticus. Uma coisa está clara: se Barnabé escreveu um destes livros, ele não poderia ter escrito os outros. O conteúdo de cada um é demasia­damente diferente para terem sido provenientes da mesma mão. Se Barnabé não escreveu “A Carta de Barnabé”, nada mais há com que se fazer uma comparação literária. Além do mais, a relação de Barnabé 2:3 iria pei-mitir. O surgimento da tradição paulina acerca de Hebreus não pode ser explicada se Barnabé escreveu Hebreus. Difícil de se explicar também é como tal nome, tão bem conhecido e todo-apostólico, como de Barnabé poderia ter-se completamente perdido por duzentos anos. Além disso, a sugestão de Tertuliano jamais foi aceita por qualquer um dos outros escritores patrísticos ou em Chipre, a pátria de Barnabé. Fora de Tertuliano, não existe nenhuma evidência para se ligar esta epístola a Barnabé.

Apoio — Uma das conjeturas mais atrativas (e com algum mérito). e que está ganhando um número crescente de adeptos, é que foi Apolo quem escreveu esta Epístola aos Hebreus. Martinho Lutero (por volta de 1525) foi o primeiro a fazer esta sugestão. A única base para a conjetura é a sucinta descrição de Apoio encontrada em Atos 18:24-28 (e talvez as palavras de Paulo em 1 Cor. 1:12; 3:4-6). Sendo de Alexandria, ele teria tido algum conhecimento da escola alexandrina de interpretação bíblica. Ele é descrito em Atos (18:24) como um “homem eloqüente e poderoso nas Escrituras”. Ele também teve contatos pessoais com Paulo (1 Cor. 16:12; Títo 3:13) e com companheiros de Paulo (At. 18:26), que poderiam explicar os elementos paulinos em Hebreus. Ele também foi um cristão da “segunda geração” (Heb. 2:3). Contudo, o que se pode dizer de Apoio também pode ser dito dos outros. Certamente Apoio não era o único varão brilhante na igreja do primeiro século. Além do mais, não existe nenhum material conhecido como da autoria de Apolo, com que fazer-se uma comparação literária. Além disto, Hebreus está de algum modo relacionada com Roma, quer tenha sido escrita daquela cidade ou a ela (Heb. 13:24), e não existe evidência de que Apoio fosse conhecido em Roma. O ponto principal contra Apoio como autor é a absoluta falta de testemunho patrístico para isto. Certamente, pelo menos a igreja e a Escola de Alexandria teria preservado algum tipo de tradição acerca de um filho distinguido. Ao contrário, os cristãos alexandrinos, desde os tempos mais antigos, atribuíam Hebreus a outras pessoas, nem mesmo fazendo menção de Apoio.

Silvano — Entre as mais modernas conjeturas acerca da autoria de Hebreus está Silvano. Esta sugestão apareceu pela primeira vez no início do século dezenove, mas teve poucos defensores até o tempo presente. Presume-se (e acertadamente) que o Silvano de 1 Pedro 5:12 é o Silas de Atos 15-18. A premissa básica é que o autor real de 1 Pedro é Silvano (amanuense com liberdade completa na composição). A esta premissa é acrescentado que as afinidades literárias entre 1 Pedro e Hebreus são tais que também Silvano poderia ser o autor de Hebreus. Além disso, Silvano (Suas) foi um companheiro judeu tanto de Paulo quanto de Pedro. Ele era conhecido da igreja em Roma, tendo estado lá com Pedro durante a escrita de 1 Pedro. Ele também foi companheiro de Paulo na chamada Segunda Viagem Missionária. Estava intimamente familiarizado com Timóteo (Heb. 13:23). Tendo vivido em Jerusalém e sendo judeu, ele estaria informado acerca do culto no templo. A linguagem e alto estilo literário de 1 Pedro o qualificaria para o estilo de Hebreus.

Contudo, há alguns obstáculos a serem superados antes que possa ser dada certeza a esta teoria. Ela constitui, antes de tudo, conjetura construída sobre conjetura. Em nenhuma parte é visto ou sugerido, no Novo Testamento ou na tradição da igreja, que Silas fosse outra coisa que não nativo de Jerusalém. A parte precisa apresentada na composição de 1 Pedro não é, em absoluto, totalmente determinada por algum grau de certeza. As diferenças entre as duas epístolas excede completamente, em peso, as semelhanças. Deve ser concluído, portanto, que, embora Silvano (bem como Apoio) pudesse ter escrito Hebreus, não há evidência suficien­te para dar apoio a tal teoria de autoria. Ë extremamente improvável que a igreja primitiva não teria preservado algum tipo de tradição em relação à obra de Silvano.

Conclusão — B.F. Westcott, há muito tempo atrás, escreveu que qualquer tentativa de colocar um nome para o autor é devida à “má vontade de confessar francamente nossa ignorância sobre uma questão que excita nosso interesse” (lhe Epistle to the Hebreus A Epístola aos Hebreus). Com a evidência que nós temos, no momento presente, devemos “confessar nossa ignorância”. Talvez a conclusão de Orígenes seja ainda a melhor. A Epístola aos Hebreus é de tal forma que de algum modo está relacionada com Paulo. Se alguém deseja sustentar a autoria paulina para esta carta, que seja elogiado por isto. Mas, quando ao seu real escritor, só Deus sabe certamente. Para o mundo cristão, ele permanece sendo uma “voz” (João 1:23), e nada mais. Mas o cristão pode ser grato a Deus, pela obra desta “voz”, que escreveu com tal graça, beleza e habilidade acerca do que Jesus Cristo era para ele: o caminho para Deus e o caminho para a realidade última.
Juntamente com o problema da autoria, a Epístola aos Hebreus apresenta um problema quanto a seus primeiros leitores. A quem escreveu o autor? Assim como a falta de uma introdução impede a atribuição do nome do autor, igualmente a destinação não é apresentada. Se este livro é verdadeiramente uma carta, isto seria razão suficiente para se crer que o título não é original. Supõe-se que o título foi acrescentado, para se distinguir este livro de outros que foram aceitos, lidos e discutidos pelas igrejas primitivas. O título expressa, contudo, a crença dos escrito­res patrísticos de que o livro foi escrito àqueles que, por nascimento, eram judeus. Também não há evidência de que a carta tenha tido um título diferente. Embora Clemente de Roma e Hermas (também de Roma) não tenham citado a carta em seus escritos, o título é antigo. Panteno e Clemente de Alexandria conheciam este titulo na última metade do segundo século, e o manuscrito Papiro II, de Chester Beatly (do final do segundo século, tem o título respectivo de “A Hebreus”). Tertuliario (por volta de 200) conheceu o titulo correspondente em latim, Ad Hebraeos. Foi sugerido que talvez o titulo tenha vindo a ser usado por analogia com os títulos da Epístola aos Romanos e a Epístola aos Gálatas.
A falácia disto é imediatamente aparente quando se observa que os versículos introdutórios dessas duas cartas expressam uma igreja, ou igrejas, num contexto geográfico (Rom. 1:7; Gál. 1:2). A falta dos versículos introdutórios, nos manuscritos existentes, obstaria esta analo­gia. Além do mais, é improvável que uma carta fosse enviada com uma saudação contendo somente “Aos hebreus”. Ë muito mais provável que o título tenha surgido da impressão recebida, ao se ler a carta, e sido uma
tentativa de se determinar pelo conteúdo o caráter de seus primeiros leitores. Portanto, o título representa a impressão de que a carta foi originalmente escrita a um grupo de cristãos judeus, num lugar especifico geograficamente.
Houve sugestões, feitas por alguns estudiosos modernos, de que a carta foi escrita a, e para, leitores gentios. Diz-se que a carta nada contém que exija uma destinação a judeus, que a distinção entre judeu e gentio não está evidente nesta carta. Devido ao fato de que o Velho Testamento era a Bíblia da igreja primitiva, argumenta-se que os cristãos gentios estariam tão familiarizados com a história da revelação de Deus como os judeus. Esta maneira de raciocínio interpreta o perigo de se ‘~apartar do Deus vivo” (3:12) como uma volta ao paganismo. Contudo, não há nenhuma alusão, na carta, às crenças e práticas religiosas de uma sociedade pagã. A desobediência deliberada ao Deus vivo é apostasia prática e, de acordo com o escritor de Hebreus, é assim como a experiência dos israelitas sob a direção de Moisés, a qual causou o malogro de não entrarem na terra prometida (3:7-19). Além disso, os antecedentes judaicos são implícitos para a compreensão de 6:1-8. O sacerdócio araônico fora instituído por autoridade divina (segundo o Velho Testamento e o escritor de Hebreus), pelo que os conversos gentios ao cristianismo tinham pouco interesse ou certeza (cf. 7:11). A exortação para ir-se de encontro a Cristo “fora do arraial” (13:13) seria muito mais inteligível para cristãos judeus do que para gentios conversos. Além disso, a aceitação do Velho Testamento pelos gentios foi em bases diferentes das dos judeus. Os judeus aceitavam o Velho Testamento porque eram nascidos judeus; os gentios o aceitavam porque haviam-se convertido ao cristianismo. O Velho Testamento não seria de nenhum interesse para um gentio que deixasse o cristianismo; a um cristão judeu poder-se-ia fazer apelo à autoridade da revelação do Velho Testamento. Nesta carta, o cristianismo é exclusivamente colocado em contraposição à religião judaica. Nada há acerca das religiões pagãs.
A impressão que se tem, da leitura do livro de Hebreus, é que ele foi endereçado a cristãos judeus. E pressuposto, pelo escritor, que seus leitores estão muito familiarizados com o sacerdócio araônico e levítico, tendo um interesse ativo nele, bem como estando totalmente familiari­zados com o Velho Testamento, o aceitando como autoridade e como sendo sagrado. Além disso, sente-se que o escritor estava dirigindo suas palavras a um grupo particular, a quem conhecia pessoalmente (6:9,10; 10:34; 13:7,19). Era uma igreja, ou um grupo dentro de uma igreja, que estivera em existência por algum tempo (5:12; 13:7), mas não havia visto ou ouvido Jesus em pessoa (2:3,4). Era um grupo que já havia sofrido perseguição (10:32-34), mas não havia ainda experimentado o martírio (12:4). Tinha uma história de liberalidade e generosidade em cuidar daqueles que sofreram mais, em tempos de perseguição (6:10; 10:34). Havia tido alguns grandes líderes e mestres no passado (13:7), mas não havia progredido na fé cristã (2:1-4; 3:12-19; 6:4-6; 10:25-29; 12:14-16). Parece que estava começando a separar-se de outros cristãos na comuni­dade (10:25).
Mas, onde vivia esse grupo? Tradicionalmente, supunha-se que a carta foi primeiramente enviada a Jerusalém, pois lá o sacerdócio araônico (levítico) servia no ritual do templo. O principal obstáculo a esta suposição é que a carta tem muito a dizer acerca do tabernáculo móvel, mas não do templo. Também teria havido alguns em Jerusalém que teriam ouvido e visto Jesus (contrariamente a Heb. 2:3). O uso familiar da Septuaginta, em contrário ao Velho Testamento em hebraico, é outro argumento contra Jerusalém como a destinaçãõ desta carta. Também estes leitores não haviam “resistido até o sangue” (12:4), ao passo que os cristãos judeus em Jerusalém haviam sofrido martírio cedo (At. 7:58-8:3), e, através da era apostólica, a igreja em Jerusalém fora mais uma receptora que doadora de auxílio (6:10; cf. At. 11:29; Rom. 15:26; etc.).
O Melquísedeque de Hebreus aparece como a figura histórica na história de Israel, e não como uma figura angelical, conforme acreditado pelos essênios. O conceito essênio do Messias, em sua relação com a linha real de Davi e o sacerdócio araônico, não se iguala favoravelmente com o de Hebreus, embora sejam usados termos semelhantes. Um estudo definitivo dos documentos de Qurnrão, em comparação com Hebreus, revela que as afinidades são mais superficiais e observáveis que realmente paralelas (W.S. LaSor, lhe Dead Sea Scrolls and lhe New Testament — Os Rolos do Mar Morto e o Novo Testamento — p. 179-190). Embora os receptores judeus de Hebreus pareçam estar mais em linha com as seitas não conformistas do judaísmo do primeiro século, das quais os essênios são representantes, do que com o judaísmo normativo, conforme representado pela tradição rabínica, os essênios não eram o único grupo não-conformista. Mas, com o apareci­mento dos Rolos do Mar Morto, mais luz é lançada sobre as crenças e prá­ticas religiosas vigentes, e eles tornam-se um auxílio para nossa melhor compreensão dos documentos do Novo Testamento.
De alguma maneira, a Epístola aos Hebreus está ligada com Roma. A expressão contida em 13:24 (“Os de Itália vos saudam”) é melhor entendida como aqueles que vieram da Itália e agora, na presença do autor da carta, estavam enviando saudações de volta a seus amigos na Itália. Esta é a maneira normal de se interpretar a frase. Contudo, ela poderia significar “os que estão na Itália”, onde está também o escritor, mas isto força o sentido. Apoiando uma destinação romana, estão as alusões literárias mais antigas a esta carta, que vem de Roma. Embora nem Clemente nem Hermas (ambos de Roma) mencionem a carta por nome, existem paralelos significativos, no vocabulário, para se concluir que ambos conheceram esta carta. De recursos extrabíblicos, o que se sabe acerca da igreja romana, desde seu princípio, mostra que ela era caracterizada por sua liberalidade e generosidade. Ela também tinha sofrido perseguição e perda de possessões (10:32), mas não perda de vidas (12:4), o que poderia ter ocorrido durante a época em que Cláudio expulsou os judeus de Roma (49 d.C.). Na Epístola de Paulo aos Romanos (Rom. 14), a igreja em Roma parece ser escrupulosa em relação a. comida, o que também é visto em Hebreus (13:9). Além disso, é sugerido, em Romanos 11:13,18, que a igreja em Roma tinha uma base cristã­judaica.
Embora estas considerações não sejam conclusivas, elas parecem encaixar-se melhor na situação que outras sugestões. Da informação contida na carta, parece que as pessoas endereçadas eram cristãos judeus que viviam fora da Palestina, na tradição do judaísmo não-conformista. Além disso, a carta está, de algum modo, relacionada com a Itália (13:24), que provavelmente significa Roma. Certeza além deste ponto é impossível, pelos materiais que temos à nossa disposição. Assim como a autoria permanece sendo um enigma, também a identidade da destina­ção desta carta.
O terminus ad quem necessariamente tem que ser por volta de 95 d.C., quando Clemente de Roma fez uso de Hebreus, ao escrever à igreja em Corinto. O terminus ad quo está ligado com a autoria e conteúdo da epístola. Se o próprio Paulo fosse o autor, ela teria sido escrita por volta de 65 d.C., o ano provável de sua morte. Uma vez que foi concluído que é improvável que o próprio Paulo escreveu a carta, a data desta carta não está tão vitalmente ligada com as datas do ministério de Paulo. Essa referência também indica que Timóteo ainda estava vivo quando a epístola foi composta. Além deste fato, todavia, pouca coisa mais pode ser asseverada, porque nada se sabe do Novo Testamento ou da história da igreja primitiva, acerca de onde ou quando Timóteo esteve na prisão.
Outro fator a ser considerado é a harmonização da perseguição sugerida em 10:32-34, com a implicação de 12:4. Estas duas passagens sugerem uma perseguição de certa gravidade no passado (“dias passados” de 10:32), no qual nenhum martírio ocorrera (“ainda não resistes até o sangue” de 12:4). Isto apenas quase que exclui os cristãos judeus da Palestina, porque eles haviam sofrido morte prematura. Se a carta foi endereçada a cristãos-judeus em Roma, ela deve ter sido escrita antes de julho de 64 d.C., o mês e ano do incêndio de Roma, após o qual Nero iniciou uma intensa perseguição dos cristãos. A perseguição dos “dias passados” poderia ter sido a da época em que Cláudio ordenara que todos os judeus fossem expulsos de Roma por causa de uma rebelião contínua causada por “Cresto”. Esta expulsão ocorreu em 49 d.C. e levou a alguma confiscação de propriedades e mau tratamento (além da expulsão de Roma) de alguns cristãos judeus; mas não envolveu persegui­ção até a morte. Os quinze anos entre os dois eventos (49-64 d.C.) poderia, possivelmente, ser os “dias passados” de 10:32.
De grande importância é se a destruição de Jerusalém já havia ocorrido (70 d.C.). Embora não haja nenhuma referência direta ao Templo, em Hebreus (é o Tabernáculo móvel do Pentateuco que é descrito), o ritual do tabernáculo foi continuado no serviço do templo, e esse ritual estava ainda em progresso na ocasião da escrita desta carta. O autor faz uso do tempo presente, ao descrever o trabalho do sacerdócio levítico (7:8; 9:6-10,13; 10:2; 13:10), que “envelhece, e perto está de desaparecer” (8:13). Seu argumento básico é acerca da temporalidade do sacerdócio levítico. A “Epístola de Barnabé” apócrifa do início do segundo século enfatiza que o Templo fora destruído pelos romanos. Se Hebreus tivesse sido escrita após esta destruição, constituiria prova absoluta da exatidão deste argumento. Ê inconcebível que o autor tivesse ignorado tal evento. A atitude da Epístola aos Hebreus inteira é que o culto cerimonial do sacerdócio levítico ainda estava acontecendo.
Portanto, concluímos que Hebreus foi escrita após 49 d.C. e antes de 70 d.C. A violenta perseguição sob Nero (64-68 d.C.) ainda não havia ocorrido, mas qualquer pessoa que tivesse percepção poderia ver o ajuntamento das nuvens de guerra, que só poderia levar à destruição de Jerusalém. A sugestão mais lógica para uma data seria após a soltura de Paulo do primeiro encarceramento romano e antes da perseguição iniciada por Nero. Os anos de 63-64 d.C. (antes de julho) são a data mais lógica para a escrita de Hebreus.
Há, provavelmente, tanto debate acerca do propósito de Hebreus quanto o há acerca de sua autoria e destinação. A identificação do autor e dos primeiros leitores são de menos importância que determinar a razão para a escrita. A carta foi escrita de tal maneira que sua própria interpretação está determinada por seu propósito. O autor descreve sua mensagem como uma “palavra de exortação” (13:22), e isto deve indicar algo de seu propósito. Além disso, a palavra “exortar” (como verbo, substantivo e adjetivo) é usada seis vezes, através da epístola, e o verbo “advertir” aparece três vezes. Deve-se concluir que o assunto (conforme visto nas passagens doutrinárias) era de importância prática vital. Mas, qual era o assunto? O que foram os leitores exortados a fazerem ou não fazerem? Várias sugestões foram feitas, entre as quais as seguintes são representativas:
1. Evangelizar Judeus Não-crentes — Uma sugestão, que tem muito pouco apoio entre os estudiosos modernos, freqüentemente feita, é que a epístola foi escrita para evangelizar judeus não-cristãos. O argumento é dito ser que que o autor escreveu para advertir ao judeu não-crente que Jesus é o Messias prometido, o cumprimento de tudo o que o Velho Testamento prefigurou. Rejeitar Jesus significa rejeitar o único caminho restante até Deus, porque o sistema sacrificial levítico pelo pecado está por desaparecer para sempre.
Embora haja muito material em Hebreus, pelo qual os cristãos podem dar testemunho de Jesus Cristo aos judeus, este não pode ser o propósito do autor. Ë tornado claro que seus leitores já são cristãos (3:1-4; 6:4-9; 10:23-26; 12:22-24). Disto pouca dúvida pode haver; as exortações e advertências são dirigidas a judeus que já são cristãos e que sofreram por sua fé.

2. Advertir Contra a Apostasia — Esta é a posição tradicional na interpretação: advertir cristãos judeus que, tendo tido uma experiência real de graça, são tentados a abandonar seu cristianismo e voltar às velhas formas religiosas de seus pais. Esta interpretação presume que os capítulos 6 e 10 mostram que os leitores são tentados a apostatar, e, uma vez que a epístola inteira foi escrita para mostrar a superioridade de Jesus sobre o sistema sacerdotal levítico, a apostasia seria um abandono do cristianismo e uma volta ao judaísmo. A atmosfera de insegurança geral, dentro da comunidade cristã primitiva, a lassidão moral de alguns conversos gentios, a ameaça sempre presente de perseguição e o desa­pontamento sobre a demora da parousia, juntamente com a relutância inata de romper completamente com o judaísmo, em bases nacionalís­ticas, bem como teológicas, tudo estava trabalhando junto para fazer com que o judeu convertido questionasse a realidade e validade do cristianis­mo. Além disso, o judaísmo, com todas as suas expectações de messias político, estava apelando mais veemente que nunca para que os judeus mostrassem sua lealdade e patriotismo, lançando fora o jugo romano. Se Hebreus foi escrita durante os dias calamitosos da Guerra Judaico­Romana de 66-70 d.C., a chamada já havia saído através do mundo para os judeus retornarem à Palestina e unirem os braços contra os odiados opressores romanos. Se escrita antes de 66 d.C., o judeu cristão estava sendo pressionado a voltar à religião de seus pais através do trabalho dos judaizantes. Estes judeus cristãos estavam gradualmente sendo privados das consolações dos belos rituais religiosos de seus pais. O cisma entre o cristianismo e o judaísmo estava se alargando e aprofundando ao ponto de produzir separação final e completa. O cristão judeu foi confrontado com a decisão de fazer um rompimento completo, optando por uma posição ou a outra. O escritor de Hebreus diz que deixar o cristianismo e retornar ao judaísmo seria “se apartar do Deus vivo” (3:12) isto é, apostasia.

Este argumento é muito forte e atrativo para aqueles que são capazes de crer que um cristão pode perder sua salvação, ser uma vez salvo e outra vez perder-se. Este erro, na doutrina cristã básica da redenção, permite esta interpretação. Contudo, uma vez determinado que um cristão verdadeiro é para sempre um filho de Deus (João 10:27-30; Rom. 8:26-39), as advertências e exortações devem ser vistas a uma luz diferente. O autor faz uso de experiências históricas registradas no Velho Testamento para apresentar seu propósito. A principal ilustração usada como uma advertência é o fracasso dos pais em não terem entrado na Terra Prometida após chegarem a Cades-Barnéia (Núm. 14; Heb. 3:7-19). O autor traça uma comparação entre seus leitores e aqueles da história de Israel que ficaram diante de um momento decisivo em sua vida. Os pais fracassaram em entrar no seu “descanso” (a Terra Prometida) por causa da sua “incredulidade” (Heb. 3:18,19). As exortações e advertências, baseadas em termos como “não nos desviemos delas” (2:1), “um coração mau e descrente” (3:12), “se recaíram” (6:6) e “se pecarmos voluntaria­mente” (10:26), devem ser interpretadas à luz do exemplo dos israelitas no deserto. Eles haviam sido constituídos o povo de Deus na Páscoa e na experiência do Mar Vermelho, e seu fracasso em entrar na Terra Prometida não desfez a relação básica com Deus. Embora tivessem desejado voltar à velha condição de escravidão no Egito, não podiam fazê-lo; agora eram o povo de Deus, e ele não lhes permitiria voltar. Para um verdadeiro cristão, não pode haver nenhuma apostasia real (cf. I João 2:19).

3. Exortar à Maturidade Cristã — Se o propósito não é nem evangeli­zar o judeu não-crente nem advertir contra a apostasia, qual é então? E uma admoestação para que os cristãos judeus façam um completo rompimento com as velhas formas do judaísmo e para que entrem na maturidade da “vida abundante”, que só pode ocorrer em Jesus Cristo e através dele (João 10:10). Era a tendência, na igreja primitiva, ficar o cristão perto demais dos elementos judaicos do grupo primitivo. Aqui está uma admoestação para ele afastar-se dos elementos do ritual judaico; uma exortação para encontrar a maturidade não no ritualismo do velho concerto, mas na nova religião do Espírito e da liberdade (João 3:1-15). O cristianismo não deve ser desenvolvido dentro do judaísmo (Luc. 5:36-39). O autor estava escrevendo àqueles que haviam-se tornado cristãos, mas ainda estavam-se prendendo ao ritualismo do judaísmo, o ritualismo que jamais poderia efetuar um resultado permanente (7:19; 10:1). Continuar com o ritualismo seria equivalente ao fracasso de seus país em entrarem na Terra Prometida; demonstra uma falta de fé completa na obra de Jesus Cristo.
Ë por esta razão que o autor desenvolveu seu argumento como fez. Tudo de bom no judaísmo não era mais que uma sombra do que é real em Jesus Cristo (9:23-10:1; 12: 14-17). Jesus é superior, em todos os aspectos, àquilo sobre o que o judaísmo foi construído: as revelações através dos pais e dos anjos (1:1-2:18), Moisés (3:1-4:13), Arão(4:14-7:28), o sistema sacrificial (8:1-10: 18). O autor não condena estes elementos como sendo maus, nem fala acerca deles de maneira depreciadora; mostra, sim, que eles foram substituídos. Eles foram úteis, mas agora serviram para sua finalidade e devem ser abandonados, desde que Jesus veio (1:2; 3:3; 8:12; 10:14). Há cinco passagens admonitórias, cada uma sendo uma exortação ou advertência contra o deixar de crescer na maturidade cristã (2:1-4; 3:7-19; 6:4-8; 10:26-39; 12:14-17). A urgência e necessidade do cresci­mento espiritual (6:1-20) são confirmadas por aqueles que, na história de Israel, se apressaram em completa fé na promessa de Deus de uma vida espiritual mais rica (10:36-11:40), sendo o próprio Jesus o exemplo supremo (12:2).
O propósito, portanto, é mostrar que é necessário o cristão encontrar todas as suas necessidades e recursos em Jesus Cristo, o único capaz de prover tudo o que é mister para esta vida e a do porvir. E tempo de o cristão judeu afastar-se completamente do ritualismo e simbolismo do judaísmo e entrar na realidade da promessa de Deus: Jesus Cristo.
O cristão deve tomar seu lugar como um filho maduro entre o novo povo de Deus, a Igreja (Ef. 4:11-16), a fim de que Deus possa levar a criação a seu eterno alvo, objetivado antes que o universo fosse criado (Ef. 2:10,11).

Mas qual é a mensagem de Hebreus para o cristão moderno? E sempre a tendência de o novo crente ficar perto demais dos elementos de sua vida anterior, de trazer alguns desses elementos para dentro de sua nova vida. Algumas das coisas velhas são bem obviamente erradas e devem ser abandonadas desde o início. Há outras coisas, contudo, que não são más em si, e é difícil determinar-se quais são realmente prejudiciais e quais não são. Hebreus assenta os princípios básicos para a maturidade cristã. Esta epístola foi escrita a cristãos que estavam num estado de crescimento impedido (5:11-6:3); ainda eram crianças espirituais. Precisavam crescer tão naturalmente na vida espiritual como as crianças normais o fazem na vida física. Há um perigo em permanecer-se sempre uma criança (6:4-20).
Mas, esse crescimento deve ocorrer em Jesus Cristo; tudo o que se precisa para o crescimento encontra-se no Senhor e Salvador Jesus Cristo.

O crescimento só pode ocorrer à medida que os olhos da pessoa estejam centralizados em Jesus (Heb. 12:2) e a vida seja rendida completamente a ele, em fé. Ele é nosso tudo em todos, o eterno (13:8). Ele é capaz de aperfeiçoar em nós tudo o que é necessário para nosso crescimento até a maturidade espiritual (4:14-16).
Foi sugerido que Hebreus é mais um sermão que uma carta. O autor desenvolve seu argumento como desenvolveria um sermão, com exortações apropriadas por toda parte, contudo, construindo até um corpo final de sugestões práticas, advertências e admoestações. Há duas divisões básicas da epístola: a primeira sendo doutrinária ou expositiva (1:1-20:18) e a segunda constituindo de aplicações práticas (10:19-13:25). Todavia, o progresso do argumento é marcado por conselhos práticos (2:1-4; 3:7-19; 4: 14-16; 6:4-8; 10:26-39; 12:14-17).
O argumento inteiro é construído em torno da superioridade de Jesus Cristo sobre os elementos básicos do culto do templo. Esta superioridade é demonstrada pelo fato de o Filho ser superior, em seus pronunciamentos, às palavras que vieram através dos pais e dos anjos (1:1-2:18). Jesus é superior, como mestre, a Moisés, assim como o filho é superior a um criado da casa (3:1-4:13). A superioridade de Jesus, como Sumo Sacer­dote, sobre Arão e todo o sistema sacrifícial levítico, é demonstrada pelo ministério de Jesus, como tendo urna validade permanente, ao passo que os sacrifícios do sistema levítico tinham que ser repetidos freqüentemente (4:1-5:10). O autor faz menção de Melquisedeque em 5:10, mas parece interromper seu pensamento, para uma digressão ou parêntese (5:11-6:20). para mostrar os perigos da falta do crescimento espiritual e da necessidade dele; a tragédia do retardamento espiritual. Retornando seu pensamento, o escritor faz uma comparação da validade do sistema sacrifical levítico com o sacrifício e ministério superiores de Jesus (7:1-10:18). Jesus é capaz de fazer mais abundantemente, porque ele é o Filho de Deus, seu sacrifício é eternamente eficaz e ele é sempre o templo celestial (o verdadeiro), diante de Deus, em intercessão por seu povo.
Esta superioridade de Jesus sobre o judaísmo, em todos os aspectos da vida religiosa, deve ter sua aplicação prática no viver diário do seguidor de Jesus. Após uma advertência a não se negligenciar a oportunidade de ver Jesus pelo que ele realmente é (10:19-39), o autor dá exemplos do viver real pela fé e maturidade espiritual dos heróis do Velho Testamento (11:1-40). As vidas destes pais da história do povo judeu demonstram o caráter da fé no viver diário e a possibilidade de se viver de tal maneira. O melhor exemplo, todavia, é Jesus mesmo, que, tendo completado seu ministério na terra e agora intercedendo no céu por nós, virá outra vez. A certeza de sua volta é um estímulo para o crente crescer na fé (12:1-29).
Uma outra aplicação da superioridade de Cristo encontra-se nos deveres cristãos práticos dentro da sociedade (13:1-6) e nas obrigações religiosas necessárias (13:7-17). Seguindo um pedido de oração (13:18, 19) uma bênção (13:20,21) e uma palavra final de exortação (13:22), o autor dá informação acerca da libertação de Timóteo da prisão (13:23). Há a saudação final e a bênção paulina normal de encerramento (13:24,25).

A EPISTOLA DE TIAGO


A Epístola de Tiago está em primeiro lugar no grupo de sete livros do Novo Testamento denominado as Epístolas Gerais ou Católicas. As igrejas evangélicas estiveram hesitantes, por razões óbvias, em usar o termo “católicas” na descrição destas sete cartas. Dois adjetivos latinos (generalis, universalis) traduzem a palavra grega perfeitamente, mas a Vulgata transliterou o grego como catholicas. E da Vulgata que o título Epístolas Católicas tornou-se uso comum entre os tradutores e estudiosos.
O termo católicas foi pela primeira vez aplicado às sete cartas como um grupo por Eusébio (265-340), embora escritores mais antigos tenham chamado as cartas individuais deste grupo de “gerais”. Um comentário anônimo do sétimo século sobre a Epístola de Tiago afirma que o termo foi usado porque estas cartas s~o encíclicas; ou seja, não são endereçadas a igrejas ou pessoas individuais, mas escritas coletivamente a todas as igrejas. Esta descrição geral vale para Tiago, 1 e II Pedro, 1 João e Judas. II e III João, contudo, são endereçadas a um grupo, ou pessoa, particular e, assim, não caem dentro da definição. Mas estas duas cartas foram consideradas como anexas a 1 João e foram agrupadas juntamente com ela.
A posição destas sete cartas, nas edições modernas do Novo Testamen­to, segue a ordem da Vulgata. Esta é a ordem geralmente adotada pela igreja ocidental (Evangelhos, Atos, Epístolas Paulinas, Epístolas Gerais, Apocalipse), que parece representar a primazia que a igreja ocidental deu a Paulo. Na igreja ocidental, estas sete cartas seguiam-se a Atos. Como um grupo de oito elas normalmente eram colocadas entre os Evangelhos e as cartas paulinas, mas às vezes depois de Paulo. Os dois grandes manuscritos unciais gregos do quarto século diferem neste ponto. O Vaticanus tem os Evangelhos, Atos, Epístolas Gerais e Epístolas Paulinas (faltam, neste manuscrito, Hebreus 9:14-13:25, as Pastorais, Filemom e Apocalipse). O Sinaiticus tem os Evangelhos, Epístolas Paulinas, Atos, Epístolas Gerais e Apocalipse.
Dentro do próprio grupo, a ordem parece derivar das palavras de Paulo acerca das três colunas da igreja: “Tiago, Cefas e João” (Gál. 2:9). Judas vem em último lugar, como o menos importante dos quatro. A única exceção a esta ordem é encontrada no final do quarto século (Pedro, João, Tiago, Judas) e representa a crescente importância da Igreja Romana a seu alegado fundador: Pedro.
A Epístola de Tiago pertence à classificação de literatura na Bíblia denominada “literatura de sabedoria”. Seu propósito é caracterizado por instruções para o viver diário e por uma compreensão das perplexidades da vida. Exemplos deste tipo de literatura no Velho Testamento são os livros de Jó, Provérbios e Eclesiastes. De todos os livros do Novo Testamento, Tiago é o menos doutrinário e o mais prático. Por esta razão, ele foi grandemente negligenciado e considerado num nível inferior aos dos outros escritos neotestamentários. Contudo, as palavras deste livro pratico têm o encanto maravilhoso de alguém que foi mui achegado ao Senhor Jesus durante seu ministério terreno, de alguém que o compreen­deu erroneamente no começo, mas veio a reconhecê-lo como o Senhor da Glória. As admoestações desta carta tornam seu estudo oportuno hoje, pois elas falam acerca dos problemas da vida cotidiana. Este livro é especialmente relevante, para o leitor moderno, pela ênfase, que dá aos aspectos e problemas sociais e às tarefas da religião dentro do contexto social.
Segundo a classificação de Eusébio, no começo do quarto século, a Epístola de Tiago pertence aos cinco “livros disputados” .antilegómena) do Novo Testamento: Tiago, II Pedro, II e III João, e o Apocalipse (H.E., II, xxiii, 24,25), embora o próprio Eusébio a aceitasse como autêntica e canônica. A carta não aparece na igreja de fala latina até Hilário (357), Jerônimo e Agostinho (final do quarto século). Ela não está no Cânon Muratoriano, a lista dos livros do Novo Testa­mento aceita pela igreja em Roma durante o segundo século. A primeira indicação encontrada na igreja Síria está no manuscrito Peshítta Siríaco do quinto século (por volta de 412). Na igreja de fala grega, Orígenes é o primeiro a mencionar a carta pelo nome, embora possa haver ecos de Tiago em Clemente de Roma (c. 95 d.C.) e Hermas (início do segundo século). Estes ecos são obscuros demais, contudo, para se tirar conclusões definidas. Pela época de Atanásio (367 d.C.), a carta foi aceita no cânon e como sendo escrita por Tiago, o irmão do Senhor. Houve ainda alguma contestação acerca de seu valor, mas ela foi aceita como genuína.
O autor se identifica como “Tiago, servo de Deus e do Senhor Jesus Cristo” (1:1). O nome é uma tradução através do latim (Giacomo) da palavra grega “Iácobos”, e era um nome comum entre os judeus. Este “Tiago” deve ter ocupado um lugar importante na igreja ou movimento cristão primitivo, que o distinguia de todos os outros com esse nome. Ele presumia que seus leitores iriam conhecê-lo por este título e pela atitude autoritária da carta.
Os Homens Chamados Tiago no Novo Testamento — Há quatro homens chamados Tiago no Novo Testamento: 1) Tiago, o filho de Zebedeu e irmão de João, tendo sido um dos primeiros seguidores de Jesus (Mar. 1:19) e um dos doze (Mar. 3:17). Segundo Atos 12:1,2, ele foi o primeiro dos doze a ser morto. Ele foi decapitado por Herodes Agripa 1, por volta de 44 d.C. 2) Tiago, o filho de Alfeu (Mar. 3:18), era o filho de outra Maria (Mar. 15:40). Uma vez que Mateus (Levi) é também chamado o filho de Alfeu (Mar. 2:14), alguns pensam, contudo, erronea­mente, que este Tiago e Mateus eram irmãos. Em Marcos 15:40, este Tiago é também chamado “o menor”. Depois da lista dos apóstolos contida em Atos 1:13, este Tiago não é mencionado outra vez por nome no Novo Testamento. 3) Tiago, o pai do apóstolo Judas, é mencionado em Lucas 6:16 e Atos 1:13. Nas listas de Mateus 10:3 e Marcos 3:17, este Judas é chamado Tadeu, em alguns manuscritos antigos, e Labeu, em manuscritos menos antigos. Este Tiago é desconhecido, a não ser como o pai de Judas (não o Iscariotes). 4) Finalmente, há Tiago, o irmão de nosso Senhor Jesus Cristo (este termo é usado por Paulo em Gál. 1:19). Ele está relacionado entre os irmãos de Jesus em Marcos 6:3 e Mateus 13:55. Aparentemente, ele teve alguma influência na igreja primitiva, e, após a morte de Tiago, o filho de Zebedeu, em 44 d.C., ele se tornou o porta-voz para a igreja em Jerusalém, uma posição que manteve até sua morte, em 62 d.C.
  Destes quatro homens, Tiago, o pai de Judas (Mar. 3:17) não pode ser e não é seriamente considerado como o autor, porque ele em nenhuma outra parte é conhecido. Tiago, o filho de ALfeu (Mar. 3:18; 15:40), foi um dos doze e possivelmente poderia ter escrito a carta. Todavia, não há absolutamente nenhuma evidênciít na história da igreja para ligar seu nome com a carta. Tiago, o filho de Zebedeu, era um dos doze e um dos três discípulos íntimos do Senhor. Ele aparentemente era tido em alta consideração pela igreja primitiva em Jerusalém. Contudo, esta carta teve problemas em ser aceita no cânon, talvez porque as igrejas apostólicas e subapostólicas reconhecessem que ela não fora escrita por um dos doze. Depois que Jerônimo e Agostinho praticamente forçaram a igreja ociden­tal a aceitá-la no cânon, a igreja na Espanha afirmou (do século sete em diante) que ela era da mão de seu santo patrono, Tiago, o filho de Zebe­
  Destes quatro homens, Tiago, o pai de Judas (Mar. 3:17) não pode ser e não é seriamente considerado como o autor, porque ele em nenhuma outra parte é conhecido. Tiago, o filho de Alfeu (Mar. 3:18; 15:40), foi um dos doze e possivelmente poderia ter escrito a carta. Todavia, não há absolutamente nenhuma evidência na história da igreja para ligar seu nome com a carta. Tiago, o filho de Zebedeu, era um dos doze e um dos três discípulos íntimos do Senhor. Ele aparentemente era tido em alta consideração pela igreja primitiva em Jerusalém. Contudo, esta carta teve problemas em ser aceita no cânon, talvez porque as igrejas apostólicas e subapostólicas reconhecessem que ela não fora escrita por um dos doze. Depois que Jerônimo e Agostinho praticamente forçaram a igreja ociden­tal a aceitá-la no cânon, a igreja na Espanha afirmou (do século sete em diante) que ela era da mão de seu santo patrono, Tiago, o filho de Zebe­deu. O Concílio de Trento (1546), de urna deferência à forte Igreja Católica, decidiu somente que esta carta era da autoria do “apóstolo Tiago”. Contudo, Tiago, filho de Zebedeu, foi martirizado por Herodes Agripa 1 em 44 d.C. Ë de maneira geral considerado, pelos estudiosos, que esta data prematura apenas obstaria uma autoria pelo filho de Zebedeu. A absoluta falta de apoio patrístico e de manuscrito antes do quinto século confirmaria esta conclusão. Deve ser de alguma significação o fato de que o autor não se identifica como um apóstolo, como o fazem Paulo e Pedro, em suas cartas. A ausência deste termo em 1:1 apóia a conclusão de que nenhum dos dois apóstolos chamados Tiago escreveu esta carta. Diante disto, resta apenas Tiago, o irmão de nosso Senhor, como possível autor.
Tiago irmão de Nosso Senhor -  Pelos Evangelhos, parece que Tiago e seus três irmãos não eram simpáticos ao ministério de seu outro irmão, Jesus, e às suas idéias acerca de sua natureza e ministério. Muitas vezes eles estiveram, com sua mãe e irmãs, acompanhando Jesus em seu minis­tério itinerante; mas não aceitavam ou não puderam aceitar sua obra. Em Marcos 3:20-33 (Mat. 12:46-50, Luc. 8:19-21), a família de Jesus foi tentar levá-lo para casa, acreditando que ele estivesse fora de si. Em João 7:1-9, os irmãos ridicularizam Jesus, “porque não criam nele” (7:5). Os irmãos tinham tão pouca simpatia por ele que, quando ele estava na cruz, cumprindo o dever do filho mais velho, encomendou sua mãe ao apóstolo João (João 19:26,27). Ë Paulo quem relata o fato interessante de que Jesus apareceu particularrnente a Tiago, após sua ressurreição (1 Cor. 15:7). Em algum momento, entre a morte de Jesus e aquele aparecimento, Tiago veio a crer em Jesus. Se ele aceitou Jesus antes ou depois desse aparecimento, não se sabe; somente que, a partir dessa ocasião, Tiago foi urna parte integrante do pequeno grupo de crentes. Atos 1:14 afirma que os irmãos de Jesus estavam presentes no cenáculo quando o sucessor de Judas Iscariotes foi escolhido. E implicado que eles também estavam presentes no Pentecostes. Paulo escreveu que, quando de sua volta para Jerusalém, vindo de Damasco, ele só viu Pedro e nenhum outro dos apóstolos, senão a Tiago, irmão do Senhor” (Gál. 1:19). Em Atos 12:17, Tiago é outra vez mencionado de maneira especial por Pedro, após sua fuga da prisão. Isto implicaria que Tiago tinha alguma autoridade como um dos líderes na igreja primitiva em Jerusalém. Na conferência de Jerusalém (At. 15:14-21), Tiago parece ter a posição de liderança (veja Gál. 2:9). Na última visita de Paulo a Jerusalém (At. 21:18), Tiago está definídamente a cargo da igreja naquela cidade. Ele era tido em alta estima pelos judeus em toda parte e reconhecido como um homem justo, a tal ponto de ser chamado “o justo” por eles. Josefo, o historiador judeu do final do primeiro século, escreveu que Tiago, “o justo” era o irmão de Jesus, “chamado o Cristo”, e que Tiago foi morto por ordem do sumo sacerdote Anano, depois da morte do procurador romano Festo e antes da chegada de seu sucessor, Albino. Tiago, juntamente com alguns outros, foi acusado de ser um transgressor da lei e foi apedrejado até a morte em 62 d.C. (Josefo, Antigüidades, xx, ix, i).
Mas por que o autor não se identificou como o irmão de Jesus? Pro­vavelmente, seria melhor perguntar-se por que deveria ele sentir necessá­rio fazê-lo. Por que deveria o bem conhecido Tiago ter de identificar-se assim? Se de fato ele é o Tiago de Atos 12:17, 15:13-21 e Gálatas 1:19, o nome é suficiente; se ele não é, o Tiago desconhecido tem necessidade de identificar-se melhor. Se a carta tivesse sido escrita por outra pessoa no nome de Tiago, o irmão de Jesus, certamente esse teria acrescentado essa informação, para dar aceitação à carta. Deve também ser lembrado que, mesmo para Tiago e Judas, Jesus era o Senhor Jesus Crísto. Jesus estava em pé de igualdade com Deus, como o Messias do Velho Testamento e o cumprimento das esperanças e aspirações do verdadeiro judaísmo. Este fato supremo Tiago não percebera durante a vida e ministério de Jesus. Em sua humildade, Tiago estava reconhecendo sua indignidade de alegar tal relação como um irmão físico. Após sua conversão, Tiago não era um homem orgulhoso; era um escravo (6 o~Xo s) do Senhor Jesus Cristo. Em nenhum lugar, nas saudações das cartas do Novo Testamento, o autor identifica-se como um irmão de Jesus.
O nome, contudo, não é a única razão para se concluir que o Tiago mencionado por Lucas e Paulo escreveu esta carta. A evidência interna identificaria o autor com o discurso de Tiago em Atos 15:13-21, por delicadas semelhanças de pensamento e estilo demasiadamente sutis para serem copiados ou imitados. Há também a mesma semelhança com a carta de Tiago, conforme apresentada em Atos 15:23-30. J.B. Mayor (The Epistle of James — A Epístola de Tiago — p. Iii e ss.) alistou as possíveis ligações entre esta carta e Atos 15, entre as quais as seguintes são em especial interpretadas: A expressão “Ouvi, meus.., irmãos” (Tiago 2:5) é equivalente a “Irmãos, ouvi-me” (At. 15:13). A expressão de Amós 9:12 (“que são chamadas pelo meu nome”) é citada no Novo Testamento somente em Atos 15:17 e Tiago 2:7. A forma de saudação utilizada em Tiago 1:1 também só é de novo encontrada na carta de Atos 15:34 e na carta do oficial romano Lísias a Félix (At. 23:26). O verbo “visitar”, em Tiago 1:27, é também encontrado em Atos 15:14. Outras palavras comuns ao discurso de Tiago e à carta em Atos 15 e à Epístola de Tiago são “guardar-se” (Tiago 1:27; At. 15:29), “converter-se (Tiago 5; 19,20; At. 15:19) e “amados” (Tiago 1:16, 19; 2:5; At. 15:25). Embora alguns destes últimos termos sejam encontrados em outros lugares no Novo Testamento, eles assumem importância porque ocorrem dentro de uma passagem tão curta de Atos e porque não podem ser explicados pelos acidentes normais de fala e escrita.
A evidência interna também produz a conclusão de que esta carta contém mais reminiscências do ensino de Jesus (especialmente do Sermão da Montanha) do que todas as outras cartas apostólicas juntas. Ë óbvio que o autor não está citando de nossos Evangelhos; ele deve ter sido muito achegado a Jesus, para ser capaz de reproduzir tanta coisa do ensino de Jesus de maneira tão independente. Não pode haver defesa de depen­dência literária de um dos Evangelhos escritos (especialmente Mateus) pois, conforme Ropes escreveu (A Critical and Exegetical Commentary on the Epístle of Saint James — Um Comentário Crítico e Exegético Sobre a Epístola de São Tiago — p. 39), Tiago parece ficar mais perto dos homens que colhiam as palavras de Jesus do que daqueles que escreveram os Evangelhos. A penetração de Tiago na relação do ensino de Jesus para com a lei é especialmente evidente e significativo. Jesus não aboliu a lei; ele aprofundou e esclareceu o propósito dela, ao ponto de Tiago poder permanecer fiel pelo resto de sua vida a seus preceitos.
Está claramente manifesto que o autor era judeu. Ele fala de Abraão como “nosso pai” (2:21), chama o lugar de adoração de “sinagoga” (2:2), usa a palavra hebraica “gehenna” (3:6) e uma palavra especial­mente judaica para Deus (“Senhor dos Exércitos” (Sabaoth), em 5:4. O vocabulário é repleto de termos de agricultura e vida doméstica, e sua familiaridade com a Palestina é mostrada nos nomes dos ventos (1:11), as chuvas temporã e serôdía (5:7), o uso dos juramentos e a vida nas sinagogas. O uso do Velho Testamento para finalidades ilustrativas é de maneira comum, fazendo uso de Abraão, Jó, Isaque, Raabe e Elias. A menção de uma figueira (3:12), do adultério espiritual (4:4), dos últimos dias (5:3) e a ordem para alimpar as mãos (4:8), tudo tem um sabor vetero testamentário distinto.
Nenhum dos dados acima é em si conclusivo de que Tiago, o irmão de Jesus, escreveu esta carta; admitidamente isso é cumulativo. Mas o argumento em favor do Tiago de Atos e Gálatas tem peso. Tiago era o líder em Jerusalém e um advogado do cristianismo judaico. Se a carta foi escrita durante a época antes da grande obra missionária de Paulo, Barnabé e outros, ela poderia muito bem representar o tipo primitivo de cristianismo refletido pelo retrato que temos de Tiago em Atos. Este Tiago é o único Tiago que era tão bem conhecido que a única designação de 1:1 era suficiente para identificá-lo de uma vez a seus leitores, e, mesmo se a igreja primitiva foi hesitante em aceitar esta carta no cânon, o único testemunho que temos dos escritores patrísticos é deste Tiago.
Sugestões Alternativas — Há muitos críticos, todavia, que negam que o Tiago de Atos 15 e Gálatas 1:19 escreveu esta carta. Eles fazem várias sugestões, mas basicamente há três. Primeiro, há a sugestão de que outro Tiago foi o autor. Isto foi discutido acima, no que diz respeito ao outro Tiago mencionado no Novo Testamento. Se um dos dois apóstolos com o nome Tiago fosse o autor desta cada, ele teria, provavelmente, incluído a designação “apóstolo” na saudação, como o fizeram Paulo e Pedro. Além disso, nada se sabe do filho de Alfeu nos anos apostólicos, e o filho de Zebedeu foi martirizado cedo demais para ser o autor. Também, não há absolutamente nenhuma tradição patrística em favor do filho de Zebedeu ou do filho de Alfeu. A evidência mais antiga em favor do filho de Zebedeu é do século sete e é localizada na Espanha. Qualquer outro Tiago é obstado como sendo mera conjetura.
Uma segunda sugestão é que a carta é pseudônima; ou seja, a carta foi escrita por alguém que não um Tiago do Novo Testamento, que colocou o nome na saudação a fim de obter aceitação. A razão para esta sugestão é a falta de referências à carta pelos escritores patrísticos anteriores a Origenes. Diz-se que a igreja hesitou em aceitar a carta, porque sabia que não era genuína. Este, contudo, é um argumento proveniente do silêncio e é precário. A referência mais antiga é a de Orígenes, que a aceita como genuína. Uma melhor explicação para seu aparecimento tardio encontra-se no conteúdo. A igreja, através dos primeiros séculos, foi muito evangelística e, após 70 d.C., era quase que exclusivamente gentia. Esta carta teria tido pouco atrativo pa~ra uma igreja evangelístíca, em sua ênfase de ganhar os gentios para o Senhor. Além disso, a carta não tem as características de pseudonímia: da tentativa de identificar-se claramente com a grande figura que é o suposto autor. Nem uma dessas caracte­rísticas pelas quais Tiago, o irmão do Senhor, é conhecido na história e na lenda aparece na carta. A própria simplicidade da saudação e a falta de referências definidas à sua identidade militam contra a sugestão da pseudonímia.
Uma outra razão sugerida pelos críticos, em favor da pseudonímia, é a qualidade do grego usado. O estilo de escrita está entre os melhores no Novo Testamento. Não está no mesmo nível dos escritos de Lucas, nem de Hebreus, 1 Pedro e do Quarto Evangelho, mas é igual, se não superior, a Paulo. Lucas, naturalmente, era um gentio de fala grega altamente instruído. Está evidente que Silvano foi o amanuense para 1 Pedro (5:12), e provavelmente houve um secretário para o Evangelho de João (João 21:24). A autoria de Hebreus foi discutida no capitulo anterior. Contudo, não há absolutamente nenhuma indicação de um amanuense para a Epístola de Tiago. O estilo usado pelo autor é do melhor koinê; não é clássico ou literário (como encontrado em Lucas e 1 Pedro). O raciocínio é que um galileu iletrado de classe inferior, antes de 70 d.C., não poderia ter escrito em grego tão bom (embora limitado no vocabu­lário e repleto de semitísmos), conforme encontrado nesta carta. Todavia, a pesquisa moderna, no uso do grego no mundo antigo, provou que tal posição não mais se mantém. Num estudo exaustivo do problema do uso do grego no primeiro século, por vários povos de diferentes níveis sociais, concluiu que o grego era bem conhecido e amplamente usado em todos os níveis da sociedade e especialmente nas áreas fronteiriças às regiões onde o grego predominante, tal como a Galiléia. Desde 1970, o problema da língua não mais é aceito como uma razão para negar-se a autoria tradicional de Tiago.
Uma terceira sugestão é mais engenhosa. Diz-se que a epístola é um documento judaico mais remoto, com o acréscimo cristão de “Jesus Cristo” na saudação (1:1) e em 2:1. Devido à evidente falta de algo especificamente cristão na carta (exceto as palavras “Jesus Cristo”, em 1:1 e 2:1), foi sugerido, no final do último século e elaborado durante este século, que o documento constitui-se de ensinos morais pseudônimos, baseados numa exegese alegórica de Gênesis 49, a bênção de Jacó sobre seus doze filhos. Como o nome “Tiago” traduz o nome hebraico “Jacó”, sentiu-se que o escritor deliberadamente escolheu este nome para exortar as “doze tribos da dispersão”, assim como Jacó exortou seus filhos no Egito. O significado de cada nome dos filhos é interpretado para dar instruções morais e fazer admoestações aos judeus espalhados no pre­sente. A falácia de tal argumento se dá na determinação da razão por que um interpolador cristão iria usar tal restrição em publicar isto como um documento cristão. Seria lógico tal pessoa incluir muito mais material cristão do que o que é encontrado. Uma vez mais a simplicidade da carta leva à conclusão de que ela é o que se propõe ser: uma carta de Tiago, o líder da comunidade cristã em Jerusalém.
Se, conforme cremos, Tiago, o irmão do Senhor, escreveu esta carta, o terminus ad quem seria o ano de sua morte, 62 d.C. Se a passagem em Tiago• 2:14-26 reflete uma controvérsia com Paulo acerca da fé e obras (cf. Rom. 4; Gál. 3), a escrita teria ocorrido por volta de 55-56 d.C., a ocasião da escrita de Romanos. Contudo, é mais provável que, devido à simplicidade do argumento de Tiago, Gálatas e Romanos foram escritas após Tiago. Tiago não parece estar consciente do problema judaico-cristão; deve ter sido escrita antes da conferência de Jerusalém de Atos 15 e Gálatas 2:1-10. A simplicidade da organização eclesiástica (somente “anciãos” são mencionados em 5:14), o ajuntamento na sinagoga (2:2) e os “muitos mestres” (3:1) refletem um período primitivo no cristianis­mo. Conforme afirmado acima, a epístola é abundante de ensinos de Jesus. Contudo, as referências não parecem ser de fontes escritas, mas do período no qual a tradição estava-se tornando fixa. As perseguições parecem ser mais de natureza econômica, a eterna divergência entre o rico e o pobre (5:1-6), em vez de teológica. A intensa expectação pela volta do Senhor (5:7-9) também aponta para uma data primitiva.
Em suma, a carta definidamente reflete uma época do cristianismo primitivo. Não aparece o problema inquietante das relações judaico-cris­tão, tão prevalecentes nas primeiras cartas de Paulo. Aparentemente, a carta foi escrita antes que o problema estivesse se tornando decisivo. A estratificação por classes, na sinagoga, indica uma época primitiva.
  Os problemas são mais de opressão que de perseguição. O judeu cristão ainda pode adorar lado a lado com o judeu não-cristão. São feitas referências a esmolas, unção com óleo, histórias midrássicas — de midrash, no hebraico — do Velho Testamento, e o uso de termos hebraicos e semíticos, como “Senhor dos Exércitos” (Sabaoth). O templo parece ainda estar de pé, porque não há nenhum asceticismo, nenhum gno~ticismo e nenhuma escatologia desenvolvida. Nenhum dos proble­mas tão prevalecentes no cristianismo posterior estão presentes. Portanto, a carta é, provavelmente, o livro escrito mais antigo de nosso Novo Testamento. A Epístola de Paulo aos Gálatas foi escrita após Atos 15, quando os ganhos na missão gentia começavam a ser decisivos dentro da comunidade judaica. Porque o autor é bem conhecido através da Diáspo­ra, algum tempo deve ter decorrido depois que Tiago emerge como poda-voz da igreja em Jerusalém. Portanto, concluímos que o Tiago de Atos 12:17; 15:13-29 e Gálatas 1:19; 2:9 escreveu de Jerusalém, por volta de 48 d.C.
Tiago endereçou sua cada “às doze tribos que são da Dispersão” (1:1). A palavra “Dispersão” era um termo técnico para os judeus que estavam espalhados pelo mundo gentio. A expressão, “as doze tribos”, era usada pelos judeus corno um sinônimo para expressar a unidade do povo escolhido de Deus (Mat. 19:28; At. 26:7). O termo “Dispersão” ocorre em somente duas outras passagens no Novo Testamento (João 7:35; 1 Ped. 1:1). A referência em João tem o significado comum dos judeus fora da Palestina. A referência em 1 Pedro provavelmente tem uma signifi­cação espiritual de cristãos de qualquer origem nacional. O acréscimo em Tiago 1:1 de “às doze tribos” parece excluir gentios. A ausência de “às doze tribos” em 1 Pedro implicaria um significado espiritual; a presença do termo em Tiago inferiria o oposto.
O tom e conteúdo geral da carta exclui a possibilidade de que ela fora escrita a todos os judeus, tanto crentes como não-crentes. Eles, os leitores, haviam experimentado o milagre da regeneração (1:18), e o autor fala do “bom nome pelo qual sois chamados” (2:7), exorta-os a aguarda­rem pacientemente a “vinda do Senhor” (5:7) e a anteverem a prometida “coroa da vida” do Senhor (1:12). Ë observado, em Atos 2:5-11, que judeus de muitos países estavam presentes em Jerusalém no Pentecostes, quando Pedro pregou seu primeiro sermão. Alguns daqueles teriam estado entre os 3.000 convertidos naquele dia e que haviam retornado ao seu próprio país. Também havia aqueles residentes na Palestina que estavam “dispersos”, pela perseguição que se seguiu à morte de Estêvão (At. 8:1; 11:19). Desta forma, poderia ter havido judeus cristãos na Dispersão numa data remota, a quem esta carta foi endereçada.
Há alguma evidência para se acreditar que os destinatários eram judeus cristãos da Dispersão oriental na Síria, Mesopotâmia, Capadócia, Ponto,
Ásia, etc. Esta área seria primariamente de fala grega, e foi na igreja de fala grega que o testemunho mais antigo a esta carta surgiu. Também Pedro endereçou sua carta às cinco províncias romanas da Ásia Menor, e era conhecido como o “apóstolo aos judeus” (Gál. 2:8). Esta conclusão, todavia, é tênue demais para ser dogmática. O máximo que se pode dizer acerca dos destinatários é que eles eram judeus cristãos que viviam fora da Palestina.
Conforme afirmado acima, a Epístola de Tiago é o livro mais prático do Novo Testamento. O autor escreveu para dar conselho prático e encorajar aqueles que estavam sendo oprimidos. A carta foi escrita para corrigir cedas tendências conhecidas na conduta, para confrontar os cristãos com as responsabilidades da vida cristã. Deve-se observar que nos seus 108 versículos há 54 imperativos, tornando o estilo da carta paranésis (instrução ética e exortação). Foi escrita como literatura de sabedoria derivada de experiência pessoal, não apenas de teoria. Esta cada é um quadro da vida cristã primitiva em meio às mais difíceis condições sociais e num ambiente que não era simpático, se não completamente hostil.
Alguns olharam com suspeita para esta carta por causa de uma evidente falta de instrução teológica cristã. Não há nenhuma discussão doutrinária acerca da morte e ressurreição de Jesus, da justificação pela fé, e Jesus não é apresentado como o supremo exemplo de vida justa. Contudo, há muita coisa acerca do cristianismo que é evidente. Há termos e expressões tais como “Segundo à sua própria vontade, ele nos gerou” (1:18), a palavra em vós implantada” (1:21), “herdeiros do reino” (2:5), e “o bom nome pelo qual sois chamados” (2:7). O autor não esconde sua visão acerca da natureza de Jesus, pois em 1:1, as palavras “do Senhor Jesus Cristo” apontam para seu papel (Cristo), sua função (Jesus: Salva­dor) e sua divindade essencial (Senhor). Através da carta, o termo “Senhor”, por analogia com 1:1 e 2:1, refere-se a Jesus (1:7,12;2:1; 4:10,15; 5:4,7,8,10,11,14,15). Em 2:1 Jesus é o objeto da fé e, assim, da adoração. A carta dá discreto testemunho da divindade de Jesus. Ele é o juiz, que está à porta (5:9), e seu nome é o recurso do cristão, tanto na doença quanto no pecado (5:13-15). Em 2:1, o cristianismo é descrito como crença no “Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória”.
Muitos, seguindo Martinho Lutero, que denominou esta epístola uma “epístola bem desviada”, criticaram esta carta, porque acham que ela contradiz a doutrina paulina da justificação pela fé. Lutero estava emergindo de uma situação na história em que a fé no Senhor Jesus havia-se tornado completamente subjugada às obras. Isto era quase que a mesma situação que Paulo confrontara, e como resultado ele escreveu Gálatas e Romanos. Para Paulo. assim como para Lutero, era um momento para se definir os elementos básicos do cristianismo: fé no Senhor Jesus Cristo.
Mas Tiago escreveu antes da grande controvérsia entre Paulo e os judaizantes, entre a fé e as obras. Tiago não batalhou com Paulo; ele escreveu para contra-atacar a tendência humana para o antinomianismo. Tiago insistiu que a fé deve ser demonstrada pelo viver correto. De fato, o viver incorreto é prova de nenhuma fé (no Senhor Jesus Cristo) ou de uma fé morta (2:14-26). Paulo teve que lutar contra o legalismo judaico: as bases para a salvação; Tiago lutava contra o viver imoral e não-ético. Tiago nada diz acerca das “obras da lei”; ele afirma, sim ,queo fruto da fé deve ser comportamento tanto ético como moral. A fé deve produzir o viver justo, o fruto do Espírito que Paulo relaciona em Gálatas 5:16-26. Paulo e Tiago não estavam combatendo um ao outro. Como um fato, eles representam dois aspectos do cristianismo, opondo-se a diferen­tes inimigos do evangelho.
As pessoas a quem Tiago estava escrevendo não eram desprovidas de ortodoxia. Se elas fossem desprovidas das doutrinas básicas do cristianis­mo, ele teria corrigido isso, e nós teríamos outro livro sobre doutrina. O que ele escreveu foi sobre uma falha no viver diário prático, não teoria. Este livro seria sem valor se ficasse sozinho. Ele não assenta os alicerces da fé cristã (como Paulo e os escritores do evangelho o fazem); mas mostra a necessidade de edificar-se uma vida cristã honesta sobre o alicerce já construído (ver 1 Cor. 3:10-15). As faltas contra as quais Tiago escreveu (fé sem obras, palavras sem atos, censuras, ambição, amor desordenado pelo ensino, dar lugar à riqueza e à posição, tratamento depreciativo dos pobres, cobiça sob a capa de religião) eram e são tipicamente farisaicas. Tiago estava exortando seus leitores a transcende­rem o judaísmo formalístico na prática, corno já o haviam transcendido em sua fé no Senhor Jesus Cristo. Eles haviam aceitado Jesus como o Cristo (Messias); agora, que eles se portem como verdadeiros discípulos do Senhor, não como os discípulos dos fariseus.


ESTRUTURA E CONTEUDO
A Epístola de Tiago, de maneira lógica, divide-se em três seções desi­guais: 1:2-2:26; 3:1-18; 4:1-5:20. O versículo introdutório é a saudação comum da correspondência normal do mundo antigo: o escritor identifica-se, e a seus leitores e os saúda com Xni pe’N (xairein). Não há nenhu­ma saudação formal de encerramento. Também não há nenhuma bênção. O restante da carta é autoritário, mas nem afetado nem altivo. Há 54 imperativos nestes 108 versículos do corpo da carta. O autor escreve e exorta como um pastor, a partir de sua experiência pessoal, para ajudar seus leitores no viver uma vida cristã prática.
O assunto básico da primeira divisão é a verdade contrastada com a hipocrisia ou imitação. Tiago afirma que a realidade na vida cristã é e tem que ser distinta da falsidade ou imitação. Este contraste entre a realidade e a falsidade é visto em quatro aspectos diferentes da vida cristã:
1) tio caráter (1:2-18); 2) na adoração pública (1:19-27); 3) no amor (2:1-13); 4) na fé (2:14-26).
A segunda divisão, 3:1-18, refere-se aos pretensiosos, que querem ser mestres. Tiago afirma que um mestre leva sobre si uma grande respon­sabilidade e um perigo correspondente (3:1-12). O uso da facilidade de falar deve ser guardado em todo o tempo; a língua é difícil de ser controlada, e o único modo de controlar a língua e ser um bom mestre éser capaz de distinguir entre a sabedoria deste mundo (3:13-16) e a verdadeira sabedoria, proveniente de Deus (3:17,18).
A última seção, 4:1-5:20, fala do mundo, que está em oposição a Deus, e como o cristão deve viver nesta comunidade antagônica. Tiago declara que uma pessoa que faz do prazer o alvo da vida está em oposição a Deus (4:1-10). O prazer, como um fim em si mesmo, ocasiona dissenções, brigas civis e guerra (4:1,2), tira a única fonte de verdadeira satisfação na vida (4:3) e é adultério espiritual (4:4). O cristão deve fazer todo esforço para escolher entre Deus e o mal, como o fator controlador da vida (4:5,6). Aquele que verdadeiramente se submete ao Senhor terá alegria real (4:7-10). Há uma diferença, diz o autor, entre a submissão real e a presunção (4:11-5:6). A vida é incerta demais, e o cristão não deve usurpar a prerrogativa de Deus de julgar, planejar o futuro ou oprimir o pobre. Segue (5:7-20) uma exortação para a verdadeira conduta cristã num mundo que passa. Estes versículos são várias exortações à paciência e à indulgência, até a vinda do Senhor (5:7-12), e a atividades dentro da comunidade: oração, louvor, visita aos doentes, confissão dos pecados e restauração dos inconstantes (5:13-20).




Estas três Epístolas Gerais estão agrupadas juntas, para consideração, devido a várias razões. Primeiramente, duas destas cartas levam o nome do mesmo autor: Pedro. Em segundo lugar, existe relação óbvia tal entre II Pedro e a Epístola de Judas que uma deve ter sido muito cônscia da outra. A primeira razão está bem evidente nos versículos introdutórios de 1 e II Pedro. A segunda razão é surpreendentemente observável quando, numa leitura comparativa de II Pedro 2:1-18 e Judas 3-18, está evidente que estas duas passagens são quase idênticas. Estas relações serão discutidas sob o cabeçalho de cada epístola.
Com a possível exceção de 1 João, a Primeira Epístola de Pedro é a mais largamente lida, e melhor conhecida, das sete Epístolas Gerais. Isto pode ser porque 1 Pedro é, de todos os livros do Novo Testamento, o mais fácil de se ler e entender, pois o leitor moderno fácil e rapidamente iden­tifica-se com os primeiros leitores a quem o autor escreveu. 1 Pedro afirma ser uma carta genuína do apóstolo Pedro, escrita aos cristãos na Ãsia Menor, que estavam experimentando tempos difíceis. Este fato foi mantido pela igreja desde os tempos mais remotos. Desde o final do segundo século até recentemente, houve pouca, se alguma, dúvida acerca da genuinidade da carta.
O autor identifica-se como “Pedro, apóstolo de Jesus Cristo” (1:1). Não existe nenhuma razão para se duvidar, pois há evidência externa (bem como interna) antiga e convincente de que o apóstolo Pedro escreveu esta carta. Eusébio colocou esta carta no grupo denominado ‘c4IoXoyodÏl8vct (homologóumena), aqueles escritos cristãos universalmente reconhecidos e aceitos pelas igrejas (H.E., iii, 25,2). Embora Irineu (c.180) tenha sido o primeiro escritor patrístico a citar esta carta e nomear Pedro como o autor (Adv. Haer., IV, ix, 2; IV, xvi, 5; V, vii, 2), existem traços claros de seu uso mesmo por Clemente de Roma em sua carta à igreja em Corinto (c.95). Policarpo (c. 125) citou profusamente de 1 Pedro, e Basílides (c. 130) também fez uso da carta, sem mencionar o nome do autor. Após Irineu, a carta foi freqüentemente citada e atribuída ao apóstolo Pedro, e havia obtido ampla circulação e aceitação; ela foi reconhecida como autoridade nas igrejas. Não está alistada no Cânon Muratoriano (juntamente com 1 João), mas isto se deu provavelmente, devido à condição deteriorada do fragmento (B. F. Westcott, On the Canon of tbe New Testament — Sobre o Cânon do Novo Testamento — p. 216 e s.). A evidência externa em favor da genuinidade de 1 Pedro é tão antiga e tão forte como a de qualquer livro do Novo Testamento (C. Bigg, A Critical and Exegetical Contmentary on the Epistles of St. Peter and St.
Jude — Um Comentário Critico e Exegético Sobre a Epístola de S. Pedro e 5. Judas, p. 15).
EVIDËNCIA INTERNA
O autor claramente se identifica na saudação (1:1) como “Pedro apóstolo de Jesus Cristo”, e afirma (tanto direta como indiretamente) ter sido uma testemunha dos sofrimentos de Jesus (1:8; 2:23, 24; 5:1). O corpo da carta revela muitos ecos e reminiscências dos ensinos de Jesus(I Ped. 2:l2eMat.5:16; IPed. 2:13-17e Mat. 17:24-27; 1 Ped. 2:21 e Mat. 10:38; 1 Ped. 3:14, 4:13 e Mat. 5:10-12), e uma comparação de 1 Pedro cora os discursos de Pedro em Atos (1 Ped. 1:10 e ss. e At. 3:18,24; lPed. l:l7eAt..10:34; IPed. 1:2Oes., 3:2les.eAt. 2:23es.,32es., 36; 1 Ped. 4:14,16 e At. 3:6,16, 4:10,12, 5:41, 10:31) demonstra semelhanças de pensamento e fraseologia. (Para obter uma lista exaustiva, ver E.G. Selwyn, The First Epístle of Peter — A Primeira Epístola de Pedro —p. 33-36.) Além disso, o tom não afetado e a presumida autoridade do escritor, na epístola, recomenda a veracidade da saudação.
Com o surgimento do ceticismo durante os séculos dezoito e dezenove, a genuinidade desta epístola foi posta em dúvida. A chamada disciplina
Tendenzkritik, conforme promulgada por F.C. Baur (1792-1860), e a Escola de Tübingen, concluíram que a carta foi escrita no segundo século, numa tentativa de ocultar as diferenças teológicas entre os métodos paulino e petrino de interpretação de Jesus Cristo e da Igreja. Embora as premissas básicas da Escola de Tübíngen tenham sido corretamente repudiadas, muitos estudiosos modernos ainda usam algumas das con­clusões dessa escrita para negar a autoria petrina de 1 Pedro. As princi­pais objeções à genuinidade desta carta são as seguintes: 1) Falta de referências ao ministério de Jesus, que não sua morte e ressurreição; 2) es­tilo extremamente bom de grego; 3) perseguição refletida na carta; e 4) afinidades entre esta epístola e a teologia paulina (paulinismo).
E afirmado, pelos que objetam à autoridade, que, se esta epístola houvesse sido escrita por associado tão íntimo de Jesus como Simão Pedro, deveriam ser esperadas referências a essa associação. Poderia um discí­pulo de Jesus escrever somente acerca da morte e ressurreição do Senhor Jesus Cristo, sem referir-se aos seus ensinos e ministério? Ambas estas perguntas são altamente subjetivas e refletem uma abordagem tendencio­sa da crítica aos documentos do Novo Testamento. O peso da primeira pergunta perde muito de sua força, quando só observa que muitos destes mesmos críticos questionam a genuinidade da Segunda Epístola de Pedro, precisamente porque ela contém reminiscências daquela associação. Em qualquer caso, a própria reserva do escritor em declarar explícitamente essa relação íntima, argumenta fortemente contra a pseudonímia. A segunda pergunta reflete uma influência preconcebida no método ou uma inconsciência acerca das alusões aos ensinos de Jesus que já foram mencionados num parágrafo acima. Além disso, o propósito do autor não foi escrever suas memórias. Foi enfatizar as implicações práticas, éticas e sociais do Senhor ressurrecto (através de sua morte e ressurreição), na situação de vida em que um crente pode encontrar-se neste mundo. Isto deve-se especialmente ver em tempos de sofrimento e perseguição, e o sofrimento e morte de Jesus são exemplos, para o cristão, de fidelidade a Deus e à causa da justiça durante os tempos de perseguição e sofrimento (1 Ped. 2:20-24; 3:13-22).
Uma objeção mais séria à autoria petrina é a da linguagem. 1 Pedro foi escrita num estilo grego muito bom. Seria possível um pescador galileu, não-douto, escrever neste grego excelente? Foi sugerido, no Capítulo XVII (A Epístola de Tiago) que era possível tal ter acontecido (Ver J.N. Se­venstei-, Do You Know Greek? — Você Conhece Grego? — e A.W.
Argyle, Greek Among the Jews of Palestine” O Grego Entre os Judeus da Palestina). Clemente de Alexandria infere que Pedro pregou em Roma sem o auxílio de um intérprete, e o fez muito bem (J.A.T. Robinson, Redating the New Testament — Redatação do Novo Testamento — p. 108 e s., 167). Robinson levanta a pergunta sobre se Pedro poderia ter tido tão grande influência em Antioquia e Roma, se ele não fosse fluente em grego (op. cit., p. 167). Mesmo se admitindo ser improvável que Pedro poderia ter usado grego tão excelente, o papel de Silvano deve ser considerado na composição desta carta. O autor explicí­tamente declara: “Por Silvano.., escrevo...” (1 Ped. 5:12). Embora muitos criticos argumentem que Silvano foi apenas o portador desta carta, a simples leitura destas palavras demonstra que Silvano teve urna parte importante em sua composição. Silvano, a forma mais extensa de ‘Sílas” (cf. 1 Tess. 1:1), foi um companheiro de Paulo na chamada Segunda Viagem Missionária. Silvano (Suas), juntamente com um certo Judas, ajudou na escrita da carta da Conferência de Jerusalém, que devia ser lida em igrejas de fala grega (At. 15:23). Ë também lembrado que Silvano era um cidadão romano (At. 16:37), exatamente corno Paulo. Este fato, jun­tamente com a carta de Atos 15:27, indicaria a facilidade de Silvano quanto à língua grega. Se Pedro não podia ter usado bem o grego (e isto não está firmemente confirmado) e desejasse enviar urna carta a igrejas de fala grega, ele poderia ter ditado urna carta em aramaico para Silvano, que então a traduziria para o grego. Por outro lado, Pedro poderia ter escrito a carta em seu próprio estilo de grego, e Silvano então a ter “retocado”, para um grego excelente. Seja qual for o caso, 1 Pedro 5:12 sugere que Silvano foi o amanuense, que desempenhou um papel muito maior que simplesmente o de portador da carta.
Deve ser observado também que urna pessoa, escrevendo a um grupo de pessoas que usava outra língua, provavelmente iria usar a Bíblia familiar àquele grupo. O Velho Testamento do mundo de fala grega era a Septua­grnta (LXX), não o texto hebraico ou massorético, e o texto usado em 1 Pedro é da LXX. O autor, escrevendo a pessoas de fala grega, logica­mente iria usar a LXX de seus leitores, e não fazer uma tradução rápida de um texto de uma língua diferente.
Ë afirmado, pelos opositores da genuinídade desta epístola, que as perseguições mencionadas refletem urna época do final do primeiro século ou começo do segundo. O próprio uso da misteriosa “Babilônia” (5:13), sugere-se, significa que uma perseguição governamental oficial eslava a caminho. Alguma correspondência (escrita por volta de 112), entre Plinio, o Moço (governador romano da província de Bitínia-Ponto) e o imperador Trajano (98-117), acerca de como lidar com cristãos, parece estreitamente paralela a 1 Pedro 4:14-16. Mas deve-se observar que nada há, em 1 Pedro, que indique tortura e morte, como nessa correspondência. A perseguição, conforme refletida em 1 Pedro, parece ser mais de natureza pessoal e geral, entre vizinhos ressentidos (tal como era comum em muitas comunidades do mundo daquele tempo), ao invés de ação governamental refletida na carta de Plínío e no Apocalipse. As tendências separatistas dos cristãos, em recusarem-se a continuar (após a conversão) participando em práticas pagãs, as suspeitas, pelos pagãos, acerca da natureza e motivos dos argumentos cristãos (Ver Atenágoras, Legatio pro Chrístianis, iii, e Tácito, Annales, xv, 44) e as alegações aparentemente autojustificadas de um melhor caminho (1:18; 2:12-16; 3:9-16; 4:1-4) inflamariam a comunidade pagã contra o movimento cristão. Se a perse­guição fosse oficial, como nos últimos anos de Nero (64-68), de Domí­ciano (90-96) e de Trajano (110-117), seria difícil explicar-se a ligação positiva e não qualificada de “reverenciar a Deus” e “honrar o impe­rador”, em 1 Pedro 2:17. Simplesmente não há evidência clara de perseguição aberta pelo Estado nas províncias às quais a carta fora endereçada. A única época em que isto poderia ter ocorrido foi durante, antes ou no início da perseguição nerônica (depois de 64 d.C,). O estado de intensa perseguição que levaria à morte é muito mais de predição, em 1 Pedro, do que real (4:12-14).
Os opositores à genuinidade de 1 Pedro, colocam mais um argumento, dizendo que há “paulinismo” demasiado para a epístola ter sido pro­veniente da mão de Pedro. Ë alegado que a teologia de Pedro era basicamente cristianismo judaico, e a de Paulo era cristianismo gentio, e as duas eram irreconciliáveis. Porque há tão pouco ‘cristianismo judaico’ refletido em 1 Pedro e tanto ‘cristianismo gentio’, deve-se concluir, dizem os oponentes da autoria petrina, que esta carta teve que ser escrita numa época muito posterior à morte de Pedro. Ë assinalado que questões tais como interesses litúrgicos (1 Ped. 1:3-12 e Ef. 1:3-14), submissão ao Estado (1 Ped. 2:13-17 e Rom. 13:1-7), exortações para sofrer por Cristo (1 Ped. 4:13; 5:1 e Rom. 8:17; II Cor. 1:5-7; Fil. 1:29), e deveres do lar (1 Ped. 2:18-3:7 e Ef. 5:22-6:9; Col. 3:18-4:1), apontam para uma dependência literária de 1 Pedro das cartas paulinas. E.G. Selwyn (lhe First Epistle of Peter — A Primeira Epístola de Pedro — p. 265-369) provou conclusivamente que a dependência literária é improvável e os paralelos podem ser ser explicados pelo acesso, tanto de Paulo quanto de Pedro, à tradição comum dos materiais litúrgicos e catequéticos. Muito é considerado, pelos críticos, das palavras de Paulo, acerca da posição de Pedro em Antioquía, após a Conferência de Jerusalém (Gál. 2:11-14), como refletindo diferentes posições teológícas. Contudo, em nenhum lugar, em Atos nem nas cartas de Paulo (exceto pelo lapso desconcer­tante em Antioquia), se acha uma diferença fundamental (conforme alegado pela Escola de Tübingen e ainda perpetuado por vários estudio­sos) entre Pedro e Paulo. Ë verdade que o desenvolvimento de Pedro em captar a significação da universalidade do evangelho foi gradual (confor­me visto em Atos 1-11) e o de Paulo foi mais rápido (At. 9:1-29); mas a defesa, por parte de Pedro, do ministério de Paulo aos gentios (At. 15:7-1 1), claramente revela que não há diferença teolôgica ente os dois. Além disso, se Silvano teve uma participação na composição (mais que simplesmente a forma final) de 1 Pedro, os anos que passou com Paulo poderiam explicar algumas das palavras e expressões (bem como idéias) paulinas típicas. E arriscado, todavia, colocar demasiada confiança nesta teoria. Não há informação bastante disponível para identificar Silvano como muito mais que um secretário; identificá-lo como redator final vai além da informação clara de que dispomos. Os estudiosos modernos estão reconhecendo mais e mais a contribuição de Pedro para a teologia do Novo Testamento, e a maior parte dessa informação provém desta carta.
Como o sobrepujante testemunho dos escritores patrístícos e a auto-identificação do autor como sendo Pedro, deve-se concluir que a carta égenuína. A evidência que vem da carta e dos tempos mais remotos apontam para esta conclusão. A carga de prova está com aqueles que negam a autoria petrina; o peso de evidência claramente aponta para o apóstolo Pedro como o autor. Todas as objeções à autoria petrina são negativas, e a evidência positiva foi suficientemente forte para influenciar os estudiosos liberais em favor de Pedro como autor.
A autoria de 1 Pedro é uma parte integrante do problema da data e local de composição. Se a autoria petrina é negada, a carta poderia ter sido escrita em qualquer momento antes do claro testemunho de Papias acerca de sua existência (e. 125). Se, por outro lado, ela é uma carta genuína de Pedro, a data teria que ser alguma ocasião antes de sua morte em Roma (65-68 d.C.). Os vários períodos de perseguição foram discuti­dos acima, e, como resultado da falta de qualquer evidência de persegui­çao oficial do estado nas províncias, foi concluído que a perseguição durante a época de Trajano (começo do segundo século) e Domiciano (final do primeiro século) deve ser abandonada. Concluímos que Pedro de fato escreveu esta carta; portanto, ela teve que ser escrita antes de sua morte. Se pode ser substanciado que Pedro também escreveu a Segunda Epístola de Pedro, a data é anterior para 1 Pedro.
A referência a “Babilônia”, em 1 Pedro 5:13 é de importância tanto para o local quanto para a data de escrita, Duas interpretações são empregadas aqui; uma terceira identificação como sendo uma “Babilô­nia” próxima a Suez, no Egito, é rejeitada como insignificante demais para merecer consideração. Na primeira interpretação, alguns estudiosos identificam a referência (1 Ped, 5:13) com a Babilônia literal, do rio Eufrates. Embora a cidade estivesse em ruínas, urna colônia de judeus ainda vivia na área, e Pedro era conhecido como o “apóstolo de circuncisão” (Gál. 2:7). Esta identificação, contudo, é precária, porque a área estava quase abandonada pelos judeus do primeiro século. Também não há absolutamente qualquer tradição acerca de um ministério de Pedro naquela área.
A segunda interpretação de “Babilônia” vê isto como um símbolo oculto para Roma. Da literatura do primeiro e segundo séculos (tanto cristã como judaica), vê-se que Babilônia tornou-se o nome simbólico para poder mundial arrogante e idolatria ligada com uma religião estatal (Apoc. 16:19; 17:18; 18:2,10; Oráculos Sibilinos, V, 143, 152; Baruque ix, 1): Roma. Além disso, os pais da igreja primitiva e a tradição colocam Pedro em Roma em torno da época da morte de Paulo. A menção de Marcos como estando presente com Pedro (1 Ped. 5:13) e o pedido de Paulo a Timóteo para trazer Marcos consigo para Roma (II Tim. 4:11), após tê-lo (Marcos) enviado, numa viagem à Ásia Menor (Col. 4:10), faria sentido se Roma é o local, a Babilônia de Pedro. A presença de Pedro, Marcos e Silvano juntos em Roma é muito mais fácil de se entender que na Babilônia que está localizada no Eufrates. Ë também visto que Pedro de fato teve um ministério no movimento evangelizador ocidental do cristianismo (1 Cor. 1:12 e ss; 9:5). Além disso, um mensageiro que viajasse de Roma para as províncias mencionadas em 1 Pedro 1:1 naturalmente iria entrar nessa área através de um porto em Ponto, mover-se-ia para o oeste, através de cada província, na ordem mencio­nada, e finalmente para outro porto, em Bitinía, para retorno a Roma (cf. Cullmann, Peter: Diseiple, Ãpostle, Martyr, p. 89-152, para uma defesa muito completa e lógica desta posição). Mas por que um nome simbólico? Se a perseguição nerônica já estivesse se processando, a natureza suspeitosa dos pagãos seria a razão para evitar-se inflamar o fogo dessa suspeita.
A identificação de “Babilônia” como Roma conduz à época da escrita. Quando Paulo escreveu a Epístola aos Romanos (55-56 d.C.), é bem evidente, dos capítulos 15 e 16, que Pedro ainda não havia estado em Roma. O mesmo é verdadeiro acerca da época da escrita das Epístolas da Prisão (durante o primeiro encarceramento romano). Como não existe menção de Pedro em II Tímóteo, deve-se presumir que Pedro ou não estava em Roma naquela ocasião (64-65) ou então Paulo não quis identificar Pedro durante uma época de perseguição (o que poderia levar à morte de Pedro). Por outro lado, a não menção de Paulo em 1 Pedro indicaria que Paulo ainda não havia chegado para o segundo encarcera­mento romano ou já havia sido martirizado. Dificilmente é concebível que um não teria mencionado o outro, se ambos estivessem presentes na mesma ocasião, na mesma cidade. Por esta razão, alguns estudiosos insistem que 1 Pedro foi escrita depois do primeiro encarceramento romano de Paulo (e, assim, depois das Epístolas da Prisão) e antes de seu segundo encarceramento (e II Timóteo). Para se apoiar esta conclusão, assinala-se que o tipo de perseguição mencionada em 1 Pedro presta-se mais à época imediatamente antes da perseguição nerônica, do que durante ela. Se isto é verdadeiro, então uma data de 63-64 d.C. seria a ocasião da escrita desta epístola.
Outros estudiosos concluem, contudo, que a carta é um pouco posterior a isto. A perseguição nerônica foi principalmente limitada a Roma e Itália, pois não há nenhuma evidência concreta de que as perseguições de cristãos estendeu-se a outras províncias. As perseguições que os cristãos provincianos estiveram sofrendo eram mais de pressões por parte da comunidade; uma perseguição mais grave estava sobrevindo. Talvez Pedro, sabendo da fúria da perseguição em Roma, tenha escrito às províncias para adverti-los da “ardente prova” (1 Ped. 4:12) que em breve viria sobre eles, uma extensão da perseguição nerônica nas províncias. Isto, naturalmente, é conjetura, mas é razoável. Se isto for verdadeiro, então 1 Pedro foi escrita após a morte de Paulo (64-65 d.C.) e antes da escrita de 11 Pedro e a morte de Pedro, que ocorreu em alguma ocasião entre 65 e 68 d.C.
Com a evidên eia disponível, é impossível fixar-se exatamente a data da escrita. E melhor concluir-se que a carta foi escrita em algum lugar por volta do início da perseguição nerônica. Para aqueles que acham que a admoestação para obedecer-se às autoridades civis (1 Ped. 2:13-17) não seria apropriada após o início da perseguição estatal, uma data por volta de 63-64 serviria. Para aqueles que acham que a perseguição é a da época de Nero, 65-66 d.C. aplicar-se-ia. Portanto, podemos concluir que 1 Pedro foi escrita de Roma entre 63 e 66 de.
O versículo introdutório declara que a carta é endereçada a cristãos em Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bítínia (1:1); portanto, deve-se concluir que a carta foi escrita a um grupo específico de cristãos espalhados por uma área ampla. E uma carta circular, muito parecida com a Epístola de Paulo aos Gálatas. Esses cristãos estiveram sob pressões continuas (1:6,7), o que era comum a todos os cristãos em todo lugar (5:9). Eles haviam sofrido e sofreriam ainda mais (4:12). Pedro escreveu para encorajá-los em meio a seus problemas, lembrando-lhes de sua “viva esperança” (1:3), que é uma fé em Deus, cujos propósitos são conhecidos em Crísto (1:21). “Esperança” é a palavra-chave desta carta (1:3, 13, 21; 3:5, 15), e Pedro exorta seus leitores a viverem de tal maneira a tornar esta esperança atraente a outros da sociedade pagã em que viviam (1:13,18; 2:11,16). Em face da hostilidade, o cristão deve ser paciente e cortês, sabendo que ele está sofrendo por amor à justiça e não por estar fazendo algo errado (3:8-17). Pedro declara seu propósito como “exortação” (5:12), e a carta está repleta de conselhos práticos para ajudar nas relações sociais do dia-a-dia (2:13-3:17).
Porque os sofrimentos e perseguições que seus leitores estavam exp cri­mentando eram mais um tipo local de opressão do que uma política oficial do Estado (que parece estar ao largo), as exortações à resistência paciente (2:20) durante o sofrimento (4:19; 5:8-11) devem ser vistas como sendo conhecidas por Deus e estando sob seu controle (4:19); ele molda o destino daqueles que elegeu (1:15), e os sustém através do sofrimento (5:6,7); ele o permite para prová-los, e os vindicará eternamente (1:3-9, 13; 4:8; 5:10). Eles devem tomar como padrão para suas vidas o sofrimento do Senhor Jesus Cristo, que sofreu e morreu por amor à justiça e foi vindicado pelo Pai (2:18-24; 3:13-22).
ESTRUTURA E CONTEÜDO
Estrutura — E óbvio que a 1 Pedro canônica é complexa em sua análise. Ela começa (1:1,2) e termina (5:12-14) como uma carta; mas os aspectos normais da forma epistolar (referências a lugares e pessoas) não aparecem na seção extensiva de 1:3-5:11. Também, a doxologia em 4:11 pareceria ser o final de um documento. Por esta razão, várias sugestões são feitas quanto à unidade da epístola inteira. Foi sugerido, por vários estudiosos, que 1:1,2 e 4:12-5:14 formam a carta original, com um documento de “liturgia batismal” (1:3-4:11), inserido em alguma época mais tarde. Embora o batismo seja mencionado uma vez somente (3:21) e possivel­mente implicado uma vez (1:22,23), existem, diz-se, sobretons batismais através da carta. Preisker (H. Windisch e H. Preísker, Die Katholischen Briefe — As Cartas Católicas — p. 156 e s.) sugere que 1:3-4:11 é um relato real de um culto batismal com sua liturgia. Há uma oração (1:3-12), instruções aos candidatos (1:13-21), exortações acompanhando o batismo real (1:22-25), um hino (2:1-10), outras exortações aos recém-batizados (2:11-3:12), uma mensagem apocalíptica (3:13-4:7) e uma oração de encerramento (4:7-11).
Esta sugestão parece convincente, mas não pode ser sustentada. E.G.
Selwyn (lhe Background of lhe New Testament and its Eschatology —Fundo Histórico do Novo Testamento e sua Escatologia — 1956, p. 394-5) assinalou, acertadamente, que o aspecto batismal da carta é mais periférico ao tema principal de sofrimento e esperança do que um tópico principal. Através de toda a carta, o fundo histórico é de sofrimento e perseguição. A doxologia em 4:11 não é mais estranha ou fora de lugar do que a encontrada em muitas das cartas de Paulo (cf. Rom. 11:36; 15:33; Gál. 1:5; Ef. 3:2; 1 um. 1:17). Não há evidência suficiente para se acreditar que 1 Pedro não é uma carta genuína. O fato de que ela contém material cultual ou catequético não destrói sua unidade ou forma epistolar, pois as cartas de Paulo dão ampla evidência e precedência para inclusão de materiais preexistentes. Pode bem ser que o escritor pretendia terminar em 4:11 e depois decidiu dar um breve sumário do que já havia escrito. A ausência de referências a lugares e pessoas no corpo (1:3-5:12) é devida à natureza circular da carta. Esta epístola pode ser interpretada como uma unidade, e assim deve ela ser. Não há nenhuma razão real para se negar sua integridade como ela chegou a nos.
Conteúdos — Fora os versículos introdutórios (1:1,2) e conclusórios (5:12-14), o corpo da epístola pode ser dividido em três partes: 1) A Sal­vação: a chamada do crente (1:3-2:10); Submissão: a conduta do crente na sociedade (2:11-3:12); o Sofrimento: o disciplinamento do crente (3:13-5:11). Naturalmente, deve ser observado que os temas gêmeos do sofrimento e esperança estão presentes através destas divisões; mas, cada uma tem sua ênfase particular em sua relação a estas idéias gêmeas. Os versículos introdutórios identificam o autor, os leitores, e contêm as saudaçoes usuais.
A primeira divisão (1:3-2:10) fala da chamada do crente, por Deus, à salvação, como uma esperança futura (1:3-5), um gozo presente (1:6-9) e o tema da profecia do Velho Testamento (1:10-12). Esta chamada para dentro da herança de Deus implica certos deveres de conduta em que um crente deve viver em relação a si mesmo (1:13-21) e para com a sociedade (1:22-25). Os aspectos práticos da salvação mostram sua presença no crescimento pessoal em santidade como um corpo (2:1-3) e o crescimento coletivo em santidade dentro da comunidade cristã como um edifício (2:4-10). Pode ser que estes dez versículos sejam parte de um hino cristão antigo.
A segunda divisão mostra a maneira pela qual um crente deve viver diariamente na sociedade. Isto é visto sob o aspecto da submissão. Embora o crente viva numa sociedade pagã, deve disciplinar-se perante Deus de tal maneira que o pagão veja que ele é diferente (2:11,12). O crente deve estar submisso à autoridade constituída (2: 13,14), a fim de promover um clima que conduza à justiça (2:15-17). O crente simples­mente não pode ser um anarquista. Um espírito submisso deve ser observado nas relações industriais (2:18-25), familiares (3:1-7) e na igreja (3:8-12). Deve haver uma unidade de espírito, que só pode ser produzida atraves da humildade e submissão.
A terceira divisão explica a necessidade da disciplina cristã que, numa sociedade pagã, resultará no sofrimento pela justiça. Há três áreas desta disciplina: numa sociedade pagã (3:13-4:6), na comunidade cristã (4:7-5:7), e nos lugares celestiais (espirituais) (5:8-11). O crente que se disci­plina dentro da vontade de Deus deve esperar sofrer num mundo pagão (3:13-17). Ele sofrerá por causa de sua vida reta, assim como Cristo também sofreu (3:18-22). O propósito da disciplina cristã é tornar a pessoa capaz de discernir e executar a vontade de Deus e ter o poder e percepção para rejeitar os desejos carnais dos homens (4:1-6). Cada pessoa deverá dar conta a Deus por seus atos. Dentro da comunidade cristã o crente deve praticar a disciplina de vida santa, a fim de ter a verdadeira comunhão (4:7-11), firmeza em circunstâncias particularmente dificeis (4:12-19) e fidelidade para cumprir as tarefas que Deus lhe dá para executar (5:1-7). A disciplina também é necessária para se vencer as forças do Diabo e do mundo invisível (5:8-11). O sofrimento vem e virá ao crente; a disciplina dentro da vontade de Deus ajuda a discernir melhor essa vontade e a entender um pouco o propósito do sofrimento. Os versí­culos finais (5:12-14) contém as saudações finais, mencionando Silvano e Marcos, e a bênção.
II— SEGUNDA EPÍSTOLA DE PEDRO
De todos os livros do Novo Testamento, a Segunda Epístola de Pedro é aquela cuja autenticidade é mais debatida pelos estudiosos modernos. II Pedro é dita ser a carta com a mais fraca atestação entre os escritores antigos e a mais desacreditada, entre os estudiosos modernos, de qualquer livro do cânon. Apesar das suas alegações próprias quanto à genuinidade, a maioria dos estudiosos modernos considera esta carta como sendo pseudo-epigráfica no máximo. Diz-se que a epístola era praticamente desconhecida antes do terceiro século e foi rejeitada como ilegítima por vários escritores patrísticos. Além disso, por causa da aceitação geral de 1 Pedro, há grande dúvida se as duas cartas poderiam ter vindo do mesmo autor, devido a diferenças estilísticas. Além destas duas razões, está a inegável relação existente entre esta carta e a Epístola de Judas. Deve-se admitir que o problema é complexo e deve ser tratado cuidadosa­mente. Contudo, deve-se afirmar que a autenticidade de II Pedro encontra-se em seus próprios méritos e não depende dos méritos de outros escritos canônicos.
AUTORIA
EVIDtNCIA EXTERNA
A primeira referência não-ambígua a II Pedro é encontrada num comentário sobre João 5:3 de Orígenes (185-254 d.C.). Embora Orígenes tenha declarado que Pedro deixou uma carta não reconhecida (1 Pedro canônica), uma segunda levava seu nome (LI Pedro), a qual era discutida. Eusébio citou Orígenes como tendo dito: “Pedro deixou uma epístola não contestada e talvez uma segunda, mas esta é contestada (H.E., VI, xxv, 8). Não há nenhuma explicação dada por Orígenes para as dúvidas, mas ele cita II Pedro seis vezes sendo escritura autorizada. Um manus­crito de papiro do terceiro século, encontrado no Egito, Papiro Bodmer VII e VIII (P72), contém 1 e II Pedro e Judas, e a natureza mista do texto indica um considerável uso destas cartas no Egito antes de terem sido escritas neste manuscrito. Eusébio (H.E. VI, xiv, 1) e Fôcio (Cod. 109) afirmam que as Versões Cópticas Sahidica (final do segundo século) Boháirica (quarto século) do Novo Testamento continham LI Pedro e que Clemente, de Alexandria, tendo II Pedro em sua Bíblia, escreveu um comentário sobre esta carta. O “Apocalipse de Pedro” pseudo-epígráfico (e. 150) contém alguns paralelos a II Pedro 1:12-18), e há possíveis alusões (embora não provadas) encontradas em 1 Clemente (c. 95), Inácio (c.115), Valeritino (130), Aristides (130), II Clemente (140), Hermas (140), Didaquê (c.150), Justino Mártir (150), Hipólito (180) e Irineu (c.180). Estas alusões, contudo, não são concretas o bastante para provar um conhecimento de II Pedro; mas isto não pode, tampouco, ser conclusiva­mente negado.
Negativamente, o Cânon Muratoriano (c. 170) não alista II Pedro, mas tampouco alista a 1 Pedro, universalmente aceita. Isto pode ser devido à condição do fragmento mutilado que resta. Contudo, há um parágrafo, neste fragmento, que menciona livros ilegítimos, e 1 e II Pedro não estão incluídos entre eles. Pode ser que estas duas cartas fossem desconhecidas ao compilador da lista. Naturalmente, o cânon de Marcião não conteria nenhuma destas cartas de Pedro, porque ele rejeitou tudo, a não ser uma cópia mutilada de Lucas e dez cartas de Paulo. Eusébio (e. 325) colocou II Pedro na segunda, antilegómena) de suas três cate­gorias de literatura cristã: universalmente aceitas, contestadas e rejeitadas como ilegítimas (H.E., III, xxv, 3). Nesta segunda categoria, Eusébio indicou os livros que eram conhecidos pela maioria das igrejas, mas que ainda eram mantidos sob contestação por alguns escritores cristãos (Tia­go, II Pedro, II e III João, Apocalipse). Um pouco mais tarde, Jerônimo disse que a razão para contestar-se Ii Pedro (que ele aceitava como genuína) era devido à diferença de estilo entre as duas cartas petrinas (Ep. ad Hedibia, cxx), e ele sugere como explicação para esta diferença o uso, por Pedro de um amanuense diferente para II Pedro.
Uma razão para a hesitação da igreja em aceitar II Pedro pode ser devido ao número dos livros pseudo-epígráficos antigos que foram atribuí-dos a Pedro. “O Evangelho de Pedro”, “A Pregação de Pedro”, “Os Atos de Pedro” e “O Apocalipse de Pedro”, todos alegam terem sido escritos pelo apóstolo. Todos foram evidentes falsificações, e a igreja acertada­mente rejeitou-os como espúrios. Ela se moveu com precaução em aceitar nossa II Pedro canônica, porque, embora ela claramente fosse apostólica em seu conteúdo, quanto ao estilo, diferia mui grandemente de 1 Pedro, um livro já aceito como sendo desse apóstolo. Além disso, II Pedro pode ter tido uma circulação limitada durante os dois primeiros séculos de sua existência, o que teria contribuído para a ignorância dela por parte dos escritores patrísticos mais antigos. A. Vansittart (Journal of Philology - Revista de Filologia — LII, 1871, p. 357-9) acha que a carta deve ter existido por algum tempo como uma única cópia, o que explicaria a condição deteriorada do texto mais antigo e seu uso restrito pelos escritores do segundo século. Depois de Atanásio (367), II Pedro teve um lugar seguro no cânon até a Reforma. O Concílio de Hipona (393) e o Terceiro Concílio de Cartago (397) afirmaram sua autenticidade. Erasmo rejeitou esta epístola, Lutero considerou-a superfialmente, e Calvino hesitou em usá-la como canônica. Desde a Reforma, e especial­mente depois de F.C. Baur, a validade foi contestada mui fortemente.
A evidêntia externa da igreja primitiva, embora escassa, é suficiente para concluir que os escritores patristicos conheceram e aceitaram esta carta como genuína. Remonte até onde remontar o testemunho, o nome de Pedro está ligado à carta, mas sempre com alguma menção de incerteza ou dúvida quanto à autoria. Não há nenhuma evidência concreta, contudo, de que ela foi claramente rejeitada como sendo espúria antes do quarto século. Dionisio de Alexandria (395) não a considerou como autêntica, contudo, ele escreveu um comentário sobre ela e atestou sua larga aceitação pelos escritores patrísticos. A aceitação desta carta pela igreja primitiva é tanto antiga como considerável para uma carta de seu tamanho, embora ela fosse desconhecida em muitos lugares. Se tivéssemos somente a evidência externa para julgar a genuinidade de II Pedro, a teríamos aceito pelo que ela alega ser, uma carta do apóstolo Pedro.
A evidência interna, à primeira leitura, apóia a autenticidade da alegação de autoria petrina. O autor alega ser “Simão Pedro, servo e apóstolo de Jesus Cristo” (1:1) - O anúncio de que “brevemente hei de deixar este meu tabernáculo, assim como nosso Senhor Jesus Cristo já mo revelou” (1:14) está de acordo com a predição de morte violenta apre­sentada em João 21:18. A afirmação do autor de ter estado presente na Transfiguração (1:16-18) concorda, no conteúdo, com as narrativas da experiência conforme registradas nos Evangelhos, mas não no vocabulá­rio, exceto pelas palavras “êxodo” e “tabernáculo” (Mar. 9:2-8; Mat. 17:1-8; Luc. 9:28-36). Duas vezes ele se identifica como um apóstolo (1:1; 3:2), e refere-se a Paulo como “nosso amado irmão” (3:15), o que teria sido apropriado somente da parte de alguém que conhecia Paulo pessoalmente e como a um igual a si. A alegação do autor é de que ele é o apóstolo Pedro.
Mediante uma leitura mais cuidadosa, todavia, surgem problemas que a princípio não são aparentes. Estes problemas vêm à luz num estudo comparativo desta carta com 1 Pedro e com a Epístola de Judas. Estes problemas são tais que têm uma influência direta sobre a autenticidade de todas as três cartas.
Muito foi escrito acerca das diferenças entre as duas cartas canônicas atribuidas ao apóstolo Pedro. Estas diferenças são tão grandes, foi dito, que é impossível que o mesmo autor pudesse ter escrito ambas, e nenhuma teoria de amanuense pode explicar estas diferenças radicais. Elas encon­tram-se em duas áreas: 1) Na linguagem; e 2) no conteúdo. O problema da linguagem tem a ver com o estilo e o vocabulário. O problema do conteúdo tem a ver com o pensamento e a doutrina.
1. Linguagem — Os comentários mais antigos fizeram muita coisa acerca das diferenças de vocabulário, gramática e estilo das duas epísto­las. Contudo, está sendo reconhecido por mais e mais estudiosos, de ambos os lados da questão, que as diferenças não são tão grandes quanto uma vez pensadas serem. É verdade que o estilo de I Pedro está em excelente grego, enquanto o de II Pedro é mais afetado e inferior. Isto pode ser explicado, talvez, conforme Jerônimo sugeriu, pelo uso de um amanuense por 1 Pedro (1 Ped. 5:12). Na ausência de um versículo semelhante em II Pedro, muitos crêem que o próprio apóstolo escreveu esta carta e não usou um secretário. Há várias expressões aramaicas, nesta carta, que indicam que o escritor estava mais à vontade nesse idioma do que no grego. E. F. Harrison (Introduction to New Testament —Introdução ao Novo Testamento — p. 416 e s.) escreve que isto poderia ser porque o escritor começou a aprender grego tardiamente. Além disso, E.M.B. Green (lhe Second Epistle of Peter and the Epistle of Jude —A Segunda Epístola de Pedro e a Epístola de Judas — p. 18) mostrou que a epístola apresenta um estilo asiático definido, com um tipo de dicção florido, verboso, inclinando-se para o bizarro, que era um grito distante dos cânons da simplicidade clássica” - Desta forma, por causa do con­teúdo, o estilo não deve ser considerado tão remarcante, tanto o estilo como a dicção pertencem ao tipo de gênero literário que pode ser visto na despedida de Moisés em Deuteronômio e o adeus de Paulo em II Timóteo.
Uma investigação das diferenças no vocabulário é interessante, mas falha em ser conclusiva em rejeitar seja 1 ou II Pedro como espúrias. Das 543 palavras contidas em 1 Pedro, 63 não são encontradas em nenhum lugar mais no Novo Testamento e 369 não são encontradas em II Pedro. lI Pedro tem 399 palavras, das quais 57 não são encontradas alhures no Novo Testamento, nem 230 em 1 Pedro. Há somente 100 palavras comuns às duas epístolas, mas há 599 diferenças. Este número parece ser tão espantoso, de forma a obstar um mesmo autor. Mas, quando um estudo semelhante é feito, das duas cartas pastorais de Paulo, 1 Timóteo e Tito, constata-se que há somente 161 palavras em comum e o assunto é semelhante nestas duas cartas de Paulo. A. Q. Morton (lhe Authorsbip and Intergrity of the New Testament — A Autoria e Integridade do Novo Testamento — S.P.C.K. Collection, No. 4, 1965, cap. 3) demonstrou, por computador, que 1 e II Pedro, num estudo comparativo com outros escritores do Novo Testamento que escreveram mais que um livro canônico, são lingüisticamente indistinguíveis. De fato, II Pedro é distinguível de todos os outros livros canônicos mais extensos, com a exceção de 1 Pedro. J.B. Mayor (lhe Epistle of St. iude and the Second Epístle of St. Peter — A Epístola de 5. Judas e a Segunda Epístola de 5. Pedro — p. 1 xxiv), que rejeita a autenticidade de II Pedro em outras bases, declara que não se acha a brecha que ele esperava encontrar em sua pesquisa nas diferenças de vocabulário. Devido ao uso de um amanuense para 1 Pedro (Silvano) e de nenhum para II Pedro (ou talvez um não identificado, o que é impossível), não mais deveria haver o problema da linguagem para aceitar-se 11 Pedro como genuína.
2. Conteúdo — Outra objeção à autoria petrina tem a ver com as diferenças de conteúdo entre estas duas epístolas. Estas diferenças encontram-se tanto no pensamento quanto na doutrina. É afirmado, por exemplo, que II Pedro contém menos referências que 1 Pedro a acontecia afirma categoricamente que o propósito de II Pedro foi combater o gnosticismo cristão do primeiro quarto do segundo século, que logo iria desenvolver-se para se tornar um sistema específico de Basílides. Contu­do, a heresia contra a qual Pedro adverte não aponta para nenhum sistema específico, como seria o caso de um apologético do segundo século. A heresia combatida por Pedro é mais de uma natureza geral, que era encontrada através do mundo, começando com o primeiro século antes de Cristo (ver o parágrafo sobre Gnosticismo, no capitulo sobre “O Evangelho Segundo João”, supra). Em II Pedro e Judas estão muitos termos e idéias características, que foram mais tarde desenvolvidos em sistemas gnósticos (ênfase sobre o conhecimento, desobediência à auto­ridade, angelologia, separação, antinomianismo, etc.). Mas já foi obser­vado, em capítulos anteriores, que Paulo escreveu em muitas de suas cartas para frustrar estas mesmas idéias. Com a descoberta dos Rolos do Mar Morto, lançando maior luz sobre o judaísmo sectário pré-cristão do primeiro século, é seguro dizer-se que a heresia de II Pedro era inteira­mente possível antes da morte de Pedro e até mesmo antes dos meados do primeiro século. Quanto à possibilidade de um autor escrever duas cartas de conteúdos completamente diferentes, apenas precisa-se lembrar as cartas de Paulo, Filipenses e Colossenses, por exemplo.
Muito de II Pedro (2:1-3:3) é impressionantemente semelhante a Judas 3-18. Muitas das mesmas palavras, expressões e idéias ocorrem em paralelo nas duas epístolas:

II Pedro                  Judas

2:1-3                    4
2:5                        5
2:4,6                     6,7
2:10,11                 8,9
2:15,16                11,12
2:17                      12,13
2:18                      16
3:2                        17
3:3                        18

Há quatro teorias para explicar estes fenômenos: 1)11 Pedro utilizou Judas; 2) Judas utilizou II Pedro; 3) ambas usaram uma fonte comum (oral ou escrita), que se perdeu; 4) as duas são inteiramente independen­tes. Esta última é inadmissível, à luz da extensão do material em comum.
1. 111 Pedro Utilizou Judas — Esta é a posição da maioria dos estudiosos. É dito ser mais provável um escritor posterior ter elaborado um documento mais antigo, e, uma vez que II Pedro é mais extensa que Judas, Pedro deve ter tomado emprestado do outro. Não existe nenhuma boa razão por que uma carta mais curta precise ser escrita se a mais extensa já existe, afirma-se. A aproximação ao problema é muito mais espontânea em Judas do que em II Pedro. O tom de Judas é mais áspero que de II Pedro, o que indica uma tendência para atenuar a mensagem. Judas faz referências aos Livros Apócrifos, que não são mencionados em II Pedro. Alega-se que II Pedro deixou de fora estas referências aos escritos não ortodoxos, purificando o material em relação à escritura sagrada.
2.Judas Utilizou II Pedro — Alguns poucos estudiosos ainda acredi­tam na prioridade de II Pedro, e o raciocínio deles é o seguinte: Judas faz referências aos profetas e apóstolos (Jud. 4,17), que pode ser uma referência encoberta a Pedro (mais especificamente a II Pedro; compare Jud. 17 com II Ped. 3:2). É também salientado que II Pedro faz uso dos tempos verbais futuro e presente, ao passo que Judas, em passagens paralelas, usa o tempo passado. O impacto total da heresia em II Pedro é mais profético; em Judas ele é mais real. Outro argumento (que não pode ser totalmente sustentado) é a improbabilidade de um apóstolo da estatura de Pedro usar os escritos de uma figura menos conhecida. Uma vez que Judas assevera que ele está citando a partir dos apóstolos (Jud. 5,17), é difícil evitar-se a conclusão de que Judas está citando II Pedro. Ainda outra razão dada para a prioridade de II Pedro é sua evidente unidade. O material em questão forma um todo tão consistente quanto ao estilo, vocabulário e pensamento da carta inteira, que não aparecem suturas. Judas declara especifícamente que ele começou sua carta para escrever sobre um tema diferente, e depois mudou de idéia (Jud. 3). Uma outra razão tem a ver com o vocabulário. No material paralelo, II Pedro tem 297 palavras e Judas tem 256; elas têm apenas 78 palavras em comum. Judas utilizou II Pedro, a percentagem é maior com uma redução na quantidade. Desta forma o vocabulário do material paralelo favorece II Pedro.
3. Uma Fonte Comum — Esta tem sido a sugestão de muitos estudio­sos que não podem ser persuadidos, por nenhum dos argumentos acima, a uma posição. Esta seria semelhante a um documento “Q” dos Evange­lhos Sinópticos. Esta idéia é convidativa para o estudioso indeciso, porém é somente hipotética. Diz-se que pode ser que um ou mais documentos que denunciaram os falsos mestes estejam por trás de II Pedro e Judas. Tanto as semelhanças quanto às diferenças, alega-se, nos dois livros canô­nicos, sugerem tais documentos e sua utilização. Até que outro manus­crito ou evidência patrística venha à luz, para apoiar tal (tais) documento (s), é melhor tratar isto como conjetura.
4. Conc1usão — Não pode ser determinado conclusívamente, mediante a evidência interna, quem tomou emprestado de quem, se tal coisa ocorreu. O problema em questão, contudo, não é especificamente isto.
É a autoria de II Pedro. Basicamente, o problema da prioridade é se uma ou ambas as epístolas (II Pedro e Judas) foram escritas antes da morte de Pedro. Uma vez que nenhuma conclusão definida pode ser substan­ciada absolutamente acerca da prioridade da escrita, e uma vez que o material paralelo em ambas às epístolas poderia ter sido escrito antes da metade do primeiro século, não há nenhuma boa razão para se negar à autoria petrina de II Pedro com base nas relações com outras cartas.
Com a evidência disponível, concluí-se que Pedro foi de fato o autor de II Pedro. Está claro, todavia, que não foi usado o mesmo autor para ambas as epístolas petrinas. Foi visto que Silvano foi o escritor final de 1 Pedro, e que possivelmente o próprio Pedro foi o escritor de sua segunda carta. A evidência externa é suficiente para apoiar a autoria petrina. A evidência interna, embora obscura e confusa, corrobora esta conclusão. Se for verdade que Judas tomou emprestado de II Pedro, nenhum problema existe. Se II Pedro tomou emprestado de Judas, então a data de Judas seria decisiva. Contudo, isto não é critico, porque será demonstrado que Judas poderia ter escrito antes da morte de Pedro. Portanto, podemos concluir que Pedro de fato escreveu a Segunda Epístola de Pedro.
Há pouca evidência na epístola que indique a data ou o local de onde ela foi escrita. Se Pedro é o autor, conforme concluímos, a data teria que ser antes de sua morte. Esta é variavelmente colocada entre 64 e 68 d.C. Existe uma tradição de que tanto Pedro como Paulo foram mortos no ano do incêndio de Roma (19 de julho de 64); mas há também a tradição de que Pedro morreu no mesmo ano que Nero (9 de junho de 68). Num parágrafo acima considerou-se improvável que Paulo e Pedro esti­veram em Roma na mesma época, pois nenhum deles mencionou a presença do outro em suas cartas de Roma e para Roma. Portanto, pensa-se mais provavelmente que Pedro estava em Roma durante o intervalo entre os dois encarceramentos romanos de Paulo, que Pedro deixou Roma por um certo tempo e depois retornou, após a morte de Paulo. E mais provável que Pedro tenha chegado a Roma pela primeira vez somente após o martírio de Paulo.
Um fator decisivo é a relação de II Pedro para com 1 Pedro. Em nenhum lugar, na Primeira Epístola de Pedro, é insinuado que ele tenha escrito uma carta anterior aos receptores dessa carta. II Pedro 3:1 definidamente afirma que esta é uma segunda carta escrita a eles pelo autor. Se nossa 1 Pedro canônica é a carta referida, então temos alguma informação acerca de sua data e destino. Os receptores seriam pelo menos parte daqueles a quem a primeira carta fora endereçada: Ponto, Galácia, Ásia e Bitínia. Com a ausência de referências pessoais, presume-se que II Pedro é também circular.
Se, de fato, 1 Pedro é a carta mencionada em II Pedro 3:1, então a data da escrita foi estreitada consideravelmente; ela foi escrita entre 1 Pedro e a morte de Pedro. Por causa da natureza confusa das várias tradições da época do martírio de Pedro, o melhor que pode ser dito é que ele morreu antes de Nero (9 de junho de 68). Se 1 Pedro foi escrita em 64-65 d.C., então II Pedro teria sido escrita por volta de 65-68 d.C. Uma datação mais precisa é impossível.
Os estudiosos que colocam esta epístola para tarde apontam para dois locais na carta que, alegam eles, obsta uma data antes de 70 d.C. II Pedro 3:4 refere-se a “desde que os pais dormiram”, e isto significa, segundo os críticos da autoria petrina, a morte da maior parte da primeira geração de cristãos e, mais particularmente, dos apóstolos. Contudo, em nenhuma parte do Novo Testamento a palavra “pais” refere-se aos líderes cristãos primitivos; este termo sempre é usado em referência aos líderes pré-cristãos. No presente contexto (II Ped. 3:4), o significado óbvio é o dos “pais” do Velho Testamento. Também alguns críticos da autoria petrina apontam para II Pedro 3:15,16 como prova de que esta carta foi escrita no final do primeiro século, tarde demais para ter sido do apóstolo Pedro. É dito que estes versículos indicam que uma coleção de epístolas paulinas estava circulando entre as igrejas e circulando como “escritura”. “Todas as suas epístolas... também com as outras escrituras” de fato significa que o autor de II Pedro considerava as cartas paulinas em pé de igualdade com o Velho Testamento. É dito pelos críticos que esta designação como “escrituras” não ocorreu antes do final do primeiro século ou mesmo no segundo século. Contudo, deve ser lembrado que Pedro escreveu acerca da autoridade dos apóstolos como sendo igual à dos profetas da antiguidade (3:2). É importante, e especialmente com a emergência dos falsos mestres e da heresia, dar crédito ao testemunho e instruções dos apóstolos (2: 12-21); e Pedro considerava Paulo um apóstolo (Gál. 2:9). É inconcebível que Pedro não tivesse conhecido algumas das cartas de Paulo durante os anos imediatamente anteriores à sua (de Pedro) morte. “Todas” não significa necessariamente todas aquelas que estão no Novo Testamento; esta palavra poderia significar as cartas de Paulo com que Pedro estava familiarizado ou acerca das quais ele ouvira. É evidente que os apóstolos reconheciam a autoridade dos outros apósto­los e muitas vezes acatavam os outros. Pedro simplesmente estava apoiando aquilo que Paulo já havia escrito. Citar estes versículos como prova de uma escrita tardia e proveniente de uma mão que não a de Pedro é desconsiderar a evidência mais clara acerca do autor e data.
Com a evidência disponível, tanto dentro da epístola quanto provenien­te dos escritores patrísticos, pode-se aceitar que Pedro é o autor de ambas as cartas canônicas atribuidas a ele. Com esta segurança, pode-se afirmar que Pedro escreveu esta Segunda Epístola de Pedro em Roma. Devido à falta de informação mais precisa, a data pode ser colocada entre 65-68 d.C.
PROPÓSITO
Está claro dos capítulos dois e três, que o propósito de II Pedro foi o de advertir os leitores contra a heresia ocasionada pelos falsos mestres. Há um consenso entre os estudiosos do Novo Testamento que a heresia é a do gnosticismo. O tipo de gnostícismo e seu estágio de desenvolvimento foram discutidos acima, no parágrafo sobre a autoria. A característica essencial desta heresia foi uma tentativa de estabelecer-se uma aristocra­cia do conhecimento na religião e rejeitar-se o princípio cristão básico, que não reconhece nenhuma distinção entre classes de As palavras para conhecer e conhecimento ocorrem dezesseis vezes, nesta curta epístola, seis das quais referem-se ao conhecimento de Cristo (1:2, 3,8; 2:9,20; 3:18). Este conhecimento está espiritual­mente baseado numa experiência crescente com Cristo (3:18) e não émeramente acadêmico. Este é o conhecimento verdadeiro, conhecimento salvífico (1:3). Os aspectos positivos da fonte e evidência deste co­nhecimento salvífico é o tema do primeiro capítulo. Com o aparecimento dos falsos mestres, é claro que Pedro temeu o perigo interno da apostasia mais que as crueldades da perseguição infligida de fora pelo paganismo ignorante. O gnosticismo, com sua negação de Cristo (2:1), desafio da autoridade apostólica (2:1, 10-12), corrupção moral (2:2, 10-16, 18,19; 3:3), avareza (2:3, 14,15) e escárnio com respeito à volta de Cristo (3:1-16), é o conhecimento falso destes pretensos mestres. Porque a vinda destes mestres está igualmente nos tempos verbais presente e futuro, pode ser que Pedro conhecesse o trabalho deles nas igrejas onde ele estava e escreveu a outras igrejas, para adverti-las acerca do que deveriam se precaver. Pedro escreveu para enfatizar a natureza do conhecimento salvífico (1:1-11) e como os crentes devem viver em vista de sua esperança da volta de Cristo (3:13- 18).
ESTRUTURA E CONTEUDO
A epístola pode ser dividida em três partes principais. A primeira seção (capítulo 1), mostra a base e a natureza do conhecimento salvífico. Depois da introdução normal (1:1,2) Pedro indica que com o dom do conhecimento de Cristo é provido tudo o que é necessário para a obtenção da piedade, virtude e glória (1:3), e as promessas de Deus provêem o ímpeto para fugir-se das concupíscências carnais, que impedem a pessoa de participar da natureza divina (1:4). Este conhecimento salvífico aumenta através do crescimento na experiência, promovendo as graças espirituais (fé, virtude, conhecimento, domínio-próprio, perseverança, piedade, fraternidade e amor), que levam à maturidade e dão certeza de entrada no reino do Senhor Jesus Cristo (1:5-11). A fonte deste conheci­mento é o aparecimento histórico do Salvador, do qual os apóstolos testemunharam e que o Espírito Santo, em Sua obra, conserva verdadeiro e puro (1:12-21).
A segunda parte da epístola contém uma advertência contra o falso conhecimento, conforme proclamado pelos mestres heréticos (2:1-22). O grande problema para a igreja é que estes mestres parecem vir de dentro da própria igreja. Parece ser a tentativa de alguns pretensos mestres combinarem os ensinos de Jesus com o judaísmo da Dispersão e as idéias das religiões de mistérios, para tornar o cristianismo convidativo aos “sofisticados’ do primeiro século. Estes falsos mestres são descritos (2:1) quanto à sua conduta, seu pecado e seu fim. O resultado e propósito de seus ensinos sao vistos em 2:2-3. Por causa da natureza e o falso conhecimento deles, Pedro mostra a certeza do julgamento e destruição dos mesmos (2:4-10). Uma outra descrição do caráter deles é dada como o de um homem pervertido (2:10-16) - Esta seção se encerra com uma admoestação acerca dos perigos do falso conhecimento (2:17-22).

Como um crente deve viver e agir em face do ensino falso e do escárnio acerca da esperança cristã é o tema da terceira parte (3:1-18). Pedro mantém que o antídoto para a apostasia é a palavra segura da profecia e o testemunho dos apóstolos acerca das instruções provenientes do Senhor Jesus Cristo (3:1,2). A vinda do Senhor é vista como erronea­mente compreendida por causa da demora (3:3,4), e é dada uma explicação para a aparente demora, conforme entendida por aqueles que têm verdadeiro conhecimento de Crísto (3:5-10). Uma exortação, que évista como a dinâmica para a vida moral: Jesus está voltando! (3:11-18), concluí a epístola. A epístola encerra com uma doxologia (3:18).
A Epístola Geral de Judas é um dos menores livros da Biblia, contendo
apenas vinte e cinco versículos. Este livro é quase desconhecido pelos cristãos modernos, e isto é lamentável. Talvez a mais bela bênção a ser encontrada em toda a literatura se acha nesta pequena epístola: “Ora, àquele que é poderoso para vos guardar de tropeçar, e apresentar-vos ante a sua glória imaculados e jubilosos, ao único Deus, nosso Salvador, por Jesus Cristo, nosso Senhor, glória, majestade, domínio e poder, antes de todos os séculos, e agora, e para todo o sempre. Amém” (Jud. 24,25). Esta epístola está tão relacionada com II Pedro que muito de sua natureza foi discutida na seção respectida do capítulo sobre a Segunda Epístola de Pedro. Contudo, há algumas coisas que devem ser discutidas separa­damente.
AUTORIA
O autor se identifica como “Judas, servo de Jesus Cristo, e irmão de Tiago” (v. 1). Judas era um nome comum no primeiro século, e dentro do Novo Testamento há seis homens mencionados por este nome: Judas Iscariotes, um dos doze (Mar. 3:19 e par.); Judas, filho de Tiago (Luc. 6:16; em João 14:22 — Judas, não o Iscariotes), que é um dos doze e é chamado Tadeu (Mar. 3:18), e Labeu (uma pronúncia tardia alternativa em Mat. 10:3); Judas, um irmão de Jesus (“Tiago, José, Judas e Simeão” em Mat. 6:3); Judas da Galiléia (At. 5:37); Judas de Damasco (At. 9:11); Judas Barsabás (At. 15:22). Destes seis homens, Judas Iscariotes, Judas da Galiléia e Judas de Damasco são excluídos de consideração, por razões óbvias. Judas Barsabás provavelmente teria usado seu nome completo se tivesse sido o autor, e em nenhum lugar existe uma referência a ele ter tido um irmão com o nome de Tiago. O apóstolo Judas, filho de Tiago, está excluído de consideração, porque este Tiago é, aliás, desconhecido. Foram feitas tentativas de fazer-se Lucas 6:16 ser lido “irmão de Tiago”, tornando-o, desta forma, um dos irmãos de Jesus, conforme apresentado em Marcos 6:3. Todavia, esta não é a maneira normal de se traduzir a construção do genitivo em grego, e João 7:5 abertamente declara que os irmãos de Jesus não criam nele, excluindo-se, desta forma, qualquer um daqueles de Marcos 6:3 de ser contado entre os doze, assim como o próprio autor fez (Jud. 17,18). Isto exclui Judas, o irmão de Tiago e meio-irmão de Jesus. Através da acrescentação de “irmão de Tiago” (v.1), na introdução, Judas se identifica como irmão de um Tiago que não precisa de mais nenhuma apresentação. Na igreja primitiva, e especialmente após a morte de Tiago, filho de Zebedeu (44 d.C.), somente um Tiago poderia ser referido dessa maneira absoluta: “Tiago, o irmão de nosso Senhor”, como Paulo o chama (Gál. 1:19). Como seu irmão Tiago (autor da Epístola de Tiago), Judas não prerrogou autori­dade, em virtude de sua relação natural com Jesus; ele nada mais é que “um servo de Jesus Cristo”, assim como Tiago (ci. Tiago 1:1).
O testemunho externo a esta epístola é igualmente antigo e forte. Há traços de Judas 22,23 a serem encontrados já na data do Didaquê, e outras alusões estão em Hermas e Policarpo. Mais tarde, Atenâgoras, muito provavelmente, cita material proveniente desta carta. Ela está incluída no Cânon Muratoriano, e Clemente de Alexandria a incluiu em seu esboço de livros aceitos. Tertuliano e Orígenes a citam pelo nome. Ela está incluída, juntamente éom 1 e II Pedro, no manuscrito do terceiro século, Papiro Bodmer VII e VIII, -  - 72 - Atanásio colocou-a em sua lista de livros recebidos, e o Terceiro Concilio de Cartago reconheceu-a como genuína. Com a forte atestação da igreja primitiva e a auto-identificação do autor, afirma-se, neste livro, que o autor desta pequena epístola éJudas, irmão de Tiago e meio-írpião de nosso Senhor.
Pouco se pode falar, da epístola, acerca de seus primeiros leitores. Ela não parece ser endereçada a alguma igreja particular; é endereçada, sem maior qualificação, “... aos chamados, amados em Deus Pai, e guardados em Jesus Cristo” (v.1). Fora disto não há nenhuma identifica­ção. Por esta razão, alguns concluem que a epístola tinha por fim, circulação geral. Judas 3, contudo, pareceria estreitar a circulação àqueles cristãos, ou igrejas, com que o autor estava familiarizado e de quem ele era bem conhecido. Há pouco acordo entre os estudiosos quanto à constituição básica do grupo ou dos grupos; foram apresentados fortes argumentos em favor de uma base gentia, uma base judaica e uma base mista. Simplesmente não há suficiente informação, nestes vinte e cinco versículos, para se determinar decisivamente para quem esta carta foi escrita.
Um fator determinante na datação desta carta é sua relação com II Pedro. Se, como nós concluímos, Pedro escreveu II Pedro, e se Pedro utilizou esta epístola (o que não foi determinado), então esta Epístola de Judas teria sido escrita antes ou por volta da época de II Pedro (65-68 d.C.). Contudo, se Judas fez uso de II Pedro (o que é mais provável), a data poderia ser qualquer ocasião após II Pedro e antes da morte de Judas. Como não há nenhuma tradição acerca da morte de Ju­das, a data é indeterminada. Mas Eusébio (H.E., III, xix) preserva uma interessante história de Hegésípo (e.175), um historiador do segundo século dos judeus) acerca de dois netos de Judas terem sido chamados perante o Imperador Domiciano, porque eram da linha da família real de Davi. A importância desta história é que, se Judas estivesse vivo nessa época (Domiciano foi imperador de 81-96), teria sido convocado a Roma. Como ele não foi, conclui-se que não estava vivo nessa ocasião. Portanto, a epístola deve ter sido escrita pelo menos durante o primeiro século.
Alguns estudiosos, contudo, encontraram evidências dentro da epístola que apontam para uma data tardia. L dito que o tipo de heresia exposta égnosticismo do segundo século. Isto foi discutido na seção sobre II Pedro, e determinado que este argumento não pode ser sustentado. A heresia descrita era uma “visão do mundo” comum do primeiro século, contra a qual Paulo também teve que escrever (cf. o capítulo sobre Colossenses).
Ë dito também que Judas 3 (“...a fé que de uma vez para sempre foi entregue aos santos”) indica uma época em que a palavra “fé” tornou-se objetiva em sua natureza e significava o corpo da verdade cristã. Isto, dizem os críticos, aconteceu muito tarde. Contudo, pode-se assinalar que “fé” é usada neste sentido objetivo, já por Paulo, em Gálatas 1:23. Dito, por outros estudiosos, que Judas deve ter escrito antes de 70 d.C., porque não há nenhuma menção acerca da destruição de Jerusalém. Isto teria sido um excelente exemplo dos resultados catastróficos dos falsos ensinos. Outros estudiosos vêem em Judas 5 uma referência encoberta a essa destruição. A catástrofe da destruição do Templo não é mencionada mais claramente, ou não o é absolutamente (como outros diriam), porque os exemplos do juízo divino vinham do Velho Testamento (literatura sagrada para os judeus) ou porque seria um combate doloroso demais para os judeus cristãos, fiéis à sua herança nacional.
Não existe evidência conclusiva de que esta carta teve que ser escrita antes de 70 de. Porque Judas realmente fez uso do tempo verbal passado, nos versos paralelos a II Pedro (onde os tempos presentes e futuros são encontrados), é, provavelmente, melhor concluir-se que foi ele que utilizou II Pedro (veja a discussão sobre II Pedro da “Comparação com a Epístola de Judas”). Contudo, nada há em Judas que exija uma datação para após a morte de Pedro (Robinson, Redating the New Testament —Redatação do Novo Testamento — p. 175-184). 0 ponto decisivo aqui é o tempo necessário para II Pedro chegar às mãos de Judas. Charles Bigg (A Critical and Exegetical Commentary on the Epistles of St. Peter and St.
  Um Comentário Crítico e Exegético Sobre as Epístolas de 5. Pe­dro e 5. Judas sugeriu que Pedro enviou sua segunda carta (ou pelo menos uma cópia) a Judas e pediu-lhe para copiar a parte dos falsos mestres e enviar a nova carta em seu próprio nome ao seu povo. Seja lá como II Pedro tenha chegado às mãos de Judas, o intervalo de tempo é decisivo na datação de Judas. Talvez o melhor que se pode dizer acerca da data é que ela foi escrita por volta de 70 d.C.
Assim como não há informação direta acerca dos leitores desta epístola, não há qualquer evidência acerca do local onde ela foi escrita. Qualquer lugar sugerido seria conjetura, sem nenhum meio para se apoiar a suposi­ção. Este permanece sendo um dos mistério entre os estudiosos do Novo Testamento.
De todos os livros do Novo Testamento, Judas é o único que cita livros dos apócrifos. Há uma citação direta (v. 14 e 15) do livro de Enoque (1:9) da Assunção de Moisés. Através da história destas epístolas, houve diferentes reações ao uso dos livros apócrifos. Tertulíano aceitou Enoque como “escritura”, porque Judas citou Enoque. Jerônimo disse que muitos duvidavam da inspiração de Judas, porque ele cita livros apócrifos. Alguns leitores modernos têm problemas em aceitar as citações dos livros apócrifos, e preferem pensar que Judas estava citando a tradição oral.
Contudo, Judas utilizou Enoque como se seus leitores estivessem familiarizados com ele. A Assunção de Moisés, conforme ela foi preserva­da, é um documento mutilado, - é o versículo citado em Judas 9 não pode ser encontrado. Mas Clemente de Alexandria e Orígenes afirmam que Judas fez uso da Assunção de Moisés para esta informação acerca da
disputa sobre o corpo de Moísés. Deve-se ter em mente que o cânon do Velho Testamento não foi fixado até que os rabís se reuniram em Jâmnia, em 90 d.C. Até essa época, muitos judeus não faziam muita distinção em sua literatura. Em Jâmnía determinou-se que somente as escrituras escritas em hebraico, em couro, e escritas antes do período grego de dominação (por volta de 330 a.C.) deveriam ser consideradas como Escrituras. Se Judas citou estes livros como “escritura” ou somente como peças bem conhecidas da literatura judaica, não está claro. Mas a Epístola de Judas não deve ser rejeitada por causa do uso desses dois livros. Paulo fez referências às obras de escritores pagãos (At. 17:28; 1 Cor. 15:33; Tito 1:12), faz uso da tradição rabínica (II Tim. 3:8) e cita um midrash judaico (1 Cor. 10:4). Judas fez uso da literatura que era conhecida de seus leitores para adverti-los dos perigos dos falsos mestres. Nao ha nenhuma implicação de que Judas atribuiu autoridade a estes livros. Tampouco ele os chama de Escritura, Profetas ou Pais.
De Judas 3 está claro que o autor iniciou a escrever sobre um tema diferente, mas uma situação perigosa despertou sua atenção e fez com que ele se voltasse para uma questão mais urgente, na defesa da fé. O propósito foi inteiramente prático: advertir contra a heresia, que surgira de repente. Há muito pouca teologia, e Judas considerou sua carta uma exortação (v.3). Seu propósito não foi tanto condenar, mas advertir. A natureza da heresia e as características dos falsos mestres já foram apresentadas acima, na seção sobre II Pedro.
A Epístola de Judas pode ser dividida em cinco partes: 1) a saudação introdutória (v. 1,2); uma introdução e explicação do propósito pelo qual escreveu (v. 3,4); 3) denúncia dos falsos mestres (v. 5-16); 4) uma exortação à fidelidade e vigilância cristã (v. 17-23); e 5) uma doxologia (v. 24,25).
Depois que Judas se identifica e esclarece quem são seus leitores (v. 1,2), afirma que originalmente pretendia escrever acerca da salvação comum, da qual todos os crentes desfrutam. Mas um alarmante movi­mento chamou sua atenção, exigindo que ele mudasse o tema para advertência, exortação e vigilância (v. 3,4). A lembrar-lhes da apostasia e heresia (v. 5-7), ele mostra que estes novos mestres são da mesma natureza ímpia daqueles da história passada de Israel (v. 8-11). A descri­ção dos falsos mestres é então retratada (v. 12-16). A exortação aos fiéis começa com um lembrete de uma advertência apostólica (v. 17-19), seguida do dever pessoal (v. 20,21) e de uns para com os outros (v.22,23). Então segue-se a bela doxologia (v. 24,25), para encerrar esta pequena, mas importante carta.





Cinco livros do Novo Testamento são atribuidos ao apóstolo João:
O Evangelho de João, o Apocalipse e as três chamadas Epístolas de João. Estes cinco livros, conhecidos como a literatura joanina, contêm os três tipos de literatura encontrada no Novo Testamento: histórica, epistolar e apocaliptica. As três Epístolas estão incluídas no grupo de escritos neotestamentários denominados Epístolas Gerais. Esta classificação pode ter sido útil para separar e identificar o~ vários livros do cânon, mas as três Epístolas, na realidade, nlo incidem na categoria de gerais ou universais (católicas). A primeira não tem a característica costumeira de uma carta (identificação introdutória do autor e receptores, encerramento com despedida) e a segunda e a terceira são breves, pessoais e dírigídas a leitores específicos. As três Epístolas são fortemente reminiscentes do Evangelho de João e, como este, nunca cessaram de fazer arder os corações dos cristãos com o tema central do amor. Como o quarto Evangelho, elas são de estrutura simples, mas de pensamento profundo.
A teologia e o pensamento destas Epístolas tornam-nas importantes no estudo do Novo Testamento e mostram as ameaças de heresia e do abuso de autoridade, como o fazem~poucos outros livros do Novo Testamento.
Relação Entre as Três Epistolas — Que as três Epístolas provêm do mesmo autor é evidente, mediante uma leitura cuidadosa. As “irmãs gêmeas”, 11 e III João, com certeza têm o mesmo autor, que se denomina o ancião” (II João 1; III João 1). As comparações destas duas Epístolas mostram, tao conclusivamente quanto possível, com material tão sucinto, o mesmo autor (cf. II João 1 com III João 1; II João 4 com III João 3; II João 10,11 com III João 5,6; II João 12 com III João 13,14). A Terceira Epístola foi endereçada a um indivíduo, e isto pode explicar suas diferenças com a Segunda Epístola, que foi escrita a uma audiência mais ampla, uma igreja. As semelhanças entre as duas só podem ser explicadas como ambas sendo provenientes da mesma mão, precisamente porque o assunto e o número de leitores são tão diferentes. Quando estas duas cartas (e mais particularmente II João) são colocadas num estudo comparativo com a Primeira Carta, que é mais extensa, dificilmente se pode duvidar de que todas provieram do mesmo autor (comp. 1 João 1:4 com II João 12; 1 João 1:6,7; 2:6,11 com II João 4; 1 João 2:7 com II João 5,6; 1 João 2:14, 24 com II João 2; 1 João 2:18; 4:1-5 com II João 7; 1 João 2:23 com II João 9; 1 João 3:6,9 com II João 11). Dos treze versículos de II João, pelo menos oito podem ser combinados com versículos de 1 João. E inescapável o fato de que todas as três Epístolas vieram da mesma mão.
Que existe uma grande semelhança de pensamento entre as Epístolas e o quarto Evangelho é logo evidente a cada leitor. O quadro a seguir da alguma ideia das ligações mais evidentes entre estas Epístolas e o Evangelho:
Evangelho              1 João         II João                  IIIJoão

2:24                      4:1-3          7
8:31                      3:18           1                         1

10:18                    4:21           4                          3
13:34                    2:7             5
14:21                    5:3             6
15:11;16:24          1:4            
A importância da informação contida neste quadro está na brevidade da segunda e terceira epístolas. Além destas semelhanças no vocabulário, fraseologia e sintaxe, está a atmosfera que permeia todos os quatro escritos. Quando se lê estes quatro, sente-se que o mesmo autor está por trás de cada um.
Será notado, de acordo com o quadro acima, que essas semelhanças entre o quarto Evangelho e 1 João foram limitadas àquelas em comum com uma das outras ou ambas as outras Epístolas. Isto foi feito porque uma alistagem das ligações estreitas entre a Primeira Epístola e o Evangelho seria muito grande e além do alcance deste capítulo. Uma lista completa das semelhanças (e diferenças) pode ser encontrada no antigo, mas ainda valioso e excelente comentário, sobre o texto grego, de Allan E Brooke (A Critical and Exegetical Commentary on the Johannine Epistles —     Um Comentário Crítico e Exegético Sobre as Epístolas Joaninas —p. i-xix). Estas semelhanças são encontradas em palavras, grupos de palavras, conceitos e estilo. Dionísio de Alexandria (c. 265) concluiu, da concordância no uso vocabular o teor de pensamento, que estes dois escritos (1 João e o Evangelho) tiveram que vir do mesmo autor (preser­vado em Eusébio, H.E., VII, xxv, 18-21).
Todavia, estas próprias semelhanças talvez apontem para a obra de outro escritor, um imitador. A crítica moderna faz muito uso das ligações à luz das diferenças. Ë dito que as diferenças no vocabulário (tanto 1 João quanto o Evangelho contêm palavras que não aparecem nos outros) e a posição teológica diferente de semelhantes formas de pensamento (uso de termos comuns, com conteúdo diferente) apontam para escritores diferentes (ver Dodd, “A Primeira Epístola de João e o Quarto Evange­lho”, Bulletin of the John Rylands Library — Boletim da Biblioteca de John Rylands — No. 21, 1937, p. 129-156). Combinada a estes argumen­tos, está a tendência, na crítica moderna, de atribuir a composição do quarto Evangelho a diferentes escritores ou editores. O problema da unidade do quarto Evangelho foi tratado acima (Capítulo VII: “O Evan­gelho Segundo João”), e concluído que o apóstolo João foi o autor, com um comentário editorial somente em 21:24.
Existem algumas diferenças lingüísticas gritantes entre 1 João e o Evangelho. Não obstante, das cinqüenta palavras em 1 João que não aparecem no Evangelho, apenas cinco são de alguma significação (mensa­gem, comunhão, propiciação, unção, iniqüidade). Existem 813 palavras no Evangelho que não aparecem em 1 João, mas somente oito são imprevisíveis, por sua ausência (cruz e crucificar, discípulo, glória e glorificar, céu, lei, Senhor, buscar, sinal) - Juntamente com o uso destas palavras (e outras de menor importância) está o uso de preposições, partículas adverbiais e conjuntivas, e verbos compostos. W.F. Howard (The Fourth Gospel in Recent Criticism and Interpretation — O Quarto Evangelho na Crítica e Interpretação Recentes — p. 281-296), após um completo estudo dos escritos de Lucas (Evangelho e Atos) e das cartas paulinas, conclui que estas diferenças entre 1 João e o Evangelho podem ser explicadas pelas diferentes ênfases e um intervalo entre a composição dos dois escritos. O tamanho da carta em termos de vocabulário deve ser levado em consideração em qualquer estudo comparativo com um livro mais extenso como o quarto Evangelho.
Os críticos, todavia, colocam maior importância nas diferenças supos­tamente teológicas. Com as semelhanças reconhecidas como válidas, diz-se que as diferenças de conteúdo de pensamento demandam um escritor diferente, talvez um que, tendo o outro escrito diante de si, tenta imitar o outro autor. Os críticos parecem concordar que existem basica­mente quatro diferenças que, mantêm eles, não podem ser explicadas; 1) a escatologia; 2) a morte de Cristo; 3) o Espírito Santo; 4) a centralidade de Cristo.
1. Escatologia — E mantido que a escatologia é “primitiva”, em 1 João, e “avançada” (realizada) no Evangelho (ver C.H. Dodd, The Apostolic Preachíng and Its Developement — A Pregação Apostólica e Seu Desenvolvimento — 1935). O Evangelho de João apresenta a vida eterna e o juízo como sendo atividades de Cristo quando ele vem a cada crente (João 3:14-19; 5: 19-27) espiritualmente, através do Espírito Santo (14:15-24; 16:7-15, etc.). O conceito mais “primitivo” está em 1 João. Aqui há a promessa da “vinda” (parousia) de Cristo (1 João 2:8), o “aparecimento” visível (2:28; 3:2) e o “dia do juízo” (4:17). A ênfase dos estudiosos modernos sobre a “escatologia realizada” fez com que muitos negligenciassem a força da “escatologia primitiva”, contida no quarto Evangelho e a “escatologia realizada”, em 1 João. O Evangelho pode referir-se bem naturalmente a uma vinda de Cristo, para arrebatar seu povo no “último dia”, o dia da ressurreição e do juízo (João 5:25-29; 6:39-54; 11:24-26; 12:48; 14:3; etc.) e é o bastante ler-se 1 João 5:11-13 para verificar que a vida eterna é considerada como uma possessão presente. A diferença teológica na escatologia dos dois escritos não pode ser sustentada, nem pode ela ser usada como um argumento conclusivo que demanda dois autores diferentes.
2. A Morte de Cristo — Sem dúvida, a morte de Cristo é apresentada no Evangelho como sua hora de “levantamento” e sua “glorificação”. Nenhum destes termos é encontrado em 1 João, onde o propósito para a morte de Cristo é apresentado como “propiciatório” (1 João 2:2; 4:10) e traz purificação e vida (1:7,9; 4:9). A palavra “propiciação” não ocorre no Evangelho. Mas significa isto uma diferença teológica fundamental na interpretação do propósito da morte de Cristo? Apesar da convicção de irreconciliabilidade, da parte dos críticos, a idéia de expiação pela propiciação é subjacente em muita parte do Evangelho (1:29; 3:14-16; 6:51; 10:11-15; 11:49-53; 12:24; 18:39; etc.). Além disso, deve ser lembrado que as passagens em 1 João são para relatar os benefícios para os homens na salvação, em vez de enfatizar o que significa para Cristo e a sua glorificação. O Evangelho foi escrito para despertar a fé (João 20:30,31), e a Epístola foi escrita para aprofundar a convicção do crente (1 João 5:13). Além disso, não há nenhuma razão nesta doutrina para negar-se uma autoria comum.
3. O Espírito Santo — Outra diferença evidente está no uso da palavra parákletos: Consolador, advogado. No Evangelho, o Espírito Santo é“outro consolador” (João 14:16), mas Jesus é o “Advogado para com o Pai” em 1 João (2:1). O Espírito Santo, que, no Evangelho, é retratado como uma presença pessoal no crente, é menos pessoal, dizem os críticos, na Epístola, e é pouco mais que uma testemunha da ortodoxia, ao invés de uma presença habitando no interior. Todavia, 1 João representa o Espírito Santo como presente no crente (2:20, 27; 3:9,24; 4:13), e o Evangelho diz que o Espírito Santo “vos guiará a toda a verdade” (16:13). Embora seja assinalado pelos críticos que o Espírito Santo, em 1 João, não está ligado com a regeneração, como no Evangelho, é o propósito do Espírito Santo manifestar a realidade da salvação (1 João 2:27; 3:24; 4:13). As diferenças teológicas não podem ser mantidas, porque o Espírito Santo é o Espírito da verdade em ambos os escritos: no Evangelho, para ocasionar a convicção que leva à salvação (regeneração); na Epístola, para autenticar essa experiência de salvação.
4. A Centralidade de Crísto — Ë dito por muitos estudiosos que o Evangelho é cristocêntrico e a Epístola teocêntrica (cf. R. Law, The Tests of Lhe: A Study of the Fírst Epístle of St. iohn — Os Testes da Vida: Um Estudo da Primeira Epístola de 5. João — 1909). E ressaltado que no Evangelho o Lógos é pessoal e refere-se ao Filho, ao passo que na Epístola “lógos da vida” refere-se ao corpo de verdade que traz vida eterna. Parece que, ao passo que no Evangelho Jesus é identificado com o Lógos João 1:1-18), em 1 João ele é identificado com vida (1 João 1:1-4). No Evangelho, Jesus é a “luz verdadeira”, a “luz dos homens” e a “luz do mundo” (João 1:9;1:4; 8:12). Na Epístola, “Deus é luz” (1 João 1:5). Na Epístola (4:8,16) “Deus é amor”; mas no Evangelho (4:24) “Deus éEspírito”. Tudo isto é verdadeiro; mas não é irreconciliável na mente de um autor que tinha uma alta visão da relação entre o Pai e o Filho. O autor da Epístola faz uso de pronomes masculinos muitas vezes, e nem sempre distingue entre Deus e Cristo, no uso dos pronomes, porque ele não sente a necessidade de assim fazer. Em Jesus Cristo, Deus veio ao mundo, e nele, o verdadeiro Deus, está a vida eterna (1 João 5:20).
Não há nenhuma razão adequada para fazer-se distinção entre os autores do Evangelho e de 1 João. Os argumentos críticos em favor de autores diferentes, baseados em diferenças lingüístícas e teológicas, não são tão concretos como o crítico nos faria crer. As sombras de diferenças que são encontradas podem ser suficientemente explicadas pela diferença de propósito. As semelhanças são grandes demais para proporem autores diferentes mediante a evidência inadequada. E, por causa das semelhan­ças entre 1 João, II João e III João, pode ser afirmado que o homem que escreveu o quarto Evangelho também escreveu as epístolas joaninas: o apóstolo João.
Ficou estabelecido, no parágrafo acima, que o escritor do Evangelho de João também escreveu as epístolas joaninas. Foi dedicada uma seção extensa à identidade do autor desse Evangelho, e o estudante é referido àquele capítulo (Capítulo VII). Lá foi determinado que o apóstolo João, o “discípulo a quem Jesus amava”, filho de Zebedeu e irmão de Tiago, escreveu o Evangelho atribuído ao seu nome. O testemunho dos escritores patrísticos e a evidência proveniente do próprio livro, todos contribuem para esta identificação. Portanto, é afirmado, neste capítulo, que o apóstolo João, autor do quarto Evangelho, é igualmente o autor das epístolas joaninas.
A Primeira Epístola de João tem atestação mais antiga e mais forte por parte dos escritores patrísticos do que II e III João, e a brevidade destas pode ser a razão (Dodd, lhe johannine Epistles — As Epístolas Joaninas   —         p.cvi). O primeiro testemunho claro às três epístolas é encontrado em Orígenes (c. 185-254), que incluiu 1 João entre os escritos aceitos e indicou que João possivelmente escreveu duas outras cartas. Não há, todavia, nenhuma citação, seja de II ou de III João, em nenhum dos escritos de Orígenes que sobreviveram. Clemente de Alexandria (cÃ50-220) escreveu acerca da “maior Epístola de João” (Stromateis, ii, 15,66) e assim implica pelo menos uma outra carta. Irineu (c. 140-202) cita II João 7,8,10 e 11 e diz que “João, o discípulo do Senhor”, escreveu esta carta e 1 João (Ad. Haereses III, xvi, 3,8). O Cânon Muratoriano (cÃ70) cita 1 João 1:1 na parte sobre os Evangelhos e posteriormente identifica o autor do Evangelho de João como o autor de duas “epístolas católicas”. Provavelmente isto se refere a 1 e II João, mas esta conclusão está aberta à contestação. Devido à condição deteriorada do manuscrito, alguns críticos concluem que as três epístolas foram incluídas (i.e., James Moffatt, An Introductíon to the Literature of the New Testament — Uma Introdu­ção à Literatura do Novo Testamento — p. 478-479; Peter Katz, “The Johannine Epístles in the Muratorian Canon” — “As Epístolas Joaninas no Cânon Muratoriano” — em Journal of Theologicaí Studies VIII, 1957, p. 273-274), mas isto não pode ser totalmente determinado. Há claro uso feito de 1 João (2:24; 4:2,3) por Policarpo (c. 115), embora ele não indique que estava citando uma carta de João. Papías é citado por Eusébio (H.E., III, xxxix, 17) como referindo-se à “anterior Epístola de João”. Isto pode indicar mais que uma carta de João, mas de novo a leitura não está clara. Depois da época de Orígenes, Dionísio de Alexan­dria (c.265) escreveu que havia duas outras epístolas circulando no nome de João, além da mais extensa. Eusébio (c.310) colocou 1 João entre os livros “reconhecidos” (homologoúmena), mas II e III João entre os “contestados” (antilegoúmena), dizendo que estes dois últimos não foram recebidos universalmente (H.E., III, xxv, 3), embora ele mesmo estivesse desejando aceitá-los como sendo da mão do apóstolo João (H.E., VI, xxv, 10).
Este, então, é o testemunho da igreja primitiva. Do início do segundo século, há evidência de ligação de 1 João com o quarto Evangelho, e a evidência da existência de pelo menos uma outra carta não está completa­mente ausente. Pode ser devido ao tamanho e à natureza pessoal de II e III João que estas duas eram desconhecidas ou ignoradas pelos escritores patrístícos da primeira metade do segundo século. Pelo final daquele século, contudo, encontra-se menção às três cartas, e sempre em conexão com o nome de João. Seria improvável e muito surpreendente se alguém quisesse escrever duas cartas curtas como estas e publicá-las no nome do apóstolo João. Ë mais razoável acreditar-se que elas vieram à atenção da igreja numa data tardia, porque elas são o que realmente parecem ser: cartas do apóstolo João, o autor de 1 João e do quarto Evangelho.


E geralmente presumido, e razoavelmente, que as epístolas joaninas foram escritas depois do Evangelho. As relações entre as epístolas não são claras e definidas o bastante para se determinar conclusivamente à ordem de sua composição. II e III João são curtas demais e pessoais demais para serem de muita ajuda na determinação da ordem de escrita. Foi sugerido que a carta aludida em III João 9 refere-se a II João (M. Dibelius, A Fresh Approaeb to the New Testament and Early Christian Literature
Uma Aproximação Recente ao Novo Testamento e à Literatura Cristã Primitiva 1937, p. 212). O uso do termo “anticristo”, em II João 7, pareceria depender de se uso anterior em 1 João; mas ele poderia ser proveniente do uso comum de um termo bem conhecido da época. Desta forma, a ordem de composição das epístolas é indeterminável. O melhor que pode ser dito delas é que elas foram escritas por volta da mesma epoca.
A datação das epístolas joaninas é determinada pela datação do quarto Evangelho. Se, como é normalmente presumido, as epístolas foram escritas depois do Evangelho, a data de sua publicação determinaria a data mais antiga possível. Se, contudo, o Evangelho foi escrito por último, a data para as epístolas seria antes dele. As tentativas de se provar que 1 João é mais antiga que o Evangelho não são realmente convincentes. Os argumentos em favor de tal idéia têm a ver primariamente com os termos e conceitos mais “primitivos”, ditos serem encontrados em 1 João (cf. Otto Píper, “1 John and the Didache of the Primitíve Church” —1 João e o Didaquê da Igreja Primitiva”, Journal of Biblical Literature —LXVI, 1947, p. 437-451), mas estes termos e conceitos são igualmente usados pelo Evangelho e subjacentes ao pensamento do Evangelho. Estas são, por outro lado, algumas passagens contidas em 1 João que pressu­põem a base do Evangelho para a compreensão delas (1 João 1:1-4; 2:7,8; 3:8-15; 5:9,10). Portanto, conclui-se que as epístolas realmente seguem a época da publicação do Evangelho.
No Capítulo VII (“O Evangelho Segundo João”) foi concluído que o quarto Evangelho foi escrito antes de 70 d.C. (não existe evidência da destruição de Jerusalém) e mais tarde publicado em Efeso, quando João residiu lá. Não há indicação de perseguição nem no Evangelho nem nas epístolas, embora haja uma atmosfera de tensão em todos os quatro. Alguns escritores propõem uma data após a morte de Doiniciano (96 d.C.), quando a perseguição da igreja cessou, e antes de a perseguição sob Trajano se iniciar (c. 110-117 d.C.). Se a heresia combatida em 1 João e o tipo de gnosticismo associado com Cerinto, isto poderia apontar para uma época tardia no primeiro século. Estes dois pontos são bem conside­rados, e muitos estudiosos aceitam uma data entre 96-110 d.C. Contu­do, não há nenhuma evidência firme da época do trabalho de Cerinto, e nao é certo se a heresia surgiu de Cerinto ou o precedeu. A falta de perseguição poderia ser qualquer época após Nerc (68 d.C.), até o final do reinado de Domiciano (após 90 d.C.), quando Domiciano começou a exigir a adoração de sua pessoa. J.A.T. Robinson mostrou que não há absoluta necessidade de se datar os escritos joaninos para depois de 70 d.C., ao demonstrar a debilidade dos argumentos em favor de uma datação tardia (The Redating øf the New Testament — A Redatação do Novo Testamento). A heresia, contudo, não parece ser mais desenvolvida que a refletida em II Pedro e Judas. Isto colocaria as cartas para mais tarde que 70 d.C.
A data mais tardia possível seria o uso, tanto do Evangelho como de 1 João, por Policarpo e possivelmente por Inácio (c.115). Este uso empurraria” a data para trás e provavelmente para o primeiro século. A falta de reflexo de perseguição nas epístolas provavelmente se encaixaria melhor no período anterior à perseguição sob Domiciano. Embora haja uma atmosfera de tensão, não parece que João e seus leitores haviam acabado de sair de uma ocasião de intenso perigo e perseguição. Portanto, conclui-se que estas epístolas de João foram escritas entre 70-90 d.C., e talvez a década de 80-90 seria provável.
LOCAL DA COMPOSIÇÃO
Como o quarto Evangelho, a outra literatura joanina saiu da área da Asia Menor, que tinha Efeso como um centro. As tradições mais antigas associam a literatura com Efeso. Policarpo, um seguidor do apóstolo João, disse que João viveu e morreu em Efeso (preservado por Irineu, Ad. Haereses, III, 3,4). Polícrates, Bispo de Efeso, na última parte do segundo século, disse que João foi sepultado em Efeso (Eusébio, H.E., V, 24). Irineu escreveu que o apóstolo João viveu em Efeso até o tempo de Trajano (Eusébío, H.E., III, 1,3,4). Está também claro, de outros escritores do Novo Testamento (Paulo nas Epístolas aos Colossenses e Timóteo; Pedro em II Pedro; Judas), que a heresia gnóstica estava infiltrando-se na área da Asia Menor cedo. Portanto, não há razão adequada para pôr-se de lado a tradição antiga de que Efeso foi o centro do qual a correspondência joanina saiu.

Embora 1 João seja chamada uma epístola, ela nem começa nem termina como uma epístola. Tampouco tem ela a identificação usual do escritor e o nome do grupo ao qual foi enviada. Não há nenhuma saudação de despedida. Contudo, ela tem o sentido de uma carta pessoal, endereça­da a pessoa conhecidas do e pelo autor. Foi sugerido, por alguns, que 1 João é realmente um sermão ou homilia. Contudo, o uso do verbo ‘escrever” (1:4; 2:1,7,8,12-14,21,26), onde se esperaria encontrar o verbo “falar”, num sermão, indica a natureza epistolar da composição original. Porque não há nenhuma evidência de manuscrito dos versículos introdu­tórios e finais perdidos, geralmente concordam os estudiosos que 1 João éum tipo de “panfleto”, escrito para tratar de um problema específico.
A natureza pessoal de 1 João explica o intenso interesse do autor no bem-estar de seus leitores. Esta nota pessoal indicaria que 1 João foi escrita a uma audiência restrita, talvez uma igreja ou grupo de igrejas sob o cuidado do autor, o apóstolo João. Seria impossível identificar-se uma igreja particular, à qual João escreveu. Se esta é uma carta “circular“, às igrejas com as quais João trabalhou na Ãsia Menor, possivelmente alguma declaração poderia ser sustentada acerca de uma ou mais das sete igrejas mencionadas no Apocalipse (1:11; 2:1-3:22). Ë possível que os baalamitas, nicolaíticas e seguidores de Jezabel (todos encontrados no Apocalipse) fossem representantes da heresia combatida em 1 João. Deve ser lembrado que II Pedro foi endereçada a uma área que incluía a província romana da Ásia (Efeso) - Pedro advertiu contra as forças gnósticas em operação naquela área. A cidade de Colossos estava localizada nesta mesma área, e a carta de Paulo àquela cidade foi escrita para advertir contra os ensinos gnósticos. E, portanto, entendido que 1 João foi escrita a uma igreja, ou grupo de igrejas, naquela área em torno de Éfeso, da qual o apóstolo João era supervisor.
O propósito de 1 João é, claramente, advertir os leitores acerca do perigo, para a fé cristã, das atividades e ensinos de homens heréticos (4:1-5), cujo aparecimento é um sinal certo de que a “última hora” é chegada (2:18). Estes mestres herejes haviam sido membros do grupo cristão, mas não haviam sido crentes reais (2:19). Sua negação de que Jesus é o Cristo coloca-os fora da comunidade da fé e os agrupa juntamente com os “anticristos” (2:18,22; 4:3). Eles tinham o espírito do anticristo, e não o Espírito de Deus (4:1-3), e a natureza real de seus ensinos manifesta-se na negação da encarnação (4:3), na iniqüidade (1:6-10) e na falta de amor (4:7-13, 20,21). Contra estes três aspectos da heresia, João enfatiza muito fortemente as três marcas do cristianismo autêntico: Jesus é verdadeiramente o Cristo vindo na carne, obediência aos mandamentos de Deus através de Jesus Cristo e uma atitude de amor a Deus e pelo próximo.
Mas, qual o tipo de heresia contra a qual João escreve? Geralmente os estudiosos do Novo Testamento concordam que é o gnosticismo. Mas que tipo de gnosticismo? Os sistemas gnósticos desenvolvidos podem ser divididos em deis grupos básicos: docético e cerintiano. Estes emergiram como tipos definidos no segundo século e desenvolveram seu próprio corpo de doutrinas. Um elemento básico a todos os sistemas de gnosticismo, entretanto, é a idéia de que Deus, sendo o bem perfeito, não poderia ter criado o mundo físico (que é mau); portanto, o Cristo, sendo divino, não poderia ter-se encarnado. O docetismo tirou seu nome do verbo grego parecer) e ensinava que Jesus não foi uma pessoa real, de carne e sangue; ele era um fantasma, que apenas parecia ter substância ruíea. Quem morreu na cruz foi Simão Cireneu. O Cristo não poderia sofrer, e não sofreu. Muitos estudiosos do Novo Testamento interpretam 1 João 4:2 (“...Jesus Cristo veio em carne”) como uma indicação de que o gnosticismo é do tipo docétíco. Inácio (que morreu em c.115 d.C.) escreveu mui fortemente contra este tipo de gnosticismo (Epístola aos Esmirnenses, c.110 d.C.).
O cerintíanísmo tira seu nome de um certo Cerinto de Alexandria, que, tendo-se mudado para Efeso, foi um contemporâneo de João e Policarpo. Irineu apresenta as doutrinas básicas deste tipo de gnosticismo (Ad. Haereses, 1, xxvi, 1): Jesus foi o filho natural de José e Maria; o Cristo, em forma de uma pomba, desceu sobre Jesus depois de seu batismo e dominou completamente seu ser; o Cristo deixou Jesus antes do sofrimen­to e crucificação e voltou para Deus; Jesus morreu, ressuscitou e simplesmente desapareceu. Cerinto também insistia sobre a adoração no sábado e a circuncisão. Muitos estudiosos interpretam 1 João 5:5-9 como uma indicação de que o gnosticismo é do tipo ceríntíano.
Ë mais provável que 1 João foi escrita antes que o gnosticismo tivesse desenvolvido seus sistemas de doutrina. Aquilo contra o que João escreve éa negação de que o Cristo era de fato Jesus em carne (4:1-3; 5:5-9). Há possíveis elementos de ambos os sistemas gnósticos refletidos em 1 João; contudo, nenhum sistema é dominante. A alegação de conhe­cimento avançado de Deus (2:4; 4:8), o amor de Deus (4:20) e a comunhão com Deus (1:6; 2:6,9) é comum a todos os tipos. As experiências estéticas (4:1-3) e estar-se fora da contaminação do pecado (1:8-10) são básicos aos ensinos gnôsticos.
O autor escreve para mostrar como alguém pode saber que está na verdade: a verdadeira teologia é que Jesus é o Filho de Deus (3:23; 5:5,10,13) e que Cristo verdadeiramente veio em carne (4:2); a ética prática para o crente é guardar os mandamentos de Deus (1:5,6; 2:23; 3:5,9); e a verdadeira comunhão é demonstrada pelo amor prático (4:7-21). Foi sugerido que o autor escreveu não somente para ad’erni contra a heresia, mas também para apresentar alguns critérios positivos. pelos quais o leitor tivesse convicção de sua relação com Deus (McDowell, “1-2-3 João”, p.193): 1) obediência, ou andar na luz (1:7; 2:3-6); 2) andar no amor de Deus para com todos os irmãos (2:9-11; 3:10,15-16; 4:7, 20; 5:1,2); 3) aceitação de Jesus Cristo e fé nele como o Filho de Deus (2:23; a presença do Espírito Santo no crente (3:24; 4:13).
João resume a epístola inteira dizendo; “Estas coisas vos escrevo, a vós que credes no nome do Filho de Deus, para que saibais que tendes a vida eterna” (5:13). Ele escreve a cristãos, para certificá-los de que sua comunhão uns com os outros e com Deus é segura por causa de sua aceitação de Jesus Crísto, o Filho de Deus.
Os estudiosos do Novo Testamento estão de acordo que 1 João é difícil de estruturar-se analiticamente. A estrutura, naturalmente, é determina­da pelo propósito do escritor, que parece ser para ajudar o cristão a permanecer firme em face de uma heresia insidiosa. O autor escreve uma carta pensando nestas coisas, e a forma não é estruturada como se desejaria; o propósito é corrente, através da carta. Muitas tentativas de se discernir uma estrutura razoável foram propostas (ver Marshall, The Epistles of John — As Epístolas de João — p. 22-27), mas a seguinte é convidativa. Através da carta, o autor enfatiza que Jesus é o Cristo, e o crente tem comunhão com ele em seus irmãos. Faltando as observações introdutórias usuais de uma carta, João imediatamente declara que a base de sua mensagem é a realidade histórica de Jesus Cristo (1:1-4). Aqui a mensagem é que Deus foi historicamente revelado na vida de Jesus Cristo, o Filho. Uma pessoa pode ter comunhão com o Pai e o Filho e verdadeira comunhão com outros crentes.
A natureza da comunhão com o Filho é explicada a seguir (1:5-2:28). O requisito básico é uma vida consagrada a Deus (1:5-2:11). Ë necessário que uma declaração de crença em Jesus Cristo seja acompanhada por uma obediência prática de seus mandamentos (1:5-2:6). Se um crente comete atos de pecado, Jesus Cristo intercede em seu favor junto ao Pai; mas, deve haver uma tentativa de se fazer sua vontade sempre. Esta atitude de obediência é uma prova de que se conhece e se pertence a Deus (2:4-6). Em Jesus Cristo, o velho mandamento do amor assume novo significado e conteúdo (2:7-11). A comunhão em Jesus Cristo significa que o crente não será atraído por prazeres e desejos mundanos (2:12-17), porque ele sabe que as coisas mundanas são transitórias (2:16,17). Existianí aqueles, todavia, que quiseram romper esta comunhão (2:18-28), aqueles que se dissociaram da igreja cristã, porque nunca foram uma parte verdadeira da comunhão (2:18,19). Eles são “anticristos”, uma voz que negam que Jesus é o Cristo (2:22). Portanto, o verdadeiro crente não pode ter nenhuma comunhão com eles.
A passagem extensiva (2:29-5:12) mostra as provas da filiação. João afirma que o filho tem as características do pai (2:29). O privilégio do crente é a convicção de que ele apresentará a semelhança de Cristo (3:1-3) -Por causa desta convicção, o crente, não viverá em pecado (não continua­rá numa vida de pecado), porque ele é um filho de Deus, e não do Diabo (3:4-10). A prova desta filiação é um dever prático ativo de uns para com os outros (3:11-24). Uma falsa relação para com Deus é vista com a negação de que Jesus Cristo “veio em carne” (4:1-3). A verdadeira filiação manifesta seu caráter pelo amor (4:7-21) e a confissão de Jesus Cristo e crença nele como o Filho de Deus (4:7-12). João escreve acerca dos segredos de uma vida vitoriosa de fé como sendo-se obediente aos manda­mentos de Deus o que conduz a uma fé mais forte, que é a vitória (5:1-5). A aceitação da mensagem cristã do amor de Deus através de Jesus Cristo é verificada por um testemunho tríplice: o Espírito, a água e o sangue (5:6-12). Este testemunho é maior do que qualquer negação humana, e todos os que negam este testemunho fazem Deus mentiroso (5:10).
A epístola se encerra com algumas outras certezas que o crente tem:
Ø  a realidade da vida eterna; 2) que Deus ouve suas orações (5:13-17);
Ø  que a proteção de Deus prevme a continuação no pecado (5:18);
Ø  a de ser possessão de Deus; 5) que Jesus Cristo veio para dar a vida  eterna (5:20). Um versículo final adverte contra a idolatria (5:21).


O tamanho e formato de II João dá ampla razão pai a se acreditar que este pequeno livro é uma carta real. A extensão é quase o tanta ttho íle uma única folha de papiro. O desejo e a necessidade de diier mais iv.12) indica que o autor limitou-se a urna bilha ~ O livro canônico tem uma introdução e o enccrrarnente final cosi; melro de uma carta do primeiro século.
O nome “Electa”. Também K~’ria era extremamente raro como um nome próprio no primeiro século, embora ocorresse. O uso normal do adjetivo com um nome próprio requereria um artigo definido (cf. “o amado Gaio” de III João 1).
A destinação mais provável, para a carta, é uma igreja, com a expressão sendo sua personificação. 1 Pedro 5:13 usa o primeiro termo em referência à igreja em Babilônia. A linguagem de II João não é apropriada para uma pessoa real, é apropriada para uma comuni­dade de fé. A expressão “de teus filhos” (v.4) significa que alguns estão andando na verdade e, por implicação, alguns não estão. Não há nenhuma referencia pessoal óbvia (a não ser que seja a do v.1), como existe em II João, a Gaio, Diótrefes e Demétrio. Além disso, o uso do pronome da segunda pessoa do plural (v.6,8, 10,12) é mais natural que o singular (v. 4,5,13). Por toda parte, em II João, o pronome singular é usado em todas as referências a Gaio.
É melhor concluir-se que João estava escrevendo a uma igreja (ou mesmo a um grupo de igrejas) em sua área. Não há nenhuma indicação da localização da igreja, ou igrejas. Foi sugerido que as sete igrejas mencionadas em Apocalipse 1:11 poderiam dar alguma ideia. Contudo, seria conjetura identificar-se explicitamente uma congregação especifica.

A ocasião para a escrita de II João é advertir a igreja acerca da vinda dos falsos mestres e sua heresia de gnosticismo e seu programa de conhecimento avançado” (v. 7-9). Não se pode estender nenhuma boa-vinda a tais enganadores (v. 10,11). O escritor planeja ir até eles tão rapidamente quanto possível, para esclarecer a verdade, a fim de que sua alegria seja completa no conhecimento que eles tem de Jesus Crísto (v. 12). O propósito é precaver a igreja da presença desses “anticristos” (v.7).

A carta é sucinta o bastante, de maneira que sua estrutura necessaria­mente deve ser simples. O autor apresenta-se como “o anciao e usa o termo simbólico “senhora eleita” em referência à igreja (ou igrejas) em que esta será lida. Ele dá ênfase, na introdução (v. 1-4), à verdade e ao amor que une todos os crentes verdadeiros e expressa sua alegria ao vê-los vivendo na verdade.
Segue-se uma exortação para continuarem andando no mandamento da verdade e do amor (v.5,6). Ë dada uma descrição dos crentes heréticos como aqueles que negam a realidade da encarnação (v.7). João urge a igreja a conservar a doutrina do Filho de Deus encarnado em Jesus Cristo e examinar cada ensino, para se certificar da verdade (v.8). Aqueles que estão ensinando doutrinas “progressistas” do cristianismo não devem receber atenção, tampouco deve a hospitalidade ser estendida para auxiliá-los a propagarem suas doutrinas falsas (v. 9-11). A carta se encerra com uma esperança de que a proposta visita ocorreria brevemente (v.12). Uma saudação final da parte da igreja de onde o autor escreve édada (v.13).


Esta carta é endereçada a Gaio (v.1), acerca de quem nada mais éconhecido além da informação aqui dada. Ë bem certo que este Gaio não é um dos três mencionados alhures no Novo Testamento: um Gaio da Macedônia (At. 19:29), um de Derbe (At. 20:4) e um de Corinto (1 Cor. 1:14). Gaio era um nome muito comum nos países de fala grega do primeiro século. Embora nada mais seja conhecido acerca de Gaio, a carta é de importância. O ancião escreve acerca de uma carta anterior escrita à igreja, mas Diótrefes havia suprimido a carta e recusara hospitalidade para os mensageiros do ancião (v.9). Estes mensageiros eram, provavelmente, missionários itinerantes enviados da parte de João como mestres para ajudar nas igrejas ao redor de Efeso, aquelas que João supervisionava. Eles dependiam da hospitalidade das igrejas, para seu sustento e acomodação (v. 5-8). Diótrefes recusou-se a permitir aos membros da igreja se entreterem com esses obreiros, e até mesmo excluira da igreja aqueles que quiseram ajudar (v. 9,10). Os mensageiros retorna­ram a João com as notícias da situação, e ele agora está escrevendo a Gaio, pedindo-lhe para ajudar aqueles mesmos missionários (v. 5,6). A posição de Demétrio (v. 12) não é clara. Não é provável que ele seja um do grupo nos versos 5 e 6. Ele é colocado em contraste com Diótrefes, e possivel­mente um dos excluídos da igreja por Diótrefes. Seja qual for sua ligação com Diótrefes, Demétrio era um fiel seguidor da verdade.
A importância desta breve carta está no fato de que um líder da igreja, seja qual fosse sua função, quis desafiar a autoridade do apóstolo João.

III— EPISTOLA DE JOÃO ESBOÇO
Ø  SAUDAÇÃO (1)
Ø  ORAÇAO PARA SAUDE E A ALEGRIA DA FiDELIDADE (2-4)
Ø  LOUVOR PELA AJUDA AOS MISSIONARIOS (5-8)
Ø  A CONDENAÇÃO DA INOSPITALIDADE E PREEMINÊNCIA
Ø  PRESUNÇOSA DE DIOTREFES (9,10)
Ø  LOUVOR PELO EXEMPLO DE DEMETRIC) (1112)
Ø  SAUDAÇÃO FINAL(13,14)


Atividades

  1. Qual é a indicação que se faz quanto a autoria do livro de Aos hebreus?
  1. Explique o que ocorreu ao tempo de Agostinho a respeito da carta aos Hebreus?
  1. Comente a relação existente entre a carta aos Hebreus e o Antigo Testamento.
  1. Pesquise e faça um resumo a respeito da indicação de autoria paulina para a carta de aos Hebreus.
  1. Cite o nome dos possíveis autores da carta aos Hebreus.
  1. A figura de qual sacerdote é apontada na carta?
  1. Comente sobre o propósito da carta?
  1. Por qual motivo as igrejas evangélicas recusavam usar o termo católico?
  1. Faça um comentário sobre a autoria da epistola a Tiago determinando o propósito da mesma.
  1.  Explique a relação entre Tiago e o Senhor Jesus Cristo.
  1.  Forneça detalhes das provas de autoria do Epístola a Tiago.
  1.  Qual é o comentário que se faz sobre os outros possíveis autores da epístola de Tiago?
  1.  Explique a terceira argumentação sobre a autoria da epístola de Tiago.
  1.  Comente sobre o local e  data em que a epístola de Tiago foi escrita.
  1.  Para quem foi dirigida a epístola de Tiago?
  1. Explique o propósito da epístola de Tiago.
  1.  Leia com atenção a apostila e determine a autoria da Epístola de Pedro.
  1.  Explique as objeções feitas a autoria de Pedro.
  1.  Faça um comentário sobre a perseguição de Pedro.
  1.  Por qual motivo a Epístola de Pedro é chamada de paulinismo?
  1.  Determine o local e data da escrituração da Epístola de Pedro.
  1.   Qual é a relação entre a primeira e a segunda Epístola de Pedro?
  1.  Quais são as evidências internas da Epístola de Pedro?
  1.  Leia os versos citados de II Pedro e Judas e faça um resumo da referência e equiparação entre um e outro.
  1.  Comente a Epistola de Judas, falando sobre autoria, local da escrita e data.
  1. Explique o fato de haver na epistola de Judas citações aos livros apócrifos.
  1.  Consulte o livro apócrifo para conhecer essa citação e poder descrevê-la nesta atividade.
  1.  Qual é a relação entre as epistolas de João e o Evangelho com o mesmo nome?
  1.  Configure fazendo citações da relação existente entre as três cartas de João.
  1. Verifique o quadro de versículos e leia cada versículo, anotando-os na ficha de leitura e faça um comentário sobre o relacionamento existente entre eles.
  1.  Comente a destinação das epistolas de João.
  1.  Faça um resumo geral segundo o seu entendimento dos objetivos das epistolas gerais.

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