O Budismo é um sistema ético, religioso e filosófico pregado pelo príncipe
hindu Sidarta Gautama (563-483 a.C.), ou Buda.
Por volta dos séculos VI a.C., a Índia era o berço de uma brilhante civilização
igualável à da Grécia antiga, o país estava dividida em pequenos reinos, havia
uma grande diversidade de idiomas, muitos dos quais presentes até hoje. Naquela
época, sistema de castas também vigorava.
O relato da vida de Buda está cheia de fatos reais e lendas, as quais são
difíceis de serem distinguidas historicamente entre si.
II - O reino do clã Shakya.
O reino de Shakya localizava-se entre o norte da Índia e as montanhas do
Himalaia, no sul de Nepal. Sua capital, a cidade de Kapilavastu, ficava no vale
oeste do rio Rohini (atual Kohana, afluente do Ganges), a nordeste de Varanasi
(Benares) e a noroeste de Patna, perto de Garakhpur.
Apesar de sua grande atividade agrícola, o reino estava passando por graves
problemas políticos pois não era completamente independente e tinha de pagar
tributos ao país vizinho, Koshala.
Shakya era governado pelo rajá Shuddhodana Gautama, membro da casta guerreira.
O rei era casado com sua bela prima, Maya-devi Gautami, e apesar de quererem
ter filhos, eles não conseguiram tê-los e já tinham perdido as esperanças.
Shuddhodana já estava com mais de 50 anos e sua esposa tinha a idade de 45,
quando finalmente Sidarta nasceu.
O príncipe Sidarta nasceu na cidade de Lumbini; sua mãe, Maya, morreu quando
este tinha uma semana de vida.
Apesar de viver confinado dentro de um palácio, Sidarta se casou aos 16 anos
com a princesa Yasodharma e teve um filho, o qual chamou-o de Rahula.
O Rei, pai de Sidarta, deu-lhe todos os meios para gozar a vida e todas as
diversões da época.
III - Diz a lenda.
Certa vez, Maya sonhou com um belo elefante branco que levava um flor de lótus
em sua tromba.
Sete sábios astrólogos brâmanes interpretaram o sonho como o prenúncio do
nascimento de um filho prodigioso: ele seria um imperador universal (sânsc.
chakravartin) se vivesse no palácio de seu pai, ou um asceta (sânsc. sannyasin,
bhikshu) se renunciasse ao trono.
Ao fim de uma gestação de 10 meses, Maya seguiu a tradição indiana e viajou
para a casa de seus pais em Kapilavastu, a fim de ter o seu filho lá. O filho
de Maya nasceu nos jardins de Lumbini, entre as cidades de Devadaha e
Kapilavastu, no alvorecer do 8º dia do 12º mês lunar de 563 a.C.
Sob uma grande árvore ashoka, a rainha deu a luz à um belo menino, que saiu
debaixo de seu flanco direito. Ao invés de sentir dor ou desconforto, ela foi
tomada por um grande sentimento de felicidade.
IV - A Paz Interior.
Pouco antes daquela época, surgiu na Índia uma nova classe de praticante
religioso que rejeitava as tradições mais antigas dos brâmanes, e a sua
pretensão de um conhecimento privilegiado da sabedoria revelada (os Vedas),
hereditária à classe deles. O parivrajaka [vagueador] era uma pessoa que,
insatisfeita com as estruturas desta sociedade em desenvolvimento e com o
ritualismo da religião estabelecida, deixava sua casa e seu papel na sociedade
para vagar à vontade pelo mundo, suportado pelas esmolas e procurando a
liberação espiritual.
Mais tarde surgiria uma centena de teorias e ideologias, sendo que pelo menos
seis mestres heterodoxos acabaram atraindo muitos seguidores em "caminhos
externos", isto é, fora dos ensinamentos ortodoxos: Purana Kashyapa (páli
Purana Kassapa), Maskarin (páli Makkhali Gosala), Sanjayin (páli Sanjaya
Belatthiputta), Ajita Kesakambala (páli Ajita Kesakambalin), Kakudha Katyayana
(páli Pakudha Kacchayana) e Nirgrantha Jnataputra (páli Niganttha Nataputta,
também conhecido como Vardhamana Mahavira, fundador do jainismo).
1- Os Puranas ensinavam que nada existe, que todos as coisas são espaços vazios
e que não nascem nem são destruídos.
2- Maskarin ensinava que os pecados e aviltamentos dos seres sencientes não
surgem de causas.
3- Sanjayin ensinava que não era necessário seguir o caminho espiritual e que,
após um certo número de eras de nascimentos e mortes, o fim do sofrimento é alcançado
espontaneamente. Seria como envolver uma montanha com um linha; quando o
carretel acabasse, a ação pararia.
4- Ajita Kesakambala ensinava que se sofrermos nesta vida, nas vidas futuras
desfrutaremos de felicidade eterna.
5- Kakudha Katyayana ensinava tanto em termos de existência como de
inexistência, dando respostas de acordo com as perguntas que lhe faziam,
adotando idéias em resposta às pessoas. Se alguém lhe perguntasse se os
fenômenos existem, ele responderia que existem. Se lhe perguntassem se os
fenômenos eram inexistentes, ele diria que são inexistentes.
6- Nirgrantha ensinava que erro e mérito, sofrimento e alegria, são todos
devidos às vidas passadas, que é preciso pagar o que se deve. Mesmo se
seguíssemos o caminho espiritual nesta vida, não seria possível eliminar os
resultados das ações passadas.
Havia também os deterministas (sânsc. ajivaka), preocupados com a análise do
presente e que acreditaram que todos os seres progridem para a perfeição,
independente de seus esforços. Os céticos (sânsc. amaravikkhepika) não
afirmavam nem negavam qualquer doutrina ou crença. Já os hedonistas (sânsc.
charkava) e os materialistas ou mundanos (sânsc. lokayata) defendiam uma visão
existencialista, negando a prática espiritual e a lei da causa e efeito. Para
eles, a única coisa verdadeira seria a realidade aparente das coisas percebidas
através dos sentidos. Os materialistas diziam que cada um deveria agir conforme
sua própria vontade para satisfazer seus desejos.
Alguns ascetas enfatizavam a transcendência através de técnicas de meditação
para acalmar e controlar a mente. Eles provavelmente foram influenciados pelas
antigas yogas dos drávidas, originadas antes da chegada dos arianos na Índia.
Outros ascetas, aparentemente influenciados pelas práticas védicas dos arianos,
enfatizavam a imanência e a aquisição de poderes mágicos através do
conhecimento da natureza do universo. Também existiam ascetas preocupados com a
purificação das impurezas do corpo e da alma. Os professores destas escolas
heterodoxas era conhecidos como aqueles que estão fazendo um esforço (sânsc.
shramana, páli samana) ou fatigados.
Não era estranho que jovens, atormentados pela perversão que os cercava,
cessassem as suas atividades, se despedissem da família e dos amigos e abandonassem
a vida mundana. Iam viver nos bosques, possuindo apenas uma tigela de madeira
com a qual, de tempos em tempos, mendigavam um pouco de comida. Pensavam que o
auto-sacrifício e a severa disciplina corporal lhes proporcionaria um momento
de sublime percepção, durante o qual, subitamente, lhes seria revelado o
segredo do Universo.
Portanto, desde aquela época já existia na Índia uma grande variedade e
rivalidade de ideologias, práticas religiosas e escolas de pensamento. Era
nesse ambiente que iria nascer o herdeiro do rei Shuddhodana e da rainha Maya.
O rei ficou ao mesmo tempo esperançoso e preocupado. Ele não queria que seu
filho se tornasse um asceta andarilho, mas sim um grande imperador, que pudesse
solucionar os problemas do reino de Shakya e que aumentasse o poder do seu clã.
V - O Buda
Sidarta, aos 29 anos, resolveu sair de casa, chocado com a doença, com a
velhice e a com morte, partiu em busca de uma resposta para o sofrimento
humano.
Juntou-se a um grupo de ascetas e passou seis anos jejuando e meditando.
Durante muitos dias, sua única refeição era um grão de arroz por dia.
Ele preferiu meditar sobre como enfrentar os sofrimentos inevitáveis. Praticou
então toda sorte de penitências, levando uma vida de meditação. Porém, percebeu
que era inútil tentar obter a liberdade espiritual martirizando o corpo, pois
seria contra a natureza humana.
Após esse período, cansado dos ensinos do Hinduísmo e sem encontrar as
respostas que procurava, separou-se do grupo.
Depois de sete dias sentado debaixo de uma figueira, após meditação e reflexão
de longa data descobriu a verdade eterna, diz ele ter conseguido a iluminação,
a revelação das Quatro Verdades.
Ao relatar sua experiência, seus cinco amigos o denominaram de Buda (iluminado,
em sânscrito) e assim passou a pregar sua doutrina pela Índia.
Todos aqueles que estavam desilusionados pela crença hindu, principalmente os
da casta baixa, deram-lhe ouvido.
Buda pregou durante 50 anos, seus ensinamentos que são chamados de Sutras. Como
todos os outros fundadores religiosos, foi deificado pelos seus discípulos,
após sua morte com 80 anos.
VI - O Budismo
Buda ensina que descobriu a verdade e não a inventou e que, logo, qualquer
pessoa poderá, também, descobrir seguindo seus ensinamentos. O que significa
que a verdade já existia desde o início das épocas, tal como o átomo, mas que
somente foi descoberta aos poucos e lentamente. E, quando se descobre , você
tem a certeza de que ela faz parte de ti e que você pode representá-la.
Crer em Buda, não significa crer e adorar a sua imagem, mas sim a verdade que
ele descobriu e que constitui a Lei da Natureza. Esta crença que tem por centro
as Leis da Natureza é que se denomina NAMU-MYOU-HOU-REN-GUE-KYOU.
Ao descobrir esta Lei Eterna da Natureza, Buda passou por inacreditáveis
sofrimentos. Na época muitos estudavam, arduamente, para obter os ensinamentos
que apresentaremos a seguir:
Resumindo a descoberta do Buda, podemos dizer: "isto existe porque ele
existe, ele existe porque isto existe." A esta relação dá-se o nome de
"en-gui" (Leia da Interdependência ou Ciclicidade Universal). Fazemos
parte desta relação e o Namumyouhourenguekyou nos reintegra a essa natureza
universal.
Para que exista o desabrochar de uma flor, e possamos nos deleitar diante de
sua beleza, é necessário que se tenha terra e semente. Na realidade o principal
fator que contribui para um belo desabrochar é a condição climática. Neste caso
a terra e a semente são " IN ", ou seja , a causa direta e a
primavera será o " EN ", ou seja, a condição indireta para o belo
desabrochar. Tudo indica que na vida somos dependentes do “IN” e do “EN”, isto
é, somos dependentes do ciclo da causa e da condição.
Notamos que, com as nossas possibilidades, preparando corretamente todas as
causas diretas, no "momento certo", o resultado será uma conseqüência
natural e infalível. Nosso esforço estará sempre voltado para o "IN"
enquanto que do "EN", que está fora de nosso domínio e poder, a nossa
fé cuidará.
Na oração do Namumyouhourenguekyou encontra-se compactada toda a causa e a
essência para o nosso desabrochar humano, mesmo que todas as circunstâncias
externas sejam aparentemente adversas. Buda ensina que devemos pensar sempre
nessas facetas, conjuntamente, para conhecermos a verdade.
Como seres humanos estamos sempre à procura da felicidade e procuramos nos
desviar dos sofrimentos e das tristezas. Em se tratando de doença, verificamos
que graças à existência da dor ficamos sabendo que estamos doentes, quando
então chamamos um médico para nos examinar e localizar a causa. Se não sentíssemos
a dor, a doença progrediria até nos fazer sucumbir.
Portanto:
1º A existência de dor nos possibilita chamar um médico, de imediato.
2º Inicia-se o tratamento e ficamos ansiosos pela cura.
3º Suportamos todo tipo de tratamento, por mais penoso que seja.
4º Uma vez curados, tomamos precauções para não haver recaída ou para não
contrairmos novamente a doença.
Buda faz com que o homem perceba as dificuldades da vida para que conheça a
verdadeira felicidade. O homem fortalece seu caráter através do sofrimento,
como uma condição inevitável à aquisição e acúmulo de virtudes. Ensina-nos como
enfrentá-lo e para isso procura indagar a causa do sofrimento através do passado.
A seguir, ensina qual a atitude a tomar no presente e esclarece a conseqüência
futura. Mostra-nos qual o caminho a trilhar em nosso desconhecido mundo, porém,
o mesmo em que deveremos encontrar a plena e mútua felicidade.
VII - Prática de Fé do Budismo.
O Budismo consiste no ensinamento de como superar o sofrimento e atingir o
nirvana (estado total de paz e plenitude) por meio da disciplina mental e de
uma forma correta de vida. Também creêm na lei do carma, segundo a qual, as
ações de uma pessoa determinam sua condição na vida futura. A doutrina é baseada
nas Quatro Grandes Verdades de Buda:
A existência implica a dor -- O nascimento, a idade, a morte e os desejos são
sofrimentos.
A origem da dor é o desejo e o afeto -- As pessoas buscam prazeres que não
duram muito tempo e buscam alegria que leva a mais sofrimento.
O fim da dor -- só é possível com o fim do desejo.
A Quarta Verdade -- se prega que a superação da dor só pode ser alcançada
através de oito passos:
Compreensão correta: a pessoa deve aceitar as Quatro Verdades e os oito passos
de Buda.
Pensamento correto: A pessoa deve renunciar todo prazer através dos sentidos e
o pensamento mal.
Linguagem correta: A pessoa não deve mentir, enganar ou abusar de
ninguém.
Comportamento correto: A pessoa não deve destruir nenhuma criatura, ou cometer
atos ilegais.
Modo de vida correto: O modo de vida não deve trazer prejuízo a nada ou a
ninguém.
Esforço correto: A pessoa deve evitar qualquer mal hábito e desfazer de
qualquer um que o possua.
Desígnio correto: A pessoa deve observar, estar alerta, livre de desejo e da
dor.
Meditação correta: Ao abandonar todos os prazeres sensuais, as más qualidades,
alegrias e dores, a pessoa deve entrar nos quatro gráus da meditação, que são
produzidos pela concentração.
VIII - Missões do Budismo
Um dos grandes generais hindus, Asoka, depois do ano 273 a.C., ficou tão
impressionado com os ensinos de Buda, que enviou missionários para todo o
subcontinente indiano, espalhando essa religião também na China, Afeganistão,
Tibete, Nepal, Coréia, Japão e até a Síria. Essa facção do Budismo tornou-se
popular e conhecida como Mahayana. A tradicional, ensinado na India, é chamado
de Teravada.
O Budismo Teravada possui três grupos de escrituras consideradas sagradas,
conhecidas como “Os Três Cestos” ou Tripitaka:
O primeiro, Vinaya Pitaka (Cesto da Disciplina), contêm regras para a alta
classe.
O segundo, Sutta Pitaka (Cesto do Ensino), contêm os ensinos de Buda.
O terceiro, Abidhamma Pitaka (Cesto da Metafísica), contêm a Teologia
Budista.
O Budismo começou a ter menos predominância na Índia desde a invasão muçulmana
no século XIII. Hoje, existem mais de 300 milhões de adeptos em todo o mundo,
principalmente no Sri Lanka, Mianmá, Laos, Tailândia, Camboja, Tibete, Nepal,
Japão e China. Ramifica-se em várias escolas, sendo as mais antigas o Budismo
Tibetano e o Zen-Budismo. O maior templo budista se encontra na cidade de
Rangoon, em Burma, o qual possui 3,500 imagens de Buda.
IX - Teologia do Budismo.
A divindade: não existe nenhum Deus absoluto ou pessoal. A existência do mal e
do sofrimento é uma refutação da crença em Deus. Os que querem ser iluminados,
necessitam seguir seus próprios caminhos espirituais e transcendentais.
Antropologia: o homem não tem nenhum valor e sua existência é temporária.
Salvação: as forças do universo procurarão meios para que todos os homens sejam
iluminados (salvos).
A alma do homem: a reencarnação é um ciclo doloroso, porque a vida se
caracteriza em transições. Todas as criaturas são ficções.
O caminho: o impedimento para a iluminação é a ignorância. Deve-se combater a
ignorância lendo e estudando.
Posição ética: existem cinco preceitos a serem seguidos no Budismo:
proibição de matar
proibição de roubar
proibição de ter relações sexuais ilícitas
proibição do falso testemunho
proibição do uso de drogas e álcool
No Budismo a pessoa pode meditar em sua respiração, nas suas atitudes ou em um
objeto qualquer. Em todos os casos, o propósito é se livrar dos desejos e da
consciência do seu interior.
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